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quinta-feira, 10 de outubro de 2019

'GRETA': FOCANDO NOS MARGINALIZADOS E NOS SEM ESPERANÇA, LONGA É TRABALHO MAGISTRAL DE MARCO NANINI E DENISE WEINBERG


SINOPSE:

Pedro (Marco Nanini) é um enfermeiro gay de 70 anos, que trabalha em um hospital público de Fortaleza.

Sua melhor amiga é Daniela (Denise Weinberg), artista transexual que enfrenta graves problemas de saúde.

Quando ela precisa ser internada, mas não encontra leito disponível, Pedro sequestra um paciente recém-chegado, Jean (Démick Lopes) - e o abriga em sua casa.

Inicialmente, o enfermeiro tem medo do rapaz agressivo, que se esconde da polícia por ter assassinado um homem a facadas.

Depois, nasce entre eles uma relação de cumplicidade e afeto.

CRÍTICA:

Greta, que estreia hoje em circuito comercial depois de fazer sucesso em festivais mundo afora, se abre com uma visão pouco animadora do Brasil atual.

Os personagens são os marginais, os sobreviventes de um sistema falido: um enfermeiro gay de 70 anos de idade (Marco Nanini), solitário, que costuma se envolver emocionalmente com os pacientes do hospital; um ladrão que acaba de matar outro homem a punhaladas (Démick Lopes), buscando um local para se esconder, mas também um pouco de carinho; uma mulher transexual (Denise Weinberg) que pressente o fim devido a uma doença e deseja morrer em cena, se apresentando, por não enxergar mais sentido na vida.

Não temos aqui um filme desesperado, nem excessivamente dramático, embora transborde em cada imagem uma dose de melancolia.

Os personagens se relacionam por necessidade ou carência, o que se traduz num sexo frequente e paliativo, jamais motivado por amor.

Na trama, Pedro (Nanini) oculta Jean (Lopes) em seu apartamento enquanto teme perder Daniela (Weinberg).

Eles têm apenas um ao outro, e os laços que os unem são frágeis, podendo se romper a qualquer momento.

Não existem outros amigos, familiares, colegas de clube ou igreja: Jean parece sequer estar sendo procurado de verdade, enquanto Pedro oculta suas infrações no hospital sem grande esforço.

Afinal, ninguém se importa com eles.

“Acabou o tempo, viu?”, afirma Daniela a dois clientes de um motel.
A frase poderia se aplicar a todos os personagens em cena.

O principal mérito do projeto é o teor tão crítico quanto empático, traduzido em belas cenas da cidade de Fortaleza refletida no vidro do quarto durante uma conversa, ou uma cena de sexo entre dois personagens na cama.

O diretor Armando Praça demonstra apreço pelos planos fixos nos quais o espaço fora da imagem diz tanto quanto aquilo que é enquadrado.

No sexo, um fragmento dos corpos sugere a penetração logo ao lado; durante a fuga do hospital, o plano próximo de um carrinho de lavanderia representa todos os personagens ao redor do objeto.

Quando duas pessoas conversam, observamos o rosto de apenas uma delas.

A solidão também é ilustrada por essa fragmentação, a ausência de reciprocidade das comunicações, típica do plano e contra plano.

Porém, muitos diálogos são escritos demais - e a metáfora sobre Greta Garbo é utilizada em excesso por um personagem que poderia simplesmente estar assistindo a um filme da atriz ou ter os seus cartazes na parede, ao invés de verbalizar frases de efeito com frequência, fica muito cansativo.

Do mesmo modo, a escolha de uma atriz cisgênero para interpretar uma mulher transexual é contestável.

O diretor Praça se defendeu em Berlim, dizendo que escolheu a atriz trans Gretta Sttar para interpretar uma mulher cis, o que equilibraria a escalação e comprovaria que qualquer mulher poderia interpretar qualquer papel.

Só que essa lógica teria sentido se estivéssemos num contexto em que mulheres trans já ocupassem todos os papéis trans, não precisando portanto ser reduzidas a estas personagens.

Em pleno 2019, transexuais sequer ocupam papéis de transexuais, o que justifica que interpretem no mínimo estas personagens, para também interpretarem outros.

Na configuração final, a talentosa Weinberg, atriz cisgênero, ocupou um papel de destaque que poderia ter conferido merecido protagonismo a uma atriz trans.

Já Gretta Sttar, trans, foi escalada para um papel menos importante dentro da narrativa.

Exceto por esta questão, essencial numa obra que defende os marginais e a diversidade sexual e de gênero, o longa demonstra o melhor tipo de ousadia que se poderia esperar de um projeto do tipo: o fato de tratar com naturalidade, sem fetiches nem senso de espetáculo, o amor entre pessoas desprivilegiadas.

Praça filma o sexo como quem filma um abraço e assim, vivemos em tempos que o afeto pode ser uma força subversiva e, espera-se, transformadora.

Vale uma olhada.

Filme visto no 69º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2019.

GALERIA DE IMAGENS:
Greta : Foto

Greta : Foto

Greta : Foto

Greta : Foto

TRAILER:


FICHA TÉCNICA:
GRETA
Gênero:
Drama
Direção:
Armando Praça
Elenco:
Marco Nanini, Démick Lopes, Denise Weinberg, Gretta Sttar
Roteiro:
Armando Praça
Produção:
João Vieira Jr., Nara Aragão, Armando Praça
Produtor Executivo:
João Vieira Jr.
Diretor de fotografia:
Ivo Lopes Araújo
Montadora chefe:
Karen Harley
Figurinista:
Thaís de Campos
Operador de Boom:
Moabe Filho
Autor da mixagem de som:
Nicolau Domingues
Montador de som:
Waldir Xavier
Produção:
Carnaval Filmes, Segredo Filmes
Distribuição:
Pandora Filmes
Data de lançamento:
10 de outubro de 2019
Duração:
1h37min
Nacionalidade:
Brasil
Classificação Indicativa:
18 anos

COTAÇÃO DO KLAU:

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

À BEIRA DO CAMINHO': PÉ NA ESTRADA EMOCIONANTE AO SOM DE ROBERTO CARLOS


Até eu mesmo ter uma fase "road" na minha vida - de 1989 a 1994 - confesso que eu nem gostava tanto de "road movies", gênero mais eficiente para se discutir as mudanças entre o ser e o estar - e só quem rodou milhares de quilômetros, como eu, sabe que a estrada e o profundo aprendizado que ela traz é a intermediária entre essas duas condições.

Em "À Beira do Caminho", dirigido por Breno Silveira - de "2 Filhos de Francisco" - e que estreia hoje, seu protagonista, João (João Miguel, de "Xingu"), não "é" um motorista de caminhão, ele "está" motorista de caminhão.

Os flashbacks mostram, há um motivo sério e cair na estrada pode ser a superação de uma dor, enquanto a chegada é o novo estado, a redescoberta de si mesmo.

Imagens: Divulgação - Fox Film
João Miguel e Vinícius Nascimento, em cena do longa

O longa orbita em torno das canções de Roberto Carlos - o caminhoneiro é apaixonado por elas - e seu título vem nome de uma música que, embora não esteja no filme (não foi liberada pelo cantor), tem seus versos ecoando fortes na narrativa - "Preciso acabar logo com isso, preciso lembrar que eu existo" - e aponta também para os elementos que João vai juntando ao longo de suas experiências - a física, nas estradas pelo Brasil, e a espiritual.

O ser e o estar ressurge quando a estrada é um referencial na vida de João - e se para a maioria das pessoas, a estrada é apenas o meio de viagem que será concluído com a chegada, no caso do protagonista, que vive em fuga, a estrada é o seu lar.

O elemento mais forte, que promove mudanças, é o menino Duda (Vinicius Nascimento), que perdeu a mãe e foge para São Paulo em busca de um pai que nunca conheceu - do pai, só tem uma foto e um endereço.

Assim, o longa mostra que o que está à beira do caminho é mais rico do que a estrada asfaltada e o reencontro com um ex-amor da juventude, Rosa (Dira Paes, maravilhosa), começa a demonstrar melhor o conflito que consome João.

Rosa, Duda, ou mesmo dona Maria do Carmo (Denise Weinberg) revelam-se aos poucos e, por eles, a vida de João é então revelada.

Dira Paes e Ludmila Rosa, em cena do longa

Na voz de Roberto Carlos, as músicas - quatro que ele liberou para o filme em suas gravações originais: "A distância", "O portão", "Amigo" e "Outra Vez" – dão o tom ao filme e à jornada do caminhoneiro.

Assumidamente emotivo, o longa não se envergonha de provocar lágrimas e o diálogo estabelecido com as canções está mais no tom do que no sentido literal, mas a melancolia da casa na qual as pessoas parecem tocar a vida – porque não têm outra coisa para fazer enquanto esperam – é uma imagem que corresponde com a mesma força aos versos de "O portão".

Muitas outras músicas de Roberto podem não estar explicitamente no filme - são a força da trama e dos personagens - mas é em "É preciso saber viver" que o recado é dado - eu, assim como o João, aprendi a duras penas que não adianta fugirmos milhares de quilômetros, pois os nossos problemas e as decisões que devemos tomar estão conosco, sempre.

João Miguel e Dira Paes, em cena do filme

Roberto não podia estar mais coberto de razão - e nem o marchandising escancarado da Volvo - montadora que foi coprodutora e forneceu o caminhão do protagonista - tira esse brilho.

O longa foi vencedor de seis prêmios no Cine PE: Filme pelo júri oficial e pelo popular, Melhor Ator, Ator Coadjuvante e Roteiro, além do troféu de honra Gilberto Freyre.

Confira o trailer do filme:

*****
'À BEIRA DO CAMINHO'
Diretor:
Breno Silveira
Elenco:
João Miguel, Dira Paes, Vinicius Nascimento, Ludmila Rosa, Denise Weinberg, Ângelo Antônio
Produção:
Breno Silveira, Lula Buarque de Hollanda
Roteiro:
Patrícia Andrade
Fotografia:
Lula Carvalho
Trilha Sonora:
Roberto Carlos
Duração:
102 min.
Ano:
2010
País:
Brasil
Gênero:
Drama
Cor:
Colorido
Distribuidora:
Fox Film
Estúdio:
Conspiração Filmes / Fox International Productions
Classificação:
14 anos
Cotação do Klau: