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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

NOSTRO MONDO: COM NOVA DIREÇÃO E REPAGINADA, A MAIS ANTIGA BOATE GAY DAS AMÉRICAS QUER, COM GLAMOUR E QUALIDADE, VOLTAR A SER REFERÊNCIA DA CENA LGBT PAULISTANA


O vídeo começa com dez dançarinos de smoking fazendo coreografias de musical da Broadway e,logo depois, do fundo do palco surge a estrela do número: ela vem pelas escadas, exuberante, sorriso aberto no rosto, usa vestido de paetê prateado, capa rosa, peruca loira platinada e maquiagem generosa.

Dubla Emoções, do Rei Roberto e, em seguida, desce do palco e sai distribuindo rosas vermelhas para o público sentado nas mesas.

Na frente da tela da TV, Eduardo Albarella, 72 anos, segura o controle do DVD, e olha para si mesmo no vídeo, num misto de orgulho e saudosismo.
“Isso não existe mais, não existe...”, comenta, saboreando a aura exuberante e romântica do show - o título do DVD resume o espírito de glória antiga do espetáculo: Miss Biá 50 anos de Glamour.

Se o nome de Albarella provavelmente não diz muita coisa, sua outra identidade, a de Miss Biá, diz uma enciclopédia.

Aricia Martins / Ag.Estado
A estrela dos palcos paulistanos Miss Biá

Pioneiro dos shows transformistas e ícone da história gay de São Paulo, Biá surgiu numa época em que se falava mais em “entendidos” do que em diversidade sexual, um tempo no qual ser gay era uma experiência difícil, vivida quase sempre às escondidas do mundo “normal”.

Subir num palco vestido de mulher então demandava não apenas talento, mas muita coragem, e a história de Miss Biá está intimamente ligada à boate NostroMondo, onde trabalhou 12 anos.

Localizada na “ilha” de prédios no encontro da rua da Consolação com a avenida Paulista, a casa funciona ininterruptamente desde 1971, e é atualmente a mais antiga boate gay em atividade nas Américas.

A Nostro, como a chamam os íntimos, foi uma das primeiras casas assumidamente gays de São Paulo - até então, pontos de encontro ficavam camuflados em boates, restaurantes e bares simpatizantes.

Ironicamente, foi durante os anos de chumbo da ditadura militar que surgiram as três casas que praticamente fundaram a noite gay de São Paulo: Medieval, Val Improviso e
Nostro - só a Nostro sobrevive.

A casa foi precursora dos shows de homens vestidos de mulher, coisa que podia dar cadeia por “atentado violento ao pudor”.
Os espetáculos eram protagonizados por travestis ou pelo que se chamava então de transformistas - designação que o termo “drag queen” tornou obsoleta.

Interpretações de Liza Minelli, Judy Garland, Shirley Bassey e Diana Ross eram hits do começo.

A ideia de investir nesse tipo de atração veio da lendária travesti Condessa Mônica, a segunda dona do espaço.
De dia, era o advogado Clóvis Vieira e trabalhava num cartório.
De noite, uma figura quase maternal para uma comunidade gay que começava a se sentir mais confiante.

“A Condessa era muito carinhosa, pegava no rosto da gente”, lembra Kaká di Polly, drag queen e psicólogo, célebre na cena LGBT paulistana.
“Ela deixava as bichinhas menores de idade entrarem. Se chegasse o juizado, escondia todo mundo atrás do palco. Mas não tinha nada de malícia, não drogava nem dava bebida pras menores.”

Blog da Kaká
A drag queen Kaká di Polly

Kaká está certissima: eu mesmo, que frequentei a Nostro praticamente todas as semanas dos 14 aos 25 anos, aprendi muito com a Condessa, um ser iluminado que me ensinou, principalmente educação, tolerância e respeito ao próximo.


Tanto, que quando tive problemas com meus pais por conta da minha sexualidade, Condessa foi figura decisiva - meu pai chegou a ser homenageado no palco da Nostro num domingo, dia dos pais, como exemplo de pai que, mesmo não entendendo, compreende as diferenças de seu filho.

A Nostro lançou uma porção de drags e travestis fundamentais do transformismo paulistano: Claudia Wonder, a própria Kaká, Dimmy Kier - o ex-bbb DiCésar, atual repórter do programa da Eliana - Phedra D. Cordoba - hoje atriz do grupo de teatro Os Satyros - Nany People, Salete Campari e Márcia Pantera.

E Miss Biá, claro, que trabalhava na produção e apresentava os shows.
“A Biá me ajudou muito”, lembra Márcia, que saiu da Brasilândia, periferia da zona norte de São Paulo, para conhecer a Nostro Mondo em 1987.
Como ela mesma diz: “Eu era só um gayzinho de 17 anos, jogava vôlei, era atleta. Quando vi meu primeiro show na Nostro, fiquei de boca aberta. Me vi naquele palco”.

Márcia Pantera ganhou fama rapidamente no mundo LGBT a partir do fim dos anos 80.
No figurino, um aliado de peso, ainda que desconhecido na época.
“Conheci o [Alexandre] Herchcovitch na porta da Nostro, ele falou que eu parecia com a Naomi Campbell. Pediu pra eu ligar pra ele e aí começou a fazer roupa pra mim.”

A fama da Nostro virou nacional graças a um aliado improvável: Silvio Santos, que desde os anos 70 leva números de transformismo ao seu programa.


O DJ Mauro Borges, pioneiro da cena clubber paulistana e hoje residente da Nostro, lembra bem de Silvio indicando a casa na TV:
“Ele falava que era uma casa com shows muito bonitos, onde você podia levar sua esposa, sua família” - e eu concordo, era um lugar mágico, onde você tinha gente bonita, bebidas de qualidade e shows espetaculares.

Arquivos Miss Biá e Kaká di Polly
A travesti Natasha Dumont se apresenta no palco da Nostro

Eu me lembro bem: num sábado, saí da última sessão de Victor ou Victória (1982) - excelente musical protagonizado por Dame Julie Andrews - do extinto Cine Brigadeiro - embaixo do Cartola Club, na esquina da Brigadeiro Luiz Antonio com Paulista -, onde o filme estava já em fim de exibição nas telonas, depois de ser exibido com sucesso nos mais importantes cinemas paulistanos.

Tinha visto o filme pela, no mínimo, vigésima vez, de tanto que eu gostei - e, em tempos sem video ou DVD, para ver várias vezes um filme, tínhamos de ir ao cinema mesmo.

A sessão acabou mais de meia-noite, e eu saí andando pela Paulista - naquela época não se era atacado, nem agredido - em direção à Nostro e cantarolando cada uma das músicas do musical.

Quando cheguei à Nostro,  sempre lotada, a grande surpresa: uma Diva ruiva, linda e muito talentosa, representava no palco da casa, com bailarinos e figurinos lindíssimos, a música Le Jazz Hot, do filme que eu tinha acabado de ver!

Era Gretta Sttar, uma das mais talentosas e queridas figuras da noite paulistana, que ainda hoje abrilhanta nossos sentidos e inteligência pelos palcos da cidade.

Arquivos do Klau
A Diva Gretta Sttar

O produtor Darby Daniel foi o responsável pela conexão entre Silvio e os artistas do mundo gay paulistano, e garante que o dono do SBT nunca foi à Nostro.
“Mas foi comigo duas vezes à Medieval. Na segunda, levou sua mulher da época, a Cidinha.”

A Medieval era localizada na rua Augusta, ao lado da porta do Shopping Center 3, onde hoje é um restaurante por quilo - e atraía um público de classe média alta e de classe alta.
Era frequentada por celebridades e bem-nascidos como Chiquinho Scarpa e Fernando Collor de Melo.

Darby, hoje com 70 anos - e que sobrevive atualmente como empresário de shows de sexo explícito gay - era o homem da agenda premiada nessa época, e seus contatos foram fundamentais para o sucesso do número mais famoso de Miss Biá na Nostro: Herbe, uma sátira de Hebe Camargo - para quem Albarella trabalhou como maquiador e figurinista por anos.

E foi durante quatro anos que Miss Biá recebeu convidados para um bem-humorado talk show semanal no palco da Nostro.
Paulo Autran, Regina Duarte, Adriane Galisteu, Edson Celulari, Lucinha Lins, Claudia Raia, Wanderléa Ney Matogrosso... todos passaram pelo palco da casa.
“Tudo isso de graça”, lembra Biá.“Era uma época em que faziam isso sem cobrar cachê.”
Já Hebe nunca quis conhecer sua versão alternativa - e igualmente inteligente e talentosa.

Arquivos Miss Biá/Kaká di Polly
Miss Biá e Adriane Galisteu, no palco da Nostro

Ser flagrado em um ato homossexual ou sair vestido de mulher na rua podia render prisão até o começo dos anos 80.
Um delegado -  José Wilson Richetti  - virou o terror da comunidade nesse tempo com suas operações de “limpeza” das ruas e eram raras as vozes de apoio aos gays na sociedade e na mídia - travestis então eram o marginal do marginal.

Mesmo assim, há uma sensação de “tempo bom” entre quem viveu esse período.

A hostess e blogueira de moda Marcelona lembra das famosas matinês da Nostro:
“Era uma pegação ingênua, não tinha droga”.

Kaká recorda com carinho:
“Era um lugar para mim, onde podia viver minha vida, com meus amigos”.

Para José Gayegos, que trabalhou como assistente do costureiro Denner, até a repressão policial podia ter seu lado interessante.
“Uma vez eu e um amigo fomos abordados por dois homens da guarda civil na esquina da Ipiranga com a São João. Acabamos os quatro na minha garçonnière na rua Maria Paula. Eu comi um policial, meu amigo comeu o outro.”

Aos poucos, a comunidade LGBT começou a chegar a ganhar espaço no mainstream.

Em 1977, alguns veículos brasileiros já traziam seções dirigidas à comunidade gay: o pioneiro foi o diário Última Hora, onde o jornalista Celso Curi estreou em 1976 sua Coluna do Meio e chegou a ser processado pelo Ministério Público por defender “as uniões anormais entre seres do mesmo sexo”.
Curi também foi dono de um bar gay fervidíssimo nos anos 80 - o Espaço Off - em uma rua sem saída do elitizado bairro do itaim-Bibi.

Nos anos 80, o país se encantou por Roberta Close, o travesti mais famoso da história do Brasil. 
Capa da Playboy, homenageada em música de Erasmo Carlos, o status de La Close foi resumido por uma manchete do extinto jornal Notícias Populares:
“A mulher mais bonita do Brasil é homem”.

Na segunda metade da década de 80 - eu estava lá, mas não me lembro, nem do dia, nem do ano - Miss Biá subiu ao palco da Nostro e anunciou a morte da Condessa Mônica, mais uma vítima famosa da Aids - ela tinha dias antes passado por uma cirurgia para finalmente ser mulher também de corpo, mas seu organismo já debilitado não se curou.


Alguns fãs não aceitam essa versão, mas está lá, na sua certidão de óbito: "infecção em decorrência do HIV".


Em seguida, os bailarinos e artistas apresentaram o show em cartaz com muito profissionalismo, embora todos chorassem muito entre um movimento e outro.

Dias antes, tinha visto Condessa no palco da Nostro , e nem sabia que seria a última vez.
Ela interpretava a música Finding Out the Hard Way, que a atriz, dançarina e cantora Cynthia Rhodes tão bem interpretou no filme Os Embalos de Sábado Continuam (1983).
Condessa estava lindíssima, com uma peruca de cabelos curtos - igual à cena em que Cynthia canta no filme para o Tony Manero de John Travolta - e vestia um macacão rosa com milhares de canutilhos.

Foi a última vez que eu a vi com vida.

Relembre Cynthia Rhodes interpretando "Finding Out the Hard Way", em cena do filme:

A partir daí, o gerente da Nostro, Hugo Lima, assumiu a casa - era o começo do fim do glamour.

O jornalista André Hidalgo - um dos sócios do clube Glória e diretor-geral da Casa de Criadores - lembra da decepção quando foi à Nostro depois de anos sem aparecer.
“Tinha sexo explícito no palco, era algo bem dramático, misturando sexo hétero e sexo gay.”

Eu também fiquei anos sem ir lá.
Quando retornei, depois muito tempo morando fora de SP, o que mais me chamou a atenção foi a sujeira: os banheiros, o piso grudento, o cheiro de cinema pornô do centrão, um horror, sem contar o famigerado "dark room".

Em tempos de visibilidade e aceitação cada vez maior da comunidade, incluindo aí o início da Parada LGBT, em 1997, a Nostro foi sendo vista cada vez mais como decadente e ultrapassada.

Os maravilhosos e bem produzidos shows de transformismo foram perdendo espaço para baladas com ecstasy, DJs, go-go boys, drag queens com nome de rum vagabundo e sem nenhum talento - e dark rooms.

A trilha da noite, que sempre foi eclética - tinha samba, disco, Madonna e Trio Los Angeles - se homogeneizou sob o bumbo eletrônico do house “bate-cabelo”.

As concorridas matinés de domingo, onde sempre tocavam músicas lentas para que os casais mais tímidos finalmente se formassem, acabaram.

“Ficou tudo muito pasteurizado. Antes as pessoas tinham mais estilo próprio, hoje é tudo dividido por categorias: barbie, urso”, diz Marcelona.

“A noite gay acabou. A cena perdeu o glamour”, lamenta Kaká.

Em 2010, a Nostro mudou de dono mais uma vez: foi comprada pelos DJs e empresários Gé Rodrigues e Igor Calmona, donos do DJ Club e de lojas de som e iluminação na rua Santa Ifigênia.

Rodrigues conta que investiu R$ 1 milhão na reforma da casa, acrescentando uma segunda pista e instalando equipamentos modernos.

DJ Eddy
NostroMondo hoje: casa quer voltar a ser referência da noite LGBT paulistana

Os antigos frequentadores - eu incluso -, porém, ressaltam que não é possível reviver um contexto, que uma história como a da Nostro só foi possível por uma conjunção de fatores sociais e culturais.

Eu ainda não fui lá nessa nova fase, mas pelo que tenho visto e lido, parece que é uma casa moderna, tecnológica, com pitacos de glamour e - o mais importante - sem dark room.

“A boate reunia gays de A a Z porque havia poucos lugares onde eles pudessem ir”, lembra Hidalgo.

“Foi a grande vitrine para gays de todos os tipos”, resume Miss Biá.

"Foi onde eu passei os momentos mais felizes da minha vida", encerro eu.

*****
Matéria Base: Repórter Camilo Rocha - revista Trip no. 204 - 24.10.2011
Redação Final + Textos, Fotos e Vídeo Adicionais: Cláudio Nóvoa

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A NOSTRO MUNDO - DOS VELHOS TEMPOS - VOLTOU!

A "Nostro Mundo" foi a primeira boate declaradamente gay de São Paulo, e isso em plenos anos 70, debaixo da ditadura militar.

Localizada a quase 40 anos na Rua da Consolação, quase esquina da Av. Paulista, o espaço começou luxuoso - tinha porteiro de farda vermelha e dourada, e um maitre cubano que durante muito tempo foi o mais assediado de São Paulo, por causa de suas disputadíssimas mesas.

Desde a fundação, era gerenciada pela proprietária Condessa, uma transex maravilhosa, inteligentíssima e muito talentosa, que deu oportunidade a muitos talentos que depois viraram lendas dos palcos paulistanos.

No pequeno palco da Nostro, assisti a uma infinidade de belos shows de transformistas - homens que se vestiam de mulher e cantavam ao vivo, ou dublavam grandes divas.

As personificações eram simplesmente maravilhosas, os espetáculos eram luxuosíssimos, as coreografias, iluminação e figurinos impecáveis, e eram listados em todos os guias turísticos da cidade.

Se você quisesse encontrar um paquera estrangeiro na noite paulistana, a Nostro era o melhor lugar.

A primeira vez que lá fui foi marcante: era o dia do meu 15o. aniversário - incrível, já se passaram 36 anos! - já tinha cara e jeito de adulto e passei fácilmente pelo porteiro de farda vermelha e dourada, imenso.

Só não enganei a Condessa, que me chamou ao seu camarim, disse que eu era um moleque e que, por isso, me "adotaria" para que eu não caísse em roubadas.

Desde então, ficamos muito amigos.
Muitas vezes, eu nem ia à pista da casa, ficava com ela, as demais divas e os bailarinos nos camarins - e minha noite acabava invariavelmente num café da manhã na cobertura dela, a poucos quarteirões dali, na Rua Fernando de Albuquerque.

Na Nostro, acompanhei personificações de divas como Dionne Warwick, Liza Minelli, Judy Garland, Dalida...

As que eu mais me recordo ainda são os espetáculos estrelados pela Condessa, lógico, e uma música de "Victor/Victória (1982) - "Le Jazz Hot" - onde Gretta Sttar estava ma-ra-vi-lho-sa!

Ainda nos tempos da Condessa, a casa adotou um perfil mais popular, mas os espetáculos continuaram lindos.
Era o tempo em que eu ia todo domingo às matinês qu- e tinha uma coisa muito legal e que hoje eu não acho mais em lugar nenhum: uma seleção de músicas lentas, para que a paquera à distância virasse um corpo a corpo bem agarradinho, as conversas fluíssem e os beijos estalassem.
Ê, tempo bom!

A última vez em que ví Condessa no palco: num macacão justo, rosa e bordado de cima a baixo com canutilhos, personificando a atriz e cantora Cynthia Rhodes, numa música da trilha sonora de "Os Embalos de Sábado Continuam/Staying Alive" (1983).

A última vez que lá estive, e senti aquela aura mágica que tanto me encantou, foi num dia de semana, no dia seguinte à morte - prematura - da Condessa.
No palco, uma emocionada Miss Byá deu a triste notícia, e, com a graça de sempre, comandou o show com os artistas e bailarinos da casa - dizendo a famosa frase: "O Show não pode parar".

O Gerente Hugo Lima assumiu a casa, e a decadência começou.
Soube que até shows de sexo explícito e o famigerado "dark-room" a casa agora tinha.
Triste, muito triste.

Ali Cameron/FolhapressPista da Nostro Mundo, primeira boate gay de São Paulo

E não é que, nessa semana, recebo um release, dizendo que a Nostro tem novos proprietários, e que eles tem por objetivo recuperar o glamour e os shows maravilhosos da casa?

Desde a última quinta feira, a Nostro foi reinaugurada com muitas novidades.

Os novos proprietários construíram uma segunda pista, reformaram a principal e gastaram, só em iluminação, R$ 200 mil.
A proposta primeira é retomar a tradição de shows musicais que fizeram da casa uma referência em shows de transformismo.

"Vai ter shows musicais, espetáculos com dançarinos, mas também abriremos o espaço para comédia stand-up e exibição de filmes de curta metragem", conta do DJ Gê Rodrigues, que, com o sócio Igor Calmona, pretende revitalizar a quadra, chamada de "ilha da Paulista".

Rodrigues, que não é gay, começou a carreira em casas do tipo há 25 anos e conheceu a Nostro Mundo no auge.

Além das noites tradicionais de sábado, com shows, e as matinês de domingo, a casa terá eventos mensais nas quintas e sextas, além de "after hours" de sábado para domingo até as 14h.

A intenção é trazer grandes nomes da música eletrônica e atrair novos públicos de todas as orientações sexuais - a mudança vem de uma percepção de que o público gay mudou muito.

"Nos anos 1990, os gays saíam muito bem vestidos. Hoje, você fica esbarrando em gente suada e sem camisa e drogada, que escolhe a música pela droga que tomou. É difícil alguém que saia para ouvir um DJ tocar. Queremos valorizar a música."

Grande parte do sucesso da Nostro Mundo na mídia se deve a uma personagem que satirizava a apresentadora Hebe Camargo.
O show, com um sofá colocado no palco da boate, era conduzido por Miss Byá, 71, 50 anos de carreira completos neste ano.

Eduardo Albarella, o maquiador por trás da personagem, fazia entrevistas cômicas com atores globais que, segundo ela, iam de graça só pelo prazer de participar.

"Entrevistei Miguel Falabella, Glória Menezes e Tarcísio Meira juntos, Claudia Raia e até Bibi Ferreira. Só a Hebe que eu nunca tive o prazer de receber. Ela é minha cliente no salão até hoje, mas não é muito chegada no babado gay, não...", conta Albarella.

Ele lamenta a decadência dos shows de transformismo e diz que as drag queens de hoje em dia não têm referência culturais.

"Drag queen, você viu uma, viu dez. As mais poderosas têm, no máximo, um guarda roupa, mas identidade ninguém tem. Na minha época, para fazer número de Elza Soares você tinha que, no mínimo, parecer negra. Hoje tem drag loira de peruca lisa dublando Elza Soares, porque cantar também ninguém mais canta, só dubla."

Faço minhas as palavras de Miss Byá.
Numa cidade onde as baladas gays estão infestadas de pseudo artistas com nome de rum vagabundo, que acham engraçado ficar achincalhando os clientes que pagaram para lá estar e tentar ver um espetáculo com um mínimo de respeito, a notícia da retomada da quarentona Nostro é, para mim, uma das boas notícias do ano.

Afinal, talento e glamour não se conseguem com roupas, maquiagem ou perucas, e sim com perseverança e, principalmente, cultura e boa educação.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

FINALMENTE, GOVERNO LANÇA CAMPANHA DE SAÚDE ESPECÍFICA PARA TRAVESTIS

Para turbinar seu corpo, opte pelas próteses de silicone de clínicas autorizadas. Elas são a forma mais segura de te deixar linda. A injeção de silicone industrial líquido é perigosa."

A recomendação acima está impressa em um cartaz, que faz parte da campanha de promoção da saúde e dos direitos humanos de travestis lançada ontem pelo governo federal.

Organizada pelo Ministério da Saúde e pela Secretaria de Direitos Humanos, a ação terá dois slogans: "Sou travesti. Tenho direito de ser quem sou" e "Veja além do preconceito".

Produzidos por travestis, os folders e cartazes tratam principalmente de respeito e sexo seguro:
"Pode achar diferente, pode até discriminar, mas não esqueça também de sempre me respeitar", diz um deles. "Oi, mona, tem camisinha na bolsa?", diz outro.

No site do Departamento de DST e Aids: www.aids.gov.br/travestis , é possível baixar toques de celular com o tema.

No lançamento da campanha, o ministro José Gomes Temporão (Saúde) - e para mim um dos melhores do governo do Luiz Inácio - afirmou que um dos públicos que precisam ser sensibilizados é o dos funcionários de serviços da saúde: "Temos que fazer um trabalho de conscientização com esses profissionais para que eles percebam que essas pessoas [travestis] têm problemas específicos e necessitam de um acolhimento especial."

Para as escolas, a campanha recomenda que os alunos travestis sejam chamados pelo nome social - o nome feminino - e que possam utilizar o banheiro feminino.

Em 2009, em outro gesto de aproximação com a população LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transsexuais), Temporão e o presidente Lula anunciaram que a realização de cirurgias de troca de sexo passariam a ser pagas pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

De acordo com o Conselho Federal de Medicina, é preciso ter pelo menos 21 anos para fazer o procedimento.

Finalmente, nossas autoridades enxergam um dos grupos mais discriminados pela sociedade nesse país.

Eu mesmo, quando jovem - e eu não tenho nenhum problema de confessar isso - equiparava travestis a seres de outro planeta, em parte porquê elas são muito diferentes mesmo, em parte pelo filme "The Rocky Horror Picture Show", de 1975, uma comédia musical de horror, dirigida por Jim Sharman a partir da peça de autoria dele mesmo e de Richard O'Brien, que compôs as canções.

Nesse musical, o ótimo ator Tim Curry interpretava o Dr.Frank-N-Furter, cientista louco, travesti e bissexual, que pretende criar um homem em seu laboratório para satisfazer seus desejos sexuais.
E eu - cabeça de passarinho à época - generalizei, e pensei que toda travesti era a personagem do Tim Curry!

Até que em 1977, aos dezessete anos, eu tive a honra de conhecer a travesti proprietária da Boate Nostro Mondo - que existe até hoje, e é a casa gay mais antiga das américas ainda na ativa.

Condessa Mônica era uma transex talentosa - no palco não tinha pra ninguém - tinha uma história de vida fantástica - foi promotor do ministério público paulista, antes de ser mulher - e foi uma das pessoas mais inteligentes e carinhosas que eu conheci, até hoje.

Eu era um dos clientes da boate mais jovens, e ela sempre procurava, em nossas longas conversas no escritório ou nos camarins, me conscientizar de tudo aquilo que eu viria a vivenciar ou enfrentar. Frequentava também a sua casa, muito perto da boate, onde os cafés da manhã eram sempre muito legais.
Uma das cenas que mais lembro é eu, andando pela rua Barão de Itapetininga - centro de Sampa - com minha mãe, quando cruzamos com a Mônica, que nos cumprimentou e ainda disse à minha mãe que eu era muito bem educado. Minha mãe ficou encantada em saber que ela era a dona da boate onde eu sempre ia, achou a Mônica uma mulher fina e elegante. Só depois de muito tempo é que eu contei à minha mãe que Mônica era transex. Pasma, nunca mais falou qualquer coisa preconceituosa a respeito da vida em que eu vivia.

Mônica morreu muito cedo, mas me deixou um legado de respeito a toda e qualquer variação gay, suas diversidades e suas limitações, o que juntei aos ensinamentos de meu pai Rubens - que tinha horror a toda discriminação, principalmente a racial -.

E tudo isso deu em mim, um ser incansável, sempre à procura da verdade, da equalidade, do respeito e da justiça.