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domingo, 9 de maio de 2010

"VATICANO ENCARA DENÚNCIAS DE UMA MANEIRA ERRADA"

ENTREVISTA - WALTER ROBINSON

Para jornalista responsável por noticiar acobertamento de pedofilia pela Igreja Católica em Boston em 2002, instituição não aprendeu nada com aquele episódio

MARCOS FLAMÍNIO PERES
DA REPORTAGEM LOCAL


Eram correntes os relatos de que padres da Arquidiocese de Boston abusavam sexualmente de crianças e jovens, mas foi apenas quando o "Boston Globe" decidiu investigar o assunto a fundo que as suspeitas se comprovaram -e eram piores do que se supunha.
Publicadas a partir de janeiro de 2002, as reportagens revelaram que o cardeal Bernard Law acobertou o padre John Geoghan, apesar das provas -recolhidas em dezenas de milhares de documentos da arquidiocese- de que molestava crianças havia ao menos uma década.
A estratégia foi transferi-lo de paróquia a paróquia.
Law, então um notório defensor de direitos humanos e pessoa de confiança do papa João Paulo 2º, caiu em desgraça e foi obrigado a renunciar.
A equipe do "Globe" -que, no ano seguinte, ganharia o Pulitzer (o maior prêmio do jornalismo mundial) pela investigação- era liderada por Walter Robinson, ele próprio um católico vivendo em meio a uma das maiores dioceses católicas dos EUA.
"O mais difícil não era acreditar que padres abusavam de crianças, porque sabia que isso existia, mas, sim, acreditar que a igreja tenha encoberto a história, enviando-os a novas paróquias, onde teriam oportunidade de praticar outros abusos", afirma Robinson em entrevista concedida à Folha de Boston, onde hoje, após deixar as Redações, leciona na Universidade Northeastern.
Como resultado do trabalho, a arquidiocese quase faliu com as indenizações que teve de pagar, e outros casos vieram à luz pelos EUA.
Geoghan foi condenado a quase dez anos - em 2003 seria estrangulado na prisão.
Law é hoje arcipreste da basílica de Santa Maria Maggiore (Roma).
*****
A entrevista foi publicada na "Folha de S.Paulo" de hoje, editada.
Na íntegra, você só lê na Folha Online e aqui :

O jornalista ganhador do Prêmio Pulitzer, Walter Robinson

Folha - Passados 18 anos da revelação do caso Bernard Law pelo "Globe", o que a igreja católica aprendeu com o assunto?

Walter Robinson- Não acho que o Vaticano tenha aprendido alguma coisa com isso. Sua visão é de que os católicos não têm o direito de saber os detalhes de casos assim e que a imprensa secular não tem nenhum direito de fazer perguntas.

Folha- Mesmo hoje?

Robinson- Mesmo hoje. As críticas feitas agora são ainda mais duras do que em 2002, contra o "Globe". À época, ninguém chegou a sugerir que se tratava de um complô de judeus, da mídia ou de qualquer coisa do gênero. Ninguém dizia explicitamente que era uma tentativa de atingir o papa e a igreja. Nesse sentido, acho que o Vaticano está lendo a situação toda de maneira errada.

Folha- Qual foi sua reação quando deu de frente com os primeiros documentos provando o acobertamento, por parte da igreja, dos casos de abuso sexual?

Robinson- Quando conseguimos as primeiras centenas de páginas, lembro-me de ter relatado a história para o editor-executivo do jornal, que disse: "Não importa tanto o que está nos documentos, mas aquilo que não está".

Pois em nenhum lugar das milhares de páginas, com cartas do cardeal a seus subordinados, ele jamais expressou preocupação com o que havia acontecido às crianças.

Folha - O sr. recebeu apoio do jornal em todos os momentos da investigação?

Robinson- Sim, muito.

Folha - Qual foi a reação da enorme comunidade católica de Boston?

Robinson- Nos primeiros dias, houve alguns católicos proeminentes que acusaram o jornal de tentar atingir a igreja. Mas uma ou duas semanas depois das revelações, mesmo eles se calaram, pois todo mundo passou a entender quão sérios eram os crimes. O cardeal Law perdeu toda sua credibilidade.

Folha- E houve manifestações na cidade?

