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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

'ROMA': ALFONSO CUARÓN E NETFLIX FAZEM FILME INTIMISTA, SIMPLES E PODEROSO


SINOPSE:

Cidade do México, 1970.

A rotina de uma família de classe média é controlada de maneira silenciosa por uma mulher (Yalitza Aparicio), que trabalha como babá e empregada doméstica.

Durante um ano, diversos acontecimentos inesperados começam a afetar a vida de todos os moradores da casa, dando origem a uma série de mudanças, coletivas e pessoais.

CRÍTICA:

Um azulejo molhado que reflete o céu onde podemos ver lentamente um avião passando.

Esta é a cena de abertura de Roma, novo filme de Alfonso Cuarón que garantiu dez indicações ao Oscar 2019 e vem recebendo os principais prêmios da temporada.

O longa, intimista e com bela fotografia em preto & branco, marca o retorno do diretor mexicano desde que levou a estatueta de melhor filme em 2014 com o sufocante Gravidade.

Roma : Foto
Fotos dessa Postagem: Divulgação/Netflix
Aqui, Cuarón optou por um início lento, levando o espectador a conhecer a rotina da empregada doméstica Cleo, interpretada pela estreante Yalitza Aparicio, e os conflitos da casa onde trabalha.

O médico Antônio (Fernando Grediaga) inicia um processo de separação da esposa Sofia (Marina De Tavira) - e isso passa a afetar a vida de todos, incluindo os filhos do casal, Cleo e sua amiga Adela (Nancy García).

Além de trazer a rotina de trabalho da empregada, em que faz tarefas corriqueiras como lavar o chão do quintal e cuidar das crianças, o longa também aprofunda a vida pessoal de Cleo, mostrando a divisão de um quarto minúsculo com Adela nos fundos da casa do casal, suas idas ao cinema buscando diversão e se envolvendo com Fermín (Jorge Antonio Guerrero).

Ao apresentar um recorte da vida de Cleo, o diretor insere uma abordagem sobre o cenário político e cultural do México dos anos 70.

O título Roma se refere ao bairro onde a família vive, localizado em uma área nobre da capital mexicana e apresenta o contraste da economia do país comparando o local com outras regiões mais afastadas e bem menos privilegiadas - por exemplo, o bairro onde vive Fermín.

Roma : Foto

A produção também mostra as revoltas sociais que aconteceram no México no início da década, e esse retrato conectado à vida de Cleo reforça a ideia de que o indivíduo está fixado a um contexto social e cultural.

Além de comandar o longa, Cuarón também assumiu o cargo de diretor de fotografia, algo comum em suas produções.

Ele utiliza técnicas de câmera mais lentas e distantes para dar a impressão de que há alguém observando tudo o que acontece na vida da protagonista.

Isso traz o público para dentro da tela e dá profundidade na experiência de vivenciar a rotina daquelas pessoas.

A técnica de enquadramento ajuda a reforçar o intuito do longa de abordar acontecimentos de um modo pessoal e de uma perspectiva que parte do individual para um contexto maior e mais abrangente.

Com o decorrer do tempo, percebemos como esse contexto exterior é em grande parte responsável pelos fatos que levam ao desfecho da história de Cleo.

A personagem passa boa parte do longa quieta, como se observasse aquilo que acontece com ela e com os outros ao seu redor.

Neste ponto, a atuação de Aparicio é impecável para atingir a gravidade necessária ao tom inserido no filme.

Sua estreia dedicada lhe rendeu uma indicação à categoria de Melhor Atriz.

Roma : Foto

O filme se encerra com uma cena que repete o inicio – o reflexo no chão dessa vez mostra um avião indo na direção oposta - e assim como em outras cenas, o longa busca um efeito de transição.

A abordagem da vida dos personagens nos mostra os efeitos das marcas deixadas pelo tempo.

E essa proposta que parece tão simples, é o que torna a produção tão fascinante, um retrato da vida das pessoas em seu próprio tempo.

Justamente por isso, Roma e Cuarón vem levando sem muito esforço os principais prêmios da temporada.

CONFIRA OS PRÊMIOS JÁ CONQUISTADOS PELO LONGA:

TRAILER:


FICHA TÉCNICA:
ROMA
Título Original:
ROMA
Gênero:
Drama
Direção:
Alfonso Cuarón
Elenco:
Andy Cortés, Carlos Peralta, Clementina Guadarrama, Daniela Demesa, Diego Cortina Autrey, Edwin Mendoza Ramírez, Enoc Leaño, Fernando Grediaga, Jorge Antonio Guerrero, José Luis López Gómez, José Manuel Guerrero Mendoza, Kjartan Halvorsen, Latin Lover, Marco Graf, Marina de Tavira, Nancy García García, Nicolás Peréz Taylor Félix, Verónica García, Yalitza Aparicio, Zarela Lizbeth Chinolla Arellano
Roteiro:
Alfonso Cuarón
Produção:
Alfonso Cuarón, Gabriela Rodriguez, Nicolás Celis
Fotografia:
Alfonso Cuarón
Montador:
Adam Gough, Alfonso Cuarón
Estúdio:
Esperanto Filmoj, Participant Media
Distribuidora:
Netflix
Duração:
135 min.
Ano de Produção:
2018
Estreia na Netflix:
14.12.2018

COTAÇÃO DO KLAU:

sábado, 29 de dezembro de 2018

'ROMA' - CRÍTICA: CUARÓN ENTREGA MAIS UMA OBRA PRIMA


SINOPSE:

Cidade do México, 1970.

A rotina de uma família de classe média é controlada de maneira silenciosa por Cleo (Yalitza Aparicio), que trabalha como babá e empregada doméstica.

Durante um ano, diversos acontecimentos inesperados começam a afetar a vida de todos os moradores da casa, dando origem a uma série de mudanças, coletivas e pessoais.

CRÍTICA:

Antes mesmo de ser visto pela primeira vez, Roma já era um dos filmes mais comentados do ano.

Dado como certo na competição do Festival de Cannes 2018, foi cortado do evento após a decisão da organização de banir os filmes da Netflix da programação.

O diretor Alfonso Cuarón até tentou fazer um lobby para a empresa e o evento entrarem em sintonia, sem resultado.

Com isso, o filme foi guardado para o Festival de Veneza, de onde saiu com o Leão de Ouro de Melhor Filme.

Agora, na programação do Festival de Toronto, desponta como forte concorrente ao Oscar do ano que vem.

Fotos dessa Postagem: Divulgação/Netflix
E uma coisa é certa: o filme é merecedor de toda louvação que está recebendo.

Um filme, para ser considerado uma obra-prima, deve também vencer uma batalha contra o tempo, permanecendo relevante com o passar dos anos.

Assim, qualquer aposta nada mais é do que um exercício de imaginação.

Mas uma coisa é certa: o longa tem sim potencial para ser considerado uma obra-prima.

Conhecido por trabalhos variados que vão de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban à Gravidade, Cuarón entrega sua obra mais bem acabada, que, curiosamente, parece ser uma reunião de todas as suas obras.

Temos o lado juvenil de A Princesinha, o cenário intimista de E Sua Mãe Também, a fotografia insana de Filhos da Esperança e até elementos de Gravidade.

O Roma do título não remete à capital italiana, mas ao bairro de classe média da Cidade do México, onde se passa a história.

Na verdade, a escolha do título e a relação com a Itália não parece ser coincidência, já que temos aqui fortes referências ao neo realismo italiano na produção, desde a opção pela fotografia em preto e branco aos momentos de crítica social, que lembram Roma, Cidade Aberta, de Roberto Rossellini.


Dirigido, escrito, produzido, fotografado e montado por Cuarón, vemos a história de Cleo (Yalitza Aparicio), uma jovem que trabalha como babá e doméstica de uma família de classe média do México.

No período de um ano, muitos acontecimentos irão abalar a vida deste núcleo familiar, desde a gravidez de Cleo à separação de seus patrões.

Cuarón sempre primou por uma bela fotografia em suas obras, e agora ele mesmo assumiu o posto de diretor de fotografia.

Aqui, opta por quase sempre fixar a câmera em um ponto e movimentá-la levemente, ora da esquerda para a direita, ora da direita para a esquerda.

Desta forma, temos sempre a sensação de ampliação do cenário e dos ambientes.

É basicamente como se uma pessoa estivesse tirando uma foto panorâmica em seu celular.

São raros os momentos em a câmera não está parada em um ponto fixo.

Mesmo em tomadas nas ruas, em que a câmera corre ao lado do objeto de cena, o que temos é a utilização de um trilho.

Roma : Foto

Há um permanente estado de estabilidade visual, que contrapõe à instabilidade do dia a dia dos personagens e mesmo do México.

É curioso notar que o diretor foi capaz de construir uma obra essencialmente intimista, mas que, ao mesmo tempo, também é épica.

O foco está no desenvolvimento dos personagens e no retrato fiel da sociedade mexicana, mas em alguns momentos somos jogados em situações de catástrofes ambientais e sociais absolutamente inesperadas.

Com isso, o filme se torna quase sempre imprevisível e instigante.

O texto de Cuarón é elegante e repleto de metáforas sociais, com o fato das pessoas mais ricas em cena terem dificuldades em dirigir.

Neste sentido, chega até a investir em pitadas de surrealismo, ao inserir uma aula de artes marciais no meio de tudo.

Inteligente, envolvente, impactante e, acima de tudo, instigante. Roma é um filme que vai ficar em sua cabeça por bastante tempo.

É cinema em seu estado mais puro - e sublime.

Filmaço.

TRAILER:


FICHA TÉCNICA:
ROMA
Título Original:
Roma
Gênero:
Drama
Direção:
Alfonso Cuarón
Elenco:
Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Nancy García e outros
Roteiro:
Alfonso Cuarón
Produção:
Alfonso Cuarón, Nicolás Celis
Produtor Executivo:
Jonathan King, David Linde, Jeff Skoll
Diretor de fotografia:
Alfonso Cuarón
Montador:
Alfonso Cuarón, Adam Gough
Engenheiro de som:
Steve Browell, José Antonio Garcia
País:
México
Produção:
Participant Media, Esperanto Filmoj
Distribuidor brasileiro:
Netflix
Duração:
2h15min

COTAÇÃO DO KLAU: