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quarta-feira, 8 de março de 2017

DIA DA MULHER: PROTAGONISTAS DE 'MULHER-MARAVILHA' MANDAM MENSAGEM ESPECIAL ÀS MULHERES BRASILEIRAS

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"Olá mulheres-maravilha do Brasil!"
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Gal Gadot e Chris Pine, protagonistas de 'Mulher-Maravilha', próximo filme do universo DC a chegar aos cinemas, aproveitaram o Dia das Mulheres para enviarem uma mensagem personalizada às mulheres brasileiras.

O vídeo apresenta a nova história do filme, citando a personagem como "uma das maiores heroínas de todos os tempos" e destacando trechos da aventura previamente vistos nos trailers.

Assista:


Se o vídeo não é exatamente uma mensagem inspiradora para as mulheres e sim uma propaganda de 'Mulher-Maravilha', podemos relevar, já que, afinal, este promete ser um dos melhores projetos de super-herói de 2017, estrelado e dirigido por mulheres.

Gal Gadot já mostrou que se sai muito bem no papel da principal personagem feminina da DC em 'Batman vs Superman - A Origem da Justiça'.

A estreia está prevista para o dia 1 de junho.

DIA DA MULHER: IMDb LANÇA CATEGORIA F-RATING PARA VALORIZAR PAPÉIS FEMININOS DE DESTAQUE NOS CINEMAS

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Até agora, 21.800 filmes foram marcados com a classificação - incluindo 'Frozen - Uma Aventura Congelante', 'Docinho da América' e 'O Bebê de Bridget Jones'
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O mais completo site sobre cinema e séries do mundo, o IMDb (Internet Movie Database) adotou a classificação F-Rated, para ressaltar filmes que são escritos e/ou dirigidos por mulheres e que tem personagens femininas de destaque.

Criado em 2014 pela diretora executiva do festival de cinema de Bath, Holly Tarquini, o F-Rating foi inspirado no Teste de Bechdel, desenvolvido para determinar se uma obra de ficção mostra pelo menos duas mulheres falando entre si sobre algo que não seja um homem.


"A F-Rating é uma ótima maneira de destacar as mulheres na frente e atrás das câmeras", disse a fundadora e CEO do IMDb, Cola Needham.

Até agora, 21.800 filmes foram marcados com uma classificação F.

Produções que correspondem aos três critérios (roteirizados, dirigidos e estrelados por mulheres em um papel de destaque) recebem "classificação tripla", como 'Frozen - Uma Aventura Congelante', 'Docinho da América e O Bebê de Bridget Jones'.

Outros filmes F-Rated incluem 'Kung Fu Panda 2', 'A Garota No Trem', 'Sexta-Feira Muito Louca', 'A Revolução dos Bichos' e 'Os Homens Preferem as Loiras'.


Tarquini espera que a classificação um dia já não seja necessária, quando a igualdade de gênero for atingida por completo no cinema.

"A F-Rating destina-se a fazer as pessoas falarem sobre a representação das mulheres dentro e fora da tela", disse a criadora.

"É emocionante quando novas organizações decidem se juntar a nós e mostrar o trabalho brilhante que as mulheres estão fazendo em filmes e em quão distante a indústria do cinema está atrasada em relação a maioria das indústrias, quando se trata de fornecer igualdade de oportunidades às mulheres", continuou Tarquini.

Ela, então, deu uma perspectiva para o futuro:

"Mas nosso verdadeiro objetivo é chegar ao momento em que o F-Rating for redundante, porque 50% das histórias que vemos na tela são contadas por e são sobre a metade injustamente sub-representada da população – as mulheres".


Aos poucos, a representatividade feminina nos cinemas tem progredido.

Os inéditos 'Tomb Raider' e 'Guardiões da Galáxia Vol. 2', por exemplo, passarão no Teste de Bechdel quando forem lançados, enquanto 'Rogue One - Uma História Star Wars' passou no teste ainda em seus trailers promocionais.

Fotos: Divulgação

quarta-feira, 9 de maio de 2012

HISTORIADORES AFIRMAM: BRASILEIRO É FALSO MORALISTA E DUAS CARAS EM RELAÇÃO À SEXUALIDADE


No carnaval, os desfiles das escolas de samba mostram mulheres seminuas a sambar, emissoras de TV fazem a cobertura dos bailes gays  e os telejornais exibem imagens da folia nos blocos em todo país onde a sensualidade rola solta. 

Fora do Carnaval,  se São Paulo celebra a diversidade sexual e vira palco de uma das maiores paradas gay do mundo, em 2009, a universitária Geisy Arruda teve de sair da faculdade em São Bernardo do Campo (SP) escoltada por policiais e ouvindo xingamentos por usar um vestido considerado justo e curto. 

A intolerância também frequenta a Avenida Paulista, local cujas câmeras ali instaladas costumam registrar, com frequência, ataques a homossexuais.

"A mesma avenida que abriga uma das maiores paradas gay do mundo é o lugar onde se mata homossexuais. É inadmissível. Somos pessoas de duas caras, falsos moralistas", afirma a historiadora Mary Del Priore, que estuda a sexualidade no Brasil ao longo dos séculos. 
Lumi Mae
o papel da igreja na formação da nossa sociedade ajuda a formar a dupla moral brasileira
Mary acaba de lançar o livro "A Carne e o Sangue" (Editora Rocco), que aborda o triângulo amoroso constituído por Dom Pedro I, a Marquesa de Santos e a Imperatriz Leopoldina. 
"D. Pedro dizia que fazia ‘amor de matrimônio’ com Leopoldina e ‘amor de devoção’ com Domitila. Do sangue nobre cuidava a mulher, que lhe dava os filhos e era a matriz. O prazer era com a outra. A imperatriz era muito religiosa e tinha horror ao sexo. A marquesa, ao contrário. E D. Pedro era um inconsequente machista, que teve dezenas de amantes", conta Mary.

Segundo a historiadora, o papel da igreja na formação da nossa sociedade no século 19 ajudou a formar essa dupla moral. 
"A casa tinha de ser o exemplo da sagrada família de Maria, José e Jesus, voltada para os valores mais altos que preconizava a igreja católica. A igreja consagra o matrimônio como obrigatório. Mais do que isso: o sexo dentro do casamento tinha de ser higiênico e a única preocupação era a reprodução". 

De acordo com a pesquisadora, a igreja regulamentava inclusive o que deveria acontecer entre quatro paredes.
“Os beijos eram condenados. Os padres confessores perguntavam o que as pessoas faziam no quarto e reprovavam todo tipo de toque no corpo com objetivo de ter prazer. A posição da mulher sobre o homem era contrária à lei divina. E ficar de quatro seria uma forma de animalizar o ato. Esse casamento sem prazer vai incentivar o sexo prazeroso fora de casa", declara a historiadora. 

E ela inclui outro exemplo da ambiguidade moral do brasileiro: as pornochanchadas da década de 70. 
"Há vários estudos que mostram que esse foi um momento de revolução sexual. Mas uma característica comum nesse tipo de filme é que o homem que pega todo mundo está sempre atrás de uma virgem. E a prostituta sonha com casamento de véu e grinalda. No Brasil, a mulher sempre teve de ser pura, virgem, não saber de sexo. Isso depunha contra o sexo feminino até pouco tempo", comenta Mary.

O preconceito contra as mulheres que praticam sexo livremente permanece, segundo Mirian Goldenberg, antropóloga e professora na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). 
 "Estive na Suécia fazendo pesquisas sobre as mulheres. Lá, elas não são julgadas pelo comportamento sexual, se teve 20 parceiros ou um. Aqui as meninas mentem. Elas me dizem que se falarem que tiveram mais de três parceiros não arrumam namorados. E olha que estou falando de jovens que estudam ciências sociais", diz Mirian, que acrescenta: "No Brasil, ter marido e constituir família é de um valor enorme para a mulher. Numa cultura assim, é difícil ter liberdade sexual. Conheço algumas que têm medo do porteiro do prédio. Homem entra com dez mulheres no apartamento sem nenhum problema. Elas não fazem isso. Esse tipo de preconceito afeta o cotidiano e já deveria para ter acabado", afirma a antropóloga que estuda a sexualidade na classe média carioca desde 1988 e é autora dos livros "Toda Mulher é Meio Leila Diniz" e "Por Que Homens e Mulheres Traem?" (Edições BestBolso).

O preconceito pode assumir formas agressivas e terminar em mortes, como mostra o Relatório Anual de Assassinatos de Homossexuais do Grupo Gay da Bahia. 
De acordo com o documento, em 2011, ocorreram 266 assassinatos de gays, travestis e lésbicas no país, um aumento 118% desde 2007, quando foram registrados 122 casos. Esses números foram obtidos através de pesquisas em jornais, internet e notificação de pessoas ligadas às vítimas.

Embora os dados alertem para a violência cometida contra esses grupos, mostram também uma mudança social, de acordo com Sérgio Carrara, professor de antropologia do Instituto de Medicina Social da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e coordenador do Centro Latino Americano Em Sexualidade e Direitos Humanos. 
"Acho uma modificação importante no cenário a maior visibilidade que os crimes homofóbicos estão tendo na mídia. Começa-se a discutir e reconhecer a existência dessa situação. Vivemos um processo histórico, onde está se exigindo respeito e reconhecimento. Mas isso produz reações e situações de conflito de moralidades distintas", comenta o professor.

Para o psiquiatra e sexólogo Ronaldo Pamplona da Costa, a ignorância está na raiz do problema. 
"Todo preconceito com relação à sexualidade é baseado na falta de conhecimento sobre o assunto. De uns anos para cá, começou a ser tratado como impróprio mostrar preconceitos sobre sexualidade. As pessoas passaram a posar de conhecedores ou liberais quando nem entendem do assunto. Isso resulta no brasileiro falso liberal", diz o médico, autor de "Os Onze Sexos" (Editora Gente), lançado em 1994 no qual abordou os cinco tipos de sexualidade para homens e mulheres -  heterossexualismo, homossexualismo, bissexualismo, travestismo e transexualismo - acrescidos de um 11º grupo chamado de intersexo, onde estão agrupadas pessoas com defeitos físicos internos ou externos na região genital como hermafroditas, por exemplo. 
"Na época, sabia-se só sobre o heterossexualismo e colocava-se na mesma sacola do homossexualismo todas as outras sexualidades", diz Ronaldo.
Caio Guatelli - Folhapress
Caio Guatelli/Folhapress
A mesma avenida que abriga a maior parada LGBT do mundo é também o palco de crimes homofóbicos
Para dar uma ideia do desconhecimento sobre a sexualidade, o médico cita a própria categoria profissional. 
"Na faculdade de medicina não tem estudo da sexualidade nos aspectos biológicos, psicológicos e sociais. Só como funcionam os órgãos genitais com vistas à reprodução", diz o psiquiatra. 
"Ninguém nasce preconceituoso. Ao longo da educação as pessoas vão assimilando isso. Um homossexual pode ser preconceituoso em relação à própria sexualidade em alguma medida porque, no geral, fomos criados para sermos heterossexuais", fala Ronaldo, relatando que, recentemente, atendeu em seu consultório uma jovem universitária que se assumia homossexual, embora não tivesse tido a prática, e que já havia feito amplas pesquisas sobre o tema. 
"Depois entrou a mãe dela, sozinha, uma mulher com curso superior, dizendo que não aceitava de forma alguma essa situação e que faria tudo para que a filha deixasse de ser homossexual."

Para que homens e mulheres possam exercer livremente a sexualidade, sem medo de se tornarem vítimas de ataques de qualquer natureza, serão necessárias muitas mudanças, segundo os especialistas. 
 "Temos liberdade política, mas não somos cidadãos. Democracias requerem esse sentimento. E não temos isso porque não temos educação", diz Mary Del Priore, que ainda faz críticas às mães. 
"Elas dão no leitinho para o filho homem a superproteção, a homofobia. É uma mulher que adora ser chamada de gostosa, que se identifica com mulher fruta, para quem mulher inteligente é sapatão. É a mãe a figura que transmite esse preconceito e essa dupla cara", diz a historiadora.

Mirian Goldenberg pensa da mesma forma. 
"O valor da brasileira sempre foi muito associado ao seu corpo, que tem de ser sexy, seduzir. Uma mulher alemã, por exemplo, é poderosa porque tem cargo de chefia, dinheiro, pode decidir, é algo objetivo. O poder da brasileira sempre foi associado à sexualidade dela para a sedução do outro e não para o próprio prazer. Todo o peso do julgamento tem a ver com a imagem corporal que ela constrói", diz Mirian, que acha mais complicado lutar contra o que chama de preconceito invisível.

"As atitudes mais violentas de intolerância acabam indo parar na TV e geram movimento de repúdio. Mas ao nos submetermos mentir no dia a dia, ter medo do julgamento do porteiro, evitar o decote para não sofrer preconceito, nós só o reforçamos", diz Mirian, que cita uma figura famosa por quebrar tabus nos anos 60. 
"Como Leila Diniz acabou com o estigma da mulher grávida não poder mostrar a barriga? Foi para a praia de biquíni dizendo que a barriga era linda. E hoje todas as gestantes podem fazer isso. Esse preconceito invisível é mais difícil de acabar", diz Mirian.

Para Sérgio Carrara, é possível construirmos uma nova moral sexual.
 "Temos um processo de conflitos que envolve movimento LGBT, imprensa, sociedade civil, políticos. São forças que querem traçar uma nova moralidade sexual que não seja baseada na discriminação. Mas há também uma reação a isso, seja na forma de violência física ou simbólica. E as escolas são fundamentais nessa construção que deve ser baseada em liberdade, igualdade e dignidade, na qual a orientação sexual das pessoas diz respeito apenas a elas. Ao considerar esses princípios, os preconceitos e estereótipos tendem a desaparecer."
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Matéria de Cléo Francisco, para o UOL

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

CONHEÇA ELEONORA MENICUCCI DE OLIVEIRA, MINISTRA DA SECRETARIA FEDERAL DE POLÍTICAS PARA AS MULHERES


A nova ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci de Oliveira, é uma incansável defensora da Mulher em todas as instâncias - a mulher certa para o posto certo.

Eleonora já começou no governo Dilma  - que foi sua companheira de prisão durante a ditadura militar - com o pé direito.

Já na sua cerimônia de posse, no último dia 10, prestou uma bela homenagem aos militantes políticos que combateram o regime militar (1964-1985).

“Quando cheguei no presídio Tiradentes você [Dilma ] estava lá e me deu um abraço com tanto afeto, afeto que jamais esqueci”, discursou.
“Quero neste momento, com muita emoção e com muita tristeza, render minhas homenagens aos homens e mulheres, jovens, que tombaram na luta contra a ditadura”, disse, arrancando aplausos efusivos da plateia.
Thays Athayde/Blogueiras Feministas
Dilma e a ministra Eleonora, na sua posse no último dia 10

Em seu discurso, Dilma afirmou que a nova ministra “é uma feminista que irá atuar sob as diretrizes do governo”.
“Ela vem para integrar o governo mais feminino da história do nosso país”, afirmou a presidente, que reiterou que, ao falar em governo feminino, não se refere apenas a uma presidente e dez mulheres no comando de ministérios, mas a “homens e mulheres que conhecem a importância da mulher e seus direitos na sociedade”.

Ao se despedir da pasta, a ex-ministra Iriny Lopes comemorou a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), que determinou que a lei Maria da Penha pode ser aplicada mesmo sem queixa da agredida.
“Precisamos dar a lei Maria da Penha agilidade, eficácia, e para isso o debate precisa ser encerrado. Foi uma coincidência tão feliz (...), a possibilidade das mulheres brasileiras darem um passo decisivo no combate à violência", afirmou Lopes - que agora volta à Câmara dos Deputados.

Graduada em ciências sociais pela Universidade de Minas Gerais, mestre em sociologia pela Universidade Federal da Paraíba, doutora em ciências políticas pela Universidade de São Paulo e pós-doutora em saúde e trabalho das mulheres pela Facultá de Medicina della Universitá Degli Studi di Milano, na Itália, Eleonora Menicucci de Oliveira é divorciada, mãe de dois filhos e avó de três netos.

Pró-reitora de extensão da Unifesp, Menicucci lidera o Núcleo de Estudos e Pesquisa em Saúde da Mulher e Relações de Gênero.

A nova ministra foi líder estudantil em Belo Horizonte (MG) e militou pelo extinto POC (Partido Operário Comunista).

Ela foi presa e torturada durante o regime militar, quando esteve presa junto com a presidente Dilma Rousseff.

Oliveira é conhecida pela defesa das causas feministas e pela luta pela descriminalização do aborto no país - foi a relatora no Brasil para o direito à saúde do Alto Voluntariado da ONU.

Lógico, essa sua posição vem sistematicamente atacada pelos medievalistas encastelados no poder - a praga dos evangélicos à frente.

Logo depois de ser anunciada para o cargo, Menicucci afirmou que passará a tratar da legalização e da descriminalização do aborto como “governo”, deixando a posição pessoal de lado.

No entanto, apontou que caberia ao Congresso Nacional levar adiante o projeto que trata sobre o tema e defendeu que o aborto é uma questão de “saúde pública”, assim como o combate às drogas e às doenças sexualmente transmissíveis - um sopro de inteligência e vanguarda no governo, enfim.

Torcendo por ela!

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

'LE MONDE': ESCRAVA SEXUAL DE GADDAFI RELEMBRA CALVÁRIO E DIZ QUE ESTÁ 'DESTRUÍDA'


O jornal francês Le Monde traz na sua edição de hoje uma matéria impactante, retratando o calvário de uma jovem líbia que foi, aos 15 anos, obrigada a ser escrava sexual do ex-ditador líbio Muammar Gaddafi.

O relato, visceral e chocante, nos faz pensar que ditadura é sempre sinônimo de excessos, em todos os sentidos.

Confira:

Ela tem 22 anos, é linda e está despedaçada.

Ela consegue rir por alguns segundos, e então uma centelha de infância ilumina um rosto marcado pela vida.
"Que idade você me dá?", ela pergunta, tirando seus óculos escuros.

Ela espera, esboça um sorriso fraco e murmura:
"Eu sinto como se tivesse 40 anos". E isso lhe parece muito.

Ela desvia o olhar, cobre nervosamente a parte de baixo de seu rosto com um véu preto, e lágrimas brotam em seus olhos escuros.
"Muammar Gaddafi arruinou minha vida".

Ela quer contar tudo.
Acha arriscado, mas aceitou depor, durante um encontro que duraria várias horas em um hotel de Trípoli.

Ela sabe que está confusa, e que lhe faltarão palavras para descrever o universo de perversão e de loucura no qual foi lançada.

Mas ela precisava falar.
Lembranças pesadas demais obstruem sua mente.
"Manchas", ela diz, que lhe dão pesadelos.

"Mesmo eu contando, nunca, ninguém saberá de onde eu venho ou o que vivi. Ninguém poderá imaginar. Ninguém".
Ela balança a cabeça com um ar desesperado.
"Quando vi o cadáver de Gaddafi exposto à multidão, por um momento senti prazer. Depois, senti um gosto amargo na boca".

The New York Times
o ex-ditador líbio Muammar Gaddafi

Ela queria que ele estivesse vivo, que fosse capturado e julgado por um tribunal internacional. Nesses últimos meses, só pensou nisso.
"Eu me preparava para enfrentá-lo e lhe perguntar, olhos nos olhos: por quê? Por que fez isso comigo? Por que me estuprou? Por que me bateu, me drogou, me insultou? Por que me ensinou a beber, a fumar? Por que roubou minha vida?"

Ela tinha 9 anos quando sua família, originária do leste do país, se mudou para Sirte, cidade-natal do coronel Gaddafi.

Ela tinha 15 quando, em 2004, foi escolhida dentre as garotas de seu colégio para entregar um buquê de flores ao "Guia", que visitava a escola onde ele tinha primos.
"Era uma grande honra. Eu o chamava de 'papa Muammar' e sentia arrepios." 
O coronel colocou a mão em seu ombro e acariciou seus cabelos, lentamente.
Era um sinal para seus guarda-costas que significava: "Quero esta daqui" - foi o que ela descobriu mais tarde.

No dia seguinte, três mulheres uniformizadas, a serviço do ditador – Salma, Mabrouka e Feiza – apareceram no salão de beleza de sua mãe.
"Muammar quer te ver. Ele gostaria de te dar alguns presentes".

A adolescente – vamos chamá-la de Safia – as seguiu de bom grado.
"Como poderia suspeitar de alguma coisa? Era o herói, o príncipe de Sirte".

Ela foi levada para o deserto, onde a caravana do coronel, de 62 anos, estava instalada para um dia de caça.
Ele a recebeu rapidamente, solene, com olhar penetrante.
Fez perguntas sobre a família dela, as origens de seu pai, de sua mãe, sua situação financeira.

Depois ele lhe pediu friamente que fosse viver com ele.
A jovem ficou chocada.
"Você terá tudo que quiser, casas, carros..."

Ela entrou em pânico, fez sinal negativo com a cabeça, disse que queria ficar com sua família, estudar.
"Eu cuidarei de tudo", ele respondeu.
"Você estará em segurança, garanto, seu pai vai entender."
E ele chamou Mabrouka para que ela tomasse conta da adolescente.

Nas horas seguintes, Safia, assustada, foi vestida com peças íntimas e "roupas sexy".
Ensinaram-lhe a dançar, a se despir ao som de música, e "outros deveres".

Ela soluçava, pedindo para voltar à casa de seus pais.
Mabrouka sorria. 
Voltar à vida normal não era mais uma opção.

Nas três primeiras noites, Safia dançou sozinha para Gaddafi.
Ele escutava a fita de um músico "que ele mandou matar mais tarde".
Ele a olhava, sem tocá-la.
Disse simplesmente: "Você vai ser minha puta".
A caravana voltou para Sirte, com Safia na bagagem.

E, na noite em que voltou ao seu palácio, ele a estuprou.
Ela se debateu e ele a espancou, puxando seus cabelos.
Ela tentou fugir.
Mabrouka e Salma intervieram e bateram nela.
"Ele continuou nos dias seguintes. Virei sua escrava sexual. Ele me estuprou durante cinco anos."

Ela logo foi parar em Trípoli, no antro de Bab al-Azizia, o domínio ultraprotegido por três muros onde viviam, em diferentes setores, o senhor da Líbia, sua família, colaboradores, tropas de elite.

No começo, Safia dividiu um quartinho na residência do mestre com outra garota de Benghazi, também raptada, mas que um dia conseguiu fugir.

No mesmo andar, em cômodos minúsculos, eram mantidas permanentemente cerca de vinte garotas, a maioria delas com idades entre 18 e 19 anos, em geral recrutadas pelas três mesmas emissárias.

Essas três mulheres brutais, onipresentes, dirigiam essa espécie de harém, onde as jovens, disfarçadas de guarda-costas, ficavam à disposição do coronel.
A maioria permanecia somente alguns meses, antes de sumirem, uma vez que o mestre se cansava. Elas tinham somente um mínimo de contato entre si, já que qualquer conversa pessoal era proibida.

Safia sabia que era a mais jovem e passava o tempo em seu quarto assistindo à televisão. Recusaram-lhe caderno e lápis.
Então ela passava horas sentada diante do espelho, falando em voz alta e chorando.
Ela precisava estar sempre pronta caso o coronel a chamasse, dia e noite.
Os apartamentos dele ficavam no andar de cima.

No começo, ele a chamava constantemente.
Depois a deixou por outras, escolhidas entre as prostitutas, às vezes voluntárias – algumas diziam "se oferecer ao Guia" - , mas mais frequentemente forçadas.

Ele continuou a solicitá-la pelo menos duas ou três vezes por semana, sempre violento e sádico. 
Ela tinha hematomas, marcas de mordida e o seio machucado. 
Teve hemorragias. Gala, uma enfermeira ucraniana, era sua "única amiga".
Toda semana ela fazia exames de sangue nas jovens.

Eram organizadas regularmente festas com modelos italianas, belgas, africanas ou estrelas de filmes egípcios apreciados pelos filhos do coronel e outros dignitários.
Jantares, bailes, música, orgias.

Gaddafi se mostrava generoso.
Safia se lembra de ter visto malas – segundo ela, "Samsonites" – de euros e dólares.
"Ele dava às estrangeiras, nunca às líbias".

Safia não queria participar dessas festas, "eu tinha medo que ele me pedisse para fazer um strip-tease".

Dois chefes de Estado africanos também se aproveitavam com prazer das "guarda-costas".
"Para Muammar, eram simples objetos sexuais que ele podia passar para os outros, depois que ele mesmo as tivesse provado".
Ela conta que o coronel também tinha diversos parceiros sexuais masculinos.

Sua mulher e o resto da família que moravam em outros setores de Bab al-Azizia estavam a par dos hábitos do ditador.
"Mas suas filhas não queriam vê-lo na companhia de outras mulheres.
Então ele ia encontrá-las às sextas-feiras em sua outra residência perto do aeroporto”.

Na jacuzzi instalada em seu quarto, de onde ele consultava seu computador, ele exigia jogos e massagens.

Ele obrigava Safia a fumar, a beber uísque "Black Label", a cheirar cocaína.
Ela detestava e tinha medo.
Na segunda vez, teve uma "overdose" e foi levada ao hospital de Bab al-Azizia.
Já ele consumia tudo sem parar.
"Ele estava sempre sob o efeito de alguma substância, e não dormia nunca".

Em junho de 2007, ele a levou em uma viagem oficial de duas semanas pela África.
Mali, Guiné-Conacri, Serra Leoa, Costa do Marfim, Gana.
Ele a fantasiava com um uniforme cáqui e a apresentava como guarda-costas, o que ela não era, embora Mabrouka tenha lhe ensinado a carregar, desmontar, limpar e usar uma kalashnikov.
"O uniforme azul era reservado às verdadeiras guardas treinadas. O uniforme cáqui em geral era somente para o circo!"

Uma noite, na Costa do Marfim, ela usou batom para que ele pensasse que ela estava menstruada e a deixasse em paz.
Ele ficou louco de raiva e a espancou.
Ela queria fugir. Mabrouka lhe garantiu: "Onde quer que você se esconda, Muammar vai te encontrar e te matar".

Os pais de Safia logo souberam do destino de sua filha.
Sua mãe pôde vê-la uma vez, no palácio.
Às vezes Safia conseguia falar com ela pelo telefone, mas a conversa era sempre monitorada. Avisaram-na de que se seus pais se queixassem, eles seriam mortos.
O pai tinha tanta vergonha que ele não queria saber de nada.
No entanto, foi ele que organizou a fuga de sua filha.

Gaddafi, cansado de vê-la deprimida, a autorizou a visitar sua família brevemente três vezes por semana, em um carro do palácio.
Durante a quarta visita, em 2009, disfarçada de senhora idosa, ela conseguiu deixar a casa e, com a ajuda de um cúmplice no aeroporto, pegar um avião para a França.

Ela ficou ali durante um ano e voltou para a Líbia, se escondeu, contrariou sua mãe que queria casá-la logo com um velho primo viúvo, fugiu para a Tunísia, casou-se em segredo em abril de 2011, esperando partir com seu jovem marido para Malta ou a Itália.
A guerra os separou, ele se feriu gravemente, e ela só teve notícias dele vários meses depois.

Ela fuma e chora muito, sente-se "destruída".
Gostaria de testemunhar em um tribunal, mas sabe que a desgraça em seu país será tanta que a tornará uma pária.
"A mulher é sempre culpada”.

Sua vida está em risco, pois "Gaddafi ainda tem fiéis".

Ela não sabe mais onde ficar.

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Matéria do repórter Annick Cojean, para o jornal francês Le Monde

quarta-feira, 16 de março de 2011

MULHER E VIOLÊNCIA, POR LUIZA ERUNDINA

A deputada Federal Luiza Erundina (PSB-SP) - tem toda uma vida devotada às causas da Igualdade e oportunidades iguais para as Mulheres.

