Quando a série Sex and the City estreou na HBO no final dos anos 1990, rapidamente conquistou a atenção do público por muitas razões - a principal delas era o seu ótimo roteiro e a escalação das atrizes certas para os papéis das quatro protagonistas.
O programa narrava as aventuras de quatro amigas, todas por volta dos 30 anos, que vivem em Nova York e que se divertem pela cidade em suas vidas de solteiras.
Ao se encontrarem, o assunto é sempre os homens e sua falta de compromisso.
Divulgação-HBO/Paramount
Cynthia Nixon, Kristin Davis, Kim Cattrall e Sarah Jessica Parker em cena da série "Sex and the City"
Estas conversas eram sempre muito francas e envolviam, invariavelmente, sexo, e a forma com que elas tratavam o tema foi uma das razões que fez o seriado chocar e conquistar os milhões de fãs mundo afora, inclusive aqui no Brasil.
Seis temporadas e dois filmes depois, as quatro amigas estão bem resolvidas com suas carreiras e sexualidade, além de seus amores.
Agora, para os fãs matarem as saudades e poderem ter todas as histórias de Carrie e suas amigas para ver e rever, a Paramount acabou de lançar um box que reúne todos os episódios das seis vitoriosas temporadas da série, além de diversos extras que não estavam presentes nas versões anteriores dos DVDs lançados.
Quando estreou na HBO americana - e antes de se tornar uma febre mundial - a série "Sex and the City" se autodeclarava disposta a desvendar os mistérios entre homens e mulheres.
Por um tempo, isso até colou. Mas quem acompanhou por anos a fio as peripécias dessas quatro amigas novaiorquinas, descobriu que elas estavam mesmo era à caça de um homem para chamar de seu.
Desse ser por isso que essa ótima série teve um episódio final tão careta - a Samantha (Kim Cattrall), que transava com qualquer um, acabou quase como defensora da monogamia.
Pois a versão de conto de fadas - cuja fórmula deu uma senhora desandada já no primeiro filme baseado na série - é desmascarada pela caixa "Sex and the City: The Essential Collection", com todas as seis temporadas, e com uma ótima surpresa: ela traz três os finais alternativos filmados, e mostram que a protagonista Carrie (Sarah Jessica Parker) não sabia até o fim se casava ou comprava mais um par de sapatos Manolo Blahnik.
Foto: Divulgação HBO/Paramount Pictures
Cynthia Nixon, Kristin Davis, Kim Cattrall e Sarah Jessica Parker em cena de "Sex & the City" - a série
Mas se você estava em Marte, durante o tempo todo em que a série virou uma das mais vistas por todo o nosso mundinho, aqui vai uma rapida retrospectiva: Carrie é uma colunista de Nova York, que escreve sobre os próprios relacionamentos e os das amigas Samantha - a que está sempre pronta para uma, duas ou dez transas -, Miranda (Cynthia Nixon) - a que só trabalha - e Charlotte (Kristin Davis) - a iludida que sonha com o marido perfeito e casinha de cerca branca.
Em seis temporadas, elas ditaram moda em termos de roupas, sapatos, bares - o drinque "Cosmopolitan" fez história! - comportamento e até vibradores.
Mas não se iluda: os três finais alternativos são apenas versões para um diálogo curtíssimo, nunca exibido.
No primeiro fim, o namorado de Carrie, Big (Chris Noth), se muda para Nova York para ficar com ela, em casas separadas (o que ficou subentendido no episódio).
No segundo, Carrie diz que vai se casar e, no último, conta que foi deixada por ele.
Ela mesmo admite que era o que "todos esperavam" (Big como namorado ideal não soa mesmo muito realista).
Nos extras, há também um debate com as roteiristas, que contam casos reais que as inspiraram, como o da depilação íntima "brasileira", sucesso na cidade, e que Sarah Jéssica é adepta.
Para quem ainda não viu, a caixa serve muito para isso. E para quem já viu, ter todos os episódios à mão, para ver, rever e assimilar, é muito bom.
Quando eu tento falar com quem não é fissurado em"Sex and the City" - como eu - recebo sempre um desprezo e um ar de "ahh, que chato!"
Para essas pessoas,as seis temporadas na telinha e, agora, as duas sequências nas telonas - a segunda tem estréia mundial hoje - , são fúteis, irreais e mercadológicas.
Mas as histórias também são admiradas e aguardadas por um grande público.
Produto de um dos estúdios de séries para TV mais legais do mercado norte-americano - o canal HBO, com produções sensacionais, como "Roma","Oz", "The Sopranos", "Angels in America", "Big Love" e "The Pacific" - "Sex and the City" transformou-se ao longo do tempo.
Quando a série foi ao ar pela primeira vez (1999), retratava o universo feminino de forma aberta, liberal e autêntica. Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker), narrava suas desventuras amorosas e financeiras em Manhatan, assumindo o papel de inquisidora de sua vida sentimental e sexual, tal como de suas colegas: Charlotte (Kristin Davis), Miranda (Cynthia Nixon) e Samantha (Kim Cattrall).
O sucesso foi imediato. Havia uma clareza narrativa da vida das personagens e dos seus conflitos, que relativizava a superficialidade de como se tratava Nova York (capital do que há de melhor e pior no mundo). No entanto, a série foi contaminada, a começar por Michael Patrick King, criador da série - a partir do livro de Candace Bushnell.
Por mais que houvesse uma história central, a série não amadureceu, se tornou sempre mais do mesmo, e apenas um ícone de moda.
O que se percebe nas últimas temporadas e nas duas sequências para a telona é que o estilo de vida é maior do que a própria narrativa. Ou seja: a embalagem, de salto alto, com grande grifes, vem sempre antes das personagens.
"Sex and the City 2" é isso. Bem-humorada, elegante e brilhante - pelo ouro e não pela genialidade - a produção praticamente é um dia-a-dia de Carrie, Charlotte, Miranda e Samantha.
Não há grandes conflitos, apenas um questionamento sobre as relações: as três primeiras, casadas, devem lidar com a profundidade de seus matrimônios e a última preocupa-se com sua idade para manter-se sexualmente ativa e atraente, por mais que seja de forma cosmética.
Foto: Divulgação Warner/Village Road Show As quatro protagonistas, no deserto
O filme começa com Carrie insegura com a monotonia de seu casamento com Mr. Big (Chris Noth). Ao lado dela, Charlotte se encontra desesperada pela dificuldade de ter que cuidar de duas filhas. Por sua vez, Miranda começa a perceber que seu trabalho de advogada não lhe traz a tão sonhada realização de mulher independente e decidida. Finalmente, Samantha - a personagem que eu mais gosto, porquê é a mais parecida comigo - consegue levar as três amigas a Abu Dhabi para uma semana de tranquilidade no que há de mais excêntrico e extravagante no meio do deserto: uma semana de luxos hoteleiros, que apenas um sheik, nadando em petróleo, é capaz de oferecer.
Durante sua estada no Oriente Médio, as personagens devem manter-se de acordo com as convenções às quais estão submetidas. Carrie encontra seu ex-noivo Aidan (John Corbett), e Samantha vê, a todo momento, barreiras religiosas milenares contra seu comportamento sexual.
Nas mais de duas horas de filme, o que se vê, afinal, é uma bem-humorada comédia romântica, o que leva aos espectadores, homens ou mulheres, a impressão de que os editoriais de moda podem tomar nome, formato e voz e, mesmo assim, serem engraçados.
Assista o trailer do filme:
O tema central de "Sex and the City 2" parece ser o casamento e suas crises. Mas não. O tema central, mesmo, é o envelhecimento.
Como manter o glamour e a pele diante da passagem do tempo? É a pergunta que Samantha faz e que assombra todas as protagonistas do filme. A resposta? botox e mais botox, mais reposição hormonal, mas a solução que resolve mesmo é o humor, a capacidade de rir do mundo e de si.
E é o humor mais rasteiro, com direito a piadas sobre pintos e peitos, que salva esse segundo longa, bem superior ao primeiro.
Por trás da atitude sexual supostamente libertária - e da defesa do consumismo e da superioridade americana - a série reforçava o conservadorismo dos contos de fada.
Mas promove uma libertação real: a possibilidade de as mulheres se assumirem às vezes como seres banais, desbocados, fanfarrões.
E o filme consegue retratar tudo isso muito bem.
E por falar em filme de mulheres, a participação da Diva das Divas Liza Minelli, logo no começo do filme, é simplesmente sen-sa-cio-nal! *****
"Sex and the City 2" País: EUA Diretor: Michael Patrick King Estúdio: Warner Bros. Elenco Principal: Sarah Jessica Parker Kim Cattrall Cynthia Nixon Kristin Davis Chris Noth Participações Especialíssimas: Liza Minnelli David Eigenberg Evan Handler Penélope Cruz Miley Cyrus Gênero: Comédia, Romance Duração: 146 minutos Cor: Colorido Classificação: Não recomendado para menores de 14 anos COTAÇÃO DO KLAU: