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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

'MARIGHELLA': POR QUE A PRIMEIRA DIREÇÃO DE WAGNER MOURA INCOMODOU TANTO OS NAZI-BOLSONÁRIOS

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Filme que exalta o herói contra a ditadura para alguns, terrorista para outros, fez boa figura em Berlim e por isso, já está sendo perseguido pela patrulha bolsonária
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A produção do filme sobre a vida de Carlos Marighella foi anunciada no início de 2018 e chamou a atenção da crítica por ser a primeira direção do ótimo ator Wagner Moura.

Foram anunciados Seu Jorge no papel principal e um elenco que contava com Humberto Carrão, Bruno Gagliasso e Adriana Esteves.

A grande estreia mundial ocorreu essa semana, no Festival de Berlim, e os resultados refletem o cenário dicotômico e reacionário que o nosso país vem enfrentando.

A primeira exibição do filme no Berlinale teve o ex-deputado federal Jean Willys na plateia, que ganhou um estalado beijo de Wagner Moura nos bastidores.

O filme foi relativamente bem recebido e arrancou muitos aplausos da plateia - apesar de ter sido reportado também que dividiu opiniões em seu resultado.

Cena de 'Mariguella' - Divulgação

A polêmica mesmo começou na coletiva de imprensa, seguida à exibição do longa.

Perguntado por jornalistas, o diretor respondeu que “nosso filme é maior que Bolsonaro. [...] É um filme que vai em contraste com o grupo que está no poder no Brasil.”

Em vídeo postado pelo Festival de Berlim em seu canal no Youtube, Wagner Moura explica que a obra é provavelmente o primeiro filme da resistência que está acontecendo no Brasil.

Ele compara a resistência ocorrida em 1964, na época de Marighella, com a que os cidadãos estão tendo que realizar nos últimos tempos, especialmente as comunidades LGTB, indígena e negra.

O diretor também disse que o longa não é uma resposta ao atual presidente, embora seja um filme político com um viés contrário.

Além disso, afirmou que não apoia que as pessoas peguem em armas para defender seu ponto de vista, mas que eram tempos diferentes.

Confira trecho da coletiva com legendas:


O ator Humberto Carrão lembrou que a maioria dos brasileiros sequer sabe quem foi Marighella, e que isso não é por acaso:

"Esta ignorância é, na verdade, produto de um projeto muito bem sucedido no Brasil que engloba não falar da própria História, especialmente em escolas particulares; falamos muito sobre a Revolução Francesa, mas não falamos nada sobre os revolucionários negros do Brasil", disse o ator, que neste momento foi aplaudido pelos membros da imprensa.

Para Carrão, não saber quem foi Marighella é algo proposital.

E que as escolas e a comunidade negra estão resgatando essas histórias do Brasil e trazendo-as para as salas de aula, mas que justamente essas pessoas já estão sendo perseguidas e assassinadas por estas razões.

O filme, a seu ver, é um convite para ter um olhar mais crítico e complexo da história de nosso país.

Cena de 'Mariguella' - Divulgação

Wagner Moura confessa estar ciente de que terá muitas dificuldades de lançar esse filme no Brasil, ressaltando que já está havendo uma mudança semântica na forma interpretativa sobre o que aconteceu em 1964, e que o que acontece hoje é justamente da mesma forma como aconteceu no passado: criminalização das pessoas, censura das artes e mudança semântica dos acontecimentos, criando um ambiente em que tudo parece ser natural.

E afirma: o Brasil é um país racista.

O diretor compara as história de Marighella e de Marielle, ambos negros e ativistas, assassinados, e comenta que a polícia não é treinada para proteger os cidadãos, mas sim para proteger o Estado, que é quem escolhe quem é o inimigo.

Wagner Moura levanta a questão do genocídio negro que ocorre nas favelas.

Emocionado, Bruno Gagliasso, que vive um policial, confessou a dificuldade que teve para construir seu personagem, que precisava bater e odiar o Marighella – para ele, a dificuldade era ainda maior por causa da sua filha adotiva, que é negra, e que já passou por situações de ódio racial no Brasil.

Bruno encerra dizendo que só conseguiu fazer o filme porque via a importância do longa para sua filha no futuro.

Confira a coletiva, sem legendas:


Após a coletiva de imprensa, o discurso de ódio invadiu as redes sociais, tanto dos atores envolvidos no filme quanto nos canais do próprio Festival de Berlim.

Os comentários acusatórios – em sua maioria, em português e alguns em inglês do Google Translate – foram tantos e tão pesados, que levaram o site a bloquear e tirar os comentários do ar.

O Internet Movie Database – site de avaliação crítica de filmes feitas pelos próprios usuários – foi obrigado a apagar as avaliações ao filme, após uma ação coordenada que chegou a levar a nota do filme a 2,8.

Ao todo foram mais de 30 mil votos negativos ao filme e mais de mil comentários de ódio - todos partiram dos bolsonários, que, lógico, ainda nem viram o filme.

O próprio vídeo da coletiva no Youtube contém centenas de comentários de ódio.

Vale lembrar que o filme teve apenas quatro exibições no Festival de Berlim, e que juntando todos na plateia não daria 30 mil pessoas.

Entretanto, a plataforma responsável por agregar avaliações de usuários do mundo inteiro percebeu que a maioria dos 30 mil votos vinham de brasileiros - e que o filme nem ao menos havia chegado aqui.

Portanto, a equipe suspeitou da insurgência de bots na página da obra e suspendeu notas e comentários recentes devido à discrepância já citada.

Foi o que bastou para os bolsonários caras de pau acusarem um dos mais confiáveis sites de cinema do mundo de 'censura'.

Um dos suspeitos de coordenar os ataques no IMdB – Adriano Nóbrega – tinha a mãe e a mulher empregadas no gabinete de Flávio Bolsonaro.

Ao que parece, será realmente difícil realizar a estreia de ‘Marighella’ no Brasil nesses tempos e, caso aconteça, será com muitos protestos a favor e contra.

E, se um filme consegue mobilizar tantas pessoas a se posicionarem sobre ele, então, ele cumpriu o seu papel como obra audiovisual que fez, principalmente, pensar e refletir.

Baseado em 'Marighella - O Guerrilheiro Que Incendiou o Mundo', de Mário Magalhães, 'Marighella' conta a história verídica de Carlos Marighella, assassinado pela ditadura militar e cujo legado se estendeu por diversas gerações.

O elenco é formado por Seu Jorge, Adriana Esteves, Bruno Gagliasso, Humberto Carrão e Luiz Carlos Vasconcelos.

O filme tem estreia marcada para o dia 18 de abril aqui no Brasil.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

FESTIVAL DE BERLIM: PRIMEIRA DIREÇÃO DE WAGNER MOURA, 'MARIGHELLA' É OVACIONADO E EXIBIÇÃO SE TRANSFORMA EM GRANTE ATO ANTI-BOLSONARO

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'Nosso filme é maior que Bolsonaro' - disse Moura, na entrevista coletiva lotada de correspondentes internacionais - premiere de gala teve aplausos de pé e presença de Jean Wyllis
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O ator Wagner Moura foi ao Festival de Cinema de Berlim - um dos mais importantes do mundo - divulgar seu primeiro trabalho como diretor, a cinebiografia 'Marighella', estrelada por Seu Jorge e Bruno Gagliasso.

O filme foi exibido para o público nesta sexta (15) fora da competição oficial - e casou furor.

O ator e diretor levou para a coletiva de imprensa pós exibição uma placa com o nome de Marielle Franco, vereadora assassinada no Rio de Janeiro e cujo crime ainda não foi solucionado e nenhum culpado preso.

Wagner também concedeu entrevista coletiva e respondeu tudo o que foi perguntado - algumas perguntas foram sobre o filme e a maioria, sobre a atual situação política no Brasil - ao lado de 30 membros da equipe, entre técnicos e artistas.

Wagner Moura, Seu Jorge e Bruno Gagliasso em Berlim - Divulgação

Aos brados de 'Marielle Presente', Moura levou consigo uma placa de rua em homenagem à vereadora do PSOL Marielle Franco, executada a tiros há 11 meses no Rio de Janeiro, como forma de relembrar que, até agora, o crime não foi solucionado.

Wagner Moura ao lado de Maria Marighella (dir.), neta de Carlos Marighella, e demais membros da equipe do filme em Berlim - TOBIAS SCHWARZ AFP/GETTY IMAGES

Aos jornalistas, Moura falou espera que o filme seja maior que governo Bolsonaro:

“Meu primeiro instinto, depois de ler a biografia em que se baseia o roteiro, foi produzir o filme. Como não encontrei um diretor, eu me arrisquei, já que não achava que ia ser tão complicado. Só me considero um ator que dirige. Por outro lado, foi a experiência artística mais importante da minha vida. Nós o iniciamos em 2015, depois do golpe de Estado [o impeachment de Dilma Rousseff]. Não é uma resposta a um Governo em particular. Espero que meu filme seja maior que o atual Governo de Bolsonaro, e é a primeira resposta da cultura a esta situação. Marighella fala de alguém que resistiu naquela época e se dirige a quem resiste agora: a comunidade LGBTI, os negros, os moradores das favelas…”

Confira o vídeo editado onde Wagner responde em inglês:


Marighella, cinebiografia inspirada no livro Marighella – O Guerrilheiro Que Incendiou o Mundo, do jornalista Mário Magalhães, estreou sob aplausos em sessão dedicada à imprensa no Festival de Berlim, tendo o músico e ator Seu Jorge no papel do guerrilheiro baiano.


O Pôster do longa - Divulgação
A obra acompanha os últimos cinco anos de vida de Carlos Marighella - do golpe militar de 1964 até seu assassinato em 1969 - numa operação da polícia considerada um dos marcos do fim da guerrilha urbana durante a ditadura.

MAIS IMAGENS:


Getty Images
No filme, o ator Bruno Gagliasso interpreta o (fictício) delegado Lúcio, baseado em diversos agentes da repressão contra a luta armada, nos tempos da ditadura militar.

A primeira inspiração, no entanto, foi o agente do temido Departamento de Ordem Política e Social (Dops), Sérgio Paranhos Fleury.

Em conversa com jornalistas em Berlim, Gagliasso se emocionou a falar do filme:

“Não sei se vocês sabem, mas tenho uma filha negra. Eu sei da importância desse filme para a minha filha no futuro. Com esse filme, fui a um lugar onde nunca imaginei ir. Wagner [Moura] é ainda melhor diretor do que ator. Esse filme é forte, visceral, potente, mas movido por amor. Isso ninguém pode esquecer”, disse.

Por fim, a estreia em Berlim teve a presença mais do que honrosa do ex-deputado federal Jean Wyllis, que no Brasil, continua sofrendo os mais variados – e alguns tresloucados – ataques.

Foi acusado de dar dinheiro para Adélio Bispo, que esfaqueou Jair Bolsonaro.

Seria até namorado do criminoso.

Estaria encenando ao sair do Brasil – as ameaças sobre sua vida não seriam para valer.

Jean Wyllys estava na sessão de gala de “Marighella”, no Festival de Berlim.

Foi aplaudido e recebeu um beijo na boca de Wagner Moura - que serviu como uma espécie de desagravo à sua importância como defensor da democracia e dos direitos LGBTs no Brasil.

Veja:


FESTIVAL DE BERLIM: DIRETORA BRASILEIRA GANHA PRÊMIO PROTESTANDO CONTRA GOVERNO BOLSONARO

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“É uma honra estar aqui e protestar, para o mundo, contra o governo homofóbico, racista e contra as mulheres que se instalou no País”, disse a diretoria do filme “Espero Tua (Re)Volta
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A diretoria de cinema brasileira Eliza Capai conquistou, neste sábado (16), o prêmio da Anistia Internacional no Festival de Berlim, na Alemanha.

Seu longa “Espero Tua (Re)Volta”, aborda as ocupações dos estudantes secundaristas, com o objetivo de exigir educação nas escolas de São Paulo em 2015.

Ao receber o importante prêmio, Eliza aproveitou para protestar contra o governo de Jair Bolsonaro.

A diretora Eliza Capai - Foto: Reprodução/Facebook

“Fazer o filme foi difícil, mas nem nos piores pesadelos eu poderia imaginar que o filme ficaria pronto em condições tão adversas. É uma honra estar aqui e protestar, para o mundo, contra o governo homofóbico, racista e contra as mulheres que se instalou no País”, declarou.

O cartaz do documentário - Divulgação

Em breve entrevista ao Estado de S.Paulo, Elisa afirmou:

“Sempre sonhei com um lançamento alternativo, para que o filme chegasse ao seu público e, com o apoio da Anistia, acho que vamos conseguir isso. Põe no jornal, por favor, para que o Brasil saiba da importância desse prêmio. Somos independentes. Precisamos de todo apoio para fazer e lançar nossos filmes”.

A diretora, recebendo o prêmio em Berlim - DW

O documentário Espero tua (Re)volta foi selecionado para a Mostra Geração do 69º Festival de Berlim, uma seção dedicada a filmes sobre adolescentes, e voltados ao público infantojuvenil em dezembro último.

O projeto retorna ao ano de 2013 para compreender porque as pessoas foram às ruas, e de que maneira as transformações do cenário político levaram ao impeachment de Dilma Rousseff, ao governo Temer e à eleição de Jair Bolsonaro.

Os fatos são narrados e comentados por três jovens que participaram ativamente dos protestos estudantis: Lucas "Koka", Nayara Souza e Marcela Jesus.

O site AdoroCinema conversou com Capai sobre o projeto, ainda sem data de lançamento definida no Brasil:

Pergunta - Poucos filmes sobre as ocupações desde 2013 se concentram em adolescentes. Qual é a importância deste recorte etário para você?

Resposta/Eliza Capai: Até conheço outros filmes sobre os adolescentes nas ocupações, mas talvez eles não tenham recebido o destaque de um festival grande como Berlim. A adolescência é um momento de formação. As pessoas estão se descobrindo, têm uma energia muito forte para fazer as coisas, e uma inconsequência que pode ser usada de forma positiva para a política.

Durante a pesquisa, percebi como o movimento secundarista se organizou rapidamente e se dispersaria logo também, porque os jovens passam apenas três anos na escola. Muitos personagens que participaram do filme não estão mais ali: agora estão no mercado de trabalho, na faculdade. A geração seguinte não necessariamente aprenderia algo com essa experiência. Por isso eu considerava necessário registrar aquilo, de modo didático (no melhor sentido do termo), incluindo as vitórias mas também os traumas sofridos por eles, como a violência policial. Era importante trazer outros pontos de vista e questionamentos sobre o nosso sistema de ensino para outras gerações.

P - Os adolescentes são o público-alvo do projeto?

Eliza Capai: Parte do público-alvo são os adolescentes. Nós buscamos conversar com eles, mas não sei se majoritariamente - só o andamento do filme vai poder dizer isso. Estou muito feliz de estar na Mostra Geração 14+ em Berlim, que dialoga justamente com os secundaristas alemães. Estou curiosa com o que pode acontecer, porque a Alemanha é um país com políticas públicas muito diferentes das nossas. Quero ver se as questões do filme vão dialogar com eles – o fato de a escola não ensinar sobre movimentos sociais, não encorajar a organização.

Berlim é uma cidade com uma história imensa, é um local que dividiu o mundo em dois há pouco tempo. Não sei se a juventude de lá possui os mesmos questionamentos da nossa. De qualquer modo, estou muito feliz em saber que a Marcela Jesus vai viajar para o lançamento no festival. Essa vai ser a primeira viagem internacional dela. Tenho certeza que a possibilidade de ver como a luta dela ecoa em outras pessoas será uma experiência valiosa.

Lucas Koka

P - Como encontrou os três protagonistas?

Eliza Capai: Cada um tem uma história bem diferente. Parte da pesquisa do filme começou com uma investigação ampla sobre o que se tinha dito sobre as ocupações de 2015, e em 2016 com a CPI da merenda. Vimos muitos materiais, desde vídeos institucionais até gravações de celular da molecada. Além disso, olhamos imagens de arquivo de documentaristas que entraram nas ocupações, como o Henrique Cartaxo. Um terceiro momento foi entrevistar e gravar o que estava acontecendo naquele momento.

Conversei com jovens de todo o país para ouvir a versão deles sobre como as origens do movimento, a importância daquele gesto e a consequência na vida deles. Assistindo ao material da Internet, descobri dois vídeos do Koka que viralizaram, inclusive aquele em que invertia os papéis e entrevistava uma repórter, questionando o entendimento da mídia sobre as ocupações. Achei fascinante o carisma deles e capacidade de dialogar com grupos diferentes. Ele estuda teatro há muito tempo, e depois das ocupações passou a atuar em Malhação, da Globo. É interessante que um menino negro vindo da periferia consiga transitar por ambientes tão diversos.

Depois dele, perguntei ao Henrique Cartaxo se tinha percebido alguém cuja trajetória tivesse se transformado ao longo das manifestações, e ele me sugeriu a Marcela. No começo ela era uma jovem tímida, de cabelo alisado, que aparecia nos vídeos ao lado das protagonistas, mas quase não falava. Marquei uma entrevista com ela e quando a conheci, dois anos mais tarde, fiquei surpresa, porque pareciam duas pessoas diferentes. Foi uma transformação enorme na vida dela, que aconteceu dentro das ocupações.

A Nayara era a personagem que eu conhecia há mais tempo, porque ela estava dentro da ocupação da ALESP, onde começou o filme. Na última gravação oficial da ocupação da câmera, eu presenciei a forma de liderança da Nayara, que tinha sido eleita presidenta da União dos Estudantes. A forma como ela sobe na mesa, conversa com os estudantes, enfrenta policiais e discute com vereadores deixava claro que se tratava de uma novíssima liderança. Ela se impôs ao filme. Em comum, os três têm uma disponibilidade muito grande para dividir as suas histórias, especialmente sobre um tema que recebeu uma atenção negativa por parte da sociedade.

 Nayara Souza

P - Por que decidiu colocar os jovens como comentaristas do material de arquivo?

Eliza Capai: O processo de edição foi bem complexo. O que eu tinha claro desde o começo era o fato de que a luta dos estudantes não poderia ser simplificada na hora de explicar. Ter três personagens para contar como era, para dar a voz, era uma forma de espelhar a diversidade e a discussão nas ocupações, onde estas questões são debatidas com frequência. Ao longo do filme, cada protagonista roubava a cena e trazia para si a narrativa. Fizemos grupos de estudos com outros secundaristas que participaram das manifestações, e percebemos a vontade de dialogar, mas também as divergências internas. Era importante o filme representar esse diálogo.

Os movimentos sociais hoje precisam de diálogo, o que não significa concordar em tudo, mas é necessário encontrar convergências. Por isso, a narrativa buscou representar essas diferenças. Além disso, fiz questão de checar os fatos. Quando eles contavam lembranças que não poderiam ser verificadas, preferi deixar de fora. Quis trazer diversos pontos de vista, porém todos verdadeiros. São posicionamentos reais, legítimos, e às vezes conflitantes - essa é a complexidade da própria luta. E eles são moleques, então de repente um papo sério é entrecortado por piadas e uma música. Nem precisei me esforçar para trazer isso ao filme, foi espontâneo.

 Marcela Jesus - Fotos do elenco - Carol Quintanilha

P - De que maneira acredita que as transformações políticas vão influenciar na leitura do filme?

Eliza Capai: Inicialmente, o lançamento deveria acontecer pouco antes da eleição de Bolsonaro. O filme foi selecionado em festivais, mas não aceitamos porque ele não parecia concluído, faltava aquele final [a posse de Jair Bolsonaro] para parecer completo, porque aquilo encerrava a narrativa. Bolsonaro legitima e verbaliza um discurso cruel sobre a nossa História.

Se a gente pensa que o Brasil é o último país latino-americano que acabou com a escravidão, e onde a escravidão nunca acabou de fato – basta ver os presídios -, ele representa a manutenção do status quo, mas de modo escancarado. Quando você tem um presidente que promete acabar com todos os ativismos e varrer a esquerda para o exílio, isso sublinha como são fortes os movimentos sociais, e como são perigosas "as esquerdas", como ele chama. Eu não conheço nenhuma história em que as elites tenham promovido avanços sociais por livre vontade; são processos que ocorrem com muito esforço. Os nossos direitos trabalhistas, por exemplo, foram fruto de muita luta. Bolsonaro permite entender o nosso país atual. Ele deixa claro que a luta será necessária para garantir um mínimo de dignidade para as minorias no país. Ele representa a ditadura que não quer acabar.

Tenho vontade de lançar o filme nas escolas e promover debates. É claro que existe um incômodo muito grande com o projeto Escola Sem Partido, que na verdade é a "Escola Sem Crítica". A ideia do filme é justamente suscitar debate, críticas. Não sei de que maneira isso poderá acontecer no novo cenário político, que repudia os ativismos e a liberdade nas escolas. Em certo ponto do filme, a Marcela lembra que, quando somos reprimidos, a nossa revolta triplica. A repressão escancarada no Estado de SP sobre o Passe Livre ilustra o novo tempo que vivemos. Só vamos descobrir com o tempo o que virá de resposta à repressão antidemocrática.

P - Você pretende acompanhar a trajetória dos três personagens após o filme? Acredita ter responsabilidade pela maneira como o filme impactará a vida deles?

Eliza Capai: Desenvolvi uma relação de afeto muito grande com os três. A relação curiosa: por um lado, é algo muito horizontal, porque eles me ensinaram muito. Tenho noção do meu lugar de fala como mulher branca de classe média. Os meninos me trouxeram um debate muito mais profundo, mas por outro lado, tenho a idade para ser a mãe deles.

Tenho muita preocupação com a repercussão do filme na vida dos três devido a este ambiente político. A Nayara se expõe como LGBT, a Marcela revela as crises de ansiedade que sofre. Eu me preocupo com a maneira como esses meninos serão percebidos após o lançamento em circuito comercial no Brasil. Cheguei a dizer que se eles não se sentissem à vontade de lançar no Brasil, por causa do contexto, eu entenderia, mas eles foram firmes em dizer que fazem questão de lançar, e acreditam que o lançamento é mais importante agora do que nunca. Eles estão conscientes dessa exposição.

Espero que o filme traga para eles mais situações interessantes. A Marcela é neta de uma empregada doméstica que nunca se alfabetizou. Em duas gerações, ela se tornou protagonista de um filme que vai ser exibido pelo mundo afora. Ela pode aspirar a outras coisas além dos exemplos que tinha ao redor dela na periferia, e que são exemplos reduzidos. Isso se transformou nos últimos anos. Quero que ela descubra novas possibilidades e permita novos intercâmbios. Koka é ator, então torço para que isso abra portas e o coloque em novos circuitos; e para a Nayara, que isso contribua ao ativismo. É ótimo ter um registro de quando ela começava a ser líder estudantil. Acredito que ela possa se tornar uma grande liderança política. Sempre vou ter curiosidade de saber o que está acontecendo com eles. Criamos laços afetivos, agora não dá pra voltar atrás. O filme vai fazer parte da nossa história.

Parabéns pra ela!