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sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

'BIRD BOX' - CRÍTICA: PÓS APOCALÍPTICO PODEROSO TEM ATUAÇÃO SOBERBA DE SANDRA BULLOCK


SINOPSE:

Em um mundo pós-apocalíptico, Malorie (Sandra Bullock) e seus filhos precisam chegar em um refúgio para escapar do Problema, criaturas que ao serem vistas fazem pessoas se tornarem extremamente violentas.

De olhos vendados para não serem afetados, a família segue o curso de um rio para chegar à segurança.

CRÍTICA:

As particularidades combinadas dos cinco sentidos do corpo humano são o que fazem com que a nossa percepção do mundo ao redor seja completa.

Não é difícil concordar que a ausência de uma delas promove lacunas na nossa compreensão sobre tudo, mas dimensionar isso na prática é uma experiência totalmente diferente do que simplesmente ter a empatia sobre o assunto.

Abordando a complexidade de uma vida com certas limitações, Bird Box acaba sendo muito mais que um filme pós-apocalíptico.

E embora, erroneamente, seja comparado com Um Lugar Silencioso, sua essência caminha para uma vertente mais distinta.

Muito mais do que enfrentar os desafios do desconhecido em situações adversas, o longa faz uma sensível e profunda reflexão sobre o que nós nos acostumamos a chamar de deficiências.

Crítica | Bird Box: Sandra Bullock em atuação soberba em pós-apocalíptico poderoso
Sandra Bullock em cena do longa - Fotos dessa Postagem: Divulgação/Netflix
E talvez o erro seja justamente analisar o longa como uma extensão barata de um estrondoso sucesso independente nos cinemas.

A nova produção da Netflix é sim capaz de promover uma tensão palpável, mas também articula uma narrativa que faz uso da nossa própria imaginação, sem mostrar as “criaturas” donas do pavor e do medo, apresentando apenas sua sombra diante do público.

E por fazer jogos mentais com um medo que nasce e mata a partir dos receptores sensoriais, a gigante do streaming também promove uma experiência sinestésica na audiência.

Naturalmente, somos tragados por um contexto tortuoso de um mal que não tem face, mas gera consequências fatais.

Cena do longa
Aqui, uma onda de suicídios é desencadeada a partir de uma manifestação “alienígena”, que cega a lucidez das pessoas, levando-as a cometer atrocidades a si mesmas a partir de estímulos da própria consciência.

Basicamente, é como se traumas ou memórias dolorosas do passado chamassem ao pé do ouvido, provocando uma drástica e explosiva insanidade mental.

Dentro dessa premissa, Sandra Bullock divide parte do seu tempo cercada por sobreviventes enclausurados em uma quase mini sociedade e rodeada pelas claras águas de um rio sem fim.

Com uma narrativa que se desenvolve com sua cronologia entrelaçada, início e meio se misturam, desenhando um roteiro que mais diz respeito à sobrevivência humana do que a um mal aterrorizante em si.

E é aí que está a má compreensão: achar que o longa é um conto pós-apocalíptico sobre criaturas sombrias e misteriosas.

O cerne da produção, de fato, reside no próprio homem, nas durezas e dores que carrega, nas mentiras que esconde e em suas respostas sensoriais ao mundo.

E nesta espiral psicológica, Mallorie (Bullock) é forçada a descobrir novos sentidos e a aflorar aqueles que já possui, levando uma vida em plena escuridão, não importa quão claro esteja o dia.

Esse contraste entre o físico e a psique humana produzem um drama encantador, que desafia nossa percepção sobre o que seria, genuinamente, a cegueira.

Explorando - inicialmente - apenas a ausência da vista, o longa cresce vertiginosamente, trazendo uma tensão sufocante consigo, que explode em uma das atuações mais profundas de Sandra Bullock.

Intensa, a vencedora do Oscar entrega uma atuação que chega ao seu pico mais caótico, tamanha fragilidade.

Cena do longa
Com seus movimentos limitados por uma cegueira temporária, ela tenta tatear no escuro em busca de sobrevivência, à medida que descobre uma maternidade às avessas, em virtude do contexto social vigente.

Profunda e dolorosa, é notável o quão delicada e real foi sua entrega, que atinge o seu ápice em uma declaração desesperada em um bosque com árvores altas, cercada pelo verde que não se pode ver e por uma enorme exaustão de uma vida vivida pela metade.

