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sábado, 11 de fevereiro de 2012

'AS MULHERES DO SEXTO ANDAR' SE APOIA TOTALMENTE NO TALENTO DO ATOR FABRICE LUCHINI E NAS ESTRELAS DO CINEMA ESPANHOL


Jean-Louis  é um homem comum, de hábitos comuns, casado com Suzanne - interpretada por Sandrine Kiberlain - com dois filhos vivendo em um colégio interno.

Seu cotidiano se restringe ao trabalho e a pequenos problemas domésticos, como a insubordinação da empregada bretã, que acaba se demitindo.
Divulgação
Cena de "As Mulheres do Sexto Andar"

Como sua mulher tem horror a cuidar da casa, ele contrata uma moça espanhola, Maria - Natalia Verbeke - para ser sua nova serviçal - no início da década de 1960, era comum que franceses empregassem espanholas, que chegavam às pencas fugindo da ditadura franquista.

Aqui, o diretor e roteirista Philippe Le Guay desenvolve dois conflitos: o primeiro e mais evidente é o social, ao mostrar as condições precárias em que Maria e suas colegas vivem no sexto andar do edifício onde trabalham, onde os discursos da socialista Carmen - Lola Dueñas - e as situações cômicas que envolvem essas mulheres são o foco.
(Nota: até a bem pouco tempo, as coberturas dos prédios na França eram destinadas à moradia das empregadas que trabalhavam no edifício)

Segundo: existe o encantamento crescente de Jean-Louis - interpretado por Fabrice Luchini - por Maria, onde o ator exibe uma interpretação contida que ressalta na timidez de seu personagem frente à beleza da espanhola, e onde, mesmo em uma cena de ciúmes provocada por um garçom mulherengo, ele é cauteloso para aproximar-se de Maria.

Le Guay também explora em seu roteiro o choque desses mundos, pois é a partir do envolvimento cada vez maior de Jean-Louis com as espanholas de seu edifício que o diretor brinca com o deslumbramento de seu herói pela vivacidade de outra cultura, que tanto falta em sua vida e em seus impulsos.
Divulgação
Natalia Verbeke e Fabrice Luchini, em cena do filme

Contando ainda com a participação especialíssima da Diva espanhola Carmen Maura - no papel de Concepción - "As Mulheres do Sexto Andar" é um filme todo certinho, na forma e conteúdo,  e se escora principalmente pelo trabalho de ator de Fabrice Luchini -  pois, sem ele, o filme nada seria.

Confira o trailer do filme:
*****
"AS MULHERES DO SEXTO ANDAR"
Título original:
Les Femmes du 6eme Étage
Diretor:
Philippe Le Guay
Elenco:
Fabrice Luchini, Sandrine Kiberlain, Natalia Verbeke, Carmen Maura, Lola Dueñas, Berta Ojea, Nuria Solé, Concha Galán, Marie-Armelle Deguy, Muriel Solvay
Produção:
Etienne Comar, Philippe Rousselet
Roteiro:
Philippe Le Guay, Jérôme Tonnerre
Fotografia:
Jean-Claude Larrieu
Trilha Sonora:
Jorge Arriagada
Duração:
104 min.
Ano:
2010
País:
França
Gênero:
Comédia
Cor:
Colorido
Distribuidora:
Vinny Filmes
Estúdio:
Vendôme Production / France 2 Cinéma/ Canal+/ SND/ CinéCinéma / France Télévision/ Banque Postale Image 4/ Cofinova 7 / Uni Étoile 8
Classificação:
16 anos
Cotação do Klau:

sábado, 5 de março de 2011

CARMEN MAURA, E A RELAÇÃO CONTROVERSA COM ALMODÓVAR

A atriz espanhola Carmen Maura é uma mulher livre.

É livre para gargalhar alto num restaurante de luxo, para dar de ombros aos relógios alheios que controlam seu tempo e para atravessar o tapete vermelho da Berlinale com o esmalte das unhas lascado.

Carmen Maura é livre, até, para brigar com Pedro Almodóvar.