Robinson- Não contra o "Globe", mas a contra igreja. No início, pensávamos que haveria umas 500 pessoas protestando em frente à sede do jornal, mas isso nunca ocorreu.

Folha - Isso o surpreendeu?

Robinson - Foi uma surpresa, sim. Mas as evidências eram tão fortes que as pessoas se deram conta de que a questão toda era com a igreja, não com o "Globe".

Folha- Sem os documentos revelados pelo jornal mostrando que a diocese de Boston encobria abusos sexuais, provavelmente não haveria nada comprovado sobre isso até hoje. Qual foi a importância do caso Bernard Law para o futuro do jornalismo investigativo?

Robinson - Foi muito importante aqui nos EUA, pois lidávamos com uma instituição que não era de modo nenhum aberta, nem sequer a perguntas. Se tivéssemos ido adiante e escrito as histórias baseadas apenas nas acusações feitas por um pequeno número de vítimas, ninguém teria acreditado nelas. Então decidimos que tínhamos que ter os documentos.

A igreja não pode nos acusar de nada porque eles mostravam claramente o quanto bispos, arcebispos e cardeais estavam envolvidos em encobrir os crimes e permitir que continuassem.

Folha - Tomando esse caso como exemplo, qual era, ali, o limite entre jornalismo investigativo e sensacionalismo?

Robinson - Eu lhe digo onde havia, nesse caso. Tínhamos, na sede do "Globe", uma sala inteira repleta de caixas com dezenas de milhares de documentos. Neles havia grande quantidade de informações, com muito potencial sensacionalista, sobre o que os padres faziam com suas vítimas. Por exemplo, um caso de abuso contra um menino de quatro anos.

Mas fomos muito cuidadosos sobre o que publicaríamos. Raramente utilizamos detalhes explícitos e focamos no que os documentos diziam sobre as atitudes da alta hierarquia da igreja.

Não poderíamos desfazer o que havia sido feito às vítimas, mas tínhamos esperança de que, a partir dessas revelações, a sociedade civil e os católicos poderiam ajudar a mudar a instituição.

Folha -Hoje, o sr. avalia que ajudou a mudá-la?

Robinson - Não sei a resposta, mas, quanto ao futuro, acho que não há esperança para a igreja no mundo desenvolvido. Os EUA registram uma queda acentuada no número de católicos que vão à igreja e que contribuem com dinheiro. Isso também é verdade para a Irlanda.

Somos uma sociedade muito secular, com separação clara entre igreja e Estado. O crescimento e o poder da igreja é hoje muito mais forte na África, em partes da Ásia e na América Latina.

Folha - O que o sr. acha da atitude de Richard Dawkins e Christopher Hitchens de pedir a prisão de Bento 16 quando ele estiver em visita ao Reino Unido, em setembro próximo?

Robinson - Não concordo com essa posição, pois não acho que haja evidência para acusar o papa pelo crime.

Além disso - assim como descobrimos aqui, no caso do cardeal Bernard Law -, as autoridades civis decidiram que não poderiam processá-lo porque, nesse caso, teriam que processá-lo por ser cúmplice do crime e, para isso, teria que ser provado que a pessoa o arcebispo ou o cardeal sabia que os padres iam a suas paróquias para abusar das crianças.

Os bispos e a igreja foram muito ingênuos. Pensaram que, se os padres se arrependessem de seus pecados e fossem perdoados por eles, não iriam pecar novamente. Mas o que eles não entendiam é que isso era uma doença.

O que a igreja de fato precisa é prestar mais atenção às necessidades dos fiéis e das crianças e se preocupar menos em defender a hierarquia.

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domingo, 2 de maio de 2010

A SEMANA ILUSTRADA!

Do chilique - mais um! - do Richarlyson; da mancha de óleo no golfo do México ao Luiz Inácio chorando no primeiro de maio; da padrefolia - a sacranagem continua! - aos lançamentos da farmácia e da loja do Klau!

Confira as fotocharges da semana:

















sexta-feira, 30 de abril de 2010

PADRES DE ARAPIRACA INDICIADOS - CÂMARA QUER TORNAR PEDOFILIA CRIME HEDIONDO

Polícia indicia três padres pedófilos de Arapiraca (AL)
da Folha Online

Seis pessoas foram indiciadas pela Polícia Civil de Alagoas na última terça-feira (27), após a conclusão do inquérito que investigou denúncias de pedofilia envolvendo três padres da Igreja Católica na cidade de Arapiraca (140 km de Maceió).

Os monsenhores Luiz Marques Barbosa e Raimundo Gomes e o padre Edilson Duarte foram indiciados pelo crime de abuso sexual de menores. Além desse crime, o padre Edilson também foi indiciado por “importunismo ofensivo ao pudor” e ameaça, enquanto o monsenhor Luiz Marques foi enquadrado por oferecer bebidas alcoólicas a menores de 18 anos. Eles podem pegar penas entre quatro e dez anos de prisão.

Além deles também foram indicados por falso testemunho mais três pessoas – todas ligadas ao monsenhor Luiz Marques: o motorista José Reinaldo, a caseira Maria Izabel e a empregada doméstica Maria Batista. Elas teriam mentido em depoimentos à polícia. Reinaldo e Izabel chegaram a ser presos, no último dia 18, por conta da acusação, mas já foram libertados.

Segundo a delegada Maria Angelita, o caso já foi enviado ao Ministério Público de Alagoas, que deve oferecer denúncia a Justiça.

“Nós encerramos o nosso trabalho e recolhemos provas importantes contra os padres. O padre Edilson confessou os abusos, enquanto os dois monsenhores negaram. Mas existiram muitos depoimentos interessantes, dando conta que eles praticaram o abuso”, explicou a delegada.

O monsenhor Luiz Marques, de 83 anos - aquele que foi filmado fazendo uma gostosa "chupetinha" num ex-coroinha, aos pés de um crucifixo - segue detido, já que teve prisão domiciliar decretada recentemente pelo juiz Rômulo Valença.
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Comissão da Câmara prepara projeto que torna pedofilia crime hediondo
da Agência Câmara
A Comissão de Legislação Participativa vai propor um projeto de lei que tipifique a pedofilia como crime hediondo. A sugestão foi feita pela ONG Instituto de Apoio Popular - Phoenix e aprovada nesta quarta-feira (28).

Em parecer favorável à sugestão apresentada, o deputado Luiz Couto (PT-PB), destacou o fato de a pedofilia estar alcançando "níveis alarmantes" em todo o País, sobretudo com o uso da internet como instrumento de cooptação de vítimas, o que, segundo ele, exige uma postura mais rigorosa por parte das autoridades.

"A proposta de tornar a pedofilia crime hediondo é adequada como forma de combate e punição efetiva desses crimes. Os pedófilos não podem ficar circulando livremente pelas ruas e fazendo vítimas, enquanto a Justiça decide acerca das ações penais a eles relativas", afirma o deputado.

Para o Instituto Phoenix, a pedofilia deve ser qualificada de crime hediondo por sua “repulsa social”. Segundo a entidade, esse crime é grave e revoltante, merecendo figurar entre aqueles que merecem maior reprovação pelo Estado.
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Enquanto isso, em Franca(SP)...
da Agência Estado

A Justiça de Franca (400 km de São Paulo), aceitou a denúncia do Ministério Público contra o padre José Afonso Dé, de 74 anos, acusado de pedofilia.

O padre foi indiciado pela polícia por dois crimes: estupro de vulnerável (menor de 14 anos) e violação sexual mediante fraude. O juiz Wagner Carvalho Lima, da 2ª Vara Criminal de Franca, cuidará do caso, que está sob segredo de justiça. O promotor que ofereceu a denúncia é José Lourenço Alves, da região de Ribeirão Preto (SP).

Sete jovens entre 12 e 16 anos informaram à Polícia Civil que Dé teria os beijado e acariciado seus órgãos genitais neste ano. O caso chegou à Delegacia de Defesa da Mulher em meados de março, após denúncia ao Conselho Tutelar do município.

Outros dois adultos, que teriam sido molestados pelo sacerdote quando menores, foram ouvidos e também acusaram o religioso. Dé afirmou em depoimento e em entrevistas que é inocente. O religioso disse ter ficado perplexo com as acusações. "Sou afetivo, gosto de abraçar as pessoas, beijá-las. Ainda mais depois que nasceram meus netos [18, de dez filhos adotivos]. É meu modo de ser. Pode acontecer que esse meu jeito tenha gerado alguma interpretação diferente", teve a cara de pau de dizer o véio safado.

Desde 26 de março, o padre foi afastado de suas atividades pelo bispo de Franca, Pedro Luiz Stringhini. O bispo encaminhou formalmente o caso à Nunciatura Apostólica, que funciona como uma embaixada do Vaticano no Brasil.
E a CPI da Pedofilia já declarou que vai convocar o padre para prestar esclarecimentos.

Caso seja condenado, o padre pode pegar pena entre 6 e 20 anos, reduzida à metade por ele ter mais de 70 anos.

Por mim, apodreceria na cadeia.

domingo, 18 de abril de 2010

PADRES TARADOS DE AL NA CPI DA PEDOFILIA

Carlos Madeiro
Especial para o Em Arapiraca (AL)

Com vítimas de até 9 anos, pedofilia de padres em Alagoas envolve orgias com bebida e ameaças de morte

Acareação entre padre Edílson Duarte (centro) e três ex-coroinhas (de costas) confirma abuso

As denúncias de pedofilia envolvendo padres e monsenhores de Arapiraca (AL) apontam para a existência de uma rede de abuso sexual ampla e que não envolveria apenas assédio a coroinhas.
Ameaças de morte, bebidas, orgias e dinheiro compõem um dos maiores esquemas envolvendo religiosos já descoberto no país.
Relatos de pais apontam que nem mesmo as crianças em confessionários escapam.

Após centenas de investigações de casos de pedofilia no país, o senador Magno Malta (PR-ES), presidente da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Pedofilia, afirma que, pela primeira vez, investiga um esquema de abuso sexual com ameaça de mortes às vítimas.
“O que choca é que envolve religiosos. Que ele é homossexual e religioso, tudo bem. Mas ameaça de morte? Ou seja, não pode revelar a verdade? Não pode abrir a boca? Isso é absolutamente grave”, afirmou.

As revelações de ameaças de morte foram feitas durante as sessões deste sábado (17).
O padre Edílson Duarte aparece em uma gravação, em poder da Polícia Civil, comentando sobre recentes denúncias envolvendo os padres.
Na conversa --gravada por um coroinha--, ele afirma que o ex-coroinha Fabiano Silva Ferreira “só tem a perder” ao denunciar o caso, pois “vamos estar lindas e maravilhosas velando o corpo dele”.
As investigações apontam que pelo menos três párocos se comunicavam com frequência sobre os assédios.

O ex-coroinha Cícero Flávio Vieira Barbosa confirmou ao UOL Notícias que sofreu ameaças desde que denunciou o caso ao bispo da Diocese de Penedo, em março de 2009.
“Nosso advogado informou todas as denúncias de pedofilia ao bispo e, desde lá, ao invés de apurar, só passamos a receber ameaças indiretas”, contou.

Orgias com bebidas também compõem o cenário.
Adolescentes relatam que eram comuns as realizações de festas promovidas pelos religiosos.
Uma casa no balneário da Barra de São Miguel também seria usada.
O padre Edílson Duarte confessou em depoimento que chegava a dar conhaque aos ex-coroinhas.

As orgias aconteciam, na maioria das vezes, nas igrejas ou casas paroquiais de Arapiraca.
“Eles embebedavam a gente e praticavam sexo”, denunciou Fabiano.

De acordo com as investigações, os padres também aliciavam menores oferecendo dinheiro e bolsas em colégios particulares da cidade.
“Ele me dava cinco, 10 reais.
Era um cala boca, para que não denunciássemos, como se fossemos garotos de programa”, alegou Cícero, em depoimento, sendo confirmado pelo padre Edílson Duarte.

Cícero contou que foi assediado pela primeira vez quando tinha 12 anos pelo monsenhor Luiz Marques Barbosa.
Ele também teria sido assediado por outro monsenhor, Raimundo Gomes.
“Fui assediado por três párocos durante oito anos.
Eles acabaram com a minha vida e quero que seja feita justiça”, disse, afirmando que não pensa em pedir indenização à Igreja Católica.

Outro ex-coroinha, Anderson Farias Silva, contou à reportagem que teve a primeira relação sexual com um religioso aos 13 anos.
“Ele me convidou para a casa paroquial, ficou fazendo elogios. Depois que começaram a me abusar, os monsenhores ficavam com raiva se não fizesse sexo com ele.
Havia muita pressão, e nunca tinha contado isso a ninguém”, assegurou o jovem, hoje com 22 anos.

Pais de crianças procuraram a polícia e a CPI da Pedofilia para denunciar abusos de padres em confessionários. Abelardo José Leite contou que o filho, de apenas nove anos, foi assediado pelo padre Edílson Buarque várias vezes ao se confessar.

A criança foi ouvida pela perita carioca e psicóloga Tatiana Hartz, que confirmou as denúncias.
“Ele disse que o padre tentou beijá-lo, apalpou, dizia que ele era bonito. Ele tirava fotos também. Isso causa um dano muito grande à formação da criança”, afirmou.
Outros três pais de crianças denunciaram formalmente à polícia e a CPI casos semelhantes envolvendo o mesmo padre, que, neste sábado, confirmou que abusou de pelo menos dois coroinhas.

Para a psicóloga, abusos praticados por pessoas influentes, como padres, causam traumas graves a adolescentes. “A criança abusada vai por curiosidade e às vezes acaba gostando e se sente culpada por isso. Ela enxerga num adulto uma ameaça e acaba não contando nada. Os danos dependem de cada um, mas ela pode alternar o comportamento ou mesmo ir para um quadro psiquiátrico”, relatou.

''Podemos estar diante de um esquema nacional'', diz senador

Depois de colher os primeiros depoimentos de vítimas e testemunhas de um suposto esquema de abuso sexual a coroinhas em Arapiraca (AL), e da confissão de um padre acusado, o presidente da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Pedofilia, senador Magno Malta (PR-ES), afirmou neste sábado (17) que, ao contrário do que imaginava, o esquema descoberto em Alagoas é "muito grande” e pode não ser restrito ao Estado.

“É surpreendente e deu para ver que o esquema é muito grande. O monsenhor [Luiz Marques Barbosa] já foi capelão em São Paulo e essa coisa tem ramificação. Podemos estar diante de um esquema nacional. Vamos investigar”, assegurou, no intervalo entre os depoimentos, que acontecem no Fórum da cidade.

Diante do volume de denúncias recebidas desde a sexta-feira (15), o senador já pediu o adiamento da apresentação do relatório final da CPI – o prazo salta de maio para novembro. “Temos muita coisa a investigar ainda”, adiantou Malta.

Com depoimentos previstos apenas até este domingo (18), o senador, que comanda os trabalhos na cidade do agreste alagoano, já prevê um retorno em breve ao Estado. “Vamos ter mais oitivas em Brasília, mas pela quantidade de supostas vítimas que nos procuraram aqui, é bem provável que tenhamos que voltar por pelo mais três dias em Arapiraca”, disse.

Neste sábado, a CPI fez um convite formal ao bispo da Diocese de Penedo, Dom Valério Brêda, para que preste depoimento até este domingo. Ele foi citado no depoimento do padre Edílson Duarte, nesta manhã, que afirmou que Brêda era conhecido pelos padres acusados como “Vera Fisher”, além de outros relatos de vítimas que afirmam que ele foi informado de todo o esquema em março do ano passado.

“Ele está sendo convidado, e não intimado, e não terá nenhum problema se não vier. Mas acho que ele deve explicações à sociedade católica alagoana, e seria muito interessante que ele viesse explicar tudo aqui”, afirmou.

Malta considerou fundamental a confissão de que abusou de coroinhas do padre Edílson Duarte. “Foi uma confissão que comprova as denúncias e se torna pedagógica, porque abre caminho para que os outros façam isso. Ele tem muita coisa a apresentar à CPI e às autoridades de Alagoas que comandam as investigações”, assegurou.

Edílson teve direito a delação premiada e passou a ser ouvido reservadamente não só por membros da CPI, como por integrantes do Ministério Público Estadual e da Polícia Civil.