Um dos momentos mais poderosos do filme, ele também é um sensível grito de socorro pela solidão que a vida se tornara sem a visão.

Com uma fotografia que tem seus pontos altos nas paisagens naturais por onde o rio e a correnteza passam, o filme se concentra em seus personagens, fazendo com que toda a trama parta e gire em torno deles.

Bem mais que um conto apocalíptico sobre o fim do mundo, o filme de Susanne Bier é mais um relato emocional sobre a consciência humana mediante as circunstâncias mais adversas.

E fazendo do seu fim uma surpresa agradável e imprevisível, a produção se encerra de maneira extremamente simbólica e representativa.

Sem dizer muito, os minutos finais coroam o longa como um conto avassalador sobre a vida, muito além do que os olhos podem ver.

Filmaço.

TRAILER:


FICHA TÉCNICA:
BIRD BOX
Título Original:
Bird Box
Gênero:
Terror, Suspense
Direção:
Susanne Bier
Elenco:
Sandra Bullock, Trevante Rhodes, Sarah Paulson e outros
Roteiro:
Eric Heisserer
Trilha Sonora:
Trent Reznor, Atticus Ross
Produção:
Scott Stuber, Chris Morgan, Barbara Muschietti, Dylan Clark
Diretor de fotografia:
Salvatore Totino
Diretora de elenco:
Jina Jay, Mary Vernieu
Distribuição internacional:
Universal Pictures
Produção:
Bluegrass Films, Universal Pictures
Distribuidor brasileiro:
Netflix
Nacionalidade:
EUA
Duração:
1h 57min
Classificação Indicativa:
16 anos

COTAÇÃO DO KLAU:

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

'MOONLIGHT - SOB A LUZ DO LUAR': MAIS BELO CONCORRENTE AO OSCAR MOSTRA JORNADA DE AUTOCONHECIMENTO TOCANTE E DESCOBRIMENTO DA SEXUALIDADE DE JOVEM NEGRO


SINOPSE:

Três momentos da vida de Chiron, um jovem negro morador de uma comunidade pobre de Miami, que tenta escapar a todo custo do caminho fácil da criminalidade e do mundo das drogas em Miami.

Vítima de bullying na escola e passando por dificuldades em casa, ele conhece um homem que o ajudará a trilhar uma jornada de autoconhecimento e descobrimento de sua sexualidade.

CRÍTICA:

Em 2014, 'Boyhood: Da Infância À Juventude' surpreendeu ao mostrar o crescimento de um garoto diante dos nossos olhos em um projeto que levou 12 anos para ser concluído.

O filme de Richard Linklater conquistou a Academia e o público pela sua abordagem singela e realista do que é amadurecer.

Nessa temporada, o drama 'Moonlight - Sob A Luz Do Luar' de Barry Jenkins e em exibição em 62 salas em todo o Brasil, surge com uma proposta semelhante: acompanhar, em três atos, a evolução de um garoto.

Entretanto, a trajetória do último é muito mais árdua e edificante.

Enquanto em 'Boyhood', o personagem central lidava com complicações típicas de um adolescente americano de classe média, aqui mergulhamos na dura realidade de Liberty City, bairro periférico de Miami dominado pelo tráfico de drogas.

Baseado na peça "In Moonlight Black Boys Look Blue (No Luar, garotos negros ficam azuis)", o filme aborda temas como homossexualidade, racismo e bullying, coroados por belos diálogos e narrativa bem construída.

Entretanto, acima de tudo o filme de Barry Jenkins é sobre um garoto que procura entender o seu lugar no mundo.

O longa acompanha Chiron (ou Little) em três fases: infância (Alex Hibbert), adolescência (Ashton Sanders) e vida adulta (Trevante Rhodes).

Moonlight: Sob a Luz do Luar : Foto Ashton Sanders
Ashton Sanders interpreta Chiron adolescente - Fotos dessa postagem - Divulgação/Diamond Films
Vítima de um lar disfuncional - sua mãe é usuária de crack e sofre constantes crises de abstinência e seu pai sequer é mencionado - ele é alvo de bullying na escola pelo seu físico franzino e jeito quieto, o que leva os colegas a suspeitarem que ele seja homossexual.

O primeiro contato que temos com Little é bastante expressivo: enquanto fugia de uma agressão, seu caminho acaba cruzando com o de Juan (Mahershala Ali), um dos traficantes da região.

A figura de Juan é de extrema importância para o amadurecimento do garoto, já que o traficante e sua namorada Teresa (Janelle Monáe) são as primeiras pessoas a demonstrarem afeto por ele.

Moonlight: Sob a Luz do Luar : Foto Janelle Monáe
Janelle Monáe interpreta Tereza
Na maior parte do tempo, o personagem de Ali age como um mentor e o ensina a superar seus medos e a lidar com sua própria sexualidade.

Os anos passam e as coisas ficam mais difíceis para Chiron.

Com sua mãe cada vez mais afetada pelo vício e Juan fora de cena, a situação fica insustentável - as agressões físicas e morais continuam uma constante em sua vida.

É nesse ponto em que a trama ganha uma virada radical, que marca a transição do personagem da adolescência para a vida adulta.

Moonlight: Sob a Luz do Luar : Foto Alex R. Hibbert, Mahershala Ali
Alex Hibbert, o Chiron criança, em cena com Mahershala Ali, o traficante Juan
O longa sofre com alguns problemas mínimos e evitáveis - como o desaparecimento de alguns personagens importantes, como a de Janelle Monáe, sem mais nem menos.

Além disso, o filme perde um pouco de sua força no terceiro ato, perdendo a chance de explorar um pouco mais a vida de Chiron na prisão e os motivos que o levaram a mudar tanto.

Quanto às atuações, Alex Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes demonstram boa sintonia e parecem se mesclar perfeitamente.

Em nenhum momento, a atuação do trio parece destoar uma da outra, mesmo com os novos contornos ao longo do filme.

Mahershala Ali também demonstra uma atuação competente na pele do traficante Juan, mas é Naomie Harris que rouba a cena.

Moonlight: Sob a Luz do Luar : Foto Ashton Sanders, Naomie Harris
Naomie Harris, sensacional comoa mãe do protagonista
Ela convence no papel de mãe megera e, ao mesmo tempo, desperta empatia pela sua situação como viciada em drogas.

O olhar analítico de Barry Jenkins nos faz descobrir nuances interessantes: Chiron é vítima de diversas opressões justapostas e apesar de viver em uma comunidade pobre e lidar com o racismo e a violência policial, como a maioria dos jovens negros, é de dentro de sua própria comunidade que partem os ataques homofóbicos que marcaram sua vida, como um círculo vicioso de violência.

Resultado de imagem para Trevante Rhodes moonlight
Trevante Rhodes interpreta Chiron já adulto
Muitos filmes se dedicam a narrar o crescimento de um personagem, mas poucos conseguem fazê-lo com a mesma sensibilidade e honestidade deste.
]
Jenkins nos entrega um filme com verdades de sobra e sem apelos emocionais artificiais, nos lembrando de que o cinema não serve apenas como uma válvula de escape, mas também (principalmente) como veículo de reflexão.

(Crítica de Iara Vasconcelos - site Cineclick)

PRÊMIOS E INDICAÇÕES:
Wikipédia
TRAILER:


FICHA TÉCNICA:
'MOONLIGHT - SOB A LUZ DO LUAR'
Título Original:
MOONLIGHT
Gênero:
Drama
Direção:
Barry Jenkins
Roteiro:
Barry Jenkins, Tarell McCraney
Elenco:
Alex R. Hibbert, Ashton Sanders, Duan'Sandy' Sanderson, Eddie Blanchard, Edson Jean, Fransley Hyppolite, Herman 'Caheei McGloun, Herveline Moncion, Jaden Piner, Janelle Monáe, Jesus Mitchell, Jharrel Jerome, Kamal Ani-Bellow, Larry Anderson, Mahershala Ali, Naomie Harris, Patrick Decile, Rudi Goblen, Shariff Earp, Tanisha Cidel
Produção:
Adele Romanski, Dede Gardner, Jeremy Kleiner
Fotografia:
James Laxton
Montador:
Joi McMillon, Nat Sanders
Trilha Sonora:
Nicholas Britell
Duração:
111 min.
Ano:
2016
País:
Estados Unidos
Cor: 
Colorido
Estreia:
23/02/2017 (Brasil)
Distribuição:
Diamond Films
Estúdio:
A24 / Plan B Entertainment
Classificação:
16 anos

COTAÇÃO DO KLAU: