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sexta-feira, 1 de março de 2013

'CÉSAR DEVE MORRER': FILME DOS IRMÃOS TAVIANI COM ELENCO DE DETENTOS FAZENDO SHAKESPEARE É SENSACIONAL



Vencedor do Urso de Ouro na Berlinale 2012, "César Deve Morrer" é um filme ágil, visceral e maravilhoso e que nem parece ter sido feito por dois diretores octogenários - os irmãos italianos Paolo e Vittorio Taviani.

Com uma extensa carreira de mais 60 anos, uma Palma de Ouro em Cannes - por "Pai Patrão" (1977) - e com várias obras consagradoras - como "Allonsanfan" (1974), "Kaos" (1984) e "Bom Dia Babilônia" (1987) - os irmãos, em seu primeiro filme digital, escolheram como elenco nada menos que os detentos da imensa prisão de segurança máxima Rebibbia, nos arredores de Roma.

Os irmãos Paolo e Vittorio Taviani posam na prisão de segurança máxima Rebibbia, nos arredores de Roma, durante as filmagens - fotos dessa postagem: Divulgação/Europa Filmes
Contando com a assessoria do diretor teatral Fabio Cavalli, a trama acompanha uma montagem da peça "Júlio César", de William Shakespeare, por um grupo de prisioneiros.

A já tão explorada obra clássica  ganha um novo olhar, algo mais denso e real e essa escolha causa uma humanização dos personagens e traz o espectador para perto de figuras míticas como César, Brutus e Cássio - quando pensaríamos em ver grandes nomes da história, sempre apresentados de maneira distante e com recalques, sendo interpretados por ex-traficantes e mafiosos?

Com a câmera focada no rosto dos candidatos, os Taviani pedem apenas que eles digam seus nomes e de onde vêm, revelando a impressionante afinidade entre os atores e a trama da peça - a conspiração para assassinar o imperador romano Júlio César - e
exploram com extrema habilidade essa tênue fronteira entre vida e arte, entre realidade e encenação, usando o próprio ambiente da prisão como cenário principal, já que o filme se ocupa principalmente dos ensaios da peça.

Cena do longa
As paredes nuas e descascadas, a luz natural que entra pelas janelas com grades, os muros altos viraram aqui, sem muitos artifícios, os corredores do Fórum Romano e os palácios da ficção, sem que para isso o espectador precise mais do que acompanhar a impressionante dedicação de seus intérpretes.

Cena do longa
No lugar em que toda a esperança parece perdida, o filme mostra que é possível obter a essência de um teatro que se aproxime da complexidade da vida.

As performances de Salvatore Striano - como Brutus, Cosimo Rega - como Cássio, e Giovanni Arcuri - como César, todos eles condenados a muitos anos de cadeia por crimes como assassinato ou tráfico, são impressionantes, magnéticas e inesquecíveis.

A cena do assassinato de César, encenada por traficantes e ladrões condenados: sen-sa-cio-nal!
Um senhor filme, denso, maravilhoso, que vale cada fotograma filmado - e onde dois senhores dão uma aula de como fazer cinema de qualidade máxima usando criatividade, elenco engajado e câmera firme.

Filmaço.

Além da Berlinale 2012, o longa levou o David di Donatello Awards de Melhor Direção, Melhor Edição, Melhor Filme, Melhor Produtor e Melhor Som - foi indicado também a Melhor Fotografia, Melhor Música e Melhor Roteiro.

Confira o trailer do filme:


*****
'CÉSAR DEVE MORRER'
Título Original:
Cesare Deve Morire
Diretor:
Paolo Taviani, Vittorio Taviani
Elenco:
Cosimo Rega, Salvatore Striano, Giovanni Arcuri, Antonio Frasca, Juan Dario Bonetti, Vittorio Parrella, Rosario Majorana, Vincenzo Gallo, Francesco de Masi, Gennaro Solito, Francesco Carusone, Fabio Rizzuto, Maurilio Giaffreda
Produção:
Grazia Volpi
Roteiro:
Paolo Taviani, Vittorio Taviani
Fotografia:
Simone Zampagni
Trilha Sonora:
Giuliano Taviani, Carmelo Travia
Duração:
76 min.
Ano:
2012
País:
Itália
Gênero:
Drama
Cor:
Colorido
Distribuidora:
Europa Filmes, Mares Filmes
Estúdio:
Rai Cinema / Kaos Cinematografica / Le Talee / Stemal Entertainment / La Ribalta-Centro Studi Enrico Maria Salerno
Classificação:
Livre
Cotação do Klau:

sábado, 18 de fevereiro de 2012

62º FESTIVAL DE BERLIM PREMIA COM O URSO DE OURO OS IRMÃOS TAVIANI E SUA ADAPTAÇÃO LIVRE DE UM TEXTO DE SHAKESPEARE INTERPRETADA POR DETENTOS ROMANOS


E as apostas da maioria se confirmaram.

Os irmãos Taviani receberam neste sábado à noite o Urso de Ouro  - prêmio máximo do 62º Festival de Berlim - por "César deve morrer" - adaptação livre de "Julio César" de Shakespeare, interpretada por detentos de um pavilhão de uma penitenciária de segurança máxima de Roma.

Paolo e Vittorio Taviani são cineastas já octogenários, sempre trabalharam juntos e sempre se recusaram a trabalhar separados - o filme dos dois superou outros 17 que estavam em competição  desde que a Berlinale 2012 começou, em 9 de fevereiro.

O júri, presidido pelo cineasta britânico Mike Leigh, era composto sobretudo por atores -
Jake Gyllenhaal, Charlotte Gainsbourg e Barbara Sukowa - e por diretores - o iraniano Asghar Farhadi,o francês François Ozon e o holandês Anton Corbij.

A ideia de "César deve morrer"  - em parte filmado em preto e branco -  veio quando os irmãos assistiam a uma representação de "Inferno" de Dante, na penitenciária de Rebbibia, em Roma.
AFP
Os diretores do filme César Deve Morrer, Vittorio e Paolo Taviani comemoram conquista
Os irmãos Taviani recebem o prêmio máximo da Berlinale -o Urso de Ouro de Melhor Filme, agora a pouco, em Berlim

Ao receberem o Urso de Ouro, os irmãos foram pródigos em declarações:

"Neste juri, conhecemos muitos rostos de pessoas que fizeram cinema, cinema que nós apreciamos", declarou Paolo.
"Espero que quando esse filme for apresentado ao público, alguns voltem para casa e se digam (...) que mesmo os criminosos duros, condenados à prisão perpétua, são e permanecem homens", disse ainda Paolo.

"Isso permitiu (aos prisioneiros) durante alguns dias voltar à vida. Isso durou apenas alguns dias, mas eles fizeram isso com uma grande convicção e é para eles que vai a nossa saudação", disse Vittorio.

A escolha do elenco, parte integrante do filme com os testes diante da câmera, apresentou uma Humanidade sem mulheres, condenada a pesadas penas por assassinatos, tráfico de drogas, contravenções múltiplas das leis anti-máfia.

Quanto à escolha de "Julio César", ela está ligada a uma frase da peça, quando é dito a respeito do assassino de César: "Brutus é um homem de honra".

"É uma linguagem à siciliana, que fala a esses homens saídos da máfia, da N'dranghetta, da Camorra: as conspirações, os segredos, as traições, eles também a conhecem", disse Vittorio após a exibição do longa na Berlinale - desde então, o filme esteve presente em praticamente todas as apostas como o grande favorito dessa edição.

Filhos de um advogado toscano anti-fascista, os irmãos Taviani são conhecidos por seu cinema comprometido com a realidade social de seu país.

Foi essa, como na tradição, a tonalidade geral da seleção, baseada nas viradas abruptas da história.

Entre os outros premiados da noite está "Barbara", elogiado pela imprensa e pelo público alemães, que conta a história de uma médica (Nina Hoss) vigiada durante nove anos antes da queda do Muro de Berlim pela Stasi, a polícia secreta da antiga-RDA - o filme recebeu o Urso de Prata de melhor diretor para Christian Petzold.

O Grande Prêmio do Júri ficou com um drama húngaro sobre o destino dos ciganos, "Apenas o vento", de Bence Fliegauf - no momento em que um governo nacionalista autoritário está no comando em Budapeste.

O Urso de Prata de melhor atuação feminina ficou com uma ex-menina de rua de Kinshasa - a congolesa Rachel Mwanza - por seu papel de uma criança-soldado em "Rebelde", do canadense Kim Nguyen.

O de Melhor Ator recompensou a atuação do dinamarquês Mikkel Boe Folsgaard - em "A Royal affair", de seu compatriota Nikolaj Arcel.
O filme recebeu também o prêmio de melhor roteiro.

Merece destaque também uma "menção especial do júri" - prêmio criado por Mike Leigh para saudar o filme da diretora franco-suíça Ursula Meier, "L'Enfant d'en haut", fábula social entre a região industrial e as ricas áreas mais altas suíças, entre um menino angustiado e sua irmã mais velha imatura.

O cineasta português Miguel Gomes foi agraciado com o Prêmio Alfred Bauer e o da crítica internacional Fipresci por seu filme "Tabu".
"Espero que seja decisivo em um momento no qual em Portugal se está decidindo como tem que ser a contribuição do Governo para o cinema", declarou o diretor, ao se referir a seu prêmio e ao de seu compatriota João Salaviza, ganhador do Urso de Ouro de melhor curta-metragem.

Ele afirmou que "um país precisa de filmes, mas se não há dinheiro, não há mercado", ao mesmo tempo em que assinalou que se trata de "um conceito de serviço público que está desaparecendo em Portugal".

Gomes dedicou seu prêmio ao recebê-lo durante a festa de encerramento do Festival "ao talento dos diretores do cinema português, que estão há 50 anos fazendo cinema independente do poder político e econômico".

O filme que ganhou o Alfred Bauer - prêmio adotado em memória do fundador do festival e outorgado a uma obra que abra novas perspectivas na arte do cinema - é uma história de amor filmada em preto e branco, ambientada na África colonial.

"Estou muito feliz com o prêmio, embora seja à inovação e meu filme seja feito à moda antiga. Mas é muito moderno agora fazer filmes à antiga", disse sobre seu filme, coproduzido por Brasil e Portugal.

Segundo Gomes, "o que conta realmente é tentar mostrar coisas, o que acontece entre os personagens e as emoções da melhor maneira, e às vezes você tem que fazer isso em preto e branco".

Salaviza, que levou o Urso de Ouro do júri do "Festival de Berlim Shorts" por seu curta-metragem "Rafa", lembrou durante a entrevista coletiva que a situação em Portugal "não está fácil".

Por isso, expressou sua esperança de que o prêmio contribua para melhorar a situação, já que "o cinema não teve muito apoio nos últimos 10-12 anos com os sucessivos Governos".

"Quero dedicar o prêmio também ao Governo português. Se este ano fizer um bom trabalho, dedicarei a ele o prêmio, portanto é uma dedicatória com condição", declarou, acrescentando: "Em Portugal temos problemas e não sabemos o que vai acontecer com o cinema".

A obra premiada, uma coprodução luso-francesa intitulada "Rafa", conta a história de um adolescente de 13 anos cuja mãe não retorna para casa nos subúrbios de Lisboa em uma manhã, depois de ter passado a noite com um homem.

Também houve uma menção especial do júri do "Festival de Berlim Shorts" ao curta brasileiro "Licuri Surf", de Guile Martins, que convida a percorrer a costa do Brasil em um filme de aventuras sobre o surfe.

A fita, de 15 minutos, transfere o espectador ao mundo dos jovens indígenas que sobre sua prancha de surf procuram desfrutar a próxima onda.

A Berlinale 2012 será fechada oficialmente amanhã à noite com a exibição para o público do filme ganhador do Urso de Ouro.

Tuitadas, por Alessandro Giannini, do UOL em Berlim:

O jornalista do UOL cobriu todos os dias da Berlinale 2012, e de lá tuitou muito.

O UOL separou 17 tuites de Giannini, que abrangem tudo o que de melhor aconteceu na edição 2012 do Festival.
UOL
Alessandro Giannini
O jornalista Alessandro Giannini

Confira:

"O Festival de Berlim 2012 resultou em um saldo positivo, embora a edição deste não tenha sido tão fértil em descobertas quanto a de 2011. Muitas das principais descobertas, como o documentário "Ai Weiwei: Never Sorry", estavam nas mostras paralelas".

"'War Witch' é um retrato da agonia das crianças-soldado africanas, vítimas do tráfico de minério e da corrupção dos governos".

"O filme "A Royal Affair" retoma um período conturbado da história da Dinamarca, com intrigas e conspirações shakespeareanas".

"Confuso, extenso e excessivo, o alemão "Gnade" só explica sua seleção para a mostra competitiva pela nacionalidade".

"Último filme a entrar no Festival, "White Deer Plain" é um épico sobre o fim da era imperial na China. Longo e difícil."

"'A Dama de Ferro' mostra mais do q 1 velha senhora acometida pela demência. É tb um retrado dos efeitos colaterais do poder".

"Na mostra Panorama, "Xingu" mostra a aventura de 3 irmãos que se transformou na luta pelos direitos dos índios".

"Em "A Toda Prova", de Steven Soderbergh, o elenco todo é formado por personagens masculinos, inclusive Gina Carano".

"O indonésio "Postcards From The Zoo" faz 1 curioso paralelo entre a vida dentro e fora de um zoo, e entre humanos e animais".

"Co-produção brasileira, "Tabu" faz experiências com som, imagem e cita clássicos do cinema. Um filme poderoso e difícil".

"'Sister' mostra sem muita convicção as diferenças sociais na Suíça por meio da história de uma jovem e seu "irmão'".

"Em "Jane Mansfield's Car", BB Thornton faz sua versão de Festa em Família".

"Em "Flowers of War", Christian Bale encarna um anti-herói, apenas para variar. Mas você reza para ele invocar Batman".

"'Ai Weiwei: Never Sorry' explica de fato a arte pelo artista, a obra pelo homem, e não o contrário".

"'Shadow Dancer', de James Marsh (O Equilibrista), mostra o conflito entre Irlanda do Norte e Reino Unido de forma inédita".

"Extenso e reiterativo, "Marley" se excede na homenagem ao cantor, compositor e pacifista jamaicano".

"O alemão "Barbara" mostra a Alemanha Oriental de um modo diferente e menos preconceituoso, com a ajuda de um elenco muito bom".

"'Cesare Deve Morire' mostra que os veteranos irmãos Paolo e Vittorio Taviani, 80 e 82 anos, não perderam o foco".

Prêmios do Júri Internacional de Curtas-Metragens

Menção Especial

Licuri Surfe, de Guile Martins

Urso de Prata como Prêmio Especial do Júri

The Great Rabbit, de Atsushi Wada

Urso de Ouro para Melhor Filme

Rafa, de João Salaviza

Prêmio de Melhor Filme de Estreia entre selecionados para Competição, Panorama, Fórum, Generation e Perspektive Deutsches Kino

Menção especial para filme da mostra Forum

Tepenin Ardi, de Emin Alper

Melhor Filme de Estreia

Kawboy, de Boudewijn Koole

Prêmios do Júri Internacional

Menção Especial

L'Enfant d'en Haut, de Ursula Meier

Prêmio Alfred Bauer em memória do fundador do festival

Tabu, de Miguel Gomes

Urso de Prata para melhor contribuição artística nas categorias fotografia, edição, trilha sonora, figurino ou cenografia

Melhor fotografia

Lutz Reitmeier, pelo filme Bay Lu Yuan

Urso de Prata de Melhor Roteiro

Nikolaj Arcel e Rasmus Heisterberg, por A Royal Affair

Urso de Prata para Melhor Atriz

Rachel Mwanza, por The War Witch

Urso de Prata para Melhor Ator

Mikkel Boe Foslgaard, por An Royal Affair

Urso de Prata para Melhor Diretor

Christian Petzold, por Barbara

Urso de Prata - Grande Prêmio do Júri

Just The Wind, de Bence Fliegaulf

Urso de Ouro de Melhor Filme

Cesare Deve Morire, de Paolo e Vittorio Taviani

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

FESTIVAL DE BERLIM TEVE ANGELINA JOLIE, IRMÃOS TAVIANI, CAO HAMBURGER E SUPERPRODUÇÃO DE ZHANG YIMOU COM CHRISTIAN BALE


Vamos atualizar o que de mais importante tem acontecido na Berlinale?


ANGELINA JOLIE FALA DA SUA ESTREIA COMO DIRETORA E DO SEU DESEJO DE INTERPRETAR A BRUXA MALÉVOLA, DE 'A BELA ADORMECIDA'

Durante a coletiva de imprensa de seu primeiro filme como diretora - "In the Land of Blood and Honey" - Angelina Jolie mostrou o desejo de retomar sua careira como atriz.

Longe das telonas há dois anos, Jolie afirmou que está na hora de voltar a ficar nas frente das câmeras e quer interpretar a bruxa Malévola do conto "A Bela Adormecida" na nova produção da Disney, "Maleficent" - as informações são do site Hollywood Reporter.
Reuters
Angelina Jolie, durante entrevista em Berlim

Angelina falou a uma sala lotada de jornalistas sobre seus novos planos: "Eu não atuo faz dois anos e não fiz nada além disto (o longa "In the Land of Blood and Honey" ). A próxima coisa que eu pretendo fazer é trabalhar em um filme da Disney" - a atriz disse que está há um certo tempo planejando a ideia de interpretar a bruxa de "A Bela Adormecida" .

Jolie falou que os filhos também querem ver a mãe como a bruxa e a chamam de "mamãe-lévola".

A nova diretora ainda afirmou que quer voltar a fazer filmes com atores desde de seu último trabalho, em que emprestou sua voz à Tigresa de "Kung Fu Panda 2".
"A melhor coisa para encontrar o equilíbrio é fazer alguma coisa apenas para as crianças, você encontra novos jeitos de fazer as coisas valerem a pena"

"Maleficent" já tem um diretor definido - o estreante Robert Stromberg, que ganhou o Oscar em Direção de Arte pelos filmes "Avatar" e "Alice no País das Maravilhas".

A produção ainda não tem data definida de estreia.

Confira o trailer do filme de estreia de Angelina Jolie como diretora:

Jolie - que chegou a Berlim acompanhada de Brad Pitt e de seus seis filhos - passou para trás das câmeras "por pura casualidade" para dirigir e contar a guerra na Bósnia na ficção.

Na entrevista, disse que "não decidiu se tornar diretora de cinema nem roteirista. Poderia encontrar alguém tecnicamente mais capacitado que eu, mas só eu sabia até que ponto queria que essa história fosse contada".

Ao escolher para sua primeira experiência como diretora um conto de guerra - um amor complicado na Bósnia entre uma muçulmana e um combatente sérvio - Jolie lembrou que nos anos 1990 houve na Europa um conflito atroz, com estupros sistemáticos de mulheres bósnias, e que o mundo inteiro agia como se não soubesse de nada.

"Viajei a essa região, mas não conseguia verdadeiramente compreender o que tinha acontecido, apesar de terem sido fatos da minha geração. Por isso, decidi estudar, e quanto mais avançava em minhas pesquisas e em minhas leituras, mais furiosa eu me sentia e aumentava a obrigação de contar essa história", declarou.

Aos 36 anos, a estrela vencedora do Oscar - por "Garota Interrompida", em 2000 - é uma mulher comprometida, que percorre os países em conflito há 10 anos, sobretudo como embaixadora da boa vontade do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados.

Durante a rodagem de seu filme, disse ter sentido uma "pressão enorme", apesar de ter gostado de se ver convertida em uma espécie de maestra.

"Brad diz que é porque sou mãe de seis filhos, por isso tenho o costume de mandar", brincou, mas reconheceu que passou por momentos bastante difíceis, sobretudo porque seus atores foram contratados localmente e a filmagem foi feita em servo-croata, sistematicamente dublado com uma tomada em inglês.
"Foi difícil para todo mundo, sobretudo para os atores, que como homens tinham que interpretar agressores, quando todos eles são pais de família, maridos adoráveis, boas pessoas. Mas sabiam que tinham de fazê-lo, em nome das mulheres, para mostrar a brutalidade que elas sofreram", disse.

Para realçar o caráter documental de seu filme, decidiu que sua estreia ocorreria no Museu do Holocausto de Washington.
"Era uma forma de atrair a atenção sobre esse aspecto dos genocídios que são os estupros, e para lembrar que os temas do filme são universais. Me parece importante estudar a história dos genocídios, já que isso não apenas ocorreu em um único país e em um só momento da história, mas é algo que se reproduz regularmente", completou.

 Jolie disse também que esteve recentemente em Auschwitz.
"Vi tantos nomes sérvios, porque combateram os nazistas... e mais tarde eles se tornaram os agressores".

Grande atriz, grande mulher e tem tudo, seguramente, para ser também uma grande - e engajada - diretora.

IRMÃOS TAVIANI SURPREENDEM, COM 'CÉSAR DEVE MORRER'

Os célebres cineastas italianos Paolo e Vittorio Taviani surpreenderam neste sábado o público da Berlinale com seu intenso "Cesare deve morire" ("César deve morrer"), uma adaptação da obra "Júlio César", de Shakespeare, interpretada por detentos da prisão de segurança máxima de Rebibbia.

A obra de Shakespeare, que conta a conspiração para matar o ditador romano Júlio César em 44 a.C., permite aos presos, alguns deles condenados à prisão perpétua por homicídio, expressar sobre os temas do poder, a morte e a traição com um grande realismo e energia.
Reuters
Vitorio e Paolo Taviani, em Berlim

Os irmãos Taviani, de 83 e 85 anos, insistiram que este filme-documentário, que disputa o Urso de Ouro, é "o relato da descoberta do poder da arte por homens que vivem uma tragédia, não apenas pelos delitos que cometeram, como pela vida dura na prisão".

"Foi uma grande experiência voltar a descobrir com eles a obra de Shakespeare, da qual tínhamos recordações de leituras no colégio. Nós a desmembramos e a reconstruímos, em nome de um espetáculo. Achamos que Shakespeare teria gostado de ver esta representação numa prisão", declarou Vittorio Taviani.

Confira o trailer do filme:

"A sorte, o azar, têm um papel importante em nossas vidas. Uma pessoa nos perguntou se desejávamos ir a um teatro onde se chora. Isso nos chamou a atenção. Tratava-se do teatro da prisão modelo de Rebibbia, onde há pessoas condenadas por pertencimento à máfia, à camorra, à ndrangheta", explicou Paolo Taviani.

"Essa obra que fazia o público chorar era 'O inferno', de Dante, e, em especial, o episódio de Francisca e Paolo, um amor impossível. Os presos nos fizeram sentir como nunca a possibilidade desse amor", acrescentou.

"Quando chegamos pela primeira vez à prisão, um lugar onde as pessoas sofrem, nos parecia que não tínhamos o direito de vê-los sofrer, mas depois nos demos conta de que eles também tentavam se expressar, e que podem chegar a sentir amizade e afeto, ainda que tenham cometido delitos terríveis", acrescentou.

"César deve morrer", interpretada pelos presidiários em seus próprios dialetos - calabrês, siciliano, napolitano ou romano - começa com a seleção de elenco e a atribuição dos papéis por um verdadeiro ator de teatro, Fabio Cavalli, que há dez anos leva a dramaturgia às prisões sicilianas.

Cavalli contou que montou na prisão de Rebibbia, "O inferno", de Dante, "A Tempestade", de Shakespeare, e "Il Candelaio", de Giordano Bruno.

"O teatro de Rebibbia já não é apenas o teatro da prisão, como também uma sala que depende da prefeitura de Roma e a qual regularmente vão os estudantes ver nossas encenações", acrescentou Cavalli.

Vittorio Taviani insistiu que "atribuir à prática do teatro na prisão uma função terapêutica é algo limitante". "Fazer com que os presos descubram o poder da arte lhes abre outra dimensão do cérebro, a das relações humanas. Assim compreendem melhor o que deixaram de ter ao perder a liberdade e alguns pode aspirar reconstruir-se".

O único ator ex-presidiário presente na Berlinale era Salvatore Striano, que interpreta no filme Brutos, o personagem-chave da tragédia de Shakespeare.

"Striano estava condenado a uma pena muito longa e, graças a uma anistia, pôde sair antes da prisão, onde descobriu sua vocação de ator. Desde que saiu, se integrou a uma companhia de teatro", contou Paolo Taviani, o que só prova que a Arte pode e deve ser usada na recuperação de pessoas e de suas vidas.

'XINGU', DIRIGIDO POR CAO HAMBURGER, ATRAI MUITO INTERESSE E É APLAUDIDO AO FINAL DA SESSÃO

Com a sala parcialmente cheia, "Xingu" teve neste sábado sua primeira exibição no Festival de Berlim 2012, dentro da mostra Panorama

O filme de Cao Hamburger sobre os irmãos Villas-Boas e a história da formação do Parque Nacional do Xingu atraiu o interesse do público berlinense e foi bastante aplaudido ao final da sessão. 

Nem o diretor ou os atores estavam presentes - primeira projeção para a imprensa será realizada apenas na quarta (15).

O filme, que tem produção de Fernando Meirelles, acompanha a aventura dos irmãos Villas-Bôas
Na década de 1940, Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Bôas (Felipe Camargo, João Miguel e Caio Blat, respectivamente) juntaram-se às expedições organizadas pelo governo brasileiro para desbravar o interior do país. 

Suas vidas foram transformadas pelo contato com tribos indígenas que encontraram pelo caminho e tiverem papel importante na criação do Parque Nacional do Xingu, em 1961.
Divulgação
Cao Hamburger (de frente) discute com o diretor de arte Cássio Amarante, o diretor de fotografia Adriano Goldman e o ator Caio Blat detalhes de "Xingu"

Quase todo rodado na região do Parque, com participação de cerca de 200 índios, o filme mostra como a aventura de três irmãos entediados com a vida urbana transformou-os pela experiência de descobrir culturas que jamais haviam tido contato com o homem branco. Mostra também, às vezes de maneira excessivamente didática, como contornaram os próprios erros e negociaram com os sucessivos governos em favor da manutenção das culturas indígenas.

A química entre Camargo, Miguel e Blat sustenta a dramaturgia linear de "Xingu". 
Os papéis masculinos e femininos dos índios também são dignos de nota, o que não se explica são participações como os de Maria Flor, que apontam para uma subtrama que nunca se revela na tela. 

Com muitos altos e alguns pontos discutíveis, o filme tem consistência o suficiente para seguir uma carreira promissora nos cinemas.

Confira o trailer de "Xingu":

Em entrevista ao UOL, no fim de 2010, durante as filmagens de "Xingu", Hamburger disse esperar que o filme provocasse debate e discussões em torno do tema das políticas indígenas. 
"Acho que vai ser um filme polêmico, no sentido das políticas indígenas", disse ele. 
"Tem muitas vertentes de pensamento, e elas mudam sempre. É essa coisa do desenvolvimento versus a preservação. Eu espero que seja [polêmico]. Acho importante a discussão em cima de fatos. Se o filme conseguir trazer a história desses caras para uma discussão do futuro e do presente seria muito legal."

CHRISTIAN BALE NOS FAZ ESQUECER BATMAN  COMO O ANTI-HERÓI  NA SUPERPRODUÇÃO CHINESA  'THE FLOWERS OF WAR'

Longe de Gotham City, da mansão Wayne, da Batcaverna e da parafernália de Batman, Christian Bale vive em "The Flowers of War" um outro tipo de herói, cujo hábito - ao contrário do que diz o ditado - faz o monge. 

O ator interpreta um americano pego de surpresa pela invasão japonesa de Nanquim, na China, em 1937, que se refugia em uma igreja com um grupo de noviças e outro de prostitutas. Para salvar as meninas e as mulheres da brutalidade dos invasores, ele se faz passar por um padre e decide ajudá-las a sair de lá.

A invasão ficou conhecida como "O Massacre de Nanquim".

"The Flowers of War" foi dirigido por  Zhang Yimou e está na mostra competitiva do Festival de Berlim 2012, mas não concorre aos Ursos de Ouro e Prata porque -  segundo Yimou, já estreou na China e Estados Unidos.

 Mesmo assim, atraiu a atenção de boa parte da imprensa asiática presente no certame, que responde por uma grande parcela dos quatro mil jornalistas credenciados este ano, de acordo com a organização.
news.cn
Christian Bale, o diretor Zhang Yimou - ao centro - e o elenco de "The Flowers of War" em Berlim

Bale e Yimou foram a Berlim para falar sobre "The Flowers of War" e promover o filme. 
Ao lado deles, estavam também as atrizes Ni Ni (a prostituta Yu Mo) e a estreante Zhang Doudou (a noviça Shu). 
Completaram a mesa o ator Tong Dawai, a escritora Yan Geling e os roteiristas Liu Heng e Zhou Xiaofeng.

Bale recusou toda as tentativas de comparar o "padre" John de "The Flowers of War" ao justiceiro encapuçado da trilogia "Batman" dirigida por Christopher Nolan
"Não vejo nada em comum com Batman", respondeu o ator em entrevista coletiva na tarde desta segunda (13), em Berlim. 
"Qualquer comparação nesse sentido eu deixo para vocês ou outros espectadores. Não gosto de fazer isso."

Mas o ator respondeu ao UOL quando questionado se as escolhas que pretende fazer na carreira de agora em diante contemplam mais filmes como "The Flowers of War" ao invés de grandes franquias como "Batman"
"Tenho tido a sorte de poder escolher bons papéis", disse ele. 
"Adoro 'Batman' e fui muito feliz trabalhando com Christopher Nolan, mas quero tentar coisas diferentes também. No caso deste filme, havia a diferença cultural, que me interessava. E [voltar para a china] foi uma experiência incrível." - o ator refere-se aqui às filmagens de "O Império do Sol", de Steven Spielberg, também filmado na China e onde Bale, então com 13 anos, fez sua estreia como protagonista nas telonas.

Confira o trailer do filme:

Para fazer o filme, Yimou se inspirou no livro "As Treze Flores da Guerra", de Yan Geling, que baseou seu romance em histórias verdadeiras, tanto de americanos em Nanquim, que ajudaram civis chineses a sobreviver durante e após o massacre, quanto de prostitutas que substituíram estudantes universitárias quando estas corriam risco de se tornar companhia forçada para satisfazer soldados japoneses. 

"Esse é um assunto trágico e delicado, enterrado na memória dos chineses", disse o cineasta. 
"Mas é necessário desenterrá-lo para manter viva a memória da tragédia. Além disso, houve uma boa resposta ao filme na China."
*****
Com Hollywood Reporter, Reuters, AFP e Alessandro Giannini, do Uol em Berlim