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quinta-feira, 4 de junho de 2020

R.I.P.: MISS BIÁ, A DIVA DAS DIVAS DOS ARTISTAS LGBT+ DE SP

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Figurinista e maquiador de Hebe Camargo, o também ator transformista morreu nesta quarta (3), aos 80 anos, vítima da Covid 19
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Eduardo Albarella, a icônica Miss Biá, um dos artistas transformistas pioneiros no Brasil, com 60 anos de carreira, morreu nesta quarta (3) em São Paulo vítima do novo coronavírus - a informação foi confirmada por sua sobrinha Adriana do Nascimento.

Segundo ela, Albarella estava internado há cerca de dez dias por causa da Covid-19.

Eduardo Albarella posa desmontado e já como Miss Biá, participa da Parada LGBT+ DE SP - Veja SP

A notícia foi recebida com muita tristeza entre artistas LGBT+.

"Temos um ditado entre nós de que 'quando uma de nós morre, nós morremos um pouco'. Com a perda da Miss Biá ouso dizer que só hoje perdemos muito!" - disse a drag queen Ikaro Kadoshi ao G1.

"Ela era o símbolo da luta, resistência e amor pela arte do transformismo/drag queen. Venceu inúmeras barreiras. Desafiou a ditadura, o tempo, as gerações. Ela era assim, destemida. Uma força da natureza cheia de luz. Um farol em mar revolto. Ficamos, todos nós, sem direção" - completou.

Drag queen pioneira no Brasil, Miss Biá morre vítima do coronavírus
Miss Biá posa em casa - G1
Em 2018, Biá se apresentou na festa drag Priscilla em São Paulo, conhecida pelo público jovem, na mesma noite de uma estrela do reality show norte-americano "Ru Paul's Drag Race".

A apresentadora do evento, a também veterana Silvetty Montilla, disse: "As pessoas pensam que a modernidade não pode estar junto com o antigo. Quando se tem talento, tudo vive junto."

Confira a participação de Miss Biá no 'Espuma com Montilla', programa da Drag no YoyTube:


Biá ainda estava na ativa: era residente de uma boate, em São Paulo, onde apresentava a programação da noite, todos os sábados, às 3h.

"Ela nunca faltou", lembra José Roberto Pinheiro, diretor artístico da Danger.

"Foi a primeira transformista que eu vi na vida, na extinta boate Nostro Mundo, fazendo um cover da Hebe, com o sofá onde recebia famosos. E, 25 anos depois, eu comecei a dirigi-la e dava a mão para ela descer as escadas do palco", orgulha-se Pinheiro.

Miss Biá, 71 anos com corpinho de 50 - Cultura - Estadão
Biá no Palco, lugar onde sempre brilhou - Estadão
Alexia Twister, atriz e drag queen, descreveu a artista como sendo alegre e leve: "Biá era muito feliz, alto astral, sempre sorrindo".

"Sempre que eu a via, me sentava do lado e puxava conversa. Biá tinha histórias incríveis. Ela sempre dizia 'antigamente, não era dublagem, não.Tínhamos que saber cantar e dançar", recorda Alexia.

A Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, que organiza o evento, emitiu uma nota de pesar.

"Miss Biá, persona de Eduardo Albarella de 80 anos, começou na arte do transformismo no início da década de 60 e não parou mais. Arte, irreverência e bom humor. Estamos em luto. A saudade estará sempre presente", diz o texto.

O apresentador e jornalista Fernando Oliveira, o Fefito postou uma foto com Biá na parada LGBT+ de SP no seu Instagram, com um belo texto:
"Miss Biá era uma LENDA. Era GIGANTE. Perdemos hoje uma pioneira. Alguém que, em tempos de ditadura, ousou ser artista, ousou ser drag queen - ou transformista, como se dizia na época. Alguém que homenageava a maior apresentadora da TV brasileira, Hebe Camargo, com seu trabalho e sentou no sofá mais famoso do país, em um tempo de grande preconceito. Alguém que, no começo das anos 90 distribuiu camisinhas vestida de freira para conscientizar a população sobre prevenção ao HIV. Miss Biá pavimentou um caminho IMENSO para LGBTs como eu com sua cara e coragem. Sempre que a encontrava prestava reverência. Era sempre leve, agradável. Miss Biá era a história de uma comunidade inteira. Que amava tanto sua arte que desfilava pela sala, sozinha, testando seus figurinos (e eu bem espiei esse momento da varanda de um amigo e depois me diverti contando a ela). Miss Biá era vanguarda, era apaixonada pela vida. Miss Biá é mais uma que perdemos para o covid. Miss Biá merece todas as homenagens e deixa um legado imenso. Que falta ela fará. To arrasado. 💔🌈"

Fefito e Miss Miá - Instagram do apresentador
Muitas outras personalidades LGBT+, como Márcia Pantera, Stephanie di Bourbon e Gretta Starr também usaram as redes sociais para fazer homenagens sinceras e comoventes a Miss Biá.

O Museu da Diversidade Sexual colheu ótimos depoimentos de quem fez e faz acontecer as noites LGBT de São Paulo - Miss Miá foi uma das que deu um ótimo depoimento.

Veja:


MISS BIÁ - UM PERFIL
Por Marina Pinhoni, Tatiana Regadas e Thaís Lima, G1 — São Paulo, 06/10/2017

Entrar no apartamento de Miss Biá, no Centro de São Paulo, é uma verdadeira viagem ao passado. 

Os arabescos e bibelôs da decoração remetem ao que ela exalta como “tempos áureos” de glamour da noite paulistana. 

E não é para menos. 

Faz 57 anos que Eduardo Albarella - um senhor de 78 anos - sobe nos saltos, coloca peruca, monta os melhores figurinos e capricha na maquiagem para viver a personagem.

“Onde eu estiver, a mais velha sempre sou eu. Porque não tem ninguém antes de mim. E ainda na ativa”, diz Albarella, que é um dos primeiros atores transformistas do Brasil. 

O trabalho desses artistas que usavam maiôs e vestidos em shows de dança, canto e interpretação é precursor no país do que hoje conhecemos como arte drag.

Aos 21 anos, Albarella era office boy e morava com sua família no Brás. 

Foi depois de sair com amigas para assistir a um show em um cabaré na Av. Rio Branco que decidiu se montar pela primeira vez. 

“Não existia show de transformistas, mas eu fiquei encantado. Aí falei: ‘eu também quero fazer’”.

Foram as mesmas amigas que cederam as peças para a transformação inicial. 

“Elas me emprestaram tudo. Naquela época eu usava jóias que elas tinham, pois elas eram muito bem posicionadas. Hoje em dia é tudo bijuteria, né?”

A inspiração para o uso do nome Biá, que já era seu apelido, veio de uma música de Carmen Miranda

Já o visual foi uma homenagem à atriz italiana Gina Lollobrigida, que foi sucesso nos anos cinquenta. 

“Falavam que eu era parecida com a Lollobrigida. E olha como eu era mesmo”, diz mostrando fotos.

“A gente tinha referências de quem era uma Rita Hayworth, uma Marilyn Monroe e procurava fazer aquilo de uma forma bonita. Ginger Rogers… dançar mais ou menos igual”

Surgia então Miss Biá.

Miss Biá compara uma foto sua do início da carreira com a foto da atriz Gina Lollobrigida, sua inspiração — Foto: Celso Tavares/G1

'Quando eu cheguei era tudo mato'
“Quando comecei não existia dublagem. Então tinha que cantar. Tinha shows montados com músicas especialmente para a gente. Depois o investimento financeiro das casas foi escasseando e a gente foi mudando a maneira de se apresentar”, relembra.

Biá conta que, no início dos anos 60, não existia boates específicas para o público LGBT+ em São Paulo.

“A primeira boate em que fizemos show era hétero. O La Vie En Rose, que ficava aqui na chamada Boca do Lixo (no Centro). E lotava, ia todo mundo. Existia a curiosidade de querer ver uma coisa inédita”.

Depois do La Vie En Rose, Miss Biá se apresentou por anos em várias casas gays, como a Medieval e a Corintho.

Mas foi na Nostro Mondo que ela virou estrela ao fazer uma sátira de Hebe Camargo e recebendo para divertidas entrevistas ao vivo nomes como Paulo Autran, Raul Cortez, Regina Duarte, Claudia Raia, Ney Matogrosso e Wanderléia, num sofá colocado no diminuto palco da boate.

Alfinetes da Hebe
Não é por acaso que Albarella tinha bagagem para impersonar Hebe Camargo. 

Ele trabalhou por quase trinta anos como maquiador e figurinista da apresentadora, profissões que sempre exerceu em paralelo às apresentações como Miss Biá.

“Quando a Hebe foi para a Bandeirantes, eu fiz uma roupa que repercutiu muito. Era Natal, então falei: ‘vou te fazer uma roupa vermelha’. Eu coloquei a perna dela meio de fora… aí o telefone começou a tocar adoidado. ‘Quem fez essa roupa da Hebe?!’”

Sem ter feito cursos de costura, Albarella diz que a experiência dos palcos foi o que ajudou a ganhar projeção como figurinista e estilista. 

“Você tem uma visibilidade muito boa do que é bonito, do que vai ficar bom. Eu me visto e sei numa roupa o que funciona. Isso tudo quem me deu foi o palco”, diz.

Como Hebe como a Hebe, nos anos 1980 - Arquivo Pessoal
Ditadura e perseguição
Se hoje as drag queens estão por toda parte, fazendo sucesso na TV e se apresentando para o grande público, nem sempre foi assim. 

A comunidade gay foi duramente perseguida na época da ditadura militar no Brasil.

“Na ditadura era proibido homem se vestir de mulher. Então eu comecei a trabalhar de menino. Eu pequenininho, com uma blusinha rosa, fazia números com uma mulata que era vedete. Aí depois a censura liberou e eu voltei a trabalhar como mulher e tô até hoje. Mas na época da ditadura foi complicado”, diz.

Mesmo após os anos de chumbo, os transformistas não podiam sair na rua com os figurinos com os quais se apresentavam. 

“Nós não saíamos assim montadas. Tinha que levar a peruca na mão. Se botasse na cabeça eles prendiam porque achavam que era prostituição”, conta Biá.

No início dos anos oitenta, durante o governo estadual de Paulo Maluf, rondas de policiamento ostensivo intensificaram-se na área central da capital. 

Centenas de homossexuais, travestis e prostitutas foram perseguidos e presos nas operações de “limpeza” comandadas pelo delegado José Wilson Richetti.

“O Richetti que era o tormento de todo gay. Uma vez ele levou quase seiscentas presas. Aí uma pessoa conhecida foi conversar com ele e ver o que poderia ser feito. Então ele foi com a equipe, assistiu a um show da gente e adorou. Ficou alucinado. Então ele liberou para que eu e as outras que trabalham comigo pudéssemos sair na rua de mulher”, afirma.

O novo sempre vem
Aos 78 anos, Albarella já se aposentou do trabalho como estilista e maquiador. 

Mas Miss Biá continua na ativa todos os sábados na boate Danger, onde apresenta os shows da noite. 

Para ela, o segredo da longevidade está no “glamour”.

“Se fosse só bonita, há 30 anos já tinha parado. Duas coisas: se você tem talento e se tem glamour, meu bem, não tem quem derruba. Modéstia à parte, eu digo até com orgulho: eu sou uma velha glamurosa”, diz rindo.

Apesar de achar que houve uma banalização do mercado, com pagamento de cachês mais baixos nas boates devido à grande oferta de “gente que se monta”, Miss Biá vê com bons olhos a nova onda de drags cantoras - como Pabllo Vittar.

“[Elas são] maravilhosas, essas vão para frente. Elas são drag, mas não têm comportamento de quem faz uma coisinha aqui e outra lá. Elas se preocupam com uma produção boa, com bom cachê para se apresentar. Você tem que valorizar o que você faz”, afirma.

Miss Biá mostra uma foto sua ao lado de Rogéria — Foto: Celso Tavares/G1

A MISS BIÁ QUE EU CONHECI
Por Cláudio Nóvoa - Blog de Klau

Imaginem um rapazinho tímido, com uns 17 anos, amante do cinema e dos musicais indo pela segunda vez a uma boate gay e topando com uma performance sensacional dessas no palco!

Foi aí que conheci o talento de Miss Biá na Boate Nostro Mondo - essa performance era tão icônica que todo show dela tinha de ter!

Confira:


Mas o que valeu foi ter conhecido sua persona, Eduardo Albarella, horas depois, no camarim da boate.

Muito amiga da dona da Nostro, Condessa Mônica, Biá já tinha uma carreira consolidada e justamente por isso, sempre servia como conselheira das transformistas (hoje temos algo mais ou menos parecido, as Drag Queens) mais jovens.

Ensinava como andar, se sentar, usar talheres - era praticamente uma 'mãe de miss'.

Nunca fomos amigos, mas nos esbarrávamos em praticamente todas as casas onde ela trabalhou - e ela sempre me tratou com carinho e atenção.

Quando a Hebe (Camargo) ainda estava na Band, nos víamos todo domingo à noite - o programa era ao vivo, direto do teatro da emissora na Av. Brigadeiro Luiz Antonio, quase esquina com a Rua Pedroso.

Albarella era seu maquiador preferido - e um dos estilistas que a Diva da TV mais gostava.

Pensem na Hebe entrando no palco, para dar início a mais um programa: a maioria dos figurinos que a gente lembra que ela vestiu nos programas são de Albarella.

Imperdível: veja o primeiro programa de Hebe Camargo no SBT - SBT
Hebe, no seu programa de estreia no SBT: figurino é de Albarella - SBT/Divulgação
Fez vestidos fantásticos, com muito brilho, que funcionavam divinamente bem na TV e no corpo de Hebe.

Após o programa, Hebe costumava levar toda a sua equipe para jantar - e Albarella era divertido, inteligente, uma ótima companhia à mesa.

E claro, voltava a vê-la, já como Miss Biá, às vezes meia hora depois de terminado o jantar, já brilhando no palco da boate onde eu terminaria meu domingo.

Grande figura.

Ficamos algum tempo sem nos vermos - eu, por opção, não frequento mais nada à noite já faz décadas.

Há uns três anos, indo até a Santa Casa para retirar remédios para a minha mãe, topei com o Albarella saindo de um prédio próximo, não sabia que ele morava lá.

Não me reconheceu de imediato, mas quando eu disse quem eu era, a primeira coisa que lembrou era que eu, nos tais jantares, comia um prato que dava pra dois e depois pedia cafezinho com adoçante...

Ele achava "o cúmulo da canalhice"...

Fomos tomar café, me contou que agora era residente na Danger, uma boate LGBT também ali do lado, me convidou a ir.

Nunca fui - ia para a noite praticamente todos os dias, dos 17 aos 40 anos, já chega né?

Perdi mais uma performance de Miss Biá como apresentadora - como no dia da morte da Condessa Mônica: ela era a apresentadora da Nostro Mondo e foi a incumbida de subir ao palco e anunciar a morte da dona, amiga e empregadora.

Perguntei no cafezinho sobre esse dia. 
Biá me respondeu que foi um piores da vida dela, que não sabia até o dia em que conversávamos como subiu ao palco, como transmitiu a triste notícia aos  fiéis frequentadores e como comandou o espetáculo que se seguiu - afinal, o show não pode parar.

Grande figura, inteligente, bom humor em grau dez.

Vai fazer muita falta nesse mundo politicamente correto, chato e violento em que vivemos.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

NOSTRO MONDO: COM NOVA DIREÇÃO E REPAGINADA, A MAIS ANTIGA BOATE GAY DAS AMÉRICAS QUER, COM GLAMOUR E QUALIDADE, VOLTAR A SER REFERÊNCIA DA CENA LGBT PAULISTANA


O vídeo começa com dez dançarinos de smoking fazendo coreografias de musical da Broadway e,logo depois, do fundo do palco surge a estrela do número: ela vem pelas escadas, exuberante, sorriso aberto no rosto, usa vestido de paetê prateado, capa rosa, peruca loira platinada e maquiagem generosa.

Dubla Emoções, do Rei Roberto e, em seguida, desce do palco e sai distribuindo rosas vermelhas para o público sentado nas mesas.

Na frente da tela da TV, Eduardo Albarella, 72 anos, segura o controle do DVD, e olha para si mesmo no vídeo, num misto de orgulho e saudosismo.
“Isso não existe mais, não existe...”, comenta, saboreando a aura exuberante e romântica do show - o título do DVD resume o espírito de glória antiga do espetáculo: Miss Biá 50 anos de Glamour.

Se o nome de Albarella provavelmente não diz muita coisa, sua outra identidade, a de Miss Biá, diz uma enciclopédia.

Aricia Martins / Ag.Estado
A estrela dos palcos paulistanos Miss Biá

Pioneiro dos shows transformistas e ícone da história gay de São Paulo, Biá surgiu numa época em que se falava mais em “entendidos” do que em diversidade sexual, um tempo no qual ser gay era uma experiência difícil, vivida quase sempre às escondidas do mundo “normal”.

Subir num palco vestido de mulher então demandava não apenas talento, mas muita coragem, e a história de Miss Biá está intimamente ligada à boate NostroMondo, onde trabalhou 12 anos.

Localizada na “ilha” de prédios no encontro da rua da Consolação com a avenida Paulista, a casa funciona ininterruptamente desde 1971, e é atualmente a mais antiga boate gay em atividade nas Américas.

A Nostro, como a chamam os íntimos, foi uma das primeiras casas assumidamente gays de São Paulo - até então, pontos de encontro ficavam camuflados em boates, restaurantes e bares simpatizantes.

Ironicamente, foi durante os anos de chumbo da ditadura militar que surgiram as três casas que praticamente fundaram a noite gay de São Paulo: Medieval, Val Improviso e
Nostro - só a Nostro sobrevive.

A casa foi precursora dos shows de homens vestidos de mulher, coisa que podia dar cadeia por “atentado violento ao pudor”.
Os espetáculos eram protagonizados por travestis ou pelo que se chamava então de transformistas - designação que o termo “drag queen” tornou obsoleta.

Interpretações de Liza Minelli, Judy Garland, Shirley Bassey e Diana Ross eram hits do começo.

A ideia de investir nesse tipo de atração veio da lendária travesti Condessa Mônica, a segunda dona do espaço.
De dia, era o advogado Clóvis Vieira e trabalhava num cartório.
De noite, uma figura quase maternal para uma comunidade gay que começava a se sentir mais confiante.

“A Condessa era muito carinhosa, pegava no rosto da gente”, lembra Kaká di Polly, drag queen e psicólogo, célebre na cena LGBT paulistana.
“Ela deixava as bichinhas menores de idade entrarem. Se chegasse o juizado, escondia todo mundo atrás do palco. Mas não tinha nada de malícia, não drogava nem dava bebida pras menores.”

Blog da Kaká
A drag queen Kaká di Polly

Kaká está certissima: eu mesmo, que frequentei a Nostro praticamente todas as semanas dos 14 aos 25 anos, aprendi muito com a Condessa, um ser iluminado que me ensinou, principalmente educação, tolerância e respeito ao próximo.


Tanto, que quando tive problemas com meus pais por conta da minha sexualidade, Condessa foi figura decisiva - meu pai chegou a ser homenageado no palco da Nostro num domingo, dia dos pais, como exemplo de pai que, mesmo não entendendo, compreende as diferenças de seu filho.

A Nostro lançou uma porção de drags e travestis fundamentais do transformismo paulistano: Claudia Wonder, a própria Kaká, Dimmy Kier - o ex-bbb DiCésar, atual repórter do programa da Eliana - Phedra D. Cordoba - hoje atriz do grupo de teatro Os SatyrosNany People, Salete Campari e Márcia Pantera.

E Miss Biá, claro, que trabalhava na produção e apresentava os shows.
“A Biá me ajudou muito”, lembra Márcia, que saiu da Brasilândia, periferia da zona norte de São Paulo, para conhecer a Nostro Mondo em 1987.
Como ela mesma diz: “Eu era só um gayzinho de 17 anos, jogava vôlei, era atleta. Quando vi meu primeiro show na Nostro, fiquei de boca aberta. Me vi naquele palco”.

Márcia Pantera ganhou fama rapidamente no mundo LGBT a partir do fim dos anos 80.
No figurino, um aliado de peso, ainda que desconhecido na época.
“Conheci o [Alexandre] Herchcovitch na porta da Nostro, ele falou que eu parecia com a Naomi Campbell. Pediu pra eu ligar pra ele e aí começou a fazer roupa pra mim.”

A fama da Nostro virou nacional graças a um aliado improvável: Silvio Santos, que desde os anos 70 leva números de transformismo ao seu programa.


O DJ Mauro Borges, pioneiro da cena clubber paulistana e hoje residente da Nostro, lembra bem de Silvio indicando a casa na TV:
“Ele falava que era uma casa com shows muito bonitos, onde você podia levar sua esposa, sua família” - e eu concordo, era um lugar mágico, onde você tinha gente bonita, bebidas de qualidade e shows espetaculares.

Arquivos Miss Biá e Kaká di Polly
A travesti Natasha Dumont se apresenta no palco da Nostro

Eu me lembro bem: num sábado, saí da última sessão de Victor ou Victória (1982) - excelente musical protagonizado por Dame Julie Andrews - do extinto Cine Brigadeiro - embaixo do Cartola Club, na esquina da Brigadeiro Luiz Antonio com Paulista -, onde o filme estava já em fim de exibição nas telonas, depois de ser exibido com sucesso nos mais importantes cinemas paulistanos.

Tinha visto o filme pela, no mínimo, vigésima vez, de tanto que eu gostei - e, em tempos sem video ou DVD, para ver várias vezes um filme, tínhamos de ir ao cinema mesmo.

A sessão acabou mais de meia-noite, e eu saí andando pela Paulista - naquela época não se era atacado, nem agredido - em direção à Nostro e cantarolando cada uma das músicas do musical.

Quando cheguei à Nostro,  sempre lotada, a grande surpresa: uma Diva ruiva, linda e muito talentosa, representava no palco da casa, com bailarinos e figurinos lindíssimos, a música Le Jazz Hot, do filme que eu tinha acabado de ver!

Era Gretta Sttar, uma das mais talentosas e queridas figuras da noite paulistana, que ainda hoje abrilhanta nossos sentidos e inteligência pelos palcos da cidade.

Arquivos do Klau
A Diva Gretta Sttar

O produtor Darby Daniel foi o responsável pela conexão entre Silvio e os artistas do mundo gay paulistano, e garante que o dono do SBT nunca foi à Nostro.
“Mas foi comigo duas vezes à Medieval. Na segunda, levou sua mulher da época, a Cidinha.”

A Medieval era localizada na rua Augusta, ao lado da porta do Shopping Center 3, onde hoje é um restaurante por quilo - e atraía um público de classe média alta e de classe alta.
Era frequentada por celebridades e bem-nascidos como Chiquinho Scarpa e Fernando Collor de Melo.

Darby, hoje com 70 anos - e que sobrevive atualmente como empresário de shows de sexo explícito gay - era o homem da agenda premiada nessa época, e seus contatos foram fundamentais para o sucesso do número mais famoso de Miss Biá na Nostro: Herbe, uma sátira de Hebe Camargo - para quem Albarella trabalhou como maquiador e figurinista por anos.

E foi durante quatro anos que Miss Biá recebeu convidados para um bem-humorado talk show semanal no palco da Nostro.
Paulo Autran, Regina Duarte, Adriane Galisteu, Edson Celulari, Lucinha Lins, Claudia Raia, Wanderléa Ney Matogrosso... todos passaram pelo palco da casa.
“Tudo isso de graça”, lembra Biá.“Era uma época em que faziam isso sem cobrar cachê.”
Hebe nunca quis conhecer sua versão alternativa - e igualmente inteligente e talentosa.

Arquivos Miss Biá/Kaká di Polly
Miss Biá e Adriane Galisteu, no palco da Nostro

Ser flagrado em um ato homossexual ou sair vestido de mulher na rua podia render prisão até o começo dos anos 80.
Um delegado -  José Wilson Richetti  - virou o terror da comunidade nesse tempo com suas operações de “limpeza” das ruas e eram raras as vozes de apoio aos gays na sociedade e na mídia - travestis então eram o marginal do marginal.

Mesmo assim, há uma sensação de “tempo bom” entre quem viveu esse período.

A hostess e blogueira de moda Marcelona lembra das famosas matinês da Nostro:
“Era uma pegação ingênua, não tinha droga”.

Kaká recorda com carinho:
“Era um lugar para mim, onde podia viver minha vida, com meus amigos”.

Para José Gayegos, que trabalhou como assistente do costureiro Denner, até a repressão policial podia ter seu lado interessante.
“Uma vez eu e um amigo fomos abordados por dois homens da guarda civil na esquina da Ipiranga com a São João. Acabamos os quatro na minha garçonnière na rua Maria Paula. Eu comi um policial, meu amigo comeu o outro.”

Aos poucos, a comunidade LGBT começou a chegar a ganhar espaço no mainstream.

Em 1977, alguns veículos brasileiros já traziam seções dirigidas à comunidade gay: o pioneiro foi o diário Última Hora, onde o jornalista Celso Curi estreou em 1976 sua Coluna do Meio e chegou a ser processado pelo Ministério Público por defender “as uniões anormais entre seres do mesmo sexo”.
Curi também foi dono de um bar gay fervidíssimo nos anos 80 - o Espaço Off - em uma rua sem saída do elitizado bairro do itaim-Bibi.

Nos anos 80, o país se encantou por Roberta Close, o travesti mais famoso da história do Brasil. 
Capa da Playboy, homenageada em música de Erasmo Carlos, o status de La Close foi resumido por uma manchete do extinto jornal Notícias Populares:
“A mulher mais bonita do Brasil é homem”.

Na segunda metade da década de 80 - eu estava lá, mas não me lembro, nem do dia, nem do ano - Miss Biá subiu ao palco da Nostro e anunciou a morte da Condessa Mônica, mais uma vítima famosa da Aids - ela tinha dias antes passado por uma cirurgia para finalmente ser mulher também de corpo, mas seu organismo já debilitado não se curou.


Alguns fãs não aceitam essa versão, mas está lá, na sua certidão de óbito: "infecção em decorrência do HIV".


Em seguida, os bailarinos e artistas apresentaram o show em cartaz com muito profissionalismo, embora todos chorassem muito entre um movimento e outro.

Dias antes, tinha visto Condessa no palco da Nostro , e nem sabia que seria a última vez.
Ela interpretava a música Finding Out the Hard Way, que a atriz, dançarina e cantora Cynthia Rhodes tão bem interpretou no filme Os Embalos de Sábado Continuam (1983).
Condessa estava lindíssima, com uma peruca de cabelos curtos - igual à cena em que Cynthia canta no filme para o Tony Manero de John Travolta - e vestia um macacão rosa com milhares de canutilhos.

Foi a última vez que eu a vi com vida.

Relembre Cynthia Rhodes interpretando "Finding Out the Hard Way", em cena do filme:

A partir daí, o gerente da Nostro, Hugo Lima, assumiu a casa - era o começo do fim do glamour.

O jornalista André Hidalgo - um dos sócios do clube Glória e diretor-geral da Casa de Criadores - lembra da decepção quando foi à Nostro depois de anos sem aparecer.
“Tinha sexo explícito no palco, era algo bem dramático, misturando sexo hétero e sexo gay.”

Eu também fiquei anos sem ir lá.
Quando retornei, depois muito tempo morando fora de SP, o que mais me chamou a atenção foi a sujeira: os banheiros, o piso grudento, o cheiro de cinema pornô do centrão, um horror, sem contar o famigerado "dark room".

Em tempos de visibilidade e aceitação cada vez maior da comunidade, incluindo aí o início da Parada LGBT, em 1997, a Nostro foi sendo vista cada vez mais como decadente e ultrapassada.

Os maravilhosos e bem produzidos shows de transformismo foram perdendo espaço para baladas com ecstasy, DJs, go-go boys, drag queens com nome de rum vagabundo e sem nenhum talento - e dark rooms.

A trilha da noite, que sempre foi eclética - tinha samba, disco, Madonna e Trio Los Angeles - se homogeneizou sob o bumbo eletrônico do house “bate-cabelo”.

As concorridas matinés de domingo, onde sempre tocavam músicas lentas para que os casais mais tímidos finalmente se formassem, acabaram.

“Ficou tudo muito pasteurizado. Antes as pessoas tinham mais estilo próprio, hoje é tudo dividido por categorias: barbie, urso”, diz Marcelona.

“A noite gay acabou. A cena perdeu o glamour”, lamenta Kaká.

Em 2010, a Nostro mudou de dono mais uma vez: foi comprada pelos DJs e empresários Gé Rodrigues e Igor Calmona, donos do DJ Club e de lojas de som e iluminação na rua Santa Ifigênia.

Rodrigues conta que investiu R$ 1 milhão na reforma da casa, acrescentando uma segunda pista e instalando equipamentos modernos.

DJ Eddy
NostroMondo hoje: casa quer voltar a ser referência da noite LGBT paulistana

Os antigos frequentadores - eu incluso -, porém, ressaltam que não é possível reviver um contexto, que uma história como a da Nostro só foi possível por uma conjunção de fatores sociais e culturais.

Eu ainda não fui lá nessa nova fase, mas pelo que tenho visto e lido, parece que é uma casa moderna, tecnológica, com pitacos de glamour e - o mais importante - sem dark room.

“A boate reunia gays de A a Z porque havia poucos lugares onde eles pudessem ir”, lembra Hidalgo.

“Foi a grande vitrine para gays de todos os tipos”, resume Miss Biá.

"Foi onde eu passei os momentos mais felizes da minha vida", encerro eu.

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Matéria Base: Repórter Camilo Rocha - revista Trip no. 204 - 24.10.2011
Redação Final + Textos, Fotos e Vídeo Adicionais: Cláudio Nóvoa