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sábado, 28 de janeiro de 2012

"PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN": UM SOCO NO ESTÔMAGO, UM TEMA MAIS QUE ESPINHOSO E O MAGNETISMO DE TILDA SWINTON


"Precisamos Falar sobre o Kevin", terceiro filme da escocesa Lynne Ramsay - e primeiro a estrear em circuito comercial no Brasil - aborda sem firulas um problema dos grandes que assombra tanto os pais como escolas dos Estados Unidos, e recentemente não só lá: os massacres de estudantes dentro das escolas, lugar que, a priori, deveria ser a segunda casa deles, e onde eles deveriam ter proteção e segurança equivalentes aos seus lares.

Baseado no romance homônimo da norte-americana Lionel Shriver, temos aqui um filme que foca a maternidade, onde Eva - interpretada por Tilda Swinton - precisaria retomar sua vidinha cor de rosa que lhe escorreu pelo ralo com o nascimento do primeiro filho, Kevin - Rock Duer, quando pequeno - o relacionamento dela com o marido, Franklin - John C. Reilly - ia bem, até a chegada do menino que roubou sua vida e, em troca, lhe causou uma angústia crescente.

Divulgação
Tilda Swinton e Rock Duer - o Kevin menino - em cena do filme

Tanto o romance - cartas de Eva para o marido após a tragédia - e o filme procuram demonstrar que nem toda maternidade é feliz, pois Eva nunca quis ser mãe e isso se torna um peso na vida ela.

Kevin era mau desde nascer ou a criação de Eva e o excesso de permissividade de Franklin o transformaram num menino perverso?

A diretora Lynne e seu corroteirista Rory Kinnear acertadamente não apontam a resposta, mas mostram, sim, um estudo de caso, mostrando o que aconteceu com o garoto - outras pessoas, nas mesmas circunstâncias, agiriam de forma diferente.

A relação sempre tensa entre Eva e Kevin - que quando adolescente é interpretado por Ezra Miller, da série de TV "Californication" - é o foco da trama, que navega entre o presente - quando ele está preso - e o passado - a vida em família antes da tragédia.

Tal qual o romance, o filme apresenta o desenrolar dos fatos aos poucos, entendemos logo o que aconteceu, mas só mais tarde compreendemos como aconteceu, suas dimensões e implicações - estratégia arriscada para uma narrativa, mas que é bem articulada por Lynne, diretora que sempre cria imagens marcantes e que nem sempre estão mostrando coisas belas.

Divulgação
Ezra Miller, da série de TV "Californication", interpreta Kevin adolescente

Sua filmografia mostra a sua opção pelo estranhamento e pelas rupturas.

Já no seu primeiro longa - "Ratcatcher" (1999) - somos instados a vivenciar a cidade escocesa de Glasgow do começo da década de 1970, onde durante um verão seco, com lixeiros em greve - sacos de lixo e ratos proliferam pelas ruas - um garoto mata acidentalmente o amigo afogado num córrego imundo.

Em "Morven Callar", a personagem-título chega em casa na noite de Natal e encontra o namorado que se matou e deixou um romance para ser publicado.
Ela finge que o livro é seu, manda para um editor e sai pela Europa em busca de raves.

Em comum, os três filmes de Lynne têm - entre outros - mortes como ponto de partida, e embora em "Kevin" seja a chegada, a história é delineada do presente olhando para trás, a partir da carnificina que o filho de Eva, Kevin, pratica no colégio .

Aqui, as imagens, muito ajudadas pela trilha sonora, transitam entre o lúdico e o grotesco - a primeira cena é o melhor exemplo disso.

Logo na abertura, Eva está coberta de um material vermelho e viscoso.
Seria o sangue de inocentes? -
Não!
É simplesmente uma das divertidas edições da Tomatina, aquela festa na Espanha onde as pessoas se divertem jogando tomates umas nas outras - Eva está lá porquê é autora de guias de viagem.

A trilha sonora caprichada dá o tom ao trânsito entre os dois extremos: músicas antigas, como as de Budd Holly ("Everyday") e Beach Boys ("In My Room"), fazem parte da seleção, mas nenhuma é tão forte quanto "Mother's Last Word to Her Son", cantada por Washington Philips, um filho se lembra de sua mãe e do amor mútuo - certamente não seriam Kevin e Eva, não fosse pelo arrebatador final do filme.

A questão principal que o filme levanta é se uma pessoa pode ser responsabilizada pelos atos de outra, e, mesmo não sendo uma mãe-modelo, se Eva pode ser culpada pelas atitudes do filho.

Alguns personagens pensam que sim, e muitas vezes, ela mesma se martiriza, embora tente levar uma vida normal - o que é impossível após a matança.

Tilda Swinton é uma grande atriz inglesa - tem na sua filmografia trabalhos como "Um Sonho de Amor", "Flores Partidas" e "Zona de Conflito" - e é uma presença magnética na tela - o longa arrebatou o prêmio de Melhor Filme no Festival de Cinema de Londres de 2011.

O seu visual andrógino - mais explorado em outros filmes, especialmente "Orlando" - é hipnótico, mas o que nos arrebata são suas dúvidas e martírios internos, onde Reilly é o contraponto perfeito - como o pai tão apaixonado quanto cego pelo filho.

Divulgação
A Atriz Tilda Swinton interpreta Eva, a mãe de Kevin, em desempenho sen-sa-cio-nal!

Este não é um filme fácil de se ver, e a ausência de Tilda Swinton na lista dos indicados ao Oscar 2012 é, ao mesmo tempo, uma injustiça e um indício: injustiça pela falta de indicação de Swinton - maravilhosa no papel - e o indício é o de que o filme fala de uma questão com a qual os norte-americanos ainda não sabem lidar.

Filmaço.

Confira o trailer do filme:

*****
"PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN"
Título Original:
We Need to Talk about Kevin
Diretora:
Lynne Ramsay
Elenco:
Tilda Swinton, Ezra Miller, John C. Reilly, Siobhan Fallon, Ursula Parker, Jasper Newell, Rock Duer, Ashley Gerasimovich, Erin Maya Darke, Lauren Fox
Produção:
Jennifer Fox, Luc Roeg, Robert Salerno
Roteiro:
Lynne Ramsay, Rory Kinnear
Fotografia: Seamus McGarvey
Trilha Sonora:
Jonny Greenwood
Duração:
110 min.
Ano: 2011
País:
Reino Unido/ EUA
Gênero:
Drama
Cor:
Colorido
Distribuidora: Paris Filmes
Estúdio:
BBC Films/ Atlantic Swiss Productions/ Lipsync Productions/ Artina Films/ Footprint Investment Fund
Classificação:
Livre

sexta-feira, 13 de maio de 2011

CANNES 2011: DIRETORAS DOMINAM COM TEMAS SOMBRIOS, RIO FAZ LOBBY, FRANCÊS, DIANA, E NOVO VAN SANT AGITAM A SEXTA


ABERTURA DO FESTIVAL É DOMINADO POR DIRETORAS E TEMAS SOMBRIOS

As diretoras de cinema, que ficaram de fora da principal competição de filmes em Cannes em 2010, dominaram a abertura do evento deste ano com contos sombrios de assassinato, prostituição, estupro e suicídio.

Três das quatro mulheres que disputam a Palma de Ouro pelo melhor filme em Cannes 2011 apresentaram os seus filmes para a imprensa nos dois primeiros dias do evento, e, ainda que as obras variem muito entre si e tenham tido respostas díspares da crítica, todas mostram uma visão perturbadora do mundo.

AFPA diretora australiana Julia Leigh

A atriz francesa e diretora Maiwenn foi a última mulher na competição deste ano a apresentar o seu filme, "Polisse", nesta sexta (13), um drama forte sobre a unidade de proteção a menores da polícia francesa.

Getty ImagesA atriz e diretora francesa Maiwenn

Ela seguiu a australiana Julia Leigh com o seu filme de estréia "Bela Adormecida" ,sobre uma estudante que passa a praticar uma estranha forma de prostituição, e a escocesa Lynne Ramsay com "Presisamos Falar sobre Kevin", sobre uma problemática relação entre mãe e filho.

Getty ImagesA diretora escocesa Lynne Ramsay

A última do quarteto é a japonesa Naomi Kawase com "Hanezu No Tsuki", o seu terceiro filme na competição.

Getty ImagesA diretora japonesa Naomi Kawase

Especialistas em cinema disseram que não foi coincidência que mais mulheres foram escolhidas para Cannes neste ano emblemático.
"O maior número de diretoras em competição em Cannes mostra uma tendência crescente",
disse Annette Insdorf, professora de cinema da Universidade de Columbia, EUA, que está em Cannes.

E ela ainda completa:
"Eu não acredito que é possível separar a vitória de Kathryn Bigelow no Oscar com 'Guerra ao Terror' ou o sucesso de crítica e público de Lisa Cholodenko com 'Minhas Mães e Meu Pai'".


CIDADE DO RIO DE JANEIRO FAZ CAMPANHA DURANTE O FESTIVAL

Com anúncio pago na revista "Variety" - considerada a "bíblia" do mercado de entretenimento - e um trabalho de comunicação eficaz, a cidade do Rio de Janeiro dá prosseguimento em Cannes à sua campanha para tornar-se parte importante do cenário cinematográfico mundial.

A cidade procura vender, para o mercado mundial, não apenas suas locações "exóticas", mas também vantagens fiscais e uma estrutura de produção.

O desenho animado "Rio", que teve o lançamento mundial na cidade, e o evento do filme "Velozes e Furiosos 5", também rodado em parte na cidade, foram os primeiros grandes acertos da RioFilme, que tem hoje uma subsidiária que só se dedica à prospecção de projetos estrangeiros.

DivulgaçãoA animação "Rio", que teve premiére mundial na cidade maravilhosa

A visibilidade internacional proporcionada pela Copa do Mundo, em 2014, e os Jogos Olímpicos, em 2016, costuma ser citada pelas reportagens das publicações especializadas como mais um fator de "atração".

É a cidade brasileira mais conhecida em todo o mundo finalmente saindo da paralisia que a violência a tinha relegado.


FILME FRANCÊS ABORDA O COMBATE AO CRIME CONTRA CRIANÇAS, E IMPRESSIONA JORNALISTAS E CRÍTICOS

A pedofilia, os maus-tratos às crianças, o abuso de menores; "Polisse", da diretora francesa Maiwenn, que disputa a Palma de Ouro, é um olhar sobre o trabalho cotidiano da Brigada de Proteção de Menores (BPM) da polícia de Paris.

O filme da atriz e cineasta de 35 anos atinge com força o espectador, que se vê no obscuro mundo da BPM e no dia a dia de seus policiais.

O primeiro dos quatro filmes franceses na disputa pela Palma de Ouro, o terceiro da carreira da diretora - Maiween Le Besco, conhecida apenas pelo primeiro nome -, é uma viagem ao lado mais pesado da miséria humana, porque suas vítimas são criaturas indefesas.

Getty ImagesDiretora Maiwenn Le Besco (de azul) é fotografada em Cannes com atores de "Polisse"

Na entrevista coletiva, a cineasta, que lutou por muito tempo para receber a autorização para passar um tempo com a BPM, disse que testemunhou ou ouviu de policiais tudo o que é retratado no filme.

A ideia do filme, que impressionou os jornalistas e críticos, surgiu ao assitir um documentário sobre a brigada na televisão francesa.
"Me encantou a paixão destes policiais pelo trabalho. Compreendi rapidamente que cada um deles tinha boas razões pessoais para estar ali", disse.

Confira o trailer de "Polisse":


Interpretado por atores profissionais - Karine Viard, Joey Starr, Marina Fo¯s, Nicolas Duvauchelle, Sandrine Kiberlaine - com exceção de um menino francês que comoveu a sala com suas lágrimas, o filme tem um ritmo trepidante e a intensidade de um documentário, e também é um reflexo da sociedade contemporânea francesa, mostrando famílias africanas em condições precárias, acampamentos de ciganos e tráfico.

Maiwenn disse ter ficado muito impressionada com a "banalização da sexualidade entre os adolescentes, dispostos a tudo por um telefone celular ou um aparelho de MP3".

Algumas cenas mais impactantes são as de pedófilos que tentam minimizar a importância de seus desvios sexuais, o que provoca a revolta dos policiais.

"Em temas assim é necessário ser preciso, realista e fiel, sobretudo na maneira de mostrar os interrogatórios", declarou a atriz Emmanuelle Bercot, uma das roteiristas do filme.


NÃO QUIS SER SENSACIONALISTA", DIZ DIRETOR SOBRE SEU FILME QUE ABORDA MORTE DE DIANA SOB A ÓTICA DO ATENTADO

O diretor Keith Allen defendeu nesta sexta (13) seu documentário
"Unlawful Killing", sobre a morte da princesa Diana, em meio a acusações de que o documentário seria um ataque unilateral contra o que ele chamou de "establishment" britânico e que teria sido integralmente financiado por Mohamed al-Fayed - empresário cujo filho Dodi, namorado de Diana, também morreu no acidente de carro em Paris (1997).

Fayed sustenta há muito tempo que o casal foi morto por ordem do marido da rainha Elizabeth II, príncipe Philip, por acreditar que a família real britânica não queria que Diana se casasse com um muçulmano.

Os membros da realeza, especialmente Philip de Edimburgo, os juízes e os meios de comunicação estão na mira constante do documentário, que garantiu sua estreia mundial em Cannes - enquanto sua distribuição no Reino Unido ainda não tem previsão -e põe principalmente em cheque a reputação de Philip, que é apontado em fotografias nas quais é visto acompanhado de dirigentes nazistas nos anos 1930.

Em uma coletiva de imprensa em alguns momentos caótica em Cannes - o documentário foi lançado fora do festival oficial de cinema - o diretor descreveu o documentário como "forense" - descrição questionada por alguns dos presentes.

O filme foca em parte sobre o inquérito sobre a morte de Diana realizado em 2007/08 e argumenta que a imprensa britânica não refletiu corretamente as conclusões do inquérito, devido a pressões indiretas da família real.

Getty ImagesDodi al-Fayed e Diana, dias antes de morrerem

"Achei importante que o público pudesse entender de maneira forense o que aconteceu no inquérito",
disse Allen, mais conhecido como ator de televisão britânico, falando a repórteres em Cannes.

"Eu não quis fazer um filme sensacionalista. Não acho que seja um filme sensacionalista. Acho que é uma análise muito forense de um processo legal britânico e acho que revela certas coisas que não 'batem'."

"Acredito que essas coisas devem ser questionadas. Foi por isso que fiz o filme. Espero que ele mostre às pessoas que nada é o que parece ser."

Confira o trailer de "Unlawful Killing":


Allen foi criticado diretamente por um jornalista por não ter deixado claro que o filme foi financiado 100% por Fayed - custou 2,5 milhões de libras (4,1 milhões de dólares), cifra citada em Cannes por um homem que afirmou ser representante de Fayed, que não esteve em Cannes para apresentar o filme.

"Ele deu o dinheiro, porque ninguém mais se dispôs", disse Allen.
"Se eu pudesse ter obtido o dinheiro de outra fonte, eu o teria feito. Mas não consegui. Consegui dele."

Investigações das polícias francesa e britânica concluíram que as mortes de Diana e Dodi foram fruto de um acidente trágico provocado por um motorista que dirigia em alta velocidade, e que depois se descobriu, estava embriagado - ambas as investigações rejeitaram as teorias de Fayed.

Getty ImagesMohamed Al Fayed, milionário egípcio radicado na Inglaterra, na pré-estreia de "Bruno", em Londres (17/06/2009)

Indagado o que há de novo em "Unlawful Killing", Allen disse:
"Acho que não há tanta coisa que seja nova. Existe em nosso país um velho ditado segundo o qual os segredos mais bem guardados estão nas estantes da Biblioteca Britânica. Estão todos lá, basta você ir procurá-los, e meu filme não é um ataque à monarquia. Na realidade, ele questiona o papel do establishment, e, ao fazê-lo, vai deixar claro que existem ligações entre a real Casa de Windsor e o establishment."

O documentário inclui uma foto de Diana agonizando logo após o acidente - elemento que a imprensa britânica focou nos últimos dias, embora Allen tenha minimizado sua importância - e uma imagem do rosto de uma séria Elizabeth II o encerra, relacionando o comportamento de seu marido com o de um psicopata e racista, expressão que Al Fayed utiliza em repetidas ocasiões na entrevista sobre o filme.


COM FILME SOBRE MORTALIDADE, GUS VAN SANT ABRE SEÇÃO "UM CERTO OLHAR"

O cineasta americano Gus Van Sant, acostumado a transitar pelas linhas comercial e independente, volta ao cinema com "Inquietos", um romance que conta a história de um casal de jovens preocupados com a mortalidade.

E foi com essa obra que ele abriu a prestigiosa seção "Um Certo Olhar" de Cannes, na sexta (13).

Após perder o avião e cancelar sua presença prevista para quinta-feira, o diretor compareceu um dia depois, rodeado do elenco juvenil do longa, produzido também pela atriz Bryce Dallas Howard, protagonista de "A Vila" - Van Sant já ganhou a Palma de Ouro e o prêmio de melhor diretor em Cannes, por "Elefante" (2003), e recebeu duas indicações ao Oscar de melhor diretor por "Gênio Indomável" (1997) e "Milk - A Voz da Igualdade" (2009).

Getty ImagesGus Van Sant (centro) com os atores Henry Hopper e Mia Wasikowska, protagonistas de "Inquietos"

"Com a história de Will Hunting 0 "Gênio Indomável" -, foi a primeira vez que atuei em uma atmosfera mais 'mainstream', e descobri que podia olhar algo de um ponto de vista otimista. Suponho que haja uma parte de mim assim", explicou Van Sant.

Porém, essa história de superação não tinha sobre si o peso da morte, como pode ser visto em "Inquietos", filme em que o estreante Henry Hopper - filho do ator Dennis Hopper - e a atriz Mia Wasikowska - a protagonista de "Alice no País das Maravilhas", de Tim Burton - vivem uma história de amor, enquanto a jovem enfrenta o câncer.
"Quando um adolescente está enfrentando uma doença catastrófica, embora não necessariamente terminal, sente a necessidade do sentimento de negação do que realmente é", afirmou Van Sant, que explica que "nestes casos, a família é muito superprotetora".

EFEO casal Protagonista de "Inquietos", Henry Hooper e Mia Wasikowska, em cena do filme

Segundo ele, "a irmã de Annabel não quer brincar, nem falar de ideias existencialistas sobre passagem do tempo" e é por isso que recorre ao personagem de Enoch, "uma pessoa mais próxima, mas não da família, pode se transformar em seu melhor amigo nessas circunstâncias".

O diretor aposta em um ambiente encantador, passado na cidade de Portland, e cria esses pequenos momentos de excentricidade mágica - os jovens se conhecem em um funeral -, ajudando a superar o estorvo de contar uma história mil vezes já vista na telona - principalmente em "Love Story - Uma História de Amor" (1970) e "Doce Novembro" (2001).

Trata-se de uma maneira de atingir a autenticidade da emoção e levar a plateia às lágrimas, ainda mais em um ambiente tão sério como o de Cannes.
"Há no filme, inclusive, uma homenagem ao cinema francês", disse o cineasta, que 'pinta' Wasikowska como Jean Seberg e transforma Henry Hooper em um boêmio atemporal.

Confira o trailer de "Inquietos/Restless":


Jason Lew, autor do roteiro, é filho de um oncologista pediátrico, conviveu com crianças que morreram precocemente e frequentava funerais na infância, como a personagem de Hooper.

Depois de trabalhar com Tim Burton, Mia Wasikowska está feliz de trabalhar com Van Sant.
"A Annabel é uma menina que tem que lidar com uma situação extrema. Ela está morrendo, mas consegue apreciar os momentos simples da vida".

Bryce Dallas, atriz de "A Vila" e "Além da Vida" e filha do diretor Ron Howard, é uma das produtoras do filme.
"Não me planejei para me tornar produtora, mas aconteceu. Trabalho como atriz durante o dia, mas sobra muito tempo livre à noite", brincou.

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Com Reuters, UOL, France Presse e Getty Images

CANNES 2011: A QUINTA FEIRA TEVE DRAMA SOMBRIO, HOMENAGEM A FAYE DUNAWAY, NOVO J.J.ABRAHAMS, ANGELINA JOLIE E UM SURPREENDENTE BRASILEIRO

DRAMA SOBRE ATAQUE EM ESCOLA PERTURBA FESTIVAL

Crueldade gratuita e uma dinâmica familiar distorcida foram o foco das atenções em Cannes nesta quinta (12), com a exibição de "Precisamos falar sobre Kevin", drama sombrio em que Tilda Swinton representa a mãe de um filho sádico.

O filme da britânica Lynne Ramsay - que conta a história de Eva, mãe de um jovem americano que um dia cometerá um massacre em seu colégio - estremeceu o festival.

Arrastando Cannes para um clima mais pesado no segundo dia do evento, a obra abalou os críticos com seu retrato intransigente de uma relação mãe-filho caracterizada não por amor, mas por crueldade e ódio mútuos.

Tensão e ansiedade marcam o filme desde o início: a história começa com a personagem de Swinton, a norte-americana Eva, tentando juntar os cacos de sua vida após uma tragédia e enfrentando as reações de revolta de seus vizinhos.

Enquanto sua casa é vandalizada com tinta vermelha e as pessoas lhe dão tapas no rosto quando ela passa na rua, Eva se isola e recua para seu passado, recordando sua vida familiar em uma série de flashbacks extensos.

Ramsay mostra o nascimento do filho de Eva e o desenvolvimento dele, de bebê com cólicas para garoto taciturno - representado por Ezra Miller - que parece determinado a punir sua mãe de todas as maneiras possíveis, desde derrubar sua comida no chão e matar o hamster de estimação de suas irmãs, até o clímax de violência do filme.

DivulgaçãoCena de "Precisamos Falar Sobre Kevin"

Apesar de algumas cenas de horror enquadradas cuidadosamente, Ramsay disse que a intenção do filme não foi mostrar violência, mas tratar do tabu psicológico de uma dinâmica mãe-filho disfuncional.

"Às vezes uma criança nasce e você não sabe quem ela é", disse a diretora a jornalistas em coletiva de imprensa.
"O filme não é sobre um ataque a uma escola, é sobre um relacionamento mãe-filho. É sobre o sentimento de culpa."

Confira o teaser 02 do filme - tem mais no YouTube:


John C. Reilly, ator norte-americano mais conhecido por seus papéis em comédias, contracena convincentemente com Swinton no papel do marido de Eva e defensor do jovem Kevin, com quem parece ter uma relação pai-filho normal.

Adaptado do romance homônimo de 2003 de Lionel Shriver, o filme é sombrio e de ação lenta, com diálogos esparsos e atos de violência que ficam implícitos, mais do que mostrados na tela.

Ezra Miller, 18, conhecido por sua atuação no seriado de TV "Californication", disse que não teve dificuldade em representar o papel de um adolescente assassino.
"Me sinto horrorizado porque sinto de fato alguma conexão com Kevin", disse ele.

As reações imediatas ao filme foram mistas: algumas pessoas na platéia abandonaram o cinema muito antes do final do filme, enquanto outras aplaudiram fortemente ao final.

Dominado por cores fortes, uma montagem pulsante e um sentido muito forte de que tudo é doloroso, mas nada se explica, o filme fez bonito no festival - e Swinton já é grande candidata à Palma de atriz.


FESTIVAL HOMENAGEIA DIVA FAYE DUNAWAY, COM CÓPIA RESTAURADA DE UM CULT EM QUE ELA BRILHA

Ainda na quinta (12), o Festival homenageou a atriz Faye Dunaway com a exibição de uma cópia restaurada de "Puzzle of a Downfall Child", dirigido por Jerry Schatzberg.
Juntos, os dois artistas apresentaram ao público a produção de 1970, que a princípio não recebeu reconhecimento, sobretudo nos Estados Unidos, mas que após sua estreia na França, se transformou em um filme cult.

"O cinema é uma arte aqui", proclamou a estrela americana que, em francês perfeito, manifestou seu agradecimento pela exibição do filme, dentro do programa de clássicos que o evento de Cannes propõe para divulgar obras-primas da sétima arte.

"Cannes é onde venho para ver arte", confessou a atriz, conhecida por obras como "Chinatown"(1974), "Bonnie and Clyde - Uma Rajada de Balas" (1967), "Rede de Intrigas (1977), que lhe deu o Oscar de Atriz, e "Don Juan De Marco"(1994) - onde teve como parceiros Jack Nicholson, Warren Beatty, William Holden e Marlon Brando, respectivamente.

Vestida de preto e com cabelo solto, a atriz mantinha assim o tom cromático dos outdoors e paineis com sua fotografia dos anos 1970, que estamparam os cartazes dessa edição do Festival - veja o cartaz de Cannes 2011 no selo que abre essa postagem.

Exposay.comA Diva faye Dunaway na última quinta em Cannes

"Puzzle of a Downfall Child" conta a história da ex-modelo Lou Andreas Sand - papel de Faye - que já foi muito famosa no passado e vive na reclusão.

Um dia, o fotógrafo de moda Aaron Reinhardt - interpretado por Barry Primus -, que já tinha sido seu amante e tornou-se diretor de cinema, faz uma visita a ela em sua casa isolada e, ao gravar suas conversas sobre as memórias da artista, ele espera ajudar Lou a reorganizar seus pensamentos e focar na realidade.

"A má recepção da crítica e público nos Estados Unidos provocou o pânico na Universal, que os obrigou a lançar uma nova versão, com um prólogo explicativo", comentou Pierre Rissient, produtor e assistente de direção.

Schatzberg nunca esteve satisfeito com esta decisão do estúdio e, por isso, a cópia que a partir de agora recupera a obra do diretor americano, elimina o extra.


NOVO FILME DE J.J.ABRAHAMS TEM CARA DOS ANOS 80, MAS TECNOLOGIA DE 2011

O evento prometia 40 minutos para a imprensa do novo filme de J.J. Abrams,
"Super 8" - com produção de Steven Spielberg, que estreia dia 12 de agosto no Brasil - ,mas no final foram apenas 20 minutos exibidos num cinema em Cannes.

O próprio Abrams apareceu num vídeo antes das cenas, para avisar que não pôde vir ao litoral francês porque ele e sua equipe "estão dando duro em Los Angeles para terminar o filme".

Nas cenas mostradas, o garoto Joe Lamb - Joel Courtney -, morador de uma pequena cidade do Ohio em 1979, acaba de perder a mãe num acidente, e seu pai - Kyle Chandler, da série "The Early Edition" - pensa em colocá-lo num internato.

Mas Joe se recusa, principalmente porque quer ajudar seu amigo, o gordinho Charles, a terminar um filme que ele está fazendo com uma câmera Super-8.

No elenco do filme dentro do filme, está a linda Alice - Elle Faning, de "Um Lugar Qualquer" -, cobiçada por toda a turma.

Enquanto eles gravam uma cena de amor, um acidente monumental faz um trem de carga colidir com o caminhão que carrega uma estranha criatura.

Em outra cena, a criatura faz um ataque-relâmpago num posto de gasolina, mas nós mal conseguimos vê-la - a câmera acompanha um vendedor da loja de conveniência, que está com seu walkman ouvindo Blondie no último volume e só percebe o ataque depois que o monstro foi embora.

Confira o primeiro trailer disponível de "super 8":


Abrams, produtor de "Lost" e diretor da revitalização da franquia "Star Trek", parece retomar a criatura destruidora de outro filme que produziu, "Cloverfield - O Monstro", mas o grande diferencial de "Super 8" é a fotografia e a atmosfera dos filmes da produtora Amblin de Spielberg, que fizeram a alegria das crianças nos anos 80, como "E.T.", "Os Goonies", "O Milagre Veio do Espaço" e "De Volta para o Futuro".

Ou seja, "Super 8" será um filme dos anos 80 com a tecnologia de 2011, nostalgia pura para quem tem mais de 30 anos.


ANGELINA JOLIE E DUSTIN HOFFMAN E JACK BLACK PARARAM CANNES PARA APRESENTAR "KUNG FU PANDA II"

Angelina Jolie, Dustin Hoffman e Jack Black - que emprestam suas vozes aos protagonistas de "Kung Fu Panda II" - atraíram as atenções nesta quinta no Festival, onde o filme, última produção do estúdio Dreamworks, foi apresentado apenas para um grupo de jornalistas.

Getty ImagesAngelina Jolie e Jack Black posam para foto com Po, de "Kung Fu Panda 2", na última quinta em Cannes

Agora, o gordo e desastrado panda que conquistou corações no primeiro longa-metragem - que arrecadou 633 milhões de dólares - busca sua "paz interior" para poder combater o mal.

Vestida com um vestido de cor clara, Jolie, que vive "a tigresa" no filme que será lançado nos Estados Unidos em junho, falou da busca pela paz interior na entrevista coletiva à imprensa.

"Para mim, a paz interior reside em saber que meus filhos e as pessoas de que gosto estão bem", disse a estrela, acompanhada na coletiva de imprensa em um luxuoso hotel de Cannes por Hoffman, Black e pela diretora do filme, a chinesa Jennifer Yuh Nelson.

Confira o trailer do filme:


"A paz interior é uma longa viagem, que todo mundo faz. Você pode alcançá-la, depois a perde, e procura de novo. A paz interior é, sobretudo, as pessoas que você quer e que querem você. Saber que estão saudáveis, que estão bem, isso é o que me dá paz", disse.

"Que paz interior?", perguntou Hoffman, vencedor de dois Oscars.
"Nunca tive tanta paz como agora, diante de centenas de câmeras e jornalistas, e sentado ao lado de Angelina", ironizou o ator, que dá voz ao mestre supremo das artes marciais, Shifu.

A atriz chegou a Cannes acompanhada de seus seis filhos e seu marido, Brad Pitt, que apresentará o filme "A Árvore da Vida", de Terrence Malick.

"Nós gostamos de estar aqui. As crianças adoram", disse a atriz, que revelou que sua animação favorita é "A Pantera Cor-de-Rosa".


BRASILEIRO "TRABALHAR CANSA" SURPREENDE CANNES

O Brasil está presente em Cannes com o filme "Trabalhar Cansa", primeiro e surpreendente longa-metragem de Marco Dutra e Juliana Rojas, apresentado nesta quinta (12) na mostra "Um Certo Olhar", a segunda seção mais importante do maior festival do cinema mundial.

Os diretores, que já estiveram em Cannes em 2004 e 2007, com dois curtas-metragens, voltaram agora com um filme que começa contando uma história do mundo do trabalho e se converte paulatinamente em uma história de terror, que deixou a sala sem fôlego.

Produzido por duas brasileiras, Sara Silveira e Maria Ionescu, o filme conta a história de Helena, uma mulher de classe média de São Paulo que realiza um velho sonho: o de abrir um pequeno mercado, e por isso aluga um local abandonado.

Esta conquista - que coincide, no entanto, com a perda do emprego de seu marido, o que fragiliza a família - dá passagem a uma história que mescla de maneira sutil o mundo do fantástico e do horror.

Confira o trailer de "Trabalhar Cansa":


"Queríamos contar uma história que mostrasse a importância do poder econômico, e como o mundo do trabalho afeta o mundo pessoal", afirmaram os diretores em uma entrevista concedida à AFP em uma esplanada do Palácio dos Festivais, em frente ao mar Mediterrâneo, repleto de luxuosos iates.

"O horror foi se infiltrando pouco a pouco na história", disse Rojas, que acrescentou que ela e Marco Dutra, que trabalham juntos há dez anos, gostam muito do gênero de filmes de terror e de suspense, cujo maior expoente é Alfred Hitchcock.

Os jovens diretores - cujo curta-metragem "Um Ramo" ganhou há quatro anos em Cannes o prêmio do Júri, na sessão da Semana da Crítica - também expressaram sua admiração pelo escritor americano Edgar Allan Poe, mestre da literatura de terror, e também pelos autores argentinos Jorge Luis Borges, Bioy Casares e Julio Cortázar.

Mas Rojas e Dutra advertiram que o que interessa não é o gênero em si, mas como "se infiltra" em outros aspectos da vida, como o do emprego e da desocupação.

Os cineastas, que se conheceram na Universidade e desde então trabalharam sempre juntos, advertiram, no entanto, que não querem aplicar os clichês do cinema de horror, mas sim explorar melhor a relação entre o protagonista e suas próprias caraterísticas de personalidade mórbida.

"O que nos interessa é de que maneira um gênero como o fantástico, o do horror, pode ser utilizado como filtro para discutir, iluminar outros temas", disse Dutra.

A primeira sessão de "Trabalhar Cansa" lotou uma das salas do Festival, onde boa parte dos espectadores eram portadores de convite do festival, entre eles professores e estudantes franceses - uma segunda sessão oficial, com apresentação dos diretores, elenco e equipe, também aconteceu na quinta.

O filme recebeu aplausos discretos ao final da sessão e concorre aos prêmios da mostra, cujo presidente este ano é o cineasta sérvio Emir Kusturica.

Do Brasil apresentam-se nesta edição do Festival, que termina no dia 22 de maio, o curta-metragem "Duelo Antes da Noite", de Alice Furtado, que será apresentado na sessão Cinéfoundation, dedicada a produções universitárias.

Entre os 14 filmes selecionados para "Um Certo Olhar", cujo prêmio será anunciado no dia 22 de maio, figuram também "Bonsai", de Cristián Jiménez (Chile), "Miss Bala", de Gerardo Naranjo (México), "Restless", de Gus Van Sant (EUA), "The Hunter", de Bakur Bakuradze (Rússia) e "Arirang", de Kim Ki-duk (Coreia do Sul).

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Com Agências Reuters, EFE, AFP e UOL