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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

CONFERÊNCIA SOBRE AIDS DE WASHINGTON: APESAR DAS BOAS NOTÍCIAS, ESPECIALISTAS ALERTAM: "PROGRAMA BRASILEIRO TEM FALHAS GRAVES E PRECISA SER REPLANEJADO"


Apesar de ser tido como um modelo de política de saúde pública no exterior, o programa brasileiro de tratamento e prevenção da Aids vive uma fase de declínio e precisa de um "replanejamento", alertam especialistas do setor.

"O programa brasileiro tem que ser revisitado. Deve haver uma reflexão profunda sobre a nova realidade da epidemia do país, e um redesenho das estratégias com vistas ao acesso universal (ao tratamento)", diz Pedro Chequer, coordenador no Brasil do Unaids - programa da ONU contra a Aids - em entrevista a Júlia Dias Carneiro, da BBC Brasil.

"Não podemos ficar na percepção de que o programa caminhou bem e está bem. Temos desafios novos e eles têm de ser enfrentados."

Folhapress
Pedro Chequer, coordenador no Brasil do Unaids 
O Programa Nacional DST/Aids começou a chamar a atenção do mundo em 1996, quando o Brasil se tornou o primeiro país em desenvolvimento a determinar, por lei, o acesso universal à terapia antirretroviral.

Entre 2003 e 2005, o modelo brasileiro foi reconhecida por prêmios da Fundação Bill e Melinda Gates, da Organização Mundial da Saúde e da Unaids
Os resultados costumam ser apresentados em encontros internacionais, como a Conferência Internacional de Aids, que acaba de acontecer em Washington, EUA.

A imagem positiva se mantém, mas o aumento das denúncias de organizações da sociedade civil vem alertando para uma realidade mais dura no âmbito local.

Entre os problemas que vêm sendo apresentados estão falta de médicos, leitos e exames para os pacientes; de medicamentos para tratar doenças causadas pelos antirretrovirais; de recursos para ONGs; e o mais grave: episódios de desabastecimento do coquetel em postos de saúde, obrigando os pacientes a interromper o tratamento.

Para Eduardo Gomez, pesquisador da Universidade Rutgers de Camden, em Nova Jersey, a história de sucesso do programa brasileiro de Aids entrou em declínio nos últimos anos por fatores como a saída de recursos internacionais e o enfraquecimento da relação entre o governo e a sociedade civil.

"Historicamente, o programa de Aids brasileiro tinha uma conexão forte com as ONGs, mas agora elas estão sem recursos e sem motivação. O governo precisa delas para conscientizar populações difíceis de atingir", diz Gomez, que pesquisa o sistema de saúde público brasileiro.

Para o psicólogo Veriano Terto Júnior, coordenador-geral da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), houve um desmantelamento na resposta brasileira à Aids.

"As pessoas estão morrendo, as ONGs estão fechando as portas, os hospitais estão terríveis e o governo federal está censurando suas próprias campanhas", afirma.

Ele se refere a dois episódios recentes nos quais o governo federal decidiu rever campanhas sobre a prevenção do HIV. 
As mudanças foram vistas como uma atitude conservadora, motivada por pressão, sobretudo, de grupos evangélicos.

Na estatística nacional, a epidemia da Aids alcançou um estágio de relativa estabilidade, atingindo cerca de 0,6% da população. 
Porém, a cada ano mais de 30 mil pessoas são infectadas --no ano passado, foram 33 mil. 
A epidemia cresce no Norte, no Nordeste e no Sul.

Pedro Chequer lembra que havia dúvidas sobre a capacidade do Brasil de financiar uma oferta universal de antirretrovirais. 
Hoje, o país investe cerca de R$ 1,2 bilhão no programa por ano, e este orçamento conta com apenas 0,25% de recursos internacionais.

Mas o fato de a oferta ser universal não significa que alcance todos os soropositivos. 
O Ministério da Saúde estima que 250 mil brasileiros tenham o vírus sem que saibam.

"Nosso investimento é para reduzir esse número, ampliar o número de diagnósticos e aumentar o número de pessoas em atendimento", afirma Eduardo Barbosa, diretor adjunto do departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde. 
"Vamos ter que trabalhar para absorver esse novo grupo de pessoas na rede."

A TARDE
Eduardo Barbosa, diretor adjunto do departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde
À medida que aumenta a longevidade de pessoas soropositivas, aumenta a demanda sobre a rede de saúde pública, já que os pacientes não precisam apenas do tratamento com antirretrovirais. 
A terapia prolongada com o coquetel da Aids pode causar uma série de efeitos colaterais, como diabetes, danos órgãos vitais e lipodistrofia, mudança na distribuição de gordura pelo corpo.

No tratamento dessas doenças, pacientes esbarram em problemas típicos da rede pública: falta de leitos, falta de remédios, falta de médicos. 
O programa nacional foi descentralizado em 2003, e desde então conta com Estados e municípios para executar as políticas na ponta.

"Ainda temos vários gargalos a serem resolvidos. Os hospitais estão realmente sobrecarregados e acabam tendo dificuldade para o agendamento (de consultas)", diz Barbosa
"Hoje, nosso grande investimento é para o atendimento ter uma fluidez maior. Em alguns lugares ainda temos dificuldades, como o Rio de Janeiro."

No braço carioca do Grupo Pela Vidda, a visita da BBC Brasil durante um encontro de ativistas desencadeia uma sessão de denúncias. 
Todos soropositivos, eles vêm sofrendo na pele problemas como a falta exames para monitorar a efetividade do tratamento.

Os exames para testar a imunidade e a carga viral devem ser feitos a cada três ou quatro meses, informa o Ministério da Saúde. 
No Rio, eles dizem conseguir fazer em média uma vez por ano, e muitas vezes têm o tratamento modificado pelo médico "às cegas", sem ter o resultado do exame para guiar a mudança.

Apesar da importância que tiveram na elaboração da resposta nacional à Aids, ONGs como a Abia e  Pela Vidda sobrevivem com dificuldades, e muitas estão fechando as portas.

Os motivos são plenos de contradições. 
O Brasil cresceu e pulou de categoria: passou de país de baixa e média renda para nação de alta e média renda, e deixou de ser elegível para doações de instituições filantrópicas. Passou de receptor a doador.

As ONGs se queixam de que o governo não compensou por essa fuga de capitais, e elas ficaram sem recursos. 
O problema maior, entretanto, parece ser que os recursos disponíveis não chegam a elas.

Eduardo Barbosa diz que o governo federal repassa R$ 10 milhões por ano para projetos de ONGs, mas parte da verba fica parada. 
"Existe uma grande dificuldade dos Estados de fazer parcerias com as ONGs por conta de problemas de certificação", diz.

Pedro Chequer estima que aproximadamente R$ 150 milhões destinados às ONGs estejam parados nos cofres dos Estados, acumulados.

"Há necessidade de mais dinheiro, mas Estados e municípios não têm capacidade operativa de usar os recursos que o governo federal repassa. Isso é grave, sinaliza um descaso com a saúde pública. Recurso parado significa postergar a ação, às vezes ao ponto de o paciente ter um diagnóstico tardio. Um diagnóstico tardio é uma grande perda", diz.

O aumento da pressão de grupos religiosos, aliado e a redução das campanhas de prevenção junto às populações de maior risco são a maior ameaça ao programa brasileiro anti-Aids.
A opinião é do coordenador de Aids/HIV da Opas (Organização Panamericana da Saúde), Massimo Ghidinelli.

"O caso parece ser que, nos últimos anos, grupos religiosos ficaram mais fortes e há uma menor intensidade na maneira pela qual o programa lida com questões de homofobia e sexualidade", disse Ghidinelli à BBC Brasil, na Conferência Internacional da Aids - realizada na semana passada em Washington, nos Estados Unidos.

"O programa brasileiro certamente precisa mudar e se adaptar rapidamente a esses novos desafios da epidemia e manter um grande enfoque nas populações vulneráveis, o que exigirá um trabalho muito forte de promoção de políticas", acrescentou.

Os últimos números do mais recente Boletim Epidemiológico publicado pelo Ministério da Saúde apontam para um aumento dos casos de contaminação pelo HIV em todas as regiões do país - com exceção da região Sudeste - nos últimos dez anos.

Para especialistas ouvidos pela BBC Brasil, tal crescimento está ligado, entre outro fatores, ao comportamento da população.

Segundo eles, apesar de o programa brasileiro continuar a ser um referencial no âmbito global, seu sucesso pode tê-lo tornado "uma faca de dois gumes".

Isso porque, como a síndrome passou a ter um caráter crônico e os casos de morte se tornaram mais raros, as pessoas ficaram menos cautelosas em relação aos mecanismos de prevenção à doença.

Segundo os especialistas, as vítimas desse novo cenário epidêmico são os jovens, particularmente do sexo feminino e homossexuais.

Por essa razão, durante a conferência, representantes de ONGs chamaram a atenção para a necessidade de o Programa Nacional de DTS/Aids brasileiro se adaptar à nova realidade da epidemia no país.

Eles também se queixaram de que, nos últimos anos, o enfoque nas populações chave diminuiu e houve comprometimentos políticos com o lobby de grupos conservadores que passaram a ser mais atuantes.

"O senso comum é sempre muito conservador, mas nossa obrigação é tomar decisões com base em evidência", afirmou à BBC Brasil Dirceu Greco, diretor do departamento de DST, Aids e Hepatites Virais.

Apesar das críticas, o programa de prevenção a Aids no Brasil ainda é considerado um sucesso entre os especialistas. 
Prova disso foi que, nos últimos 12 anos, a mortalidade em decorrência da Aids no Brasil apresentou uma queda de 17%.

Outra grande conquista foi a drástica diminuição em 55% dos casos de infecção no grupo de crianças menores de cinco anos. 
Em 2000 foram registrados 863 casos de crianças pequenas com Aids. 
Em 2011, apenas 482 casos foram registrados. 
Isso comprova a eficácia da prevenção de transmissão vertical, de mãe para filho.

No entanto, alguns profissionais de saúde afirmam que isso não é suficiente.

"Não adianta nada (a prevenção de transmissão vertical) se, na adolescência, o jovem vai ser contaminado", diz Edmundo Cardoso, chefe do Grupo de Atendimento à Aids Pediátrica (GAAP) do Hospital Conceição, de Porto Alegre.

É por causa desse argumento que especialistas estrangeiros dizem que a abordagem do programa de Aids/HIV do país deve assumir um teor mais sociológico.

"A epidemia não é um problema puramente médico", disse à BBC Brasil, Marco Vitoria, médico assessor do programa de HIV-Aids da Organização Mundial da Saúde (OMS) de Genebra.

Entre as soluções que devem ser implementadas ao programa brasileiro de combate a Aids, especialistas sugerem um maior envolvimento da sociedade civil, o investimento em campanhas de conscientização com respeito a práticas sexuais seguras e o maior envolvimento da mídia, focando grupos específicos, como adolescentes e homossexuais.

Outra abordagem importante é a realização de mais pesquisas multidisciplinares que estudem o comportamento dos grupos mais vulneráveis.

No entanto, os representantes das principais organizações internacionais de saúde ainda dizem que, mesmo com os novos desafios, o Brasil ainda conta com um dos melhores programas de combate à Aids do mundo.

"A região da América Latina é a que tem maior cobertura em termos de tratamento, e o Brasil e a Argentina, em particular, continuam sendo exemplos para a região e o mundo", disse Vitoria.

Exemplos que, infelizmente, ficaram no passado.

Todo mundo conhece algum soropositivo brasileiro que não recebe, nos dias de hoje, o tratamento que recebia anos atrás, o apoio que recebia, bem como as oportunidades de trabalho para soropositivos.

A BBC Brasil usou o exemplo de vida de José Luís da Silva para ilustrar bem essa situação absurda.

José descobriu em 2007 que era soropositivo, um ano depois soube que tinha leucemia e hoje, diz que a vida está "a pior possível".

"Hoje sou um sem-teto", afirma José, de 47 anos, desempregado.
Há quatro meses, ele passa as noites na rodoviária Novo Rio, dormindo em um banco no segundo andar, usando a mochila como travesseiro.
Quando consegue dinheiro de amigos solidários, dorme em uma pensão.

Júlia Dias Carneiro/BBC Brasil
José Luís da Silva, 47, soropositivo que está desempregado e há quatro meses dorme na rodoviária do Rio
Silva toma os medicamentos antirretrovirais todos os dias, religiosamente, mesmo que não tenha o que comer.
O coquetel vem ajudando a controlar o HIV, mas o tratamento médico não mata a sua fome - sua única renda fixa são R$ 70 que recebe do Bolsa Família.

Silva é um exemplo de como o programa brasileiro para pessoas com HIV no Brasil, que inovou no passado ao determinar a oferta universal da terapia antirretroviral, hoje precisa de mais do que remédio.

Ele não tem família e depende da solidariedade de amigos e da ajuda de ativistas de ONGs onde milita.
A incerteza sobre o teto se arrasta desde que soube da doença: morava com a namorada, mas ela pediu que saísse de casa um dia após saber do diagnóstico.

Coordenadora de um programa educativo no Grupo Pela Vidda, Mara Moreira afirma que há um aumento de pessoas que chegam à ONG com demandas de cunho social.

"Há muitos casos de pessoas que recebem alta do programa de Previdência Social, deixam de receber o benefício, mas não conseguem emprego", diz.

"A epidemia mudou de perfil e hoje está atingindo pessoas mais pobres. Temos recebido várias demandas na área de assistência social, com pessoas que precisam de recursos financeiros e de condições de sobrevivência mínima, mas não temos a quem recorrer", diz Mara, que tentou buscar apoio na Secretaria Municipal de Assistência Social, mas foi encaminhada de volta à Secretaria de Saúde.

Ela ressalta que a terapia antirretroviral exige que as pessoas se alimentem bem, e alguns medicamentos precisam ser mantidos na geladeira.
"E aí as pessoas estão dormindo na rua. Como fazer?"

Para o psicólogo Veriano Terto Júnior, faltam medidas para além do fornecimento de antirretrovirais.

"O Brasil tem acesso universal (ao tratamento). Esse é o nosso grande resultado", diz.
"Mas infelizmente começamos a ver um novo crescimento da taxa de mortalidade em alguns lugares, o que está menos relacionado à Aids em si do que a deficiências na assistência."

No ano passado, 11 mil pessoas morreram por causa da Aids no Brasil.
No Rio, o ritmo de óbitos vem aumentando desde 2007, diz Terto.
"Isso é inaceitável para um país que tem acesso universal ao medicamento."

Apesar de ser bem articulado, José tem pouca esperança de conseguir um emprego.
A última vez que tentou foi em uma empresa de ônibus do Rio que anunciara vagas para pessoas com necessidades especiais.

"O médico perguntou qual era a minha deficiência. Quando respondi, ele rasgou a minha ficha e disse que não contratavam soropositivos", lembra.

Ele diz querer um emprego, mas duvida que encontre um empregador que preencha seus requisitos. 
"Os patrões têm que entender que a cada três meses vou ter que me ausentar para ir ao médico, e que de vez em quando vou chegar atrasado."

Ele defende que pessoas em sua situação sejam beneficiadas por uma política de segurança nutricional, de moradia e de assistência pecuniária.
"Eu não vou viver só de antirretroviral. Tenho que me alimentar."

A Conferência de Washington também revelou em relatório - apresentado pela rede mundial de pessoas que que vivem com o HIV (GNP+) - essa discriminação ao emprego para soropositivos, já que muitos ainda enfrentam um nível alto de discriminação que impede ou limita seu acesso ao emprego - mesma situação vivida pelo José.

O estudo, realizado com o apoio da Organização Internacional do Trabalho (OIT), oferece uma visão geral do impacto que tem o estigma e a discriminação relacionados com o HIV no trabalho.

As práticas discriminatórias contra as pessoas que vivem com o HIV incluem impedir a entrada no mercado laboral ou obrigá-las a mudar o trabalho que realizam.
Também pode ser negada uma promoção ou acesso à educação e à formação de adultos, ou até podem ser demitidas.

Na Nigéria, 45% das pessoas entrevistadas perderam seu emprego ou sua fonte de renda nos 12 meses que precederam a pesquisa como resultado de serem portadoras do HIV.
A 27% foi negada a oportunidade de trabalhar.

No Quênia, 28% dos pesquisados declararam que a natureza de seu trabalho havia mudado ou tinha sigo negada uma promoção.
O relatório também menciona a persistência de atitudes discriminatórias por parte de empregadores e colegas.

O relatório se baseia em dados do índice de estigma em pessoas que vivem com HIV 2009-2011 em quatro regiões: Quênia, Nigéria e Zâmbia (África subsaariana), Estônia e Polônia (Leste Europeu), Malásia e Filipinas (Ásia-Pacífico) e Argentina e México (América Latina).

"Embora o índice de estigma abranja somente um número limitado de países, o relatório GNP+ mostra que é necessário adotar mais medidas para proteger os direitos no trabalho das pessoas que vivem com o HIV", disse Alice Ouedaogo, diretora do Programa da OIT sobre HIV/Aids.

"Uma maneira de melhorar a situação é que mais países implementem a recomendação da OIT sobre HIV/Aids no mundo do trabalho", acrescentou. 
Ela estabelece que não deveria haver discriminação ou estigmatização dos trabalhadores, particularmente no que se refere a pessoas que procuram emprego.

"A maioria das pessoas que vive com HIV pode e deseja trabalhar. Negar-lhes seu direito a trabalhar não produz nenhum benefício. Pelo contrário, mina o 'capital social' e causa uma dor incomensurável aos indivíduos e desestabiliza as famílias, as comunidades, as empresas e as economias nacionais", conclui o relatório do GNP+.

Mas a Conferência de Washington também teve muitos momentos de esperança, com a apresentação de novas drogas retrovirais que não tem tantos efeitos colaterais e uma nova droga que, ao que parece, consegue "caçar" o vírus HIV quando ele se esconde pelo corpo.

Mas o melhor mesmo ficou por conta da notícia de que duas pessoas podem ter sido curadas do HIV após um transplante de medula óssea para tratar um câncer.

Um estudo divulgado pelo doutor Daniel Kuritzkes, do Brigham and Women's Hospital , em Boston (Massachusetts), analisou a evolução de dois portadores de HIV que se submeteram a um transplante de medula óssea após a detecção de um câncer.

Os dois homens, infectados durante anos, tinham se submetido ao tratamento antirretroviral que suprimiu totalmente a reprodução do HIV, mas tinham o vírus latente antes do transplante, segundo a pesquisa.

Os dois receberam uma forma mais leve da quimioterapia antes do transplante, o que lhes permitiu seguir tomando seus remédios para o HIV durante todo o processo do transplante.

Segundo o estudo, os médicos detectaram o HIV imediatamente após o transplante, mas, com o tempo, as células transplantadas da doadora substituíram os próprios linfócitos dos pacientes, e a quantidade de HIV no DNA de suas células diminuiu até o ponto de ficar indetectável.

Um paciente recebeu acompanhamento por quase dois anos após seu transplante, enquanto o outro foi testado durante três anos e meio, e "não há rastro do vírus" em nenhum dos casos, informaram os responsáveis pela pesquisa em comunicado.

"Acreditamos que a administração contínua de um tratamento antirretroviral que protege as células da doadora de infectar-se do HIV, enquanto eliminam e substituem as células dos pacientes, é efetiva para eliminar o vírus dos linfócitos do sangue dos pacientes", indicaram os especialistas.

Mesmo assim, os médicos se mantêm cautelosos e, quando questionado se os pacientes podem se considerar curados do HIV, Kuritzkes assinalou: "estamos sendo muito cuidadosos em não fazer isso".

Por enquanto, os dois homens estão tomando medicamentos antirretrovirais até que eles possam ser retirados aos poucos.

"Nunca seremos capazes de fazer transplantes de medula óssea nos milhões de pacientes que estão infectados, mas podemos estimular o vírus e eliminar essas células, podemos proteger as células restantes da infecção", assinalou Kuritzkes.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

BATMAN CHORA SANGUE NA CAPA DA 'THE HOLLYWOOD REPORTER' DE AGOSTO


A revista norte-americana de entretenimento "The Hollywood Reporter" divulgou em seu site agora a pouco a capa de sua próxima edição, que traz a imagem do Batman chorando uma lágrima de sangue.

Reprodução/The Hollywood Reporter
O Batman, chorando sangue na capa da edição de agosto da "The Hollywood Reporter"
A arte é uma referência e uma homenagem às vítimas do atirador que deixou 12 mortos e 58 feridos durante sessão do novo filme do herói, no dia 20 de julho, em um cinema na cidade de Aurora, no Colorado - Estados Unidos.

A publicação chega às bancas americanas no dia 3 de agosto.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

HOJE É FERIADO ESTADUAL EM SÃO PAULO: VOCÊ SABE POR QUÊ?


São Paulo e Campinas sofrendo bombardeios aéreos; o porto de Santos bloqueado por navios de guerra; cidades dos vales do Paraíba e do Ribeira - inclusive a minha querida Itapeva - sofrendo ataques de artilharia e trincheiras repletas de soldados cavadas nas divisas do Estado.

Tudo isso, hoje algo impensável, aconteceu a exatos 80 anos.

A Revolução de 32 não é um mero registro histórico: foi algo que afetou milhões de pessoas e ainda assombra imaginações e o imaginário dos paulistas até hoje.

Na capital, os monumentos e os nomes de ruas e avenidas deixam isso bem claro:
na região próxima ao parque do Ibirapuera ficam tanto o Monumento às Bandeiras - do escultor Victor Brecheret - como o Obelisco Mausoléu aos Heróis de 32, de Galileo Ugo Emendabili.

Divulgação - Governo do Estado de São Paulo
Monumento às Bandeiras, do escultor Victor Brecheret
E lá se chega pela avenida 23 de maio, uma das datas importantes do movimento.

Ironicamente, a Fundação Getúlio Vargas fica próxima à avenida batizada com a data do início do levante, a 9 de Julho, mas São Paulo continua sendo resistente a usar o nome do ditador - você não encontrará nenhuma via pública com o nome de Vargas no estado inteiro.

Foi Getúlio Vargas quem provocou a coisa, afinal, com a derrubada do presidente Washington Luís, em outubro de 1930.

Ele até foi bem recebido no Estado a caminho da capital - então o Rio de Janeiro - mas logo começou a bater de frente com os políticos paulistas, saudosos do poder que tinham na República Velha.

Infográficos - Folhapress

Por exemplo, Vargas nomeou como "interventor" - no lugar do governador - o tenentista pernambucano João Alberto Lins de Barros.

Só em março de 1932 Vargas nomeou um interventor mais ao gosto dos paulistas, um civil e nativo do Estado, o diplomata aposentado Pedro de Toledo, mas, ao mesmo, tempo o ditador quis mandar no comando da Força Pública - como era chamada a hoje Polícia Militar.

A Força Pública era um trunfo particularmente importante, pois constituía um verdadeiro exército em menor escala, dotada de armas modernas para a época, como metralhadoras.


Os políticos e os militares envolvidos na conspiração contra Vargas foram amadores e deflagraram o movimento antes da hora, sem articular ações eficazes com potenciais revoltosos em outros estados, especialmente Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

Resultado: São Paulo, com pequeno apoio de Mato Grosso, ficou isolado.

A melhor estratégia seria concentrar forças no Vale do Paraíba e rumar ao centro do poder - o Rio - mas, em vez de fazer isso, os líderes paulistas preferiram ficar na defesa.

Já a estratégia do ditador foi correta: isolou São Paulo por terra, por mar e diplomaticamente.


As principais frentes de combate estavam todas vinculadas a ferrovias e rodovias e é por isso que os famosos trens blindados foram tão importantes no conflito.

Os dois lados tiveram centenas de mortos e se não houve batalhas espetaculares, era mais razoável fugir ou se render do que lutar até a morte em uma guerra "entre irmãos" - uma batalha podia ter dez mortos, 30 feridos e 400 prisioneiros.

Vargas venceu em 32, mas a Revolução Paulista precipitou a Constituinte em 34 - que ele já tinha prometido antes da revolta - e os líderes paulistas foram exilados, mas por pouco tempo.

Vargas deu um golpe de Estado em 1937, mas o legado de 32 permaneceu e foi importante no debate ideológico subsequente -  e que vem até hoje.

Em 80 anos, muita tinta foi usada para descrever a Revolução de 1932 e é possível identificar pelo menos três fases.

Houve uma primeira onda de textos, principalmente de origem paulista - e incluindo livros de memórias -, exaltando os ideais democráticos do levante; e em seguida uma leva posterior, de origem marxista, ressaltando a ideia de que tudo não passou de uma briga entre grupos da "classe dominante", e sempre que foi necessário os "proletários" foram perseguidos.


Novos pesquisadores tentam entender o caráter multifacetado do evento, identificando uma participação popular inédita na história.

O historiador Marco Antonio Villa deixa claro que a "questão democrática" foi "a grande herança política da revolução, uma espécie de tesouro perdido, muito valioso, especialmente em um país marcado por uma tradição conservadora, elitista e antidemocrática".

Mais que um conflito entre elites e revolucionários, o legado da Revolução de 32 é justamente o que conseguimos nos dias de hoje - basta sabermos que, desde o governo FHC, os principais cargos da República são ocupados por paulistas ou de pessoas que fizeram sua carreira aqui.


*****
Matéria de Ricardo Bonalume Neto para a Folha de S.Paulo de hoje - com alguns pitacos meus

quinta-feira, 5 de julho de 2012

OS MAIORES LUCROS DA INDÚSTRIA CINEMATOGRÁFICA VEM DE OUTRAS RECEITAS, E NÃO DAS BILHETERIAS


O repórter Adam Davidson, do "The New York Times", explica na matéria a seguir de onde vem os fabulosos lucros da indústria cinematográfica - bilheterias são importantes, mas são uma pequena parte desses lucros.

"Estou tentando compreender dois fatos aparentemente inconciliáveis. 
Primeiro, "Homens de Preto 3" já faturou mais de US$ 550 milhões nas bilheterias de todo o mundo. 
Segundo, embora um representante da Columbia Pictures, a produtora do filme, tenha me dito recentemente que o filme "agora está no azul", parece que até recentemente o estúdio podia perder dinheiro com ele. 
Como isso é possível?

Divulgação - Sony Pictures
Will Smith, em cena de "Homens de Preto 3"
Não é tão complicado. 
O custo de produção ficou perto dos US$ 250 milhões; as despesas mundiais de marketing devem ter sido parecidas; e uma grande proporção do dinheiro arrecadado com a venda de ingressos vai para as salas de cinema e as distribuidoras locais.

Deve haver uma maneira mais fácil de ganhar dinheiro. 
Pelo custo de produzir "Homens de Preto 3", por exemplo, o estúdio poderia se tornar um dos maiores fundos mundiais de capital para empreendimentos, e deter participações em centenas de empresas iniciantes promissoras. 
Mas, em lugar disso, adquiriu os direitos sobre uma propriedade intelectual, pagou uma fortuna para contratar um grande astro e não tem como saber se o filme dará ou não grande lucro. 

Por que as pessoas continuam a operar na indústria do cinema?

Todos os negócios requerem certa dose de adivinhação, mas prever as futuras bilheterias de cinema é um ramo especialmente opaco.

Se uma empresa deseja lançar um carro novo, pode basear suas previsões, ao menos em parte, em fatores como as tendências de preço do petróleo. 
Já os executivos de cinema desenvolvem diversas teorias a cada verão sobre o que a audiência realmente deseja - filmes em 3D, filmes em 2D, filmes de vampiros, filmes baseados em quadrinhos, jogos de tabuleiro e assim por diante - e mesmo assim, de vez em quando, os resultados de um final de semana fazem com que disparem na direção de uma nova teoria.

Será que o desempenho apenas morno de "Homens de Preto 3" significa problema para "O Espetacular Homem Arranha", o grande lançamento deste final de semana? Ninguém sabe.

TEORIAS DO SUCESSO

Ao contrário de outras indústrias criadas décadas atrás, Hollywood tem dificuldades não só para prever resultados como para analisar os resultados do passado.

Por que "Jogos Vorazes" foi tamanho sucesso? 
Porque tinha uma audiência pré-interessada? 
Por que a estrela do filme é Jennifer Lawrence
Por que foi lançado no feriado de primavera das universidades norte-americanas?

O cinema conta com inúmeros analistas que se vangloriam dos seus poderes de previsão, mas a vasta maioria dos filmes fecha as contas no vermelho, o que prova que ninguém tem certeza de coisa alguma.

O que complica ainda mais as coisas é que o setor está repleto de profissionais - a começar dos agentes mais inexperientes - que se declaram responsáveis pelo sucesso de um projeto.

Essas bazófias têm impacto econômico real. 
A maioria das grandes marcas gasta muito dinheiro para garantir que as associações que seus nomes despertam nos consumidores sejam positivas, mas a maioria dos espectadores não percebe que estúdio produziu determinado filme (a Disney e sua subsidiária Pixar representam notáveis exceções, apesar de "John Carter: Entre Dois Mundos" - o fracasso do ano.

Na verdade, os estúdios de cinema se saem melhor ajudando marcas que não controlam --alguns astros, diretores, produtores e fontes de conteúdo, a exemplo dos livros da série "Jogos Vorazes" - a faturar muito dinheiro.

RECEITAS AUXILIARES

O motivo pelo qual a maioria dos estúdios termina no azul quase todos os anos é que encontraram maneiras de, no jargão do setor, monetizar os fluxos auxiliares, vendendo direitos de TV e de distribuição no exterior, criando videogames, atrações de parque de diversões e outros produtos vinculados aos seus filmes.

E os grandes sucessos, por raros que sejam, continuam a bancar o custo de muitos fracassos. 
Mas os lucros não são enormes. 
Matthew Lieberman, diretor da PricewaterhouseCoopers, estima que cresçam em 0,6% ao ano pelo futuro previsível.

Hollywood é um setor econômico estável, o que surpreende um pouco. 
Ao longo dos últimos 80 anos ou pouco mais, seu modelo básico, que envolve o financiamento de produções criativas em Los Angeles por capital de investimento vindo de Nova York, existe sem grandes alterações.

Em parte por conta disso, os maiores estúdios atuais (Columbia, Disney, Paramount, Warner Brothers, Universal, 20th Century Fox) estão na liderança desde os anos 50.

Essa estabilidade é intrigante, à primeira vista, porque os estúdios não contam com grandes ativos. 
Pior: cada um de seus projetos é uma colaboração de curto prazo entre protagonistas independentes.

O principal ativo de um estúdio moderno, no entanto, é sua capacidade de aproximar esses elementos díspares. 
Eles sabem como convencer Tom Cruise a fazer um filme, como levar a produção a salas de cinema em todo o país e quem contatar para organizar um evento em Doha.

Também conhecem o idioma do poder no setor, e as regras sempre mutáveis quanto aos astros, restaurantes e roteiros bacanas e nem tanto a cada momento. 
É fácil parodiar o processo, mas ele movimenta bilhões.

Editoria de Arte - Folhapress

NEGÓCIO ARRISCADO

Outro motivo para que os estúdios continuem no topo é que desafiá-los não vale o risco, para a maioria dos empresários (mesmo os maiores sucessos precisam de anos, às vezes uma década, para recuperar seus custos).

"Se eu tivesse US$ 2 bilhões, investiria em um estúdio de Hollywood?", indaga Anita Elberse, professora na escola de administração de empresas na Universidade Harvard, pesquisadora do setor de entretenimento. 
"Muitos outros setores oferecem retornos mais elevados sobre o investimento."

Bilionários como Anil Ambani, sócio do DreamWorks Studios, de Steven Spielberg, presumivelmente investem porque o glamour os ajuda em seus outros negócios.

Há quem preveja o fim da indústria do cinema desde que surgiu a TV, e mais tarde os vídeos, a TV a cabo e a pirataria digital.

Fabrizio Perretti, professor de administração de empresas na Università Bocconi, na Itália, diz que Hollywood agora está mesmo se destruindo. 
Porque obter financiamento e audiências se tornou mais difícil, as empresas concorrem para produzir filmes maiores e mais caros enquanto eliminam os riscos, o que explica o motivo para que cada vez mais filmes dependam de propriedade intelectual existente.

Dos cem filmes de maior faturamento em todos os tempos (levando em conta a inflação), 18 são continuações, e mais de metade foi lançada depois de 2000.

A previsibilidade pode conquistar os finais de semana, diz Perretti, mas vai acabar cansando as pessoas.

Enquanto isso, Lieberman vê avanços significativos em outro negócio de entretenimento que está experimentando com modelos, métodos de distribuição e formas de contar histórias diferentes. 
Talvez a TV venha mesmo a destruir o cinema, afinal".
*****
The New York Times
Tradução de Paulo Migliacci

A CURA GAY, POR CONTARDO CALLIGARIS


Na sua coluna semanal na Folha de S.Paulo, o psicanalista Contardo Calligaris faz hoje uma lúcida análise sobre o projeto do deputado João Campos (PSDB-GO), da bancada evangélica, que pede, por decreto legislativo, que os psicólogos sejam autorizados a "curar" os homossexuais que desejem se livrar de sua homossexualidade.

Merece ser lido e guardado.

"Em 1980, a homossexualidade sumiu do "Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais". Em 1990, ela foi retirada da lista de doenças da Organização Mundial da Saúde.

Médicos, psiquiatras e psicólogos não podem oferecer uma cura para uma condição que, em suas disciplinas, não é uma doença, nem um distúrbio, nem um transtorno. Isso foi lembrado por Humberto Verona, presidente do Conselho Federal de Psicologia, numa entrevista à Folha de 29 de junho.

No entanto, o deputado João Campos (PSDB-GO), da bancada evangélica, pede que, por decreto legislativo, os psicólogos sejam autorizados a "curar" os homossexuais que desejem se livrar de sua homossexualidade.

Um pressuposto desse pedido é a ideia de que os psicólogos saberiam como mudar a orientação sexual de alguém (transformá-lo de hétero em homossexual e vice-versa), mas seriam impedidos de exercer essa arte --por razões ideológicas, morais, politicamente corretas etc.

Ora, no estado atual de suas disciplinas, mesmo se eles quisessem, psicólogos e psiquiatras não saberiam modificar a orientação sexual de alguém --tampouco, aliás, eles saberiam modificar a "fantasia sexual" de alguém (ou seja, o cenário, consciente ou inconsciente, com o qual ele alimenta seu desejo).

Claro, ao longo de uma terapia, alguém pode conseguir conviver melhor com seu próprio desejo, mas sem mudar fundamentalmente sua orientação e sua fantasia.

Por via química ou cirúrgica (administração de hormônios ou castração real --todos os horrores já foram tentados), consegue-se diminuir o interesse de alguém na vida sexual em geral, mas não afastá-lo de sua orientação ou de sua fantasia, que permanecem as mesmas, embora impedidas de serem atuadas. A terapia pela palavra (psicodinâmica ou comportamental que seja) tampouco permite mudar radicalmente a orientação ou a fantasia de alguém.

O que acontece, perguntará João Campos, nos casos de homossexualidade com a qual o próprio indivíduo não concorda? Posso ser homossexual e não querer isso para mim: será que ninguém me ajudará?

Sim, é possível curar o sofrimento de quem discorda de sua própria sexualidade (é a dita egodistonia), mas o alívio é no sentido de permitir que o indivíduo aceite sua sexualidade e pare de se condenar e de tentar se reprimir além da conta.

Por exemplo, se eu não concordo com minha homossexualidade (porque ela faz a infelicidade de meus pais, porque sou discriminado por causa dela, porque sou evangélico ou católico), não posso mudar minha orientação para aliviar meu sofrimento, mas posso, isso sim, mudar o ambiente no qual eu vivo e as ideias, conscientes ou inconscientes, que me levam a não admitir minha orientação sexual.

Campos preferiria outro caminho: o terapeuta deveria fortalecer as ideias que, de dentro do paciente, opõem-se à homossexualidade dele. Mas o desejo sexual humano é teimoso: uma psicoterapia que vise reforçar os argumentos (internos ou externos) pelos quais o indivíduo se opõe à sua própria fantasia ou orientação não consegue mudança alguma, mas apenas acirra a contradição da qual o indivíduo sofre. Conclusão, o paciente acaba vivendo na culpa de estar se traindo sempre --traindo quer seja seu desejo, quer seja os princípios em nome dos quais ele queria e não consegue reprimir seu desejo.

Isso vale também e especialmente em casos extremos, em que é absolutamente necessário que o indivíduo controle seu desejo. Se eu fosse terapeuta no Irã, para ajudar meus pacientes homossexuais a evitar a forca, eu não os encorajaria a reprimir seu desejo (que sempre explodiria na hora e do jeito mais perigosos), mas tentaria levá-los, ao contrário, a aceitar seu desejo, primeiro passo para eles conseguirem vivê-lo às escondidas.

O mesmo vale para os indivíduos que são animados por fantasias que a nossa lei reprova e pune. Prometer-lhes uma mudança de fantasia só significa expô-los (e expor a comunidade) a suas recidivas incontroláveis. Levá-los a reconhecer a fantasia da qual eles não têm como se desfazer é o jeito para que eles consigam, eventualmente, controlar seus atos.

Agora, não entendo por que João Campos precisa recorrer à psicologia ou à psiquiatria para prometer sua "cura" da homossexualidade. Ele poderia criar e nomear seus especialistas; que tal "psicopompos"? Ou, então, não é melhor mesmo 'exorcistas'"?
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Contardo Calligaris, italiano, é psicanalista, doutor em psicologia clínica e escritor. 
Ensinou Estudos Culturais na New School de NY e foi professor de antropologia médica na Universidade da Califórnia em Berkeley. 
Reflete sobre cultura, modernidade e as aventuras do espírito contemporâneo (patológicas e ordinárias). Escreve às quintas na versão impressa de "Ilustrada".

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A SEMANA NA DIVERSIDADE


Confira as matérias especialíssimas que você lerá nessa postagem:
RIO TEM PRIMEIRO CASAMENTO GAY OFICIALIZADO
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133 GAYS DECLARADOS CONCORRERÃO PARA VEREADOR E DOIS PARA PREFEITO
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CONGRESSO ARGENTINO APROVA LEI DE IDENTIDADE DE GÊNERO
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ATRIZ MIRIM DE 'AVENIDA BRASIL' É CRIADA POR CASAL HOMOSSEXUAL
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CURTA-METRAGEM PARA CRIANÇAS É CRITICADO POR ABORDAR ROMANCE GAY
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MARVEL COMICS ENTRA NO DEBATE SOBRE CASAMENTO GAY, AO CASAR SUPER-HERÓI COM SEU NAMORADO
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IDOSOS PAULISTAS GANHAM PROGRAMA DE VIAGENS DE GRAÇA
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SOROPOSITIVAS TAMBÉM PODEM TER FILHOS SAUDÁVEIS
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ESTUDANTE INDIANO QUE LEVOU COLEGA GAY AO SUICÍDIO PEGA SÓ 30 DIAS DE PRISÃO
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Agora, leia:

RIO TEM PRIMEIRO CASAMENTO GAY OFICIALIZADO

Um casal homossexual carioca conseguiu na Justiça a oficialização do casamento após oito anos vivendo juntos.

Este é o primeiro caso de conversão da união homoafetiva estável para o casamento registrado no Rio de Janeiro.

O pedido foi aceito por unanimidade pelos desembargadores da 8ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça (TJ-RJ) após ter sido negado, em outubro, pela Vara de Registro Público.

A decisão foi já publicada e os nomes dos beneficiados com a medida não foram divulgados pois o processo correu em segredo de Justiça.
Divulgação
Cidade maravilhosa e um dos destinos gays mais visitados do mundo

De acordo com a decisão, ficou comprovada a convivência "contínua, estável e duradoura" do casal.

O relator do caso, desembargador Luiz Felipe Francisco, levou em consideração o parecer do Supremo Tribunal Federal (STF) de 2011 que determinou que não há distinção entre as uniões hétero e homoafetivas.
"Ao se enxergar uma vedação implícita ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, estar-se-ia afrontando princípios consagrados na Constituição da República, quais sejam, os da igualdade, da dignidade da pessoa humana e do pluralismo", afirmou Francisco

Para ele, o Direito não é estático e deve "caminhar com a evolução dos tempos, adaptando-se a uma nova realidade".
Agência Estado

133 GAYS DECLARADOS CONCORRERÃO PARA VEREADOR E DOIS PARA PREFEITO

Os LGBTTs terão representantes inéditos na disputa eleitoral de 2012.

Na capital da Paraíba, João Pessoa, e em Itu, no interior de São Paulo, já foram lançadas pré-candidaturas de homossexuais ao principal cargo executivo municipal.

Em ambos os casos, os candidatos a prefeito prometem, caso eleitos, brigar pelos direitos dessas minorias.

Ponto considerado positivo pelo presidente da ABGLT - Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transsexuais -, Toni Reis, que disse acreditar que é importante ter uma plataforma de governo bem alicerçada.

Para as câmaras, o número de candidatos LGBT é bem maior: pelo menos 133 gays declarados vão disputar vagas legislativas em todo o país.

O pré-candidato de Itu, Edmilson Martins (PPL – Partido Pátria Livre), considera importante defender a igualdade social em todas as áreas e afirmou que já montou projetos para a criação de departamentos que promovam a inclusão social.

“Sou contra qualquer forma de preconceito, por isso quero trabalhar pela profissionalização e introdução ao mercado de trabalho do público LGBTT”, afirmou.
Divulgação
O  pré candidato a prefeito de Itú,  Edmilson Martins

Ele disse ainda que pretende entrar para a história do país, como o primeiro prefeito gay.
“Quero romper as barreiras e mostrar que a minha opção sexual não interfere na minha posição política e candidatura.”

Edmilson disse que sua candidatura é apoiada pelo deputado federal Jean Wyllys (PSOL), gay militante.
“Ele ainda vai estudar no partido a forma de formalizar esse apoio”, afirmou Martins.

O PSOL é o partido de Renan Palmeira, 25, que será candidato na capital paraibana - Jean Wyllys também prometeu se engajar na campanha.

Para o presidente da ABGLT, além dos candidatos é importante garantir políticos aliados para brigar pelas causas homossexuais em todo o país - já se mostraram favoráveis nomes como Fernando Gabeira (PV), Gilberto Kassab (PSD) e Antônio Imbassahy (PSDB).

Tony diz ainda que é importante conhecer os candidatos.
“Não basta ser gay, é preciso ter uma proposta de governo interessante e envolvimento com a política.”
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CONGRESSO ARGENTINO APROVA LEI DE IDENTIDADE DE GÊNERO

O Senado argentino aprovou, por ampla maioria, a lei que autoriza travestis e transexuais a escolher seu sexo no registro civil, confirmando a decisão adotada pela Câmara de Deputados, em novembro.

A iniciativa obteve 55 votos a favor e uma abstenção, ao final de três horas de debates.

A nova lei define identidade de gênero como a "vivência interna e individual tal como cada pessoa a sente, que pode corresponder ou não ao sexo determinado no momento do nascimento, incluindo a vivência pessoal do corpo".

A norma estabelece que qualquer pessoa poderá solicitar a retificação de seu sexo no registro civil, incluindo o nome de batismo e a foto de identidade.
La Nación
A fachada do Congresso Argentino

Com a vigência da medida, a mudança de sexo não necessitará mais do aval da justiça para reconhecimento, e o sistema de saúde deverá incluir operações e tratamentos para a adequação ao gênero escolhido.

A medida "dará oportunidades iguais a todos e é consequência da Lei do Matrimônio Igualitário, aprovada em 2010, garantindo que perante o Estado cada pessoa será tratada e tutelada como sente que é", destacou a governista Ada Iturrez, que preside a Comissão de Legislação Geral do Senado.

A Argentina, país amplamente católico, foi o primeiro estado latino-americano a permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a partir de 2010.

Luis Naidenoff, presidente do bloco radical, principal força da oposição, estimou que a lei faz parte de "importantes avanços na ampliação dos direitos que favorecem setores que estavam discriminados".

A senadora peronista Sonia Escudero destacou que a comunidade trans "tem uma esperança de vida de apenas 35 anos, e mais de 90% se encontram em situação de prostituição como consequência da pouca preparação e do abandono precoce da escola".

"As cifras mostram que 95% destas pessoas, em torno de 22 mil em todo o país, não têm acesso aos direitos humanos fundamentais".

Centenas de ativistas de grupos de travestis e transexuais comemoraram o resultado da votação diante do Congresso, em Buenos Aires.

O presidente da Comunidade Homossexual Argentina, César Cigliutti, disse que a lei é "mais um passo gigantesco e histórico em nosso longo trabalho pelos direitos da nossa comunidade".

"As pessoas 'trans' merecem da sociedade o tratamento adequado ao seu gênero 'autopercebido'", destacou Cigliutti.

O interventor do estatal Instituto contra a Discriminação (Inadi), Pedro Mouratian, assinalou que a medida "é o pontapé para a efetivação dos direitos das pessoas 'trans, promovendo o acesso ao trabalho, à educação, à saúde e à habitação".
AFP

ATRIZ MIRIM DE 'AVENIDA BRASIL' É CRIADA POR CASAL HOMOSSEXUAL

Revelação da novela "Avenida Brasil", a atriz Ana Karolina, de 11 anos, é órfã há sete anos e durante esse tempo vem sendo criada pelo tio biológico, Fábio Lopes, e seu companheiro, João Paulo Afonso - a informação foi divulgada em uma entrevista concedida à revista "Contigo".

