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quinta-feira, 3 de julho de 2014

'O GRANDE HOTEL BUDAPESTE': ARREBATADOR DA PRIMEIRA À ULTIMA CENA


Durante o período entre as duas guerras mundiais, um 'concierge' de um famoso hotel na Europa faz amizade com um jovem empregado e os dois se envolvem no roubo de uma pintura renascentista inestimável e na batalha por uma fortuna de família - tudo isso em meio às mudanças ocorridas na Europa do começo do século 20.

Lendo a sinopse acima,não dá pra se ter ideia do filme soberbo que é 'O Grande Hotel Budapeste', longa dirigido por Wes Anderson e que estreia hoje em 50 salas em todo o Brasil , depois de maravilhar espectadores nas últimas edições dos principais festivais de cinema, Berlim principalmente, onde foi ovacionado de pé.

Diretor de 'Moonrise Kingdom' e 'Os Excêntricos Tenenbaums', Anderson é certamente um dos diretores e roteiristas mais originais do cinema americano atual: inconfundível, expressivo e carregado de uma visão artística que o distancia da mesmice, proporcionando ao espectador uma experiência única e arrebatadora.

Aqui, estamos na fictícia República européia de Zubrowka, na década de 1930, acompanhando as aventuras do 'concierge' Gustave H. (Ralph Fiennes) e de Zero Moustafa (Tony Revolori, jovem, e F. Murray Abraham, adulto), mensageiro que se torna seu inseparável amigo - os dois trabalham no hotel que dá título ao filme, numa região alpina do Leste Europeu.

Ralph Fiennes e Tony Revolori, em cena do longa - Fotos dessa postagem: Divulgação/20th Century Fox Brasil

Excêntrico, amante de poesia, perfumes e senhoras mais velhas, o gerente se vê vítima de uma conspiração quando sua adorada Madame D (Tilda Swinton, envelhecida com maquiagem mas absolutamente sensacional) é encontrada morta.

Produção livremente inspirada na obra do austríaco Stefan Zweig - que se exilou no Brasil no século passado e cometeu suicídio em Petrópolis em 1942 - nas mãos de Anderson, a trama se transforma um filme espirituoso, bem conduzido e delicioso de se ver, ratificando o talento e estilo único do cineasta, que carrega sempre no acabamento visual com paleta de cores marcante, os característicos 'travellings' e a extrema habilidade de Anderson em explorar personagens, mesmo os que estão de passagem – o longa tem participações especiais de Tom Wilkinson, Bill Murray, Harvey Keitel, Owen Wilson, Willem Dafoe, entre  muitos outros estelares.

Tilda Swinton é Madame D no longa

Aliás, essa é a grande habilidade do diretor: trabalhar com maestria elementos visuais diferentes, personagens diversos, gêneros variados (o filme mescla comédia, suspense, romance, ação e drama) sem nunca se perder em uma cena sequer.

Owen Wilson - à frente - em cena do longa

Absolutamente arrebatador, o longa entrega ao espectador muita habilidade e confiança para levar adiante uma trama ambiciosa, sem que, em nenhum momento, o fantasioso mundo apresentado pareça forçado.

Filmaço.

Confira o trailer do longa:
*****
'O GRANDE HOTEL BUDAPESTE'
Título Original:
THE GRAND BUDAPEST HOTEL
Gênero:
Drama
Direção:
Wes Anderson
Roteiro:
Hugo Guinness, Wes Anderson
Elenco:
Adrien Brody, Bill Murray, Bob Balaban, Carl Sprague, Edward Norton, F. Murray Abrahams, Florian Lukas, Gabriel Rush, Harvey Keitel, Heike Hanold-Lynch, Jason Schwartzman, Jeff Goldblum, Jude Law, Karl Markovics, Léa Seydoux, Mathieu Amalric, Matthias Matschke, Milton Welsh, Owen Wilson, Paul Schlase, Rainer Reiners, Ralph Fiennes, Saoirse Ronan, Tilda Swinton, Tom Wilkinson, Tony Revolori, Willem Dafoe
Produção:
Jeremy Dawson, Scott Rudin, Steven M. Rales, Wes Anderson
Fotografia:
Robert D. Yeoman
Montador:
Barney Pilling
Trilha Sonora:
Alexandre Desplat
Duração:
100 min.
Ano:
2014
País:
Alemanha / Estados Unidos
Cor:
Colorido
Estreia no Brasil:
03/07/2014
Estúdio:
American Empirical Pictures / Indian Paintbrush / Scott Rudin Productions
Distribuição:
20th Century Fox Brasil
Classificação:
14 anos
Cotação do Klau:

quinta-feira, 15 de maio de 2014

'PRAIA DO FUTURO': TRAMA SIMPLES E BONS DESEMPENHOS DO TRIO DE PROTAGONISTAS


Se o diretor Karim Aïnouz consegue dar substância e densidade a seus personagens num grau absurdo, tornando tramas simples em grandes espetáculos cinematográficos, não foi diferente em seu mais novo projeto, 'Praia do Futuro' - que estreia hoje em 82 salas em todo o Brasil depois da estreia mundial no último Festival de Berlim.

Na trama, o protagonista é Donato (Wagner Moura), um militar do corpo de bombeiros que trabalha como salva-vidas na praia cearense que dá nome ao longa.

Wagner Moura como o protagonista Donato - Imagens dessa postagem: Divulgação/Califórnia Filmes

Depois de uma frustração no trabalho, ele salva das águas o turista alemão Konrad (Clemens Schick),abandona tudo no Brasil -  inclusive o irmão mais novo, Ayrton, que o venera  -  e parte para Berlim para viver um romance com Konrad.

Anos depois, acontecerá o confronto com o irmão já adulto ((Jesuíta Barbosa), que vai à capital alemã atrás dele e de respostas.

Aïnouz transforma essa trama simples num belo e tocante filme sobre perda e busca, temas recorrentes em sua filmografia de personagens sempre em trânsito, à procura de respostas para suas inquietações existenciais.

Justamente por isso, os motivos que levam Donato a tomar suas decisões não ficam claras logo de início - afinal, isso nem mesmo ele sabe - e cabe ao espectador ir juntando as peças para entender seu comportamento ao mesmo tempo em que ele mesmo vai se compreendendo.

Jesuíta Barbosa é Ayrton, irmão de Donato

Filmes assim dependem fundamentalmente de seus atores, da capacidade deles em contar muito dizendo pouco ou nada - e nesse sentido, o trio protagonista funciona muito bem.

Wagner Moura, como de hábito, se desafia e se supera num trabalho difícil: seu Donato carrega suas aflições e vivências no olhar, como se pudéssemos enxergar seu passado mesmo estando diante apenas do presente encenado.

Mesmo nas tão faladas cenas de nu e de sexo tórrido com o ator alemão só engrandecem sua composição de Donato.

E essa tridimensionalidade está presente também nos personagens do bom ator alemão Clemens Schick (conhecido mundialmente por ter interpretado Kratt, o guarda-costas do vilão Le Chiffre em '007: Cassino Royale'/2006) e da revelação brasileira Jesuíta Barbosa (dos longas 'Tatuagem'/2013, 'Serra Pelada'/2013 e da ótima série 'Amores Roubados'/2014).

Clemens Schick é Konrad

Assim, o longa tem sua força nos personagens densos e repletos de humanidade, sem esquecer-se da produção bem-acabada e alinhada com a história, da fotografia à trilha sonora.

Ao final, o cenário habitual do diretor: a estrada, sempre presente nos seus filmes, não só porque diz muito sobre os tipos que leva à telona, mas porquê também desnuda sua disposição em ir adiante, em direção a um cinema cada vez mais perfeito.

Confira o trailer do longa:


*****
'PRAIA DO FUTURO'
Gênero:
Drama
Direção:
Karim Ainouz
Roteiro:
Felipe Bragança, Karim Ainouz
Elenco:
Christoph Zrenner, Clemens Schick, Demick Lopes, Emily Cox, Fred Lima, Ingo Naujoks, Jean Philippe Kodjo Adabra, Jesuíta Barbosa, Maj. Barreto, Marcus Davis Andrade Braga, Natascha Paulick, Sabine Timoteo, Savio Ygor Ramos, Sophie Charlotte, Thomas Aquino, Wagner Moura, Yannik Burwiek
Produção:
Geórgia Costa Araújo, Hank Levine
Fotografia:
Ali Olay Gözkaya
Montador:
Isabela Monteiro de Castro
Trilha Sonora:
Volker Bertelmann
Duração:
106 min.
Ano:
2013
País:
Alemanha / Brasil
Cor:
Colorido
Estreia no Brasil:
15/05/2014
Distribuidora:
Califórnia Filmes
Estúdio:
Coração da Selva / Hank Levine Film
Classificação:
14 anos
Cotação do Klau:

quinta-feira, 10 de abril de 2014

'HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO': MELHOR FILME NACIONAL DO ANO, HISTÓRIA DE AMOR ENTRE DOIS MENINOS É SENSÍVEL E VERDADEIRA


Leonardo (Ghilherme Lobo) é um adolescente cego em busca de sua independência até que seu cotidiano, a relação com a melhor amiga, Giovana (Tess Amorim) e a sua forma de ver o mundo ganham novos caminhos, com a chegada de Gabriel (Fabio Audi), um menino que vai fazê-lo descobrir coisas que ele nem imagina, inclusive o amor.

Essa trama simples fez do novo trabalho do roteirista e diretor Daniel Ribeiro um dos longas mais aguardados desse ano, 'Hoje eu Quero Voltar Sozinho', que estreia hoje em 28 salas em todo o Brasil e que já começou sua trajetória ao fazer um sucesso absurdo no último Festival de Berlim, de onde saiu com o prêmio da Firepresci (Federação da Crítica Internacional) na seção Panorama e também com o 'Teddy Bear', Urso de melhor longa com temática gay.

Gabriel (Fabio Audi) e Leonardo (Ghilherme Lobo) em cena do longa - Fotos dessa postagem: Divulgação/Vitrine Filmes

O longa nasceu de um curta-metragem homônimo de 2010 também dirigido e roteirizado por Ribeiro, que levou os prêmios do júri oficial, da crítica e do público no Festival de Paulínia.

Sabendo que a história poderia render bem mais, Ribeiro dirigiu com extrema ternura o melhor filme brasileiro do ano, de roteiro impecável e com interpretações do jovem elenco muito acima da média, de colocar medalhões do nosso cinema no chinelo de tão boas.

Na trama, Leonardo (Ghilherme Lobo) é um adolescente cego, que sofre bullying por parte de alguns colegas de sala, é ignorado por outros e tem em Giovana (Tess Amorim) a única companheira de classe com quem tem afinidade.

Giovanna (Tess Amorim) e Leonardo
Descontente com o cotidiano - que inclui a atenção exacerbada dos pais - Leo sonha em deixar a vida que leva e fazer um intercâmbio, mas tudo muda quando começa a descobrir sua sexualidade após a chegada de um novo aluno na sua turma, Gabriel (Fabio Audi).

Poucos filmes, brasileiros ou não, trataram a sexualidade de um adolescente com tanta beleza e a sutileza está no conjunto e não apenas na construção do arco dramático do personagem.

Trilha sonora, fotografia, edição e elenco de apoio trabalham em sintonia de relógio suíço, mas sempre vibrante, com uma carga de verdade impregnando toda a produção, a ponto de o espectador, mergulhado desde a cena inicial, se esquecer completamente que está vendo um filme e não a vida real.

Tanto, que quando o longa acaba,  Leo e seus amigos parecem seguir o espectador para fora do cinema.

Os três amigos, em cena do longa

Se no curta os mesmos personagens enfrentavam o medo do primeiro beijo, no longa, o debate se amplia para o amor em geral e para as perspectivas de independência do adolescente em crise no seu duplo tabu (gay e cego), funcionando como inteligente ferramenta narrativa.

Leonardo não é visto como arquétipo social, como "o garoto cego" ou "o garoto gay", não é um símbolo único de uma dessas duas comunidades e suas dificuldades são usadas como metáforas para os conflitos de qualquer jovem, que também pode se sentir diferente por ser ruivo, obeso, órfão, disléxico ou simplesmente tímido, ruim em esportes etc.

Este é, enfim, a grande sacada do filme: tratar as particularidades do protagonista como trataria as especificidades físicas e de temperamento de qualquer adolescente.

