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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

PREVISÍVEL E REACIONÁRIO, GRAMMY OFERECEU MAIS DO MESMO E HOMENAGEM PORCA A WHITNEY HOUSTON


O Grammy - maior prêmio da indústria fonográfica é a mais previsível e reacionária premiação da indústria do entretenimento, porquê não premia os melhores ou mais inovadores artistas do ano, só premia aqueles que já têm o reconhecimento do público.

É um prêmio também redundante, pois apenas reafirma o sucesso, sem apontar novos caminhos para a música.

Para deixar tudo mais interessante, parecia que o clima de "festa permanente" da premiação de 2012 - que aconteceu ontem à noite em Los Angeles - iria por água abaixo com a morte, na véspera, de Whitney Houston, uma das artistas de maior sucesso comercial da história e três vezes vencedora do Grammy de melhor cantora.

Minha amiga Gretta Sttar até que tentou -  e chegou a escrever no Facebook: "me preparando com o lenço aqui ao lado e um calmante para a homenagem que Jenniffer Hudson fará pra Whitney......", mas quem esperava que a noite fosse marcada por belas homenagens póstumas,como a Gretta, se enganou.

Whitney é uma artista de importância fundamental por fazer a conexão entre as divas soul do passado e as cantoras atuais, mas por mais que eu e o mundo gostemos dela, na real, sua carreira já tinha acabado há mais de dez anos - seu último Grammy é de 2000.

É justamente por isso - pelo Grammy ser uma premiação voltada para artistas de sucesso atual - é que às homenagens á Diva foram mínimas, e até o número principal do prometido "tributo" foi tosco, porco, ambíguo, com a cantora Jennifer Hudson muito mais preocupada em se exibir do que em prestar homenagem a Whitney -  com sua versão tosca e porca de “I Will Always Love You”.

A premiação também escancarou uma certa falta de paciência com as cantoras espetaculosas, tipo Lady Gaga - a xerox mal tirada de Madonna - e a nova sensação Nicki Minaj - um nada.

Para os amantes de música de verdade, felizmente as duas,com muitas indicações, voltaram para casa de mãos abanando.

Em vez delas, o Grammy 2012 preferiu consagrar Adele, uma cantora de voz apenas correta, e que tem até agora um repertório abaixo da crítica - a gorda que grita mais que a macaca chita no cio levou todos os seis Grammys a que concorria.

Como convém a um evento onde a previsibilidade e a marca maior, a noite transcorreu sem surpresas, e os enxertos no roteiro - que vinha sendo exaustivamente ensaiado a semanas - não alteraram em quase nada o andar do show de TV.

Separei abaixo alguns destaques da noite desse domingo:

O MICO DA NOITE

Getty Images

Depois de chegar acompanhada por um homem fantasiado de papa, Nicki Minaj fez uma apresentação arrastada, com citações ao musical “West Side Story” e ao filme “O Exorcista”.

Ao final, acabou numa plataforma suspensa, como se estivesse levitando, gran finale que lembrou o do show de Cláudia Leitte no Rock In Rio...

A ARAPONGA VOLTOU!

Getty Images

Três meses após uma cirurgia nas cordas vocais, Adele mostrou que está recuperada e começou a cantar “Rolling in the Deep” direto pelas notas agudas do refrão,  que é pra não deixar dúvidas e pra garantir de vez o titulo de "Araponga do Momento" - o que provocou uma corrida dos espectadores, rumo ao botão que abaixa o volume do som no controle remoto.

Ao final,  a gorda não conseguiu conter uma gargalhada de satisfação.

BOCA CHEIA

AP

Ao fim da apresentação de Adele,  a cãmera mostrou Rihanna na plateia,  e ela parecia ter dificuldade para acabar de mastigar e engolir alguma coisa.

Um gif animado com a imagem da cantora de boca cheia logo apareceu no Twitter, criado por "fãs" que assistiam à transmissão do show.

“O que ela estava comendo?” era a pergunta que ficou nos "treding tops" por muito tempo.

PROCURA-SE A VOZ DE MR. McCARTNEY

Getty Images

Paul McCartney subiu ao palco duas vezes. 

Primeiro cantou “My Valentine”, de seu disco novo, “Kisses on the Bottom”.

Depois encerrou a premiação com “Golden Slumbers”. 

Nas duas apresentações, sua voz parecia rouca e sem viço, uma lástima.

SAUDADES DO RUBENS

Divulgação

O DJ Júlio Mazzeo estavacompletamente fora do eixo, premiando com sucessivas pérolas aqueles que acompanhavam a cobertura do Grammy pelo TNT, com tradução simultânea.

Seus palpites equivocados sobre vencedores, gritos de “bravo” e comentários sem noção -  “Adele tem 22 anos! Imagina ela aos 35!” beiraram o ridículo.

E eu que pensei que o Rubens Ewald Filho, comentando o Globo de Ouro, seria campeão das abobrinhas por todo 2012!
Mas a tia Rubens volta no Oscar, né?

E NO CANAL DO LADO...

Divulgação/SBT

No SBT, o cartunista Laerte, a bordo de uma sen-sa-cio-nal minissaia branca, explicava a Marília Gabriela as muitas diferenças entre sexo, identidade de gênero e toda a sua gama de nuances, sempre com aquele seu jeito de tia biscatinha e fofa que toda família tem!

Muito mais divertido do que o Grammy, né?
*****
Matéria do jornalista Antonio Farinaci, do UOL - parceiro deste blog
Com meus costumeiros pitacos

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

TRABALHOS PREMIADOS DO SALÃO DE HUMOR DE PIRACICABA ESTÃO EM EXPOSIÇÃO NO MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA


Esta Sala É Uma Piada é a exposição que encerra o ano de 2011, reúne trabalhos do Salão Internacional de Humor de Piracicaba e está em cartaz desde sábado (17) no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.

Divulgação
Um dos trabalhos expostos

Charges, piadas, tiras, cartuns e caricaturas estão reunidas em placas de acrílico fixadas no teto do saguão do terceiro andar do prédio - ao todo são 24 trabalhos expostos de 24 artistas que participaram da edição 2011 do Salão de Humor de Piracicaba.

O Salão omeçou a reunir trabalhos de importantes nomes do humor gráfico brasileiro como Millôr, Henfil, Jaguar, Angeli, Laerte e Glauco em 1974, e hoje é uma das mais importantes mostras de humor do mundo.

Imperdível para você encerrar  - ou começar - o ano de ótimo humor.

Divulgação
Charge que também está na exposição

Esta Sala é Uma Piada
Quando: De 17 de dezembro a 26 de fevereiro
Onde: Museu da Língua Portuguesa
Endereço: Estação da Luz, s/n – Centro
Tel: 3326-0775
Ingressos: R$6
Cotação do Klau:

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A SEMANA NA DIVERSIDADE

Nova lei carioca dá o direito de travestis e transexuais usarem seu nome social, projeto contra a intolerância e a homofobia lança vídeo muito legal, e o cartunista Laerte dá um show na Flip, feira de livros em Paraty (RJ).

São as notícias da Diversidade, que você acompanha agora.

TRAVESTIS E TRANSEXUAIS PODEM USAR NOME SOCIAL NO RJ
Os travestis e os transexuais do Estado do Rio de Janeiro poderão usar nome social - o modo como as pessoas são identificados na sua comunidade e em seu meio social - para fazer matrículas em escolas, prestar queixa em delegacia e fazer cadastros públicos. 
Decreto do governador Sérgio Cabral, publicado nesta segunda (11) no Diário Oficial do Estado, determina que o nome social seja aceito em todos os atos e procedimentos da administração direta e indireta . 

 denúncias de recusa devem ser encaminhadas para a Secretaria Estadual de Assistência Social.

A medida atende a principal reivindicação da classe, segundo a presidenta licenciada da Associação das Travestis e Transexuais (Astra-Rio), Marjorie Marchi.
De acordo com ela, o foco prioritário é assegurar a matrícula de travestis e de transexuais em escolas da rede pública.
"A não possibilidade de as pessoas frequentarem aquele ambiente de acordo com o que são de verdade, com sua identidade respeitada, acarretava grande evasão escolar de travestis, altos índices de analfabetismo e despreparo técnico para o mercado de trabalho", disse ela.
Marjorie Marchi declarou ainda que o nome social representa para os travestis o "mesmo que o nome representa para todo mundo". 
Como a classe tem uma "discordância" com o gênero biológico, a identidade passa a ser representada pelo nome em acordo com a nova expressão, explicou. 
"É a mesma coisa com o artigo 'a' ou 'o', que deveria conjugar com o nome social da travesti e não com um órgão pseudobiológico que se carrega entre as pernas", completou.
Para evitar problemas com documentos oficiais, o decreto do governo do Rio também esclarece que em casos de interesse público, o nome civil do travesti ou do transexual deverá constar de documentos, podendo estar acompanhado do nome social.
PROJETO CONTRA A INTOLERÂNCIA E HOMOFOBIA LANÇA VÍDEO COLABORATIVO