Ana, que atualmente vive Ágata, a filha da megera Carminha - Adriana Esteves -, nunca conheceu o pai e perdeu a mãe, Liane Lannes, quando tinha apenas quatro anos.

Começou a carreira aos cinco anos por incentivo do tio, ao entrar para uma agência de jovens talentos.

A menina já tem no currículo participações nas novelas "Duas Caras" (2007), "Ciranda de Pedra" (2008) e "Tempos Modernos" (2010).
Marcos Rosa
Ana Karolina Lannes, 11 anos, e seus dois pais Fábio Lopes e João Paulo Afonso

Hoje, ela se divide entre a capital paulista, onde mora com os pais, e o Rio de Janeiro, onde grava a novela.

No Rio, Ana passa a semana com a meia-irmã Letícia, de 22 anos.

"Seis meses antes de a minha irmã falecer, ela pediu que, caso algo acontecesse, era para eu cuidar da Ana. Lutei muito pela guarda. O juiz não queria me dar", explica Fábio.

Sobre ser criada por dois homens, a menina demonstra tranquilidade.
"Eles têm atitudes normais de pais: educam, repreendem, dão amor, carinho, ajudam quando preciso me arrumar. Tive uma babá que falava: ''Coitada de você quando menstruar e for namorar. Imagine você sozinha com dois homens (risos)!'".
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CURTA-METRAGEM PARA CRIANÇAS É CRITICADO POR ABORDAR ROMANCE GAY

Um curta-metragem animado - voltado para crianças de 8 a 10 anos - provocou polêmica na França ao contar uma história de romance homossexual.

O desenho animado "O Beijo da Lua" conta a história do peixe Félix, que se apaixona por outro peixe, León.

O curta de 20 minutos mostra sob diferentes pontos de vista uma história de amor homossexual - o objetivo dos produtores era abordar os temas de intolerância e homofobia.
Divulgação
Cena do curta animado "O Beijo da Lua"

Uma associação conhecida como Collectif pour l'enfant criticou o desenho por abordar temas considerados por eles não apropriados para crianças.

O diretor do filme, Sébastien Watel, disse à BBC que é homossexual, e que sua intenção foi mostrar às crianças que não há diferenças entre romances gays e romances heterossexuais.

Confira um trailer da animação:


MARVEL COMICS ENTRA NO DEBATE SOBRE CASAMENTO GAY, AO CASAR SUPER-HERÓI COM SEU NAMORADO

A editora Marvel Comics, que dentre outras grandes histórias publica a saga dos mutantes de X-Men, decidiu casar Estrela Polar, super-herói gay, no número que sairá à venda hoje, nos Estados Unidos.

Estrela Polar, codinome de Jean-Paul Beaubier, é um canadense de penetrantes olhos azuis e mecha grisalha no cabelo, capaz de se deslocar e voar a velocidade sobre-humana.

Na história, ele ficará de joelhos para propor casamento a Kyle Jinadu, seu namorado há anos, na revista "Astonishing X-Men #50"
Reprodução/Marvel.com
Jean-Paul Beaubier - o Estrela Polar - fica de joelhos para pedir seu namorado, Kyle Jinadu, em casamento

Desta forma, os criadores situam seus leitores diante de um dos assuntos sociais mais comentados nos Estados Unidos atualmente, o casamento entre homossexuais, que, por sua vez, não é autorizado na maioria dos estados. 

O tema também ganhou evidência durante a campanha eleitoral dos presidenciais, já que Obama declarou publicamente seu apoio à união entre gays.

“O universo Marvel sempre refletiu o mundo fora de sua janela, então nos esforçamos para ter certeza que os personagens, seus relacionamentos e histórias fossem coerentes com a realidade”, disse o editor-chefe da editora, Axel Alonso, em comunicado.

Além do lançamento, a Marvel também confirmou que o episódio do casamento do mutante e seu namorado também será retratado na próxima edição das aventuras X-Men, que deverá chegar ao mercado no dia 20 de junho, data em que serão realizados alguns casamentos em lojas especializadas em HQ's.

Reprodução/Marvel.com
Capa da revista,  que vai às bancas nesta quarta (22)

Estrela Polar se firmou como herói da Marvel em 1979, quando se tornou um dos integrantes da equipe "Alpha Flight" e um dos antagonistas de outros populares super-heróis.

A partir de 1983, os criadores transformaram este personagem em um dos mais populares da Marvel.

Nesta época, além de ter se tornado um medalhista olímpico, Estrela Polar também aparecia como um bem-sucedido empresário. 

A identidade sexual do super-herói só foi relevada publicamente em 1992.
Reprodução/Marvel.com
A Marvel também tem outros casais gays em seus quadrinhos, como Julie Power (esq.) e Julio Esteban Richter (dir.)

"Essa história é universal e está no centro de tudo o que escrevo: um poderoso amor entre duas pessoas que precisam lutar por isso e contra todo o resto", disse uma das autoras da história, Marjorie Liu, no mesmo comunicado.

“Como escritora — e autora de romances — eu sempre achei um pouco estranho que os relacionamentos dos personagens caíssem em um limbo por anos. Certamente isso acontece na vida real — alguns relacionamentos simplesmente nunca crescem — mas a coisa mais maravilhosa sobre essas histórias é que elas tendem a mover personagens e leitores para o futuro”, disse.

Estrela Polar e Kyle namoram desde 2009, mas a Marvel não promete que eles viverão felizes para sempre.

No anúncio, a editora se pergunta:
"Será seu caminho até o matrimônio em Nova York será suave, ou haverá perigos ocultos virando a esquina?" - como se enfrentar malfeitores e salvar o mundo não fosse o bastante.

Logo BOL 
*com informações da Reuters

IDOSOS PAULISTAS GANHAM PROGRAMA DE VIAGENS DE GRAÇA

O governo de São Paulo lançou o programa “Melhor Viagem SP”, que levará milhares de idosos para visitar gratuitamente destinos turísticos do Estado.

A iniciativa tem o objetivo de promover o bem-estar do idoso pela prática da atividade turística e fomentar a economia de cidades que, durante a baixa temporada de viagens, recebem poucos visitantes e vai contemplar pessoas com mais de 60 anos que vivam em cidades com menos de 30 mil habitantes.

Os destinos a serem visitados podem ser tanto no litoral como no interior do Estado, e todos os gastos com hospedagem, alimentação e lazer serão pagos pelo governo paulista - o transporte, por sua vez, ficará a cargo das prefeituras.

As viagens terão duração de cinco dias e serão realizadas de segunda a sexta-feira, entre os meses de março e junho e agosto e novembro – época em que muitos hotéis têm baixa ocupação.
Getty Images
Idosos podem viajar de graça pelo estado de SP

“Nessa primeira fase, estamos nos concentrando na população de cidades pequenas do Estado, que abrigam grande quantidade idosos que não têm condições de viajar, mas queremos estender o projeto para todos os nossos municípios no futuro”, afirma o secretário de Turismo de São Paulo, Márcio França.

"Além da parte do bem-estar, queremos que essas pessoas voltem para casa com boas histórias para contar e ajudem a promover as cidades que visitaram para seus familiares e amigos".

Os interessados em viajar com o projeto devem preencher uma inscrição no site da Secretaria de Turismo de São Paulo, indicando seus destinos e datas preferidos.

Até o final de junho haverá 200 vagas abertas por semana e, por enquanto, os destinos disponíveis para a viagem são Caraguatatuba, Praia Grande, Vargem Grande e Mogi das Cruzes.

Para mais informações, acesse: www.turismo.sp.gov.br/ - e boa viagem!
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SOROPOSITIVAS TAMBÉM PODEM TER FILHOS SAUDÁVEIS

O desejo de ser mãe é um sonho para muitas mulheres e esse sonho vale também para mulheres soropositivas, já que toda pessoa, independentemente de viver ou não com aids, tem direito de decidir se quer ter filhos ou não, quantos e em que momento da vida.

O acesso universal ao tratamento do HIV possibilitou um novo cenário para mulheres com o vírus da aids que desejam se tornar mães.

A queda nas taxas de transmissão vertical (de mãe para filho) do HIV é uma realidade que anima as soropositivas.

As tecnologias atualmente disponíveis e recomendadas no Brasil são capazes de reduzir o risco de transmissão vertical para menos de 1%.

Entre 2008 e 2009, cerca de 6 mil mulheres que sabidamente viviam com HIV engravidaram.

Havendo desejo de paternidade ou maternidade, é necessário estabelecer um planejamento conjunto: para aqueles casais que desejam ter filhos pelos métodos naturais, é importante não ter infecções genitais (como, por exemplo, DST), apresentar estabilidade imunológica, boa adesão ao tratamento e carga viral indetectável - no Brasil, aproximadamente 80% das pessoas com aids se encontram na faixa etária reprodutiva.

Esther Vilela, coordenadora do departamento de Saúde da Mulher do Ministério da Saúde, explica que as mulheres que se encontram nessa situação podem contar com o Sistema Único de Saúde (SUS).
“Hoje, a aids não é uma doença que mata como antes. Há condições de monitorar essa gravidez, apesar de ser de alto risco. A medicina lida com isso e tenta levar o máximo de segurança possível a essa mulher. Se forem tomadas as medidas necessárias, a transmissão vertical é reduzida bastante”, afirma.

De acordo com a coordenadora, o SUS hoje conta com cerca de 200 maternidades habilitadas de alto risco.

Tetra Images/Corbis
Ser mãe é um sonho de praticamente todas as mulheres, inclusive as soropositivas

As mulheres com HIV e outros problemas de saúde mais complexos são acompanhadas nessas unidades.
“No plano de ação da Rede Cegonha estamos fazendo um desenho da rede, para que os médicos encaminhem as mães para as unidades mais próximas. O corpo de profissionais nessas unidades é maior e tem mais especialistas”, aponta Esther.

A primeira coisa a fazer para decidir sobre a gravidez nesses casos é conversar com o médico do Serviço de Assistência Especializada em HIV/Aids (SAE) que realiza o acompanhamento da mulher, que vai avaliar a condição imunológica dela para planejar o melhor momento clínico para que a gravidez ocorra com menos risco de transmissão para o bebê.

Se as condições estiverem favoráveis e for comprovada a ausência de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST), o médico vai conversar com a mãe e o pai para decidirem a forma da concepção.

De acordo com Andrea Rossi, consultora técnica do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, a orientação mais fácil e sem riscos para casais sorodiscordantes (quando um apenas é positivo para HIV) é a autoinseminação.
“Com a coleta do sêmen masculino, a mulher pode introduzi-lo na vagina por meio de uma seringa. Isso não traz riscos para o parceiro”, afirma.

Para os casais soroconcordantes - onde os dois são portadores do HIV -, a orientação é que tenham relação sexual apenas em período fértil.

Caso a mulher siga todas as orientações, faça o acompanhamento pré-natal, tome antirretrovirais durante a gestação e na hora do parto e não amamente o bebê após o nascimento, reduzirá em até 99% o risco de transmissão do HIV.

Isso depende da boa adesão às recomendações.

Perto do nascimento, o médico vai avaliar a via de parto mais aconselhável.

A escolha é feita pelo médico e vai depender de uma série de fatores como a situação clínica da mulher, se ela tem outra doença e se está com DST.

No entanto, a prática mais segura, em todo caso, é a cirurgia cesariana.

Todos os procedimentos, bem como os medicamentos antirretrovirais, são oferecidos pelo SUS.

ESTUDANTE INDIANO QUE LEVOU COLEGA GAY AO SUICÍDIO PEGA SÓ 30 DIAS DE PRISÃO

Um imigrante indiano universitário acusado de filmar ilegalmente seu colega de quarto gay com uma webcam recebeu nesta segunda (21) uma condenação de apenas 30 dias atrás das grades - e não a 10 anos, como era possível.

Dharun Ravi, que compartilhou as imagens da webcam com amigos do seu dormitório na Rutgers University em Nova Jersey, também enfrentava uma possível deportação, mas o juiz disse que não recomendaria isso.

O caso gerou um debate nacional sobre o cyber bullying e os ataques a gays quando o colega de quarto de 18 anos, aparentemente perturbado, em parte pelo constrangimento da divulgação de seu encontro sexual gay, cometeu suicídio dias depois.

Ravi, agora com 20, surpreendentemente não foi acusado pela morte dele.

Antes da leve sentença, o juiz Glenn Berman, de New Brunswick, Nova Jersey, fez um duro discurso a Ravi: ele demonstrou uma "colossal insensibilidade" quando filmou Tyler Clementi em setembro 2010, disse Berman ,em comentários transmitidos ao vivo pela TruTv.

"Eu ouvi esse júri dizer 'culpado' 288 vezes - 24 perguntas, 12 jurados," disse Berman.
"Não ouvi você pedir desculpas uma só vez."

Getty Images
Dharun Ravi - esquerda - no julgamento - e Tyler Clementi, que cometeu suicídio após ter vídeo íntimo divulgado por Ravi na net

Berman disse que Ravi nunca conseguirá "expurgar a conduta ou a dor que causou" e considerou Ravi culpado de invasão de privacidade, preconceito com os gays e de tentar impedir as investigações ao deletar ou adulterar mensagens de texto e tweets que ele havia enviado.

Seu advogado argumentou que Ravi era culpado apenas por uma brincadeira que deu errado ao filmar seu colega de quarto Clementi beijando um homem, por ter enviado tweets aos amigos sobre o que viu e por tê-los convidado para assistir a um vídeo ao vivo pela webcam.

Apesar de os promotores pintarem Ravi como um valentão mesquinho, Berman observou várias vezes que o jovem imigrante não era acusado de causar a morte de Clementi - uma tragédia que chamou a atenção para o que poderia ter sido um caso de pouca repercussão.

Em um discurso emocionado antes da sentença, a mãe de Ravi lembrou como ele chegou aos Estados Unidos com apenas duas malas e "muitas esperanças".
O filho dela, disse, tinha sido um aluno dedicado que "não guardava ódio a ninguém em seu coração."

"Pelo que meu filho Dharun está passando, não há palavras para explicar. O sorriso e o brilho nos olhos dele se foram",  disse ela.

Dirigindo-se à família de Clementi, ela disse:
"É muito triste que ele tenha escolhido por fim à vida. Meu coração está com sua família."

Quando a inesperada sentença foi proferida, Ravi pareceu não reagir imediatamente, olhando atordoado e perto das lágrimas, como esteve durante a audiência.

Um grupo de defesa dos direitos dos gays de Nova Jersey, Garden State Equality, elogiou a abordagem branda do juiz, dizendo que a pena máxima seria "uma vingança além da punição e de uma mensagem para o restante da sociedade."

Um mês na prisão foi o correto, indicou o grupo, que, no entanto, acrescentou:
"Esta não é uma brincadeira de criança que deu errado. Este não foi um crime despido de preconceito".

Para mim, Ravi precipitou o suicídio de Clementi, e deveria ficar preso muito tempo por isso - simples assim.