Sem pretensões militantes (exceto na cena final), o roteiro evita fazer apologias das particularidades de Leonardo e, assim, quando vemos o dia a dia do personagem, ele já está devidamente inserido na sociedade, estudando em uma escola para adolescentes sem deficiência, indo e voltando para casa com a amiga Giovana.

Não vemos o baque da chegada do garoto cego à escola, nem a descoberta do próprio Leonardo de seu desejo por homens, pois o roteiro - também de Ribeiro - ultrapassa os típicos relatos cinematográficos de autodescoberta para ir direto ao próximo passo: a autoafirmação.

Um pequeno buylling

O longa costura os conflitos da trama de maneira leve e terna e os poucos momentos de bullying praticados por um grupo de colegas não deixam grandes marcas em Leonardo, assim como as brigas com os pais se dissipam em minutos e as disputas com Giovana sempre caminham para a reconciliação.

A fotografia abusa do desfoque da imagem para representar a falta de visão de Leonardo, o som direto evita ruídos em quartos e salas de aula e a trilha nunca é ostensiva.

E o longa segue extremamente acadêmico: uma personagem sempre espera a outra concluir seu diálogo para começar o seu, as cenas iniciam quando um personagem está prestes a dizer alguma frase e os enquadramentos seguem a lógica de plano e contra-plano, tudo feito para que nenhuma cena se destaque ou choque muito, ou seja: o espectador dificilmente vai ver cena mais natural do que o primeiro selinho entre dois garotos.

Gabriel e Leonardo, em cena do longa

O longa sempre nos lembra que estamos vivenciando situações de jovens brancos, urbanos, de classe média alta, onde ninguém pensa em fugir de casa ou se vingar dos pais, apenas fazer uma viagem de intercâmbio - financiada pelos próprios pais, lógico.

O desejo sexual também é retratado de maneira muito particular, com a edição interrompendo a cena no momento em que esta sugere uma masturbação ou uma ereção, o que lembra a todo instante que este não é um filme sociológico ou psicológico, e sim um retrato intimista de tendência universal.

Mas o espectador pode ficar tranquilo com relação ao romance entre os dois garotos: o tom sempre é de ternura e cumplicidade, delicado (sem a conotação pejorativa) e muito sincero, o que faz do longa, simples em suas pretensões artísticas, um belo tratado de afetos, sejam eles entre dois garotos, entre um amigo e sua amiga ou entre os pais e os filhos.

Destaque para a cena onde Leonardo conversa com sua avó (Selma Egrei, excelente na sua volta às telonas) a respeito de relacionamentos e que mostra o talento do diretor para retratar um amor natural e otimista.

Filmaço.

Confira o trailer do longa:

*****
'HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO'
Gênero:
Drama
Direção e Roteiro: 
Daniel Ribeiro
Elenco:
Eucir de Souza, Fabio Audi, Ghilherme Lobo, Isabela Guasco, Júlio Machado, Lúcia Romano, Naruna Costa, Selma Egrei, Tess Amorim, Victor Filgueiras
Produção:
Daniel Ribeiro, Diana Almeida
Fotografia:
Pierre de Kerchove
Montador:
Cristian Chinen
Duração:
96 min.
Ano:
2014
País:
Brasil
Cor:
Colorido
Estreia no Brasil:
10/04/2014
Distribuidora:
Vitrine Filmes
Estúdio:
Lacuna Filmes
Classificação:
12 anos
Cotação do Klau:

sábado, 15 de fevereiro de 2014

BERLINALE 2014: LONGA CHINÊS 'BLACK COAL, THIN RICE' LEVA O URSO DE OURO E BRASILEIRO 'HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO' É O MELHOR FILME PELA CRÍTICA


O longa "Black Coal, Thin Ice", do diretor chinês Diao Yinan, foi anunciado agora pouco como o vencedor do Urso de Ouro da 64ª edição da Berlinale.

Na cerimônia realizada na noite deste sábado (15), o longa também levou o Urso de Prata de Melhor Ator,  para Liao Fan.

O nome foi recebido com surpresa em um dia que as manchetes anunciavam como favorito "Boyhood", de Richard Linklater - que levou o Urso de Melhor Diretor.

Os chineses foram destaque desde o início da competição, quando foram elogiados pelo curador Wieland Speck por revolucionar o cinema com suas novas formas de contar histórias.

A China ainda marcou presença com "The Midnight After", de Fruit Chan e "That Demon Within", de Dante Lam, ambos na Mostra Panorama - "Blind Massage", de Zeng Jian, foi reconhecido como Excelente Contribuição Artística.

Em "Black Coal, Thin Ice", o ex-policial Zhang Zili (Liao Fan) decide investigar uma série de assassinatos por conta própria e descobre Wu Zhizhen (Gwei Lun Mei), uma jovem que trabalha em uma lavanderia e possível autora dos crimes.

Em um clima que mistura filmes clássicos de investigação e estética noir, Zili se apaixona por Zhizhen e precisa lidar com a dualidade do romance em um thriller de suspense destacado por suas técnicas inovadoras de cinematografia.

"Ficamos felizes com o prêmio de Liao, não imaginávamos que receberíamos um prêmio por Melhor Filme", disse Yinan.

"Nos últimos anos o cinema tem se tornado muito comercial na China, por isso, nosso principal desafio era misturar o lado comercial com um jeito independente e artístico de fazer um filme", completou.

Em relação à dificuldade de produzir filmes no cenário político chinês, Yinan comentou que "ainda existem dificuldades, mas a presença do filme reflete uma abertura."

Tomara.

Confira o trailer de "Black Coal, Thin Ice":


*****
O 'Jury Grand Prix' escolheu como favorito o filme de abertura do evento, "The Grand Budapest Hotel", do americano Wes Anderson, rodado na Alemanha.

Como Anderson não estava presente, a jurada Greta Gerwig foi escolhida para fazer o agradecimento - o diretor levou pela primeira vez um Urso na carreira.

Presidido pelo produtor James Chamus, o júri contou ainda com as avaliações do ator austríaco Christopher Waltz, do cineasta francês Michael Gondry, da atriz dinamarquesa Trine Dyrholm, do diretor iraniano Mitra Farahani e do ator chinês Tony Leung.

Outro destaque foi "Boyhood", que rendeu o segundo Urso de Prata a Linklater, que ganhou o mesmo prêmio em 2005 com a primeira parte da trilogia "Antes do Amanhecer".

Desta vez, o diretor apresenta nos cinemas a infância e adolescência de Mason (Ellar Coltrane, Ethan Hawke), em uma trama escolhida como favorita pelo público alemão e que recebeu prêmios do jornal Morgenpost e dos críticos do Guild of German Art House Cinemas.

O prêmio de Melhor Atriz ficou com a japonesa Haru Kuroki,  de "The Little House"; o Urso de  Melhor Roteiro foi para os irmãos alemães Dietrich e Anna Brüggemann com o dramático "Stations of The Cross" e o Melhor Curta-Metragem ficou com "As Long as Shotguns Remain", de Caroline Poggi e Jonathan Vinel.

Entre os concorrentes ao Urso neste ano estavam o brasileiro "Praia do Futuro", de Karim Aïnouz, "71", de Yann Demange, "History of Fear", do argentino Benjamin Naishtat e "Jack", de Edward Berger.

Mas o brasileiro que mais brilhou na Berlinale desse ano foi o diretor Daniel Ribeiro.

Seu longa 'Hoje eu Quero Voltar Sozinho', que conta a sutil descoberta de um garoto cego sobre sua homossexualidade, foi destaque nas premiações paralelas do festival.

Além de ter sido escolhido como Melhor Filme pela crítica, foi um dos melhores avaliados pelo público da Mostra Panorama  - ficou em segundo lugar - e de quebra, ainda levou o prêmio Teddy de Melhor Filme, que premia histórias e personagens gays e que tem como missão promover a tolerância e a igualdade.

Relembre o trailer de 'Hoje eu Quero Voltar Sozinho':


*****

Confira todos os Vencedores da 64ª edição do Festival de Cinema de Berlim:

Melhor Filme
"Black Coal, Thin Ice", de Diao Yinan
O diretor chinês  Diao Yinan recebe o urso de ouro de melhor filme, ao lado de  Liao Fan, urso de prata como melhor ator e Haru Kuroki, do filme "The Little House",  melhor atriz - REUTERS/Tobias Schwarz

Melhor Diretor
Richard Linklater, de "Boyhood"
O diretor Richard Linklater, recebe o urso de prata de melhor diretor -AFP PHOTO / JOHANNES EISELE
Melhor Ator
Liao Fan de "Black Coal - Thin Ice"
Liao Fan levou o urso de prata como melhor ator  - REUTERS/Tobias Schwarz
Melhor Atriz
Haru Kuroki de "The Little House"
Haru Kuroki, do filme "The Little House", também recebe de Christoph Waltz seu urso de prata como melhor atriz no Festival de Berlim - REUTERS/Tobias Schwarz
Curta-Metragem
*Urso de Ouro para "As Long as Shotguns Remain", de Caroline Poggi e Jonathan Vinel

*Urso de Prata para "Laborat", de Guillaume Cailleau

* Revelação para "Gueros", do mexicano Alonso Ruizpalacios

Contribuição Artística
"Blind Massage", do chines Zeng Jian

Melhor Roteiro
Dietrich e Anna Brüggemann, com "Kreuzweg - Stations of The Cross"
Dietrich e Anna Brüggemann recebem o urso de prata de melhor roteiro -REUTERS/Tobias Schwarz
Alfred Bauer Prize (Filme que abriu novas perspectivas)
"Life of Riley", do frances Alain Resnais

Grand Pix do Jury  
"The Grand Budapest Hotel", de Wes Anderson
Pôster do filme - Divulgação

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

FESTIVAL DE BERLIM: LONGA BRASILEIRO 'HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO' LEVA PRÊMIO DA CRÍTICA E O VETERANO ALAN RESNAIS TAMBÉM É PREMIADO


O longa brasileiro "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" ganhou nesta sexta o prêmio da Firepresci (Federação da Crítica Internacional), na seção Panorama do Festival de Berlim.

O filme de Daniel Ribeiro narra a luta de Leonardo (Guilherme Lobo), um jovem gay e cego de 15 anos, que procura ser independente em uma sociedade super protetora e acaba se apaixonando por um colega de escola, Gabriel (Fabio Audi), ao mesmo tempo em que desperta sentimentos em Giovana (Tess Amorim).

Na semana passada, Ribeiro disse que o trunfo do filme é que os meninos se descobrem gay de uma forma não sexual.

"Os adolescentes gays querem ser associados ao amor e ao afeto. Percebo que quando esses jovens contam aos pais ou no trabalho que são gays, as pessoas já imaginam o sexo. A parte romântica é esquecida. O filme é uma maneira de jovens dizerem aos pais: 'olha, é isso o que eu sinto'".

Já hoje, momentos depois da premiação, Ribeiro disse que não esperava que seu longa fosse o escolhido pela crítica.

"A gente está muito feliz, acabamos de sair da cerimônia, não imaginávamos essa possibilidade. Foi surpresa muito boa ser escolhido entre 50 filmes", afirmou, dizendo ainda que foi sem expectativa a Berlim por "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" ser seu primeiro longa-metragem.

De acordo com o diretor, o prêmio ajuda na campanha de divulgação do filme, fazendo com que fique conhecido e tenha a possibilidade de ser comercializado em mais países.

"Os distribuidores gostam muito desse prêmio da crítica", disse ele, que já negociou a distribuição do longa em oito países durante o festival - entre eles Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido e França.

Neste sábado (15) será anunciado o vencedor do Urso de Ouro da edição 2014 do festival.

Por estar na mostra Panorama, o longa de Ribeiro não concorre a esse prêmio, mas ainda pode ser escolhido como melhor filme da Panorama pelo público, numa cerimônia que acontece no domingo (16).

O longa "Praia do Futuro", do cearense Karim Aïnouz, está na competição oficial e concorre ao Urso de Ouro.

Relembre o trailer de "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho":


Já o filme de Alain Resnais, "Aimer, boire et chanter" acabou como o premiado da competição oficial pelos críticos da Firepresci.

O longa do veterano diretor francês, que toma o formato de teatro filmado, tem no elenco vários nomes conhecidos, como Sabine Azéma e André Dussoller.

A trama gira em torno de três casais amigos e as situações que surgem entre eles diante da morte do sétimo personagem, um eterno galã que cortejou e segue cortejando as três esposas.

Confira o trailer de "Aimer, boire et chanter":


Os prêmios Fipresci foram entregues, como já é habitual, na véspera da cerimônia final da Berlinale, quando o júri, presidido pelo produtor americano James Schamus, divulgará os ganhadores dos Ursos.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

FESTIVAL DE BERLIM: TRAIDOR ALEMÃO, FAROESTE CHINÊS E O URSO DE OURO HONORÁRIO AO CINEASTA KEN LOACH


A quinta-feira na Berlinale foi marcada pela exibição do documentário alemão 'Anderson' - - que fala sobre um artista que era espião da Alemanha comunista -  de um faroeste chinês moderno e a homenagem ao cineasta britânico Ken Loach pela vitoriosa carreira.

Confira:

TRAIDOR ALEMÃO E FAROESTE CHINÊS SÃO EXIBIDOS NA BERLINALE

Vinte e cinco anos após a queda do Muro de Berlim, o documentário "Anderson",  exibido nesta quinta (13) na Berlinale,  traça a vida dupla de Sascha Anderson, ícone da cena artística underground de Berlim que, paralelamente, trabalhava como um informante da Stasi - a polícia secreta da Alemanha Oriental.

Este escritor, poeta e músico, de 61 anos, vive hoje em Frankfurt mas foi uma figura chave de Prenzlauer Berg, beco de Berlim que atraía artistas alternativos da RDA nos anos 80, e hoje é um dos bairros mais populares da capital alemã.

Sascha Anderson poderia ter se tornado uma das principais figuras intelectuais de seu país, mas está mais associado ao apelido de "Sascha Arschloch" (Sascha Babaca), dado por um amigo, que revelou ao público a relação do artista com a Stasi.

"Anderson", filme que a diretora de origem alemã Annekatrin Hendel dedicou a ele, tenta traçar muito mais do que a carreira do homem que, para seus amigos e para muitos outros, encarna a figura absoluta do traidor.

"Não sou juíza, e sim diretora", explicou a diretora  à AFP.
"Queria entender a história e contá-la através dele e de outros que tiveram alguma relação com ele (...) Este filme sobre a culpabilidade e expiação também faz a gente pensar se, 25 anos depois, somos capazes de falar sobre o assunto".

Os documentos de arquivo fazem o espectador penetrar nesta época apaixonante e efervescente, onde a livre criação artística encontrava refúgio nas cozinhas, e ao mesmo tempo mergulha em Anderson, atormentando pelas mentiras, traições, culpa e rancor.

Anderson não procura desculpas, não pede perdão.
"Vemos seu olhar, sua incerteza (...) ele tem essa natureza contraditória", afirma Hendel.

Após o filme, o verdadeiro Anderson, que prestigiou a exibição, saiu para beber com seus ex-amigos - eles não se viam há 25 anos.

"A noite será longa", garante Hendel.

Cena de 'Anderson' - Divulgação

Já o filme chinês "Terra de Ninguém", do jovem diretor Ning Hao, trata da ganância nas montanhosas regiões do deserto de Gobi, no extremo norte chinês.

Pao Xiao, um brilhante advogado interpretado pelo ator Xu Zheng, tira da prisão um mafioso que procura fazer fortuna com a caça ilegal de falcões.

Para pagar seus honorários, o mafioso dá seu carro de luxo ao advogado que não hesita em segui-lo a toda velocidade pelo deserto de Gobi até um tribunal localizado a 500 km, onde deve participar de um outro julgamento.

Os capangas do mafioso montam uma armadilha na estrada para tentar roubar o carro - este é o início de uma série de confrontos sangrentos, filmado como um western.

"Este filme pode ser considerado tanto um filme de road movie quanto um western. Acredito que quando for exibido na China vão rotulá-lo de humor negro, mas não é uma comédia", disse o diretor Ning Hao.

"Os falcões estão enjaulados. Este animal simboliza a força e a liberdade. Mas quando estão presos encarnam o desejo de ganhar dinheiro, a ganância", acrescenta o diretor, que diz ter demorado quatro anos para finalizar o filme por causa da censura.

Hao não esconde a sua paixão pelos westerns.
"Desde