Em depoimento à CPI, padre admite abuso sexual a ex-coroinhas e pagamento de sexo com dízimo

O padre Edílson Duarte admitiu neste sábado (13) em depoimento à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Pedofilia, em Arapiraca (AL), que abusou sexualmente de ex-coroinhas.
Acareado com três adolescentes, ele reconheceu que praticou sexo com dois deles -ainda menores de idade - e pagou algumas vezes os jovens com dinheiro da oferta dada pelos fiéis à Igreja.

Depois de várias negativas de ser homossexual e de abusos sexuais, ele acabou reconhecendo quando os ex-coroinhas Cícero Flávio Vieira Barbosa, Fabiano Silva Ferreira e Anderson Farias Silva foram chamados ao plenário para acareação.
“Sim, tive relações sexuais com dois deles. Menos com o Anderson”, disse, para espanto dos presentes ao Fórum da cidade.

O ex-coroinha Fabiano afirmou que teve a primeira relação com o padre aos 16 anos, na catedral da cidade. “Ele perguntou minha idade e mesmo assim praticou o ato”, disse, o que foi confirmado pelo padre.

“Às vezes eles nos dava cinco, 10 reais. Era um cala boca para que a gente não contasse, como se fossemos garoto de programa”, afirmou Cícero Flávio.

O senador Magno Malta perguntou se o dinheiro que ele deu aos jovens se tratava de dízimo e contribuição de fiéis nas missas.
“Olha para eles [fiéis presentes ao Fórum]. O senhor pegou o dinheiro do dízimo deles para pegar no pênis deles?”, perguntou o senador. “Sim”, respondeu o padre, baixando a cabeça em seguida.

Diante da manifestação do público, o senador Magno Malta (PR-ES), presidente da CPI, pediu calma às cerca de 200 pessoas que acompanhavam o depoimento.
“Peço que as pessoas não se manifestem, que isso é uma coisa séria.

Ele é humano, erra e é digno da misericórdia. Ele não tem como mentir e está em total desvantagem”, afirmou.

O padre ainda respondeu que “pode ser” que tenha abusado de outros adolescentes.
“Crianças, não. Mas adolescentes, podem aparecer”, confirmou.

Constrangido com a situação, ele chegou a rogar pelo perdão de Nossa Senhora.
“Se Nossa Senhora entrasse ali agora, diria: ‘perdoa os seus filhos que têm pecados’. A Igreja nunca erra, só as pessoas”, disse.

Após as declarações, o senador e integrantes do Ministério Público Estadual (MPE) ofereceram ao padre o benefício da delação premiada para que ele conte o que sabe sobre o abuso a crianças e adolescentes de outros padres.

A sessão foi suspensa para que Edílson relatasse, em particular, detalhes sobre o suposto esquema de pedofilia na cidade.

Monsenhor admite sexo com coroinha, se compara a Jesus e diz que bispo sabia dos casos

O monsenhor Luiz Marques Barbosa reconheceu que manteve relações sexuais com um ex-coroinha, mas negou a prática de pedofilia.
Ele prestou depoimento na tarde deste domingo (18) a integrantes da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Pedofilia, no Fórum de Arapiraca (AL), pediu “perdão pelo pecado” e se comparou a Jesus Cristo. “Renova-se em mim o que ouvi na Sexta-feira Santa, que foi Jesus dizendo: ‘tiraram minha roupa, cuspiram sobre mim e me crucificaram’. É isso que estou passando”, relatou, para, em seguida, pedir perdão aos presentes ao depoimento. “Queria pedir que atendessem ao meu clamor: perdoem-me! Já me confessei a Deus também”.

Monsenhor Luiz Marques Barbosa (à esq.) presta depoimento atrás de 15 garrafas de bebidas alcoólicas que foram apreendidas em sua casa

O monsenhor foi flagrado em vídeo fazendo sexo com o ex-coroinha Fabiano Silva Ferreira, à época com 18 anos. As imagens foram exibidas ao público durante o depoimento. “Foi o único ato que pratiquei”, alegou.

Barbosa foi o segundo pároco a reconhecer as denúncias de abuso – neste sábado (17), o padre Edílson Duarte reconheceu que fez sexo com adolescentes.

O monsenhor voltou a fazer comparação com Jesus em momento do depoimento, ao ser dizer traído pelos ex-coroinhas. “Lamento que essas acusações tenham partido de pessoas que comeram na minha mesa, assim como Jesus disse: ‘eles que comeram do meu pão é que me traíram’. Eles estão aqui na minha frente e, não sei se por fraqueza, agora eles me atiram pedras”, disse.

Luiz Marques ainda confirmou que tinha informações de que o padre Edílson Duarte abusava de crianças e adolescentes na casa paroquial e que tomou as providências cabíveis. “A gente sabia que ele fazia essas coisas uma ‘vezinha’ ou outra. Eu dava conselhos a ele. Não o afastei porque não sou o bispo, mas ele [Dom Valério Brêda, bispo de Penedo] foi informado”, confidenciou. “Vamos convocar o bispo então”, adiantou o senador Magno Malta, presidente da CPI da Pedofilia.

O senador Magno Malta ainda apresentou, durante o depoimento, cerca de 15 garrafas de bebidas alcoólicas apreendidas um dia antes na casa do monsenhor – que instantes antes tinha negado ter oferecido bebidas a coroinhas. “Também foi encontrada creme vaginal, monsenhor. Para que o senhor quer?”, questionou Malta. “Não é meu. Deve ter sido a minha irmã ou uma visita que esqueceu”, respondeu o monsenhor, dizendo ser “normal oferecer bebidas às visitas”.

O depoimento foi marcado por denúncias de supostas vítimas. O ex-coroinha Cícero Flávio Vieira Barbosa alegou que teve a primeira relação sexual com o monsenhor aos 12 anos de idade, na casa paroquial de São José. “Tive inúmeras relações com ele”, alegou.

Fabiano também relatou que começou a ser abusado sexualmente pelo monsenhor aos 12 anos de idade. “Ele pediu para entrar no escritório dele, pediu para sentar e perguntou sobre minha família, tentou beijar a boca, pegando na minha genitália. Ele viu que estava apavorado e me deixou ir. Mas depois foi insistindo e acabei cedendo”, alegou.

Como recompensa por ser “bom coroinha”, o monsenhor teria pago um ano de mensalidade em colégio particular da cidade. “Além disso, ele tirava dinheiro do dízimo, 10, 15 reais para nos dar”, contou aos membros da CPI e da Polícia Civil, que também acompanham o depoimento.

Em sua defesa, o monsenhor alegou que manteve relação sexual com Fabiano, mas apenas quando ele tinha mais de 18 anos e de forma consensual. “Não sou pedófilo. A pessoa que esteve ali comigo quis manter aquele contato. O vídeo é a única prova que têm”, relatou.

Primeiro a depor neste domingo, o monsenhor Raimundo Gomes negou qualquer envolvimento com crianças e adolescentes e afirmou ser vítima de uma “vingança”.

Ele alegou ainda que ex-coroinhas tentaram o extorquir. “O Anderson [Farias Silva, ex-coroinha] vivia me procurando para dizer que, se não desse dinheiro, iria divulgar o vídeo [em que o monsenhor Luiz Marques Barbosa aparece fazendo sexo com um adolescente]. Sou padre por vocação, por amor a Deus, à Igreja e aos meus irmãos. Sempre tive respeito a meu povo e, sobretudo, aos coroinhas. Nunca abusei, nunca peguei em órgão genital de coroinha em altar, como me acusam”, disse.

Acompanhado da família, o coroinha Anderson relatou que teve o primeiro contato sexual com o monsenhor aos 14 anos, na casa paroquial. “Ele se tornou muito amigo da minha família e, um certo dia, pediu para que dormisse na casa dele porque disse que tinha medo de dormir só. Aí comecei aí e ele começou a me assediar e praticar sexo”, afirmou.

No momento mais tenso do depoimento, ouve bate boca entre familiares do ex-coroinha, depois que o monsenhor alegou que a família estava mentindo e pediu que Deus rogasse “misericórdia pela mentira deles”. Outro ex-coroinha, Cícero Flávio, também assegurou ter mantido relações sexuais com o monsenhor inúmeras vezes.

O senador Magno Malta ainda argumentou que uma gravação apresentada à Polícia mostra o padre Edílson Duarte falando ao ex-coroinha Cícero Flávio que “o monsenhor Raimundo gosta de menino novo”. “Todos conhecem o padre Edílson Duarte, que ele fala demais, é desmiolado”, rebateu o monsenhor.

