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quinta-feira, 3 de maio de 2018

'OS FANTASMAS DE ISMAËL': SÓ A PRESENÇA DO ELENCO ESTELAR SALVA TRAMA CONFUSA


SINOPSE:

Ismaël (Mathieu Amalric) é um cineasta que, após um longo tempo, voltou a amar.

Traumatizado devido ao súbito desaparecimento de sua esposa, Carlotta (Marion Cotillard), ocorrido há 21 anos, ele enfim consegue ter um relacionamento duradouro com a astrofísica Sylvia (Charlotte Gainsbourg).

Entretanto, a reaparição de Carlotta abala não só o relacionamento, como a própria estabilidade alcançada por Ismaël.

CRÍTICA:

'Os Fantasmas de Ismael', que estreia hoje aqui no Brasil era um filme muito aguardado, seja pela direção do respeitado cineasta francês Arnaud Desplechin (Três Lembranças da Minha Juventude, 2015), seja pelo elenco estelar - Charlotte Gainsbourg, Marion Cotillard, Mathieu Amalric e Louis Garrel.

O longa-metragem ainda foi escolhido para abrir o Festival de Cannes em 2017, fora de competição.

 Mathieu Amalric é Ismael - Fotos dessa Postagem: Divulgação/Imovision
Com tudo isso, fica difícil de entender como o longa é frustrante para quem o assiste e se não é um filme fraco, por outro lado nunca chega a provocar no espectador a expectativa boa que tinha antes da estreia.

O roteiro - de Desplechin, Julie Peyr e Léa Mysius - a princípio é batido, apesar de interessante: Ismael (Amalric) é um cineasta francês que descobre que sua esposa, Carlotta (Cotillard), desaparecida há 21 anos, está viva e bem, tendo voltado para seu convívio.

Seria uma boa, mas nesse meio tempo ele já retomou a sua vida, se relacionando já há dois anos com a tímida Sylvia (Gainsbourg).

Cena do longa
Na atualidade, Ismael também está filmando a história do seu irmão, Ivan (Garrel), como uma forma de dar um sentido para a relação conturbada entre os dois e esses fantasmas do diretor irão assombrá-lo, numa trama que mistura ficção dentro da ficção, toques oníricos e um clima de paranoia que nunca arrebata o espectador.

Com começo interessante, o longa traz diálogos rápidos, que nos apresentam um tal de Ivan, que parece importante para a trama.

Logo, o espectador constata que se trata de um filme dentro do filme – é a obra que Ismael está trabalhando sobre seu irmão.

Logo depois, somos apresentados a Sylvia e a trama faz uma viagem rápida ao passado para sabermos como os dois se conheceram.

Ágil, bem realizado, com ótimos atores, estes trechos iniciais dão conta do recado e prendem a atenção ao ir nos revelando, pouco a pouco, as diversas camadas da trama.

Cena do longa
Pena que, a partir daí, o diretor perca o foco e mesmo com ótimos caminhos nas mãos, ele perde muito tempo por subtramas que não têm a mesma importância - ficaria bem melhor se o foco continuasse na relação entre Ismael, Carlotta e Sylvia.

Mesmo que os diálogos não fossem brilhantes, os momentos em que o trio principal estava convivendo na mesma casa, tentando se estabelecer nesta nova e confusa dinâmica, eram ótimos.

O ápice dessa perda de tempo é a inclusão de um novo personagem depois de metade do filme, para que ele consiga explicar a relação entre Ismael e o irmão – tudo regado a um desinteressante passeio a um centro médico.

Mesmo muito bem interpretada por Marion Cotillard, Carlotta é uma mulher difícil de decifrar: fugiu aos 20 anos de idade e duas décadas depois, volta, querendo continuar sua vida com o marido, de onde os dois pararam.

Evidente, Ismael mal acredita ao ver aquela figura, que ele pensava estar morta, em sua frente e, após o choque passar, as perguntas mais duras são feitas e os rancores são colocados para fora.

Ismael quer Carlotta de volta?

E Sylvia? Como fica nesse imblóglio todo?

Se no começo ela até aceita, Sylvia acaba decidindo seu próprio futuro ao perceber o quanto é difícil competir com um fantasma tão vivo quanto aquele.

O diretor Desplechin tinha tudo em mãos, mas perde a mão ao escolher outros caminhos menos interessantes.

Nem a figura do mentor de Ismael, o também cineasta Henri Bloom (László Szabó), que além de tudo era seu sogro, consegue ser bem tratada pelo roteiro.

Cena do longa
Mas o pior é vermos o atual galã do cinema francês, Louis Garrel, totalmente desperdiçado, fazendo parte de um outro filme – por vezes, literalmente.

Se não fosse pelas atuações do trio principal e por algumas boas surpresas na primeira metade do longa, o espectador sairia da sala de cinema e o esqueceria imediatamente.

O erro, afinal, foi não priorizar nenhuma das boas ideias, fazendo um filme que vai diversos lugares, mas não chega a lugar algum.

Vale pelas atuações do trio Amalric - Cotillard - Gainsbourg.

TRAILER:


FICHA TÉCNICA:
'OS FANTASMAS DE ISMAËL'
Gênero:
Suspense, Drama, Romance
Direção:
Arnaud Desplechin
Elenco:
Mathieu Amalric, Marion Cotillard, Charlotte Gainsbourg, Louis Garrel e outros
Roteiro:
Arnaud Desplechin, Julie Peyr, Léa Mysius
Produção:
Pascal Caucheteux, Vincent Maraval, Yaël Fogiel
Diretora de fotografia:
Irina Lubtchansky
Nacionalidade:
França
Estúdio:
Not Productions
Distribuição internacional:
ExportaçãoWild Bunch
Distribuidor brasileiro:
Imovision
Data de estreia (Brasil):
3 de maio de 2018
Duração:
1h 54min
Classificação Indicativa:
12 anos

COTAÇÃO DO KLAU:

quinta-feira, 9 de julho de 2015

'SAMBA': PROTAGONISTA CARISMÁTICO, HISTÓRIA COMPETENTE


SINOPSE:

Samba (Omar Sy) é um imigrante do Senegal que vive há 10 anos na França e desde então, tem se mantido no novo país à custa de subempregos.

Por sua vez, Alice (Charlotte Gainsbourg) é uma executiva experiente que tem sofrido com estafa devido ao seu trabalho estressante.

Enquanto ele faz o possível para conseguir os documentos necessários para arrumar um emprego digno, ela tenta recolocar a saúde e a vida pessoal no trilho, cabendo ao destino determinar se eles estarão juntos nessa busca em comum.

CRÍTICA:

A apresentação do personagem-título já deixa clara a temática que 'Samba', em exibição em 51 salas em todo o Brasil, vai abordar.

A primeira cena - uma festa de muita ostentação, com câmera que passeia da pista de dança para a cozinha e onde profissionais trainados montam belas sobremesas - termina na base da cadeia alimentar social, na seção de lavagem de pratos, onde o protagonista Samba (Omar Sy) usa suas mãos nuas para tirar restos de comida da louça.

Samba : Foto Omar Sy
Omar Sy é o protagonista Samba - Fotos dessa Postagem: Divulgação/Califórnia Filmes
Os diretores e roteiristas Olivier Nakache e Eric Toledano encantaram o mundo com 'Intocáveis' (2011) e catapultaram a carreira internacional de Sy, que fez sua (boa) estreia recentemente em Hollywood - em 'Jurassic World'.

Agora abordam o polêmico assunto da imigração em uma época em que a Europa adora medidas para desencorajar a vinda de estrangeiros para suas terras.

Um desses aventureiros é justamente Samba, que deixou o Senegal há dez anos, ainda não conseguiu regularizar sua situação na França e justamente por isso, acaba detido.

Durante seu confinamento, ele entra em contato com a assistente social Alice (Charlotte Gainsbourg), uma novata na área com a responsabilidade de ajuda-lo nos tramites jurídicos.

Samba : Foto Charlotte Gainsbourg
Charlotte Gainsbourg é a assistente social Alice
As coisas não dão muito certo e Samba recebe uma ordem para deixar a França, mas ele permanece no país de forma ilegal.

'Intocáveis' abordava a questão unânime das dificuldades de um deficiente físico, enquanto 'Samba' opta por uma pegada mais social, que divide opiniões.

Apesar da mudança de tom, a mistura de drama e comédia é uma constante em ambos os títulos e dessa maneira, o longa consegue transmitir sua mensagem com leveza.

Para o público brasileiro, o destaque fica por conta de Wilson (Tahar Rahim, de 'Grand Central'), um imigrante brasileiro também em situação ilegal e que o protagonista conhece nas ruas.

Ator competente, Rahim é o principal alívio cômico do filme, com uma boa dose de malandragem para ajudar o herói a conseguir trabalhos e a escapar da fiscalização - ou seja: é o jeitinho brasileiro fazendo escola na Europa.

Samba : Foto Tahar Rahim
Tahar Rahim é Wilson
A brasilidade se faz presente também na trilha musical: enquanto 'Intocáveis' trazia uma cena dançante ao som de 'Earth, Wind & Fire', 'Samba' tem Gilberto Gil e Jorge Ben Jor em seus números musicais. 

Dessa vez, o requebrado fica por conta do brasileiro Wilson, uma vez que o protagonista é mais tímido.

Outra novidade em relação ao filme anterior é a inserção de uma história de amor. 

Apesar da conduta ética de seu trabalho ditar o contrário, Alice começa a se aproximar de Samba no nível pessoal. 

O flerte entre os dois personagens é vagaroso, por conta das restrições deles, e segue como elemento de interesse do público. 

Samba : Foto Izïa Higelin
Izïa Igelim é Manu
Tudo fica mais fácil graças à boa química entre os atores e seus talentos individuais, que trabalham em favor dos personagens.

Com tudo isso, fica simplesmente impossível não torcer (muito) para o protagonista, com os realizadores encontrando uma maneira inteligente de entregar seu discurso social e ao mesmo tempo criar um bom entretenimento.

Você vai se divertir.

TRAILER:


FICHA TÉCNICA:
'SAMBA'
Título Original:
SAMBA
Gênero:
Drama
Direção e Roteiro:
Eric Toledano, Olivier Nakache
Elenco:
Charlotte Gainsbourg, Christiane Millet, Clotilde Mollet, Hélène Vincent, Isaka Sawadogo, Izïa Higelin, Jacqueline Jehanneuf, Liya Kebede, Omar Sy, Sabine Pakora, Tahar Rahim, Youngar Fall
Produção:
Laurent Zeitoun, Nicolas Duval-Adassovsky, Yann Zenou
Fotografia:
Stéphane Fontaine
Montador:
Dorian Rigal-Ansous
Trilha Sonora:
Ludovico Einaudi
Duração:
120 min.
Ano:
2014
País:
França
Cor:
Colorido
Estreia:
09/07/2015 (Brasil)
Distribuidora:
Califórnia Filmes
Estúdio:
Gaumont / Korokoro / Quad Productions / Ten Films / TF1 Films Production
Classificação:
12 anos

COTAÇÃO DO KLAU:

quinta-feira, 13 de março de 2014

'NINFOMANÍACA - VOLUME II': DEBATE SOBRE GÊNERO, MORALISMO E SEXUALIDADE ARREMATADO COM ÓTIMOS ROTEIROS E INTERPRETAÇÕES


Segunda parte do drama sexual dirigido por Lars Von Trier, 'Ninfomaníaca - Volume II' estreia hoje em 72 salas em todo o Brasil,  finalmente dá vazão à toda insensibilidade mostrada no Volume I e finaliza um retrato da sociedade contemporânea de forma excepcional.

Enquanto os corpos estão expostos em carne mais que viva ao longo das duas partes - na escatologia provocada pela loucura, nas marcas de dor desenhadas pelo masoquismo - as almas estão profundamente secas, como as represas do Sistema Cantareira atualmente.

A primeira parte foca nas raízes da protagonista, enquanto a segunda tem mais movimento para nos apresentar o desfecho.

Começa do amanhecer de Jerome (Shia LaBeouf) e Joe (Stacy Martin) após a primeira noite de amor e percorre a relação quase infantil do par, durante a qual a personagem tenta voltar a sentir algum prazer.

Shia Labeouf - centro - em cena do longa - Fotos dessa postagem: Divulgação/Califórnia Filmes

A transição para Charlotte Gainsbourg no papel principal ocorre de forma abrupta, mas muito bem colocada para expressar sua "maturidade": enquanto era jovem, Joe sorria e, mais velha, fecha-se em si mesma e no tal egoísmo feminino indicado em 'Anticristo', longa anterior de Von Trier - tanto que há referência direta à emblemática cena da criança caindo da janela.

Assim, na segunda parte Joe continua contando sua história a Seligman (Stellan Skarsgård) e logo de cara relata uma visão mística que teve durante a primeira masturbação: acreditou ter encarado duas santas, entre elas, a Virgem Maria.

Seligman ironiza e destaca o fato de a personagem ter visto a representação da ninfomaníaca Messalina e da maior prostituta da Babilônia.

Joe (Charlotte Gainsbourg) e Seligman (Stellan Skarsgård), em cena do longa

Essa eterna caça às bruxas do prazer feminino, pelo qual mulheres são julgadas como santas ou devassas segundo a expressão de seu desejo, fica mais clara ao longo desta parte, onde o cineasta coloca o espectador no lugar de Seligman - o homem feliz, de bem, cheio de pudores e com incríveis teorias para interpretar qualquer questão.

Outro mérito do longa é não colocar Joe como uma heroína rasteira, já que suas contradições parecem deixá-la tão imersa quanto o outro num profundo jogo de hipocrisia.

Os personagens travam um embate sem fim entre opostos: Deus e o Diabo, castidade e sexo, felicidade e sofrimento, masculino e feminino - tudo isso numa mistura sem fronteiras como se os dois fossem apenas aspectos exagerados de um mesmo sistema.

Joe narra suas tentativas de recuperar a sensibilidade principalmente por meio do masoquismo e a violência praticada pelo jovem K (Jamie Bell, sen-sa-cio-nal) a várias mulheres é cruel e doentia, assim como o ambiente hospitalar onde é praticada.

Jamie Bell é o sadomasoquista 'K'

A tão comentada cena do 'ménage à trois' envolve a falta de palavras e uma tentativa de entendimento por meio do corpo, algo que faz muito sentido ao desenrolar da trama.

Já na discussão entre Joe e Seligman sobre hipocrisia, ela fala sobre tabus e como a sociedade acredita se livrar do mal extirpando apenas as palavras.

Livra-se da forma, da fala, mas o conteúdo permanece ao rés do chão.

Willem Dafoe (ótimo) entra em cena para direcionar a suposta perversidade de Joe a uma finalidade corrompida pois, se na primeira parte a personagem domina os demais, na segunda é dominada e vira um instrumento nas mãos dos homens - um discurso sobre a liberdade sexual feminina precede justamente um desfecho que resume perfeitamente o machismo.

Joe em ação

Com atores impecáveis e um roteiro bem escrito bem filmado, Lars Von Trier talvez tenha feito a obra que melhor traduz os dias de hoje, iluminando o debate sobre gênero, moralismo e sexualidade, além de enfatizar a apatia angustiante da busca excessiva por prazer.

Agora sim: juntando as duas partes, temos um filmaço;

Confira o trailer do longa:

*****
'NINFOMANÍACA - VOLUME II'
Título Original:
NYMPHOMANIAC - VOLUME II
Gênero:
Drama
Direção e Roteiro:
Lars von Trier
Elenco:
Caroline Goodall, Charlotte Gainsbourg, Christian Slater, Connie Nielsen, Hugo Speer, Jamie Bell, Jean-Marc Barr, Jens Albinus, Jesper Christensen, Michäel Pas, Nicolas Bro, Omar Shargawi, Shia LaBeouf, Sophie Kennedy Clark, Stacy Martin, Stellan Skarsgard, Udo Kier, Uma Thurman, Willem Dafoe
Produção:
Louise Vesth, Marie Cecilie Gade
Fotografia:
Manuel Alberto Claro
Montador:
Molly Marlene, Stensgaard
Duração:
124 min.
Ano:
2014
País:
Dinamarca
Cor:
Colorido
Estreia no Brasil:
13/03/2014
Distribuidora:
Califórnia Filmes
Estúdio:
Zentropa Entertainments
Classificação:
18 anos
Cotação do Klau:

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

'NINFOMANÍACA - PARTE 1'': LONGA É ANTÍTESE DO TESÃO E PRECISA DA EXIBIÇÃO DA 'PARTE 2' PARA DIZER A QUE VEIO




Escrever sobre o novo e aguardadíssimo longa de temática sexual do polêmico diretor dinamarquês Lars von Trier não é fácil, principalmente pelo fato de que 'Ninfomaníaca' - que estreia hoje em 29 salas em todo o Brasil - é somente uma das partes da produção, que ultrapassaria cinco horas de duração.

Não se sabe ao certo porque a versão integral não está nas telonas, já que Trier aprovou a edição reduzida - mas ainda não se pronunciou sobre o assunto.

Ficamos sem saber se o original não tenha sido considerado viável comercialmente ou estivesse apenas longo demais sem necessidade de sê-lo.

Se as dúvidas só servem para atiçar o interesse do espectador, o cineasta marqueteiro sabe aproveitar bem isso.


O 'volume 1' chega sob eficiente campanha de marketing, que nos diz que 'está todo mundo cheio de tesão para assistir ao pornô-cabeça do diretor'.

Porém, se você for aos cinemas tesudo como manda a propaganda, vai é receber um belo balde d'água fria, daqueles de separar cachorro, no seu fogo e no fogo dos demais espectadores.

Afinal, o longa é a antítese da excitação erótica - e esse é um dos méritos do filme.

Joe (Charlotte Gainsbourg), em foto promocional - Imagens dessa postagem: Califórnia Filmes
A ninfomania é uma disfunção sexual e é assim que é tratada no longa, onde a personagem principal não é alguém que vai te deixar constrangido tentando esconder uma ereção na sala de cinema.

O que poderia ser mais ' corta tesão' que misturar sexo e matemática?

A 'primeira vez' da protagonista Joe é narrada em números de penetrações - tantas na frente e outras tantas atrás e o serviço está feito.

Para deixar tudo ainda mais perturbadora - e menos tesudo - Von Trier transforma a tela num grande e inquietante quadro negro.

Enquanto Joe (Charlotte Gainsbourg) é violada por seu primeiro homem (Shia LaBeouf), a contabilidade de sua primeira transa é exposta na tela com recursos gráficos. 1, 2, 3... hímen rompido.

Ela vira-se de bruços, ele a penetra por trás e ela suporta, apática.

Joe (Charlotte Gainsbourg) e seu primeiro homem (Shia LaBeouf)

Não há tesão, não há romance, já que Jo parece querer livrar-se de um mal, a virgindade e, agora, seus 'buracos' estão devidamente escancarados para uma vida de promiscuidade.

Esses e outros episódios sexuais são narrados por Joe em flashback para Seligman (Stellan John Skarsgård), um desconhecido que a acha jogada na rua, desacordada e ferida.
Seligman (Stellan John Skarsgård)
Sendo cuidada por ele, Jo vai construindo com sua narrativa pormenorizada, e sempre pautada pelo sexo, a jornada que a levou àquela situação.

Ele, por sua vez, não a julga: apaixonado por pesca, traça paralelos entre as artimanhas para atrair peixes e as técnicas usadas por Joe para seduzir os machos com quem vai copulando pelo caminho - outras analogias virão, como quando ele associa o comportamento libertino da moça a uma composição de Bach.

Joe é uma predadora sexual, os homens são meros objetos e sua conduta é de psicopata, sem qualquer tipo de sentimento ou remorso e o único homem que a faz demonstrar emoção é o pai (Christian Slater).

Christian Slater é o pai de Jo
O ápice de sua indiferença se dá numa das melhores cenas dessa primeira parte, quando tem de lidar com uma mulher traída vivida por Uma Thurman - breve alívio cômico para um filme pesado, de se cortar com faca de tão denso.

Uma Thurman: breve alívio cômico para um filme pesado
O espectador continua a seguir Jo e suas trepadas, até que de repente sobem os créditos.

Diferente de outras produções divididas em capítulos, o 'volume 1' não tenta fechar um ciclo, o corte é sem aviso e fica a sensação de que acabamos vendo um filme pelo meio.

Se a outra metade for assim - serão mais duas horas de projeção - o longa não se sustenta.

Porém, Lars von Trier é um diretor extremamente talentoso e pode surpreender e eu vou realmente precisar assistir ao resto para saber.

Por enquanto, mais morno que frio e sem a parte dois, precisa dizer a que veio.

Confira o trailer do longa:


*****
'NINFOMANÍACA - PARTE 1'
Gênero:
Erótico
Direção:
Lars von Trier
Roteiro:
Lars von Trier
Elenco:
Charlotte Gainsbourg, Christian Slater, Connie Nielsen, Jamie Bell, Jean-Marc Barr, Mia Goth, Michäel Pas, Shia LaBeouf, Sophie Kennedy Clark, Stacy Martin, Stellan Skarsgard, Udo Kier, Uma Thurman, Willem Dafoe
Produção:
Bert Hamelinck, Bettina Brokemper, Louise Vesth, Maj-Britt Paulmann, Marianne Jul Hansen, Marianne Slot, Marie Cecilie Gade, Peter Aalbæk Jensen, Peter Garde, Sascha Verhey
Fotografia:
Manuel Alberto Claro
Montador:
Molly Marlene, Stensgaard
Duração:
118 min.
Ano:
2013
País:
Dinamarca
Cor:
Preto e Branco
Estreia no Brasil:
10/01/2014
Distribuidora:
Califórnia Filmes
Estúdio:
Zentropa Entertainments
Classificação:
18 anos
Classificação do Klau (Parte '):

sábado, 18 de fevereiro de 2012

62º FESTIVAL DE BERLIM PREMIA COM O URSO DE OURO OS IRMÃOS TAVIANI E SUA ADAPTAÇÃO LIVRE DE UM TEXTO DE SHAKESPEARE INTERPRETADA POR DETENTOS ROMANOS


E as apostas da maioria se confirmaram.

Os irmãos Taviani receberam neste sábado à noite o Urso de Ouro  - prêmio máximo do 62º Festival de Berlim - por "César deve morrer" - adaptação livre de "Julio César" de Shakespeare, interpretada por detentos de um pavilhão de uma penitenciária de segurança máxima de Roma.

Paolo e Vittorio Taviani são cineastas já octogenários, sempre trabalharam juntos e sempre se recusaram a trabalhar separados - o filme dos dois superou outros 17 que estavam em competição  desde que a Berlinale 2012 começou, em 9 de fevereiro.

O júri, presidido pelo cineasta britânico Mike Leigh, era composto sobretudo por atores -
Jake Gyllenhaal, Charlotte Gainsbourg e Barbara Sukowa - e por diretores - o iraniano Asghar Farhadi,o francês François Ozon e o holandês Anton Corbij.

A ideia de "César deve morrer"  - em parte filmado em preto e branco -  veio quando os irmãos assistiam a uma representação de "Inferno" de Dante, na penitenciária de Rebbibia, em Roma.
AFP
Os diretores do filme César Deve Morrer, Vittorio e Paolo Taviani comemoram conquista
Os irmãos Taviani recebem o prêmio máximo da Berlinale -o Urso de Ouro de Melhor Filme, agora a pouco, em Berlim

Ao receberem o Urso de Ouro, os irmãos foram pródigos em declarações:

"Neste juri, conhecemos muitos rostos de pessoas que fizeram cinema, cinema que nós apreciamos", declarou Paolo.
"Espero que quando esse filme for apresentado ao público, alguns voltem para casa e se digam (...) que mesmo os criminosos duros, condenados à prisão perpétua, são e permanecem homens", disse ainda Paolo.

"Isso permitiu (aos prisioneiros) durante alguns dias voltar à vida. Isso durou apenas alguns dias, mas eles fizeram isso com uma grande convicção e é para eles que vai a nossa saudação", disse Vittorio.

A escolha do elenco, parte integrante do filme com os testes diante da câmera, apresentou uma Humanidade sem mulheres, condenada a pesadas penas por assassinatos, tráfico de drogas, contravenções múltiplas das leis anti-máfia.

Quanto à escolha de "Julio César", ela está ligada a uma frase da peça, quando é dito a respeito do assassino de César: "Brutus é um homem de honra".

"É uma linguagem à siciliana, que fala a esses homens saídos da máfia, da N'dranghetta, da Camorra: as conspirações, os segredos, as traições, eles também a conhecem", disse Vittorio após a exibição do longa na Berlinale - desde então, o filme esteve presente em praticamente todas as apostas como o grande favorito dessa edição.

Filhos de um advogado toscano anti-fascista, os irmãos Taviani são conhecidos por seu cinema comprometido com a realidade social de seu país.

Foi essa, como na tradição, a tonalidade geral da seleção, baseada nas viradas abruptas da história.

Entre os outros premiados da noite está "Barbara", elogiado pela imprensa e pelo público alemães, que conta a história de uma médica (Nina Hoss) vigiada durante nove anos antes da queda do Muro de Berlim pela Stasi, a polícia secreta da antiga-RDA - o filme recebeu o Urso de Prata de melhor diretor para Christian Petzold.

O Grande Prêmio do Júri ficou com um drama húngaro sobre o destino dos ciganos, "Apenas o vento", de Bence Fliegauf - no momento em que um governo nacionalista autoritário está no comando em Budapeste.

O Urso de Prata de melhor atuação feminina ficou com uma ex-menina de rua de Kinshasa - a congolesa Rachel Mwanza - por seu papel de uma criança-soldado em "Rebelde", do canadense Kim Nguyen.

O de Melhor Ator recompensou a atuação do dinamarquês Mikkel Boe Folsgaard - em "A Royal affair", de seu compatriota Nikolaj Arcel.
O filme recebeu também o prêmio de melhor roteiro.

Merece destaque também uma "menção especial do júri" - prêmio criado por Mike Leigh para saudar o filme da diretora franco-suíça Ursula Meier, "L'Enfant d'en haut", fábula social entre a região industrial e as ricas áreas mais altas suíças, entre um menino angustiado e sua irmã mais velha imatura.

O cineasta português Miguel Gomes foi agraciado com o Prêmio Alfred Bauer e o da crítica internacional Fipresci por seu filme "Tabu".
"Espero que seja decisivo em um momento no qual em Portugal se está decidindo como tem que ser a contribuição do Governo para o cinema", declarou o diretor, ao se referir a seu prêmio e ao de seu compatriota João Salaviza, ganhador do Urso de Ouro de melhor curta-metragem.

Ele afirmou que "um país precisa de filmes, mas se não há dinheiro, não há mercado", ao mesmo tempo em que assinalou que se trata de "um conceito de serviço público que está desaparecendo em Portugal".

Gomes dedicou seu prêmio ao recebê-lo durante a festa de encerramento do Festival "ao talento dos diretores do cinema português, que estão há 50 anos fazendo cinema independente do poder político e econômico".

O filme que ganhou o Alfred Bauer - prêmio adotado em memória do fundador do festival e outorgado a uma obra que abra novas perspectivas na arte do cinema - é uma história de amor filmada em preto e branco, ambientada na África colonial.

"Estou muito feliz com o prêmio, embora seja à inovação e meu filme seja feito à moda antiga. Mas é muito moderno agora fazer filmes à antiga", disse sobre seu filme, coproduzido por Brasil e Portugal.

Segundo Gomes, "o que conta realmente é tentar mostrar coisas, o que acontece entre os personagens e as emoções da melhor maneira, e às vezes você tem que fazer isso em preto e branco".

Salaviza, que levou o Urso de Ouro do júri do "Festival de Berlim Shorts" por seu curta-metragem "Rafa", lembrou durante a entrevista coletiva que a situação em Portugal "não está fácil".

Por isso, expressou sua esperança de que o prêmio contribua para melhorar a situação, já que "o cinema não teve muito apoio nos últimos 10-12 anos com os sucessivos Governos".

"Quero dedicar o prêmio também ao Governo português. Se este ano fizer um bom trabalho, dedicarei a ele o prêmio, portanto é uma dedicatória com condição", declarou, acrescentando: "Em Portugal temos problemas e não sabemos o que vai acontecer com o cinema".

A obra premiada, uma coprodução luso-francesa intitulada "Rafa", conta a história de um adolescente de 13 anos cuja mãe não retorna para casa nos subúrbios de Lisboa em uma manhã, depois de ter passado a noite com um homem.

Também houve uma menção especial do júri do "Festival de Berlim Shorts" ao curta brasileiro "Licuri Surf", de Guile Martins, que convida a percorrer a costa do Brasil em um filme de aventuras sobre o surfe.

A fita, de 15 minutos, transfere o espectador ao mundo dos jovens indígenas que sobre sua prancha de surf procuram desfrutar a próxima onda.

A Berlinale 2012 será fechada oficialmente amanhã à noite com a exibição para o público do filme ganhador do Urso de Ouro.

Tuitadas, por Alessandro Giannini, do UOL em Berlim:

O jornalista do UOL cobriu todos os dias da Berlinale 2012, e de lá tuitou muito.

O UOL separou 17 tuites de Giannini, que abrangem tudo o que de melhor aconteceu na edição 2012 do Festival.
UOL
Alessandro Giannini
O jornalista Alessandro Giannini

Confira:

"O Festival de Berlim 2012 resultou em um saldo positivo, embora a edição deste não tenha sido tão fértil em descobertas quanto a de 2011. Muitas das principais descobertas, como o documentário "Ai Weiwei: Never Sorry", estavam nas mostras paralelas".

"'War Witch' é um retrato da agonia das crianças-soldado africanas, vítimas do tráfico de minério e da corrupção dos governos".

"O filme "A Royal Affair" retoma um período conturbado da história da Dinamarca, com intrigas e conspirações shakespeareanas".

"Confuso, extenso e excessivo, o alemão "Gnade" só explica sua seleção para a mostra competitiva pela nacionalidade".

"Último filme a entrar no Festival, "White Deer Plain" é um épico sobre o fim da era imperial na China. Longo e difícil."

"'A Dama de Ferro' mostra mais do q 1 velha senhora acometida pela demência. É tb um retrado dos efeitos colaterais do poder".

"Na mostra Panorama, "Xingu" mostra a aventura de 3 irmãos que se transformou na luta pelos direitos dos índios".

"Em "A Toda Prova", de Steven Soderbergh, o elenco todo é formado por personagens masculinos, inclusive Gina Carano".

"O indonésio "Postcards From The Zoo" faz 1 curioso paralelo entre a vida dentro e fora de um zoo, e entre humanos e animais".

"Co-produção brasileira, "Tabu" faz experiências com som, imagem e cita clássicos do cinema. Um filme poderoso e difícil".

"'Sister' mostra sem muita convicção as diferenças sociais na Suíça por meio da história de uma jovem e seu "irmão'".

"Em "Jane Mansfield's Car", BB Thornton faz sua versão de Festa em Família".

"Em "Flowers of War", Christian Bale encarna um anti-herói, apenas para variar. Mas você reza para ele invocar Batman".

"'Ai Weiwei: Never Sorry' explica de fato a arte pelo artista, a obra pelo homem, e não o contrário".

"'Shadow Dancer', de James Marsh (O Equilibrista), mostra o conflito entre Irlanda do Norte e Reino Unido de forma inédita".

"Extenso e reiterativo, "Marley" se excede na homenagem ao cantor, compositor e pacifista jamaicano".

"O alemão "Barbara" mostra a Alemanha Oriental de um modo diferente e menos preconceituoso, com a ajuda de um elenco muito bom".

"'Cesare Deve Morire' mostra que os veteranos irmãos Paolo e Vittorio Taviani, 80 e 82 anos, não perderam o foco".

Prêmios do Júri Internacional de Curtas-Metragens

Menção Especial

Licuri Surfe, de Guile Martins

Urso de Prata como Prêmio Especial do Júri

The Great Rabbit, de Atsushi Wada

Urso de Ouro para Melhor Filme

Rafa, de João Salaviza

Prêmio de Melhor Filme de Estreia entre selecionados para Competição, Panorama, Fórum, Generation e Perspektive Deutsches Kino

Menção especial para filme da mostra Forum

Tepenin Ardi, de Emin Alper

Melhor Filme de Estreia

Kawboy, de Boudewijn Koole

Prêmios do Júri Internacional

Menção Especial

L'Enfant d'en Haut, de Ursula Meier

Prêmio Alfred Bauer em memória do fundador do festival

Tabu, de Miguel Gomes

Urso de Prata para melhor contribuição artística nas categorias fotografia, edição, trilha sonora, figurino ou cenografia

Melhor fotografia

Lutz Reitmeier, pelo filme Bay Lu Yuan

Urso de Prata de Melhor Roteiro

Nikolaj Arcel e Rasmus Heisterberg, por A Royal Affair

Urso de Prata para Melhor Atriz

Rachel Mwanza, por The War Witch

Urso de Prata para Melhor Ator

Mikkel Boe Foslgaard, por An Royal Affair

Urso de Prata para Melhor Diretor

Christian Petzold, por Barbara

Urso de Prata - Grande Prêmio do Júri

Just The Wind, de Bence Fliegaulf

Urso de Ouro de Melhor Filme

Cesare Deve Morire, de Paolo e Vittorio Taviani