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segunda-feira, 12 de julho de 2010

GALVÃO BUENO: ENTREVISTA À "ISTO É"

O narrador Galvão Bueno virou um dos assuntos mais falados hoje, desde quando disse, ao vivo, no final do jogo que decidiu a Copa da África, que 2014 será a última vez em que ele narrará jogos da maior competição de futebol do planeta.

Mas ele já tinha dito isso, no final da ótima entrevista que ele concedeu aos repórteres Rodrigo Cardoso e Yan Boechat, na revista "Isto É" dessa semana.

A entrevista, na íntegra, você lê agora:


GALVÃO BUENO
"Tive vontade de bater mais"

O narrador diz que Dunga se alimentou do revanchismo e que teve de se controlar para não desabafar nas transmissões

Rodrigo Cardoso e Yan Boechat, enviados especiais à África do Sul

Na sua décima Copa, ele já anuncia que pensa em parar em 2014.
Prestes a completar 60 anos e com dez Copas do Mundo no currículo, o narrador Galvão Bueno gosta de dizer que é um vendedor de emoções e que seu principal produto é o futebol, principalmente o jogado pela Seleção Brasileira. Nesta Copa do Mundo, no entanto, o maior narrador esportivo do País não conseguiu se emocionar com o time brasileiro. “Não senti nada, apenas a frustração de ver acontecer que eu imaginava o que aconteceria”, disse ele, no bar do luxuoso Hotel Southern Sun, em Johannesburgo, sua casa nos últimos 30 dias.

"O Kaká foi infeliz quando disse que ninguém estava sofrendo tanto quanto o grupo.
E as crianças brasileiras que são apaixonadas pela Seleção?"
Durante todo o Mundial, Galvão manteve-se distante da guerra travada entre Dunga e a imprensa, em especial a Rede Globo.
Fez poucos comentários sobre as atitudes do treinador brasileiro.
Nesta entrevista à ISTOÉ, porém, preferiu deixar a imparcialidade de lado.
Para ele, Dunga e Jorginho perderam-se – e levaram a Seleção com eles – ao decidir brigar contra tudo e contra todos. “Dunga se alimentou de uma coisa terrível, o revanchismo”, diz.

"Fiquei enlouquecido em 94, com meus gritos de ‘É Tetra’.
Parecia um débil mental. É minha maior vergonha profissional"


ISTOÉ -
Você se surpreendeu com as atitudes de Dunga na África do Sul?

GALVÃO BUENO -
Conheço o Dunga há 27 anos. Acho que ele começou muito bem, caminhou bem e se perdeu inteiramente. Ele se alimentou demais de uma coisa terrível na vida que se chama revanchismo. O alimento do dia a dia dele é a revanche. Ele se perdeu quando começou a brigar com todo mundo e se alimentar das brigas. Ele se perdeu junto com Jorginho e com o Américo Faria.

ISTOÉ -
Como interpretou os xingamentos contra o Alex Escobar após o jogo contra a Costa do Marfim?

GALVÃO BUENO -
Aquilo é a perda definitiva de controle de uma pessoa que tem que ser controlada. Num determinado momento eles, no plural, se perderam. Eu sinceramente não esperava. O que mais lamento é que acho que isso passou para os jogadores. Como jogadores que vêm de três Copas do Mundo, que jogam nos maiores clubes da Europa, podem perder o controle como perderam com um gol de empate? Isso tem que vir de algum lugar. Quando você vê seu chefe perdendo o controle todo dia, isso influencia.

ISTOÉ -
Quem mais sentiu no time?

GALVÃO BUENO -
Todos perderam um pouco a noção das coisas. Não gostei das declarações. O Gilberto disse que o time não se desequilibrou. Não precisava disso, o mundo inteiro viu o desequilíbrio. O Kaká, por quem eu tenho uma admiração imensa, foi infeliz quando disse que ninguém estava sofrendo tanto quanto o grupo. Grupo não é gente, pô! E as crianças brasileiras que são apaixonadas pela Seleção? E mesmo o Júlio César, o melhor goleiro do mundo pra mim, um cara fantástico, dizer que o mais triste era ver o Gilberto Silva chorar. Poxa, e os torcedores? Enfim, eles se perderam, teve um processo meio brutal ali, não podia dar certo. Tudo em exagero não dá certo.


ISTOÉ -
Você se emocionou em algum momento nesta Copa do Mundo com a Seleção Brasileira?

GALVÃO BUENO -
Faço Copa desde 74 e narro seleção desde 90. Fiquei puto quando o Maradona passou por todo mundo e passou para o Caniggia em 90. Fiquei enlouquecido em 94, inclusive aqueles meus gritos de “É Tetra, É Tetra”, parecendo um débil mental, é minha maior vergonha profissional. Em 98, tive uma sensação de impotência total ao receber a escalação sem o Ronaldo ali e tomar aquele chocolate da França. Em 2002 tive uma alegria incontida ao ver o Brasil numa final inédita contra a Alemanha e sermos campeões com dois gols do Ronaldo. Mas nessa não deu para sentir nada. Senti foi uma frustração com o que eu imaginava que ia acontecer.

ISTOÉ -
Em qual sentido esta Copa é diferente das outras que você narrou?

GALVÃO BUENO -
Ser no continente africano já é espetacular. O que eu via aqui nos anos 70 e 80... aí vejo a capacidade de organização, a qualidade dos estádios, a alegria do povo. Não me lembro de ter visto uma Copa com um povo tão alegre e orgulhoso como aqui. A vuvuzela me incomodou para cacete, mas vou fazer o quê? Incomodou a mim, incomodou o zagueiro, o goleiro, mas nunca passou pela nossa cabeça fazer duas transmissões como a tevê inglesa, uma com vuvuzela e outra sem.

ISTOÉ -
E no campo?

GALVÃO BUENO -
Um ritmo alucinado, uma velocidade de jogo que o Brasil não teve capacidade de acompanhar. Mais taticamente do que fisicamente. Acho que o nosso futebol não tinha o ritmo de uma Alemanha e Argentina, de Gana e Uruguai. E isso me encanta.

ISTOÉ -
Você classificaria como um ritmo europeu de jogar?

GALVÃO BUENO -
Classificaria como uma nova ordem no futebol. Não existe mais o temor pela camisa adversária. França e Itália foram exemplo disso. Foram despachados pela arrogância, pela prepotência e pela falta de renovação.

ISTOÉ -
O Brasil também?

GALVÃO BUENO -
Também. Nossa média de idade foi a maior da história. Só tínhamos um jogador com idade abaixo de 23 anos: Ramires. Foi uma opção de trabalho do Dunga e do Jorginho, só acho que tomaram o caminho errado. Fizeram uma aposta errada.

ISTOÉ -
Qual aposta foi errada?

GALVÃO BUENO -
Esse foi um grupo formado pelos resultados obtidos, é difícil contestar. Mas, agora, o trailer do filme de horror que vimos no jogo contra a Holanda havia passado para nós várias vezes. Todo mundo imaginava que o Felipe Melo poderia se descontrolar. Descontrolou-se. O Dunga não tinha opções. Saímos de uma Copa sem fazer as três substituições (permitidas por partida). Cadê os nossos craques, Ronaldinho, Neymar, Ganso, Pato? Dunga olhava (para o banco de reservas) e só via o Júlio Baptista. Com todo respeito a ele, mas o Júlio não era o cara para virar o jogo. Eles escolheram um caminho errado.

ISTOÉ -
O futebol e o esporte ainda o emocionam?

GALVÃO BUENO -
Muito. O esporte é minha vida. Fui um jogador medíocre de basquete, mas foi com ele que paguei minha faculdade. Fiz todos os esportes e sou professor de educação física. A minha formação é o esporte, ele me ensinou todos os valores da vida.

ISTOÉ -
Narrador tem que colocar paixão, ser até um pouco ufanista?

GALVÃO BUENO -
Absolutamente. É o que sempre digo, sou um vendedor de emoções. O meu produto é o esporte e tenho que vendê-lo com a maior paixão possível. Mas ando sempre no fio de uma navalha. De um lado a paixão, do outro a realidade.

ISTOÉ -
Já escorregou nesse limite?

GALVÃO BUENO -
Em mais de 35 anos andando no fio da navalha, é claro que foram muitas vezes. Nada é tão marcante quantos os erros. E já cometi muitos. Na Copa de 74 narrei um jogo errado. Nos disseram que era Suécia e Iugoslávia. No meio do jogo, a câmera foca o placar: Alemanha Oriental e Austrália. Na primeira vez que narrei uma corrida de Fórmula 1 pela Globo, errei o vencedor, aqui na África do Sul. O Prost ganhou e eu disse que era o Reutemann.

ISTOÉ -
Qual foi a última vez que você chorou?

GALVÃO BUENO -
Choro o tempo todo, eu choro com filme. Mas a última vez foi há dois dias, quando eu e o Casagrande estávamos no bar do hotel, conversando e tendo a exata noção de que ele está de volta com a gente, com força total (Casagrande passou por um tratamento contra a dependência de drogas). E ele dizia que estava feliz e me agradecia por ser parceiro. Nos abraçamos e choramos como crianças.

ISTOÉ -
Você tem a dimensão do seu poder com o microfone da Globo?

GALVÃO BUENO -
Eu sei que é grande. Mas tenho medo de me dar mais importância do que realmente tenho. Sou a voz da Globo no esporte nos últimos 30 anos. Isso é uma coisa que pesa muito, para o bem e para o mal. Mas tenho a exata noção dos limites. Até os ultrapasso algumas vezes, mas não por irresponsabilidade e por vontade de marcar mais do que o necessário. Acho que hoje, às vésperas de fazer 60 anos, tenho equilíbrio suficiente para saber até onde posso ir. Mas não é fácil. Cada vez que o pífano toca, a cobra se levanta. Preciso ficar me policiando sempre.

ISTOÉ -
Você se policiou nesta Copa?

GALVÃO BUENO -
Pouco. Mas me policiei bastante depois da derrota para a Holanda. Tive vontade de bater mais.

ISTOÉ -
Você se surpreende por ter se tornado uma celebridade?

GALVÃO BUENO -
Nunca imaginei que um dia, em um treino da Seleção em São Luís do Maranhão, eu teria que sair escondido em uma ambulância porque as pessoas estavam histéricas do lado de fora. Já tive que sair do aeroporto em carro na pista. Isso me assusta um pouco, sinceramente. Não conseguia entender isso, e hoje consigo. Mexo com emoção, com paixão, e isso não tem limites.

ISTOÉ -
As críticas que você recebe são fruto disso? E elas o incomodam?

GALVÃO BUENO -
Já me descabelei com elas, mas hoje não me descabelo mais.

ISTOÉ -
Nem com os cartazes e os xingamentos da torcida?

GALVÃO BUENO -
O cartaz “Cala a boca Galvão” foi uma vez só, colocado pelo “Pânico” para faturar em cima. O “Vai tomar no c.. Galvão” foi uma vez só, num jogo entre Brasil e Equador, e até o Cacá e o Popó (filhos do narrador) gritaram. “Galvão viado” foram várias (risos). Isso para mim é motivo de orgulho. Mas no começo demorei a entender, assustava. Hoje acho divertidíssimo, é folclore. Você só será personagem de humor se tiver importância. Só me incomodo com as maldades e as mentiras.

ISTOÉ -
E o “Cala boca Galvão” no Twitter?

GALVÃO BUENO -
Foi mais uma brincadeira, esse negócio de Twitter é uma loucura. Quando virei oficialmente papagaio, me veio na cabeça usar isso para fazer algo legal pela fauna brasileira. Entrei na campanha e estamos pensando no que fazer. É só esperar, isso vai virar uma campanha séria. Não podemos perder essa chance de usar uma brincadeira que ganhou o mundo para fazer algo do bem para cutucar as autoridades para que sejam mais duras com a preservação.

ISTOÉ -
Sua última Copa será no Brasil em 2014?

GALVÃO BUENO -
Sim, mas certamente não será o último trabalho. Eu vivo televisão, assisto diuturnamente. Televisão para mim é minha vida. Mas, em 2018, peço a Deus que me dê saúde, quero juntar a pintainhada inteira, a família toda, botar num micro-ônibus e ir assistir à Copa como torcedor. Até posso fazer a Olimpíada de 2016, se a Globo quiser, mas a próxima Copa será a última.

terça-feira, 6 de julho de 2010

PLAYBOY PORTUGUESA HOMENAGEIA SARAMAGO, E CRIA NOVA POLÊMICA

Nem morto, o genial escritor José Saramago deixa de ser polêmico.

Agora, é a edição portuguesa da revista "Playboy" que presta homenagem a um dos maiores escritores de língua portuguesa de todos os tempos - morto no último dia 18 de junho - e que está causando nova polêmica.

A capa e as páginas internas da revista trazem um ensaio que mostra Jesus Cristo com mulheres nuas, uma referência à obra "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", publicado por Saramago em 1991.

Reprodução: PLAYBOY PORTUGAL
O livro apresenta uma versão humanizada da história de Jesus e abalou as relações do escritor português com a Igreja Católica.

A edição de julho de 2010 traz também uma entrevista feita com Saramago antes de sua morte.

Logo, a revista poderá ser encontrada nas bancas do Brasil também.

domingo, 30 de maio de 2010

REVISTA MARROQUINA "MITHLY" É A PRIMEIRA GAY, EM ÁRABE, PARA MUÇULMANOS

A "Mithly" não é uma revista como as outras, é mais, muito mais.
Lançada em abril, é a primeira revista gay a circular em árabe num país de maioria muçulmana, o Marrocos.
O pioneirismo conseguiu uma divulgação inédita para a causa, mas vem causando polêmica nos jornais locais e o silêncio do governo do rei Mohammed 6º.
No país, "atos licenciosos ou contra a natureza cometidos com indivíduos do mesmo sexo" podem ser punidos com prisão de seis meses a três anos, além de eventuais multas.


O site da revista (mithly.net), em árabe, já atingiu, desde sua criação, mais de 1 milhão de visitantes únicos, segundo Samir Bergachi, redator-chefe da "Mithly".
Mas o fenômeno mesmo é que os 200 exemplares impressos em Madri e distribuídos em Rabat, a capital marroquina, de mão em mão, gratuitamente, na mais rigorosa clandestinidade, viraram notícia na Europa e nos EUA.
O impacto do papel e de ser escrito em árabe clássico deu destaque internacional à revista, que deixou de ser uma rede de militância na internet para se tornar um instrumento de ação política inédito no mundo islâmico.

IGUAL A MIM
Para batizar a revista, foi necessário também sustentar o uso de um termo novo.
"Homossexual" não tem equivalente em árabe, a não ser os pejorativos "zamel" (efeminado) ou "chaddh" (perverso).
"Mithly" - em tradução literal, "igual a mim" - ganhou o que os especialistas chamam de "nova carga semântica", quando um sufixo ("y") amplia o significado de uma palavra já existente ("mithl", igual).

A publicação é iniciativa da associação Kif Kif, legalizada em 2005 na Espanha.
Mais do que uma rede de contatos entre compatriotas gays de Madri, Paris, Roma e Montréal, os fundadores, todos marroquinos expatriados, pretendiam interferir na vida do país que deixaram para trás.
A sede da organização em Rabat tem três mil inscritos, segundo seus líderes.
A identidade dos associados permanece escondida; a Kif Kif nem sequer é legalizada no país.
"O governo não responde nossas cartas", diz Bergachi, estudante de jornalismo da Universidade Complutense de Madri. "O que temos é o silêncio."

Escritórios fora do Marrocos, com 50 a 60 militantes em média, captam pequenas doações que, sozinhas, mantêm o site, a consultoria legal e, mais recentemente, a revista "Mithly".

ELTON JOHN

Num projeto gráfico simples e com apenas 20 páginas, a revista não faz provocações nem procura atrair leitores com consumismo, pornografia ou "nus artísticos".
Engajado, o primeiro número traz um artigo sobre o Dia Internacioial da Mulher, testemunhos de homossexuais que "saíram do armário", repercute as manifestações públicas contra o show do cantor britânico Elton John no festival Mawazine, em Rabat, e traz um conto do escritor Abdellah Taïa.

O marroquino Taïa, 36, vive autoexilado em Paris há dez anos.
Por escrever em francês, alcançou boa projeção no circuito literário internacional: publicou três romances por uma das grifes do livro francês, a editora Seuil.
Participa de festivais literários internacionais, como o Beiruth 39 (com 39 autores de menos de 39 anos, selecionados pela Unesco), e o mais famoso de todos, o de Hay-on-Wye, no Reino Unido (que começou no dia 27).
Os romances de Taïa são todos autobiográficos, ficção misturada às memórias de sua vida na pequena cidade de Salem.
Até mesmo no Marrocos, onde a Unesco registra 50% de analfabetismo, os livros de Taïa vendem bem: segundo ele, "Le Rouge du Tarbouche" ["O vermelho do turbante"] vendeu 15 mil exemplares. Como ele diz, é "muito, muitíssimo".
Dificilmente os escritores brasileiros com sua idade e projeção atingem esse resultado.

O TEMPO DA VERGONHA

Taïa é um ícone gay no Marrocos desde que, em 2007, foi capa da revista semanal de informação "Tel Quel", editada em francês.
Com tiragem de 20 mil exemplares - apenas 100 vezes a da "Mithly" - é a mais progressista do país e acaba de ganhar uma irmã em árabe.
Além de expor-se numa entrevista, Taïa publicou o texto "A homossexualidade explicada à minha mãe".

E por quê?
"Porque nós, homossexuais, estamos emprestando a voz a uma sociedade que está presa no silêncio de uma ditadura."

A situação é parecida nos outros países da África do Norte.
Na Argélia, "todos os culpados de atos homossexuais são punidos com dois meses a dois anos de prisão" (artigo 338 do Código Penal), além de multa.
Na Tunísia, o artigo 230 do Código Penal prevê prisão de até três anos por "sodomia consentida entre adultos".
Como em inúmeros outros exemplos ao redor do mundo, os gays marroquinos são os primeiros a reagir à repressão moral -- que eles também foram os primeiros a sofrer.

EFEBOS E CORTESÃS

Embora escorada na tradição, a atual cultura repressiva nos países muçulmanos é um dado cultural relativamente novo, associado à recente islamização política.
Abdellah Taïa cita o poeta árabe Abu Nuwas (756-814), que escrevia cânticos de amor aos rapazes.
"É um clássico, e ainda é estudado nas escolas públicas". Todos sabem que era homossexual."

O mesmo acontece com Al-Jahiz (781-869), que escreveu um livro sobre "efebos e cortesãs", "um diálogo entre homens que amam mulheres e homens que amam homens".
Nas "Mil e Uma Noites" (os manuscritos datam dos séculos 9º ao 18), não faltam histórias que narram, metaforicamente, relações de amor sensual entre pessoas do mesmo sexo.
Não se trata de querer ver uma linhagem gay na tradição literária árabe.

Segundo Mamede Mustafa Jarouche, 47, que assina a mais recente tradução brasileira do "Livro das Mil e Uma Noites" (Editora Globo) e dá aulas de árabe na USP, "nos tratados eróticos clássicos, e em boa parte da narrativa literária, não há exatamente uma visão essencialista sobre a escolha do parceiro".
Jarouche, que morou no Cairo, conta que, em 2000, uma editora do governo egípcio teve a gráfica invadida por fundamentalistas que rasgaram livros de Abu Nuwas, que viveu, repeto, no século 8.
E em 2001, na feira do livro do Cairo, houve uma tentativa de censurar a tradução árabe de "A sexualidade no Islã" (1975), do tunisiano Abdelwahab Bouhdiba, publicado no Brasil pela editora Globo.

SE PECOU, NÃO DIVULGUE

Para a comunidade islâmica do Brasil, a tentativa de moralizar a literatura é uma volta aos "critérios claros" da religião.
Um de seus líderes, o xeque Jihad Hassan Hammadeh, 44, diz que não há margem para dúvida na interpretação da lei corânica. "Homossexualidade é proibida, é pecado."

Nascido na Síria e vivendo em São Paulo desde 1991, o xeque não comenta os casos que ocorrem na comunidade islâmica que dirige.
Mas não deixa de ser um tanto brasileira a solução que propõe: para ele, a religião dá ao crente a possibilidade de não divulgar seu pecado, para que haja espaço para voltar atrás. Assim, o acerto de contas acontecerá entre o fiel e Deus. "Se pecou, não divulgue."

COLONIALISMO MILITANTE

Os marroquinos da "Mithly" estão divulgando, e além da repressão do Estado, recebem objeções intelectuais: publicar uma revista gay poderia ser um programa elitista e ocidental.

Paulo Hilu Pinto, 42, antropólogo da Universidade Federal Fluminense (UFF), especialista na Síria contemporânea, enxerga o risco de "colonialismo militante" que pode haver na iniciativa.
"O movimento gay organizado é libertador para quem? Um morador da periferia, que faz sexo com parceiros do mesmo sexo, pode nunca ter se enxergado assim."
Hilu Pinto acredita que, com a moral religiosa, o gay pobre acaba se vendo como pecador.

Os editores da "Mithly", de fato, pertencem a uma elite intelectual que mora e estuda na Europa. Os escassos 200 exemplares que circularam na capital marroquina não deixam de ser um sinal de elitismo, embora a íntegra da revista esteja disponível (e de graça) na internet clique aqui para ler.
Mas não importa a tiragem: a mera existência da revista já é um respiro no abafado ambiente cultural do Marrocos.

INTEGRAR É A META

O sociólogo marroquino Mohammed Mezziane, 47, afirma que a "Mithly" não propõe uma ruptura com o Estado ou com a religião.
Pelo contrário, seu objetivo é integrar o discurso homossexual na vida do país.
Cautelosos, os editores da revista ainda não reivindicam os temas da pauta ocidental, como o casamento gay ou as pensões e planos de saúde para parceiros do mesmo sexo.

O número 2 da "Mithly" sairá na terça, 1º/6, apenas na internet, com reportagem sobre o alto índice de suicídio entre os homossexuais.
O terceiro número está prometido para o papel: julho é o mês do orgulho gay, e também é o aniversário de cinco anos da associação Kif Kif.
Os editores preparam uma reportagem sobre o lesbianismo no mundo árabe, história ainda mais escondida.
Samir Bergachi, o redator-chefe, diz que quando os tradicionalistas querem mostrar os riscos da descriminalização da homossexualidade no Marrocos, exibem imagens do Carnaval carioca.

A associação Kif Kif, segundo Bergachi, foi convidada para participar do congresso internacional de direitos LGBT, em 2011, no Rio de Janeiro. "Finalmente vou conhecer o Rio", comemora.

Essa revista, por ser escrita em árabe, para mim é uma das mais importantes conquistas da Diversidade, nos últimos anos.

Todo o apoio, desejos de sucesso e bons caminhos para a "Mithly".

Texto base: agências internacionais e "Folha de S.Paulo de hoje - Texto Final: Cláudio Nóvoa

terça-feira, 4 de maio de 2010

MADONNA: ENTREVISTA A GUS VAN SANT, PARA A "INTERVIEW"

Madonna deu uma longa entrevista - ao cineasta Gus Van Sant - e fez um belo ensaio fotográfico para a edição americana da revista "Interview" desse mes.

De inédito, a Diva deu detalhes sobre seu novo filme, onde ela atuará e dirigirá.

Ela declarou que, apesar de o Duque e a Duquesa de Windsor aparecerem no filme, eles não serão os protagonistas. "[A história] é sobre a jornada de uma mulher que tem a duquesa como guia espiritual", contou.

O filme terá diversas passagens de tempo, com a ação ocorrendo na Inglaterra antes da 2ª Guerra Mundial, e em Nova York em 1998.

"Não percebi como seria complicado filmar quando escrevi o roteiro, mas quando comecei a escolher os atores e a planejar a produção, pensei: 'Droga, isso vai ser péssimo para o orçamento'".

"Da próxima vez, vou fazer um filme sobre uma pessoa em um lugar e que não tenha guarda-roupa", brica ela.

Reprodução/Interview
Madonna, em ensaio publicado pela revista "Interview"

Segundo ela, a pré-produção começa assim que ela voltar de uma viagem à África e as filmagens serão no meio deste ano. Os atores já estão sendo escalados.

"Quando você faz um filme, parece que tudo está contra você. Não sei como os filmes conseguem ser feitos."

"Quero ligar pessoalmente para as pessoas que me disseram não e dizer: 'Não podemos fazer alguma coisa a respeito?' 'Por que não podemos filmar no seu castelo?' 'Por que você quer trabalhar com o Martin Scorsese quando você pode trabalhar comigo?'", brincou.

Essa é Madonna!

quarta-feira, 10 de março de 2010

"A QUEDA"...DA REVISTA "INDISPENSÁVEL"

Em 2004, O diretor Oliver Hirschbiegel estreou o filme Der Untergang ("A Queda") - sobre os últimos dias de Adolf Hitler, enfiado num bunker em Berlim ao final da Segunda Guerra.

O filme causou controvérsia na Alemanha, por ser o primeiro projeto sobre este tema desenvolvido por um cineasta de origem alemã, e pela forma como os líderes nazistas são apresentados.

" A Queda" ganhou um grande número de prêmios e reconhecimentos, incluindo a nomeação de melhor filme estrangeiro no Oscar.

E a cena de Hitler em reunião com seu Estado Maior - e tendo um senhor chilique - é um prataço pra que se faça humor em cima dela!

É o que eu tentei fazer aqui, usando a cena para contar pra vocês como uma certa revista semanal, de circulação nacional e tucana até a medula, está perdendo cada vez mais e mais assinantes.

O leitor não é tonto, graças a Deus!

Veja(!):