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quinta-feira, 24 de maio de 2012

FESTIVAL DE CANNES: HÁ 50 ANOS, 'O PAGADOR DE PROMESSAS' GANHAVA A ÚNICA PALMA DE OURO PARA O CINEMA BRASILEIRO


Há exatos 50 anos - 24 de maio de 1962 - o filme brasileiro "O Pagador de Promessas" conquistou a Palma de Ouro, prêmio máximo da 15a. edição do Festival de Cannes.

O filme é uma transposição para o cinema de uma peça de teatro homônima - escrita por Dias Gomes - e foi produzido por Oswaldo Massaíni.

Dirigido e roteirizado por Anselmo Duarte - até então mais conhecido como um dos maiores galãs da fase áurea dos estúdios brasileiros -  o longa é, até hoje, a única produção brasileira a conquistar uma Palma de Ouro.

Em 1962, jurados como François Truffaut preferiram o drama brasileiro a filmes hoje clássicos - como "Cléo de 5 a 7", de Agnés Varda, "O Anjo Exterminador", de Luis Buñuel, "O Eclipse", de Michelangelo Antonioni, e "O Processo de Joana D'Arc", de Robert Bresson.

Após o recebimento do prêmio em Cannes, o diretor, a equipe do filme e o elenco, que tinham viajado até a cidade francesa, foram recebidos com um desfile público em carro aberto, ao desembarcar no Brasil, no Rio de Janeiro.
Arquivos do Klau
Anselmo Duarte posa na França com a Palma de Ouro - prêmio máximo do Festival de Cannes

Há fotos da equipe do filme chegando ao Brasil que parecem imagens da seleção brasileira voltando de uma conquista de Copa do Mundo: as imagens provam que o prêmio, até hoje o mais importante recebido por uma produção brasileira, produziram grande emoção nas pessoas.

Sentimento justificado pois a distinção conferida ao filme significava também o reconhecimento de um país jovem, que aspirava à projeção internacional.

Naquela época, o Brasil desenvolvia uma atividade artística das mais significativas, com inovações na música - a bossa nova -, no teatro, nas artes plásticas.

No cinema, era o momento em que nascia o Cinema Novo - até hoje mais respeitado movimento cinematográfico do país - projetando nomes como os de Nelson Pereira dos Santos - o mais velho, patrono de todos, precursor e grande homenageado em Cannes 2012 -, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, e, em especial, Glauber Rocha, o mais inventivo, o mais provocador, o mais falastrão.

Com todo esse frenesi em torno dos diretores acima citados, não deixa de ser irônico que a Palma de Ouro tenha caído no colo de alguém que pouco tinha a ver com as novas ideias cinematográficas do País.
Reprodução
Capa da Folha e a notícia de que um filme brasileiro tinha sido vitorioso em Cannes

Anselmo era um galã das chanchadas e dos estúdios da Vera Cruz e que já havia dirigido um filme muito bom -  "Absolutamente Certo" (1957).

O longa é um típico produto da persistência de um sonhador em busca de transformar seu ideal em realidade: Anselmo não tinha um puto para a produção, até convencer o estrelado produtor Massaíni.

O elenco foi formado por amigos de Duarte, que acreditaram no projeto e receberam piso salarial.

Para levar o texto de Dias Gomes à telona, Anselmo usou uma dramaturgia clássica - que pouco tinha a ver com as inovações formais preconizadas e testadas pelo Cinema Novo - e valeu-se de um ótimo protagonista, de um elenco afiadíssimo e do excelente fotógrafo inglês Chick Fowle, trazido ao Brasil pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz.

Com tudo isso, "O Pagador de Promessas" mostrava ao mundo um padrão de qualidade técnica que não poderia ser menosprezado pelos europeus.
Arquivos do Klau
Cena de "O Pagador de Promessas", com Leo Villar - o Zé do Burro - e Glória Menezes - Rosa - ao centro

Na trama, Zé do Burro - Leonardo Villar, sensacional - é um homem humilde que enfrenta a intransigência da Igreja Católica - na figura de um padre -  ao tentar cumprir a promessa feita em um terreiro de candomblé de carregar uma pesada cruz por um longo percurso.

Zé do Burro é o dono de um pequeno pedaço de terra no Nordeste do Brasil e seu melhor amigo é um burro.

Quando o animal adoece, Zé faz uma promessa à uma mãe de santo do candomblé: se o burro se recuperar, promete dividir sua terra igualmente entre os mais pobres e carregará uma cruz desde sua terra até a Igreja de Santa Bárbara em Salvador, onde a oferecerá ao padre local.

Assim que seu burro se recupera, Zé dá início à sua jornada.

O filme se inicia com Zé, seguido fielmente pela esposa Rosa - Glória Menezes, em sua estreia no cinema -, chegando à catedral de madrugada.

O padre local - Dionízio Azevedo - recusa a cruz de Zé após ouvir dele a razão pela qual a carregou e as circunstâncias "pagãs" em que a promessa foi feita.

A partir daí, todos em Salvador tentam se aproveitar do inocente e ingênuo Zé: os praticantes de candomblé querem usá-lo como líder contra a discriminação que sofrem da Igreja Católica e os jornais sensacionalistas transformam sua promessa de dar a terra aos pobres em um libelo pela reforma agrária.

A polícia é chamada para prevenir a entrada de Zé na Igreja, e ele acaba assassinado em um confronto violento entre policiais e manifestantes a seu favor.

Na última - e sen-sa-cio-nal - cena do filme, os manifestantes colocam o corpo de Zé em cima da cruz e entram à força na catedral.

O longa também foi o grande vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Cartagena, Colômbia (1962) e dos prêmios de Melhor Filme e Melhor Trilha sonora - para Gabriel Migliori - no San Francisco International Film Festival (1962)

No ano seguinte - 1963 - o longa foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro, mas perdeu para "Sempre aos Domingos", do francês Serge Bourguignon.

Depois dessa conquista importantíssima, o Cinema Brasileiro voltou várias vezes aos mais importantes festivais do mundo, inclusive com as obras consideradas máximas do Cinema Novo, que foram reconhecidas e premiadas - mas não com a Palma de Ouro.

Já faturamos dois Ursos de Ouro, prêmio máximo no principal concorrente de Cannes - o Festival de Berlim - com "Central do Brasil", de Walter Salles, em 1998 e "Tropa de Elite", de José Padilha, em 2007.

Fernanda Torres já levou o prêmio de Melhor Atriz em Cannes 1986 - por "Eu sei que vou te Amar", de Arnaldo Jabor - e sua mãe, a grande Fernanda Montenegro, foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz, levou o David di Donatello - principal prêmio italiano - de Melhor Atriz e o National Board of Review de Melhor Atriz - por "Central do Brasil" (1998), de Walter Salles.
estadão.com
Poucos meses antes de morrer, Anselmo Duarte posa com a Palma de Ouro no jardim da sua casa em Salto, interior de São Paulo

Mas, por enquanto, a única Palma de Ouro brasileira continua a ser aquela de Anselmo Duarte (1920-2009) e seu teimoso Zé do Burro, vivido pelo grande Leo Villar.

O troféu ainda hoje mora na estante da sala da casa do diretor em Salto (SP), sua terra natal, mesmo após a morte do diretor.

Confira um trecho do longa:

*****
"O PAGADOR DE PROMESSAS"
Texto Original:
Dias Gomes
Direção e Roteiro:
Anselmo Duarte
Elenco:
Leonardo Villar, Glória Menezes, Dionísio Azevedo, Norma Bengell, Geraldo Del Rey, Antônio Pitanga, Roberto Ferreira
Gênero:
Drama
P& B/ Colorido:
Preto & Branco
Duração: 118 min.
Trilha Sonora:
Gabriel Migliori
Cotação do Klau:

domingo, 8 de novembro de 2009

UM BRASILEIRO CHAMADO ANSELMO




Anselmo Duarte é um dos nomes mais importantes na história do cinema nacional.

Em cena de "Sinhá Moça"

Se não bastasse sua carreira como ótimo ator, foi por trás da câmera - como cineasta - o único brasileiro a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1962, por "O Pagador de Promessas",concorrendo com títulos de vários dos principais diretores da época, entre eles Michelangelo Antonioni, Robert Bresson, Luis Buñuel e Sidney Lumet.

No júri,François Truffaut foi um dos principais defensores do prêmio principal para o filme brasileiro.


Anselmo mostra a Palma de Ouro para os repórteres


Leonardo Villar e Glória Menezes em cena de "O Pagador..."

Baseado num texto teatral de Dias Gomes, "O Pagador..." tinha no elenco Leonardo Villar, Glória Menezes e Norma Bengell,e também foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro.


Leonardo Villar em cena de "O Pagador..."

À época com 42 anos, Anselmo vinha de uma carreira de ator que já durava 20. Foi o galã principal da Atlântida e da Vera Cruz, as duas produtoras mais importantes do cinema brasileiro nos anos 1950 - a primeira, carioca famosa pelas chanchadas e a segunda, paulista, pelos melodramas de aparência e inspiração européias. Até então dançarino, conseguiu logo de início um salário equivalente ao triplo do que ganhavam os grandes astros da chanchada,Oscarito e Grande Otelo. Tudo graças à boa aparência e seu 1,88m de altura, que frequentemente despertavam acalorados debates, na comparação com os astros americanos da época.

Cena de "O Pagador..." filmada no pelourinho, em Salvador


E por falar em filme americano,uma curiosidade:seu currículo inclui uma figuração em "É Tudo Verdade",o filme inacabado do gênio Orson Welles, filmado no Brasil.

A volta ao Brasil, de navio, foi um acontecimento inesquecível: Ao desembarcar no porto de Santos-SP, Anselmo e o elenco do filme pararam literalmente a cidade!





Imagens da chegada apoteótica a Santos-SP

Quem entendia realmente da arte de interpretar, como os diretores Watson Macedo, Adolfo Celi e Ziembinski, diziam sempre que podiam que ele era um ator estupendo.

Mas Anselmo nunca deu valor a sua carreira de ator.Perfeccionista ao extremo,achava-se canastrão e implicava com a própria voz. Tinha também restos do sotaque do interior de São Paulo,caçula de sete filhos de uma família pobre e sem pai.

Quando estrelou a chanchada "Carnaval no Fogo", que havia corroteirizado, o diretor Watson Macedo deixou que ele dirigisse duas sequências. Na Vera Cruz, o prestígio em filmes como "Tico-tico no Fubá" fez com que finalmente ele tivesse a chance de dirigir o primeiro longa-metragem, "Absolutamente Certo". Nessa sátira à televisão, um sucesso de crítica e público, Anselmo ainda ficou com o papel principal. Logo deixaria de atuar nos filmes que dirigia.

Com Tonia Carrero, em "Sinhá Moça"


Com Odete Lara, em cena de "Arara Vermelha" - 1957

"O Pagador de Promessas" veio em seguida. Anselmo, agnóstico, tinha um esboço de argumento sobre uma espécie de Cristo contemporâneo quando soube da peça de Dias Gomes sobre um sertanejo que quer pagar uma promessa feita em favor de um burro, carregando uma cruz até uma igreja, e o padre o impede de entrar.


Pré estréia de "O Pagador..." - Cine Ipiranga,SP

Mas Dias Gomes - que depois de consagrar-se como autor de teatro, faria carreira na tv com obras como "O Bem Amado" e "Roque Santeiro" - detestou a adaptação e ameaçou exigir que seu nome fosse tirado dos créditos. Foi a primeira de uma série interminável de rusgas que marcariam a carreira do ator. Depois do prêmio, ele passou a se sentir vítima de inveja e preconceito, tanto dos representantes do Cinema Novo quanto de grande parte da crítica, e sofreu até o final da vida com isso.

"O Pagador de Promessas" era uma parábola populista e politicamente limitada, o que realmente não aproximou o diretor dos jovens cineastas engajados da época.

Para quem não viu, vale MUITO A PENA ver: o filme é um primor de encenação e envelheceu bem, mesmo entre os críticos.

O trabalho seguinte do diretor foi "Vereda da Salvação", novamente baseado numa peça teatral - de Jorge de Andrade, autor das cultnovelas "Os Ossos do Barão" e "O Grito" - e centrado num personagem sertanejo e místico (interpretado por Raul Cortez). Era o filme favorito de Anselmo, mas enfrentou problemas, da filmagem à exibição, e não teve a repercussão esperada.

Só cinco anos depois Anselmo voltou a filmar, com "Quelé do Pageú", drama de cangaço, e "Um Certo Capitão Rodrigo", baseado em Erico Verissimo. Foram filmes de repercussão modesta em comparação com "O Pagador". A carreira do diretor ainda prosseguiria com três episódios de pornochanchadas, um melodrama policial- "O Descarte" - com Glória Menezes e Ronnie Von,filme que marcou profundamente minha adolescência - , uma adaptação de um drama regionalista escrito originalmente para a TV ("O Crime do Zé Bigorna") e um filme estrelado por Pelé ("Os Trombadinhas").

Anselmo nunca deixou de atuar. Ganhou um estupendo papel do policial sádico no clássico "O Caso dos Irmãos Naves", de Luiz Sérgio Person, em 1967, e passou às participações especiais que lhe davam algum prestígio, algum dinheiro e pouca exposição, como ele preferia.

Com quase 90 anos, Anselmo ainda fumava e gostava de beber, mantinha a fama de conquistador irresistível e de um grande contador de histórias. Teve quatro filhos e casou-se algumas vezes, uma delas com a atriz Ilka Soares, uma das mais belas e estonteantes mulheres que esse país já viu..

Em 16 de agosto último, sofreu um infarto do miocárdio que se seguiu a um quadro de anemia aguda. Estava internado no InCor do HC-SP desde 27 de outubro, após um acidente vascular cerebral hemorrágico.

Anselmo Duarte morreu na madrugada deste sábado,aos 89 anos. Foi velado na Assembleia Legislativa de São Paulo,e um curto velório também ocorreu no saguão do Centro de Educação e Cultura - em Salto, interior de São Paulo e sua cidade natal - inaugurado em junho deste ano e que leva o nome do cineasta.

Uma justa homenagem dos seus conterrâneos - ele sempre falava da cidade em suas entrevistas.

Um grande ator. Um ótimo diretor. Um brasileiro chamado Anselmo.



Em setembro de 1958, numa mesa com o cineasta Roberto Rosselini - em primeiro plano -no Festival de Cinema de SP


Em Paris - final dos anos 50



Em outubro de 2003


Em novembro de 1953



No Festival do Cinema Brasileiro - Sala São Paulo - janeiro de 2001


Com o filho Ricardo, que penteia seu cabelo para uma homenagem no Museu da Imagem e do Som - SP - maio de 2005