"Quero me divertir, viver bem, não conseguiria ser uma estrela intocável", disse a atriz espanhola, um dia após ter apresentado, no último festival de Berlim, a inofensiva e simpática comédia francesa "As Mulheres do 6º Andar".

Para desespero dos assessores, Maura desandou a falar.

Não parecia haver gesto capaz de contê-la.
"Quando começa a promoção de um filme e me dizem 'Você tem que ir a Berlim', é um sacrifício. Penso na mala, no que tenho que trazer, mas na hora de conversar, me divirto."

Como boa comediante, a ex-musa de Almodóvar sabe fazer o interlocutor rir.

As expressões, os gestos, as palavras em espanhol que mete no meio das frases em francês - "Chica!" -, tudo nela acaba por divertir.

"Ah, adoro fazer pobres porque é mais confortável", diz, sobre o filme exibido em Berlim, em que vive uma empregada doméstica.
"Já fiz muitas empregadas. Elas não usam salto, maquiagem..."

Mas a verdade é que Maura, desde que estreou no cinema, em 1971, foi rica, pobre, boa, megera, neurótica e até fantasma.
"Me transformo em qualquer coisa."

Só não lhe venham com psicologismos.
"Se vou viver uma louca, não vou ficar um mês num hospício. Em casa, vou ler o roteiro e entender."

Essa lição ela aprendeu com Almodóvar, o diretor mais marcante, o amigo com quem rompeu.

John Macdougall/AFPA atriz espanhola Carmen Maura fala a jornalistas na última Berlinale

Maura e Almodóvar se conheceram no final da década de 1970 - estavam fazendo a mesma peça de teatro em Madri.

No primeiro filme com ele, "Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão" (1980), a atriz passou figurino e ajudou a conseguir dinheiro para a produção.
"Não tínhamos nada, mas era muito divertido", conta.

"O Pedro mudou muito", diria, mais adiante.

Antes de ele mudar, vieram ainda os longas "Maus Hábitos" (1983), "Que Fiz Eu para Merecer Isto?" (1984), "Matador" (1986), "A Lei do Desejo" (1987) e "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos" (1988).

Foi na entrega do Oscar, no ano em que "Mulheres" foi indicado, que o rompimento dos dois veio a público.

Passou, então, a ser tratado com tintas de melodrama.

O auge da cena pública se deu na entrega de um prêmio Goya, em 1990, quando Maura era apresentadora e Almodóvar foi convidado para homenageá-la.
Ela recebeu um pedaço do muro de Berlim, e os fotógrafos deliraram.

"No dia seguinte, estávamos na primeira página dos jornais", afirma.
"E era um momento em que todo mundo dava pedaços do muro. Eu tinha vários em casa!".

Duas décadas depois de "Mulheres", o diretor convidou-a para fazer a matriarca fantasma de "Volver" (2006).
Ela topou e o resultado foi brilhante.
"Nossa relação profissional não mudou."

"O que me chamou a atenção é que ele virou um rei. Quando ele chegava ao set, todo mundo falava baixo, com medo", diz, imitando cochichos.
"Não sei se a pessoa que conheci ainda está lá. Ele ficou muito mais sério."

Hoje, eles não se falam.

Mas se acabou a relação com Almodóvar, continua intensa sua história com incontáveis diretores espanhóis, argentinos, franceses e até com Francis Ford Coppola - em 2010, a atriz rodou quatro filmes.

Mas Maura não é da estirpe dos sofredores.
"Cinema é muito fácil", diz.
"É como se você fosse criança brincando. Eles te dão uma casa, um marido, os filhos. E depois tem o milagre da câmera, que faz metade do trabalho."

Segunda ela, o segredo do cinema é o respeito pela câmera.
"Ela pode estar com você ou contra você."

E segredo de viver com tamanha liberdade?
"Nunca quis chegar a um lugar específico, receber tal prêmio. É muito mais difícil viver o sucesso que as dificuldades. Nas dificuldades, todos te confortam. No sucesso..."

Essa frase, a faladora Maura conclui com o silêncio.

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Matéria da repórter Ana Paula Sousa - Folha de S.Paulo