O projeto #EuSouGay , que visa mobilizar a sociedade para combater a homofobia e a intolerância contra minorias sociais, concluiu seu vídeo colaborativo com a mensagem que dá nome à iniciativa. 
De abril até julho deste ano, internautas anônimos e famosos enviaram voluntariamente fotos suas exibindo a hashtag #eusougay para a realização do vídeo.
Os organizadores do projeto - a jornalista Carol Almeida e o diretor de curtas Daniel Ribeiro - começaram a causa inspirados por um caso de assassinato ocorrido neste ano em Itarumã (GO): Adriele Camacho de Almeida, 16 anos, foi encontrada morta e o crime foi analisado como homofobia pelo delegado local - a garota era namorada da filha do fazendeiro que nunca admitiu o relacionamento das duas.
O vídeo traz a mensagem  #EuSouGay de diversas formas e a participação de famosos e apoiadores dos direitos dos homossexuais, como a política Soninha Francine, as apresentadoras MariMoon e Sarah Oliveira e  a banda Cansei de Ser Sexy e outros.
Além da direção de Daniel Ribeiro, o vídeo contou com a trilha sonora da canção Itarumã, composta por Gustavo Galo e Tatá Aeroplano,  e cantada por eles, Márcia Castro e Hélio Flanders, vocalista do Vanguart - o vídeo também recebeu financiamento de forma colaborativa, pelo site Catarse.

O  #EuSouGay - que em junho levou o Prêmio Cidadania em Respeito à Diversidade, da Associação da Parada LGBT em São Paulo, na categoria internet - continua recebendo fotos do público para postá-las em seu Tumblr.
Confira o vídeo:



LAERTE: "SENTA AQUI, BOLSONARO!"
Para combater a homofobia, o  cartunista Laerte , 60, participou na quinta (7) de um debate sobre cross-dressing e homofobia na Casa Folha, espaço do jornal Folha de S.Paulo na Flip, em Paraty (RJ).


A plateia lotada e as pessoas que se aglomeravam do lado de fora da Casa, na rua da Matriz, ouviram por mais de uma hora o depoimento de um dos maiores quadrinistas da atualidade sobre o impulso de se vestir de mulher, a reação da família e de amigos, orientação sexual, humor e preconceito.

"Eu mesmo, quando jovem, pratiquei bullying contra gays. Costumava hostilizar um primo meu que dizia 'Ave!' no lugar de 'porra!'", revelou, explicando como reprimia sua bissexualidade.


Para combater a homofobia, Laerte defendeu que os crimes contra homossexuais sejam classificados da mesma maneira que o crime de racismo e que o movimento LGBT - Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros - lute contra a guetificação. "Você tem que sair das trincheiras e lamber o pescoço. Tipo: 'Senta aqui, Bolsonaro!'", brincou, arrancando gargalhadas do público.

Letícia Moreira/Folhapress
Laerte participa da conversa sobre cross-dressing e homofobia na Casa Folha, em Paraty
Laerte na Flip, na última quinta



FOFURA

"O medo das pessoas de perder o emprego, de perder o amor da família e o respeito dos amigos as torna muito conservadoras e tímidas em relação a sua sexualidade. Eu não vou apenas a lugares GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes). Eu vou a qualquer lugar, a qualquer bar e a qualquer restaurante e sou sempre bem recebido."


Laerte admitiu, no entanto, que sua experiência como bissexual assumido e cross-dresser - prática em que homens se vestem de mulheres e vice-versa independentemente de sua orientação sexual - é muito "fofa"."Tudo aconteceu de forma muito fofa comigo em relação ao fato de eu me vestir de mulher. Mas sei que existem crimes de ódio ocorrendo contra homossexuais no Brasil todo."

FAMÍLIA

O cartunista relatou a reação de seus filhos e pais à revelação de suas "montagens" femininas, com direito a brincos, maquiagem, unhas vermelhas e salto alto."Meus filhos já haviam se chocado quando disse que era bissexual, e reagiram bem quando disse que estava me vestindo de mulher. Meus pais se acostumara porque são pessoas do caralho", disse.

"Minha mãe nunca foi muito de usar maquiagem e acessórios. Gosta de futebol, é torcedora fervorosa. Minha irmã é campeã brasileira de supino [levantamento de peso] e usou o esporte como forma de superar sua condição bipolar. Minha namorada me apoia. Então, a dondoca de casa sou eu!", riu, referindo-se a si próprio ora no masculino ora no feminino.


ESPELHO

Laerte  falou também sobre sua passagem pelo Partido Comunista - "Homossexualidade não era uma questão ali. Estávamos mais preocupados com o proletariado" - e sobre a HQ Muchacha  - Companhia das Letras -, que tem como personagem principal um ator que se traveste de cantora cubana: "Não ter que fazer piadas trouxe meu trabalho para uma relação mais íntima comigo mesmo, como se fosse um espelho. O humor muitas vezes funciona como escape e escamoteamento de questões mais profundas".

PIADA EM DEBATE 


Questionado sobre o atual debate sobre os limites do humor e do politicamente correto, o cartunista disse que o humor deve ser livre, mas que nem por isso deve estar acima da crítica. "Quando o Rafinha Bastos tuíta que mulher feia tem de agradecer se for estuprada, não tem como ele não ser criticado. Ele falou merda sob qualquer ponto de vista", criticou.

"Dizer uma coisa dessas num país que ainda trata mal suas mulheres, muitas vezes com violência, especialmente aquelas que não estão no padrão das capas de revista, é de uma crueldade sem tamanho. O humor trabalha com o preconceito, mas ele extrapolou todos os limites com isso e é natural que haja reação."

É por tudo isso que eu cada vez mais admiro o Laerte.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

CARTUNISTA LAERTE DÁ ENTREVISTA HISTÓRICA AO JÔ E REVELA SEU NOME CROSS-DRESSER

Em participação na madrugada de hoje (20) no "Programa do Jô", da Rede Globo, o cartunista Laerte, que recentemente passou a se vestir somente com roupas femininas, revelou que gosta de ser chamado pelo nome de Sônia.

O artista, bissexual assumido, é um dos mais respeitados do ramo no país.

Autor de tiras diárias na "Folha de S.Paulo", Laerte falou ao apresentador sobre "crossdressing" e revelou que Sônia é o nome que usa no grupo que frequenta - de homens que se travestem de mulher.

Reprodução/TV Globo
Laerte sendo entrevistado pelo Jô, nessa madrugada de 20.5

O cartunista disse não ter tido problemas para assumir para os filhos, já adultos, ou para a namorada Tuca, seu inusitado hábito.

Segundo ele, mais difícil foi revelar que passaria a se travestir diariamente para seus pais, preocupados com sua integridade física ao assumir a nova persona.

Laerte também aproveitou a ida ao programa para divulgar sua mais nova HQ, "Muchacha", lançada em 2010.

Lógico, o pessoal do YouTube foi rápido em postar a entrevista, em duas partes.

Aqui, você vê a primeira parte:


E aqui, na última parte, Laerte revela seu codinome "crossdresser":


Entrevista histórica e muito bem conduzida.


Parabéns ao Jô e ao Laerte.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A SEMANA ILUSTRADA

Brasileiros, avacalhando atores de "Crepúsculo"; Silvio Santos falido; jornalista Miriam Leitão, sem assunto; Gianechinni faz propaganda de pintos...

Essas e muitas outras, as fotocharges especiais do blog.

Confira:










quinta-feira, 11 de novembro de 2010

CARTUNISTA LAERTE RESOLVEU SE VESTIR E SE MAQUIAR COMO MULHER; AMIGOS FINGEM QUE NADA MUDOU

"Sou a favor de dessatanizar a palavra travesti. Você fala travesti, as pessoas leem traveca, suruba, Ronaldinho, esse mundo de ideias prontas"

"Quando me travisto, uso o repertório consagrado às mulheres. Exploro minha feminilidade, mas não quero convencer as pessoas de que sou mulher"
LAERTE COUTINHO, cartunista


O cartunista Larte Coutinho sempre foi meio porra louca, só para tentarmos usar uma palavra da nossa geração.

Publicado diariamente na "Folha de S.Paulo", o autor de inúmeras tiras de sucesso como
"Piratas do Tietê" e "Hugo" mais uma vez dá um nó dos bons em nossas cabeças.

De uns tempos para cá - como seu personagem Hugo que começou a se vestir de mulher e virou Muriel - começou a se travestir também!

O repórter Ivan Finotti fez uma ótima matéria com Laerte, e é isso o que você vai conferir agora.

*****

Exatamente como na fábula do rei nu, Laerte anda por aí, todos percebem que há algo estranho - errado? diferente? bizarro? - com sua roupa, mas ninguém se manifesta.

Foto: Carlos Cecconello/Folhapress - Arte Final: Cláudio Nóvoa

o Cartunista Laerte Coutinho durante a entrevista e sua criação Hugo/Muriel: igualzinhos!

Pela frente, ninguém fala nada.
Quando ele(a) vira as costas, porém, os amigos e conhecidos se entreolham estarrecidos.

"Será que endoidou?", se perguntam.

Mas, diferentemente do rei, Laerte não está nu. Está vestido de mulher.

Quase sexagenário, o cartunista da Folha Laerte Coutinho decidiu dar vazão à sua feminilidade.

No feriado, um amigo antigo foi à sua casa, no Butantã.
"Eu estava de saia. E olha que não era uma saia austera, como uma jeans (risos)."
"Era uma saia indiana, cheia de babadinhos. Eu tinha acabado de fazer a unha. Ficamos conversando. Acho que ele não é uma pessoa que se incomoda com isso, mas talvez tivesse uma pergunta presa na garganta."

E que pergunta era essa, Laerte?
"Acho que era: "Será que ele está batendo bem?". Pois estou sim. Estou no completo controle de minhas faculdades mentais."

De salto médio, meias coloridas, maquiagem leve e namorada a tiracolo, Laerte chega para dar entrevista à Folha sobre seu novo estilo de vida.

Confira:

Folha - Diversas possibilidades para a mudança do seu estilo de vida passam pela cabeça. A primeira delas é que você pirou, um processo que teria começado em 2005, com a morte de seu filho num acidente de carro, passou pelas tiras da Ilustrada, cada vez mais estranhas, e agora isso. Você está louco, Laerte?

Laerte Coutinho - Eu não me sinto fora do eixo, fora do tom, fora de nada. Comecei a me aproximar do travestimento, ou "cross-dressing", em 2004. Interrompi - e a morte de meu filho tem um peso nisso - e retomei em 2009. Fiz a minha primeira montagem em 2009. Mas as coisas que se evidenciaram [em meu trabalho] a partir de 2005 já estavam ali, latentes, germinando em 2004.

Uma segunda possibilidade é que você se veste porque isso dá tesão.

Não, não é um fetiche sexual. Não é, nem é um tema que me interessa agora. O travestimento é uma questão de gênero, não de sexo. São coisas independentes, autônomas, que nem o executivo e o legislativo. É um erro fazer essa mistura. "Ah, está vestido de mulher, então é viado." "Jogou bola, é macho." E eu que gostava de costurar e de jogar bola?
O que tenho feito é investigar essa parte de gênero. O que tenho descoberto é que isso é muito arraigado, essa cultura binária, essa divisão do mundo entre mulheres e homens é um dogma muito forte. Não se rompe isso facilmente. desafiar esses códigos perturba todo o ambiente ao redor de você.

Mas você é bissexual, certo?

Sou.

E não há ligação entre isso e o "cross-dressing"?

Não.

Você está fazendo isso para espantar o tédio?

Não faço isso porque a vida está sem graça. O problema é a vida submetida a essa ditadura dos gêneros, a esses tabus que não podem ser quebrados. É você sentir que sua liberdade está sendo tolhida, que as possibilidades infinitas que você tem de expressão na vida, ao sair, ao se vestir, ao se manifestar, ao tratar as pessoas, seu modo, seu gestual, sua fala, tudo isso é cerceado e limitado por códigos muito fortes e muito restritos. Isso é uma coisa que me incomoda.

As pessoas aparentam normalidade e tentam não demonstrar um espanto, certo?

Por uma razão: se demonstram espanto, estão ferindo um código de boa conduta intelectual. Demonstram que não são modernos, por exemplo.

E na rua?

Quando eu estou na rua de saia e passa uma kombi e o cara faz "fiu-fiu" pra mim, ele não teve dificuldade nenhuma em fazer aquilo. E eu também recebo de forma muito clara.

Você dá pistas de que vai estar travestido quando vai encontrar uma pessoa que ainda não sabe?

Existe uma tática, um modo de preparar um pouco. Vou na casa de uma pessoa que não conheço, não vou totalmente montado. Questão de bom senso.

Mas você pode ir de homem?

Estou abolindo esses negócios.

Você pode ir sem maquiagem?

Eu estou sem maquiagem. Ops, ah, não, estou com olho pintado! Mas posso, sim, ir sem maquiagem.

Como foi o Natal em família? Com vestido?

Não, não. Só unha mesmo. Não estava nem de bolsa. Acho que foi mais mãos mesmo. Rolou um certo estranhamento com o cabelo. Esse corte feminino, feito pela [minha namorada] Tuca.

Avisou de alguma forma para se prepararem?

Não, fui na louca.

E o Angeli? Você já encontrou o Angeli?

Eu estou dando pra ele! (risos)

Ele vai adorar ler isso!

(Risos) Brincadeira. O Angeli é uma beleza. Achou superlegal. O Angeli é um exemplo de que uma pessoa pode ser completamente hétero e legal.

Como você explica isso para as pessoas?

É como se a vida tivesse me levado a essa circunstância e, quando eu me vi, percebi que aquilo representava uma busca pra mim. Foi mais ou menos isso que senti. Quando vi, comecei a fazer tiras do Hugo virando a Muriel.

O lema do Brazilian Crossdresser Club, do qual você faz parte, é "existimos pelo prazer de ser mulher". Que prazer é esse, Laerte?

Eu não concordo muito com esse lema, porque é uma frase que procura construir uma certa fantasia que eu não partilho. Eu não vou ser mulher nunca. Mas acho que é possível sair na rua e ser aceita como uma pessoa que se veste daquela maneira, que se enfeita e se produz e se apresenta daquela maneira.

*****

Confira três tiras de Hugo/Muriel:



*****

Será que o Laerte não está se vestindo de mulher para lançar a "Muchacha"? , podemos nos perguntar.

"É claro que não", responde ele, sério.

O caso é que, ao mesmo tempo em que se descobria "cross-dresser", Laerte desenvolvia essa novelinha lisérgica, inspirada nos seriados de ação dos anos 50. E com uma personagem travesti.

Das aventuras do Capitão Tigre, que se passa ao vivo em frente às enormes câmeras da época, aos bastidores e às vidas dos atores, acompanhamos uma São Paulo antiga e psicodélica, com morcegos travestis, visitantes do futuro e adolescentes apaixonadas.

Além das publicadas na Ilustrada, o livro tem tiras inéditas e uma nova história com a origem do Capitão Tigre, desenhada por seu filho, Rafael Coutinho.

MUCHACHA
AUTORES:
Laerte Coutinho e Rafael Coutinho
EDITORA: Companhia das Letras
QUANTO: R$ 29 (96 págs.)

*****

Matéria de Ivan Finotti, publicada na "Folha de S.Paulo "

Redação Final: Cláudio Nóvoa

quarta-feira, 14 de abril de 2010

"FOLHA DE S.PAULO" ABRE CONCURSO DE ILUSTRAÇÃO; VENCEDOR SERÁ COLABORADOR DO JORNAL



Da

Atenção amadores e profissionais dos rabiscos em geral: está aberta a temporada de caça aos talentos do desenho brasileiro, com o lançamento do 4º Concurso de Ilustração da Folha.

O vencedor ganhará um contrato de três meses de colaboração com o jornal. Também serão premiados três concorrentes em cada categoria do concurso, que recebe inscrições até 30/4.

"A originalidade das ideias e do traço será um quesito importante na seleção, porque isso ajuda o trabalho a se sobressair", diz Fábio Marra, editor de arte da Folha.

Ele será um dos jurados da primeira etapa, ao lado de Marco Aurélio Canônico, editor do Folhateen, e de André Barcinski, crítico da Folha.

A peneira final será feita pelo editor-executivo, Sérgio Dávila, além de Angeli e de Laerte.

O 1º Concurso de Ilustração da Folha rolou em 1985, quando já mostrou sua vocação para revelar talentos. Fernando Gonsales, da tira Níquel Náusea, foi um dos vencedores.

Em 1999, foi a vez de Jean aparecer com o humor crítico que exibe até hoje nas charges da página de editoriais. Já em 2006, apareceram vários ilustradores do atual quadro de colaboradores do jornal, como Adams Carvalho, da coluna de Gilberto Dimenstein.

E agora, será que chegou a sua vez?

Editoria de Arte/Folha Imagem