E esse seu artigo, publicado em jornal e no seu site, é muito bom.

Leia:

"A violência contra a mulher representa verdadeira tragédia que se repete diariamente no Brasil, quase sempre no ambiente doméstico e onde ocorrem as mais cruéis formas de agressão: verbais, físicas, psicológicas, sexuais e que deixam marcas profundas no corpo e na alma das vítimas, sendo que as primeiras desaparecem com o tempo; já as segundas nunca se apagam.

Trata-se de intolerável violação aos direitos humanos dessas mulheres, com graves consequências, não só para elas mesmas, como também para seus filhos e para toda a sociedade. Esse, porém, não é um fenômeno de hoje. Fruto da cultura machista, vem há muito tempo desafiando a sociedade e o Estado brasileiro, cujas políticas públicas e ações governamentais têm sido ineficazes na prevenção e no combate à violência doméstica, e não contribuem para eliminar suas causas e seus efeitos perversos.


Após quase 5 anos de vigência da Lei Maria da Penha, que representa valiosa conquista do movimento de mulheres e expressão do avanço das suas lutas em nosso país, o quadro de violência contra a mulher continua dramático, não obstante a lei prever, entre outras medidas importantes, maior rigor na punição aos agressores, especialmente quando a ofensa se dá no espaço doméstico ou familiar.

Lamentavelmente, os resultados da aplicação desse diploma legal ainda são bastante modestos se comparados com os indicadores apontados pela pesquisa “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado”, realizada em 2010 pela Fundação Perseu Abramo, em parceria com o SESC, recentemente divulgada, e que revela índices alarmantes de violência doméstica contra a mulher. Demonstra que do total de mulheres entrevistadas (2.365), 34% afirmaram já ter sofrido algum tipo de violência; contra 43% registrados por outra pesquisa realizada em 2001 pela mesma Fundação.

Assim, em nove anos houve uma queda de apenas 9%, percentual muito pequeno, se considerarmos um quadro de tamanha gravidade que vem afrontando, impunemente, anos a fio o direito à vida e à dignidade de tantas mulheres em nosso país.

Devemos aproveitar a oportunidade das comemorações do 8 de março – “Dia Internacional da Mulher” – data celebrada no mundo inteiro há 101 anos, e que no Brasil se estende por todo o mês de março, para refletirmos sobre essa trágica realidade que atinge de forma cruel inúmeras cidadãs brasileiras e que nos constrange a todas e todos.

Ninguém tem o direito de ficar indiferente diante dos dados estarrecedores mostrados por essa pesquisa que projeta, inclusive, que, a cada dois minutos, cinco mulheres são agredidas violentamente no Brasil.
Precisamos, pois, dar um basta a essa barbárie e exigirmos do Estado e do Governo políticas públicas efetivas e medidas enérgicas no sentido de coibir essa reiterada violação aos direitos humanos das mulheres no Brasil. Sem a garantia e o respeito a esses direitos não podemos dizer que vivemos numa sociedade civilizada e verdadeiramente democrática".


Luiza Erundina é Assistente Social, Mestre em Ciências Sociais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e Deputada Federal reeleita (PSB-SP)
Foi prefeita de São Paulo (1989-1992)

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Fonte: Jornal Brasil Econômico (10/03/2011) e site da Deputada: http://goo.gl/NBqFw
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quinta-feira, 11 de março de 2010

CICLO MOSTRA PRODUÇÃO FEMININA ESPANHOLA

O MIS - Museu da Imagem e do Som - apresenta, a partir de hoje, o ciclo de filmes "Espaço Feminino: Mulheres à Frente e Detrás da Câmera".

Organizado em parceria com Instituto Cervantes, o foco é o horizonte criativo feminino.

A mostra traz - em duas sessões diárias até domingo - curtas e longas da nova produção audiovisual espanhola, concebidos e dirigidos por mulheres.

A entrada é NA FAIXA, e a classificação é LIVRE!

Confira os horários disponíveis no site do Museu: www.mis-sp.org.br


MIS - av. Europa, 158, tel. 0/xx/11/2117-4777