O padre Edílson Duarte, que foi chamado para uma acareação, confirmou a versão apresentada pelos ex-coroinhas e, em seguida, pediu proteção policial. “O monsenhor Raimundo é muito perigoso”, alertou.

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Conteúdo publicado a pedido da minha consciência

sexta-feira, 16 de abril de 2010

IGREJA TRANSFERIU SUSPEITO DE ABUSO PARA O BRASIL

Levantamento da Associated Press em 21 países revela 30 casos de padres mandados ao exterior após denúncias de pedofilia

Críticas a clérigo que atuou com índios após suspeita nos EUA surpreendem no Pará; padre fundador de abrigos na Bahia foi morar na África

DA REDAÇÃO

Levantamento realizado pela agência Associated Press em 21 países revelou ontem 30 casos de padres que, depois de sofrerem denúncias de abuso sexual contra crianças e adolescentes, foram para outros países.
Dois desses casos envolvem o Brasil.
O primeiro é o do padre xaveriano Mario Pezzotti, acusado pelo americano Joseph Callander de abuso e de estupro, em 1993.
Os crimes, dizia Callander, tinham ocorrido em 1959, quando estudou em um extinto colégio xaveriano do Estado americano de Massachusetts.
O caso acabou num acordo indenizatório de US$ 175 mil.
Na época, num bilhete, o padre disse que achara "a cura" no Brasil.
Dez anos mais tarde, Callander descobriu que o novo trabalho do padre era com crianças da tribo caiapó, no Pará.
Ele reclamou, e o padre foi enviado à Itália apenas para, em 2008, retornar ao Brasil.
Na internet, o padre está abraçado a crianças, em fotos tiradas em Redenção (PA).
"Eu esperava que eles o mantivessem distante de crianças", disse Callander à Folha.
"Ele merece ficar na cadeia, como qualquer criminoso", disse.
O padre Robert Maloney, que atuou no acordo entre Pezzotti e Callander, disse que o colega só pôde trabalhar com crianças após avaliação e que não houve queixas contra ele.
De fato, na Amazônia, a denúncia gerou surpresa.
"Eu conheci o padre Mario em 1980 e nunca ouvir dizer algo a respeito dele. É uma pessoa correta", disse o padre xaveriano Renato Trevizan, 67.
Os caiapós chamavam Pezzotti de "tetukre", que quer dizer pernas pretas, por uma fratura que ele sofreu.
Aos 75, ele atua na sede da missão em Parma e não fala do passado.
Outro caso é o do padre jesuíta Clodoveo Piazza, premiado por seu trabalho na Organização de Auxílio Fraterno, que mantém abrigos em Salvador.
Italiano naturalizado brasileiro, ele chegou a ser secretário estadual de Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza, antes de ser alvo de denúncias de abuso e exploração sexual.
Em 2009, a Promotoria acusou a ele e a um colega de ONG com base em relatos de vítimas segundo as quais não só ambos abusavam como deixavam que estrangeiros em visita ao país o fizessem.
Como as denúncias tardaram, a maioria prescreveu, explica a promotora Maria Eugênia Vasconcelos de Abreu.
Há sete meses, Piazza vive em uma residência jesuíta na cidade de Maputo, em Moçambique.
Entrevistado pela Associated Press, ele negou os abusos e disse ser vítima de chantagem por parte de "círculos políticos", que se recusa a citar.
"Isso é propaganda para ganhar dinheiro", disse.
Em site, os jesuítas italianos apoiam o colega e comentam que a "difamação de missionários é um jogo cada vez mais popular".
A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) disse que transferências e acusações contra padres são tratadas localmente, mas a reportagem não conseguiu contato com as dioceses envolvidas.
Outros casos revelados pela Associated Press envolvem um padre que confessou abuso em Los Angeles e foi transferido para as Filipinas, onde vive financiado pela igreja; e um padre condenado no Canadá que voltou a cometer abusos na França.
Clérigos disseram que, em alguns casos, os padres se mudaram por iniciativa própria e, em outros, não eram culpados.
(GABRIELA MANZINI)
Com a Associated Press e a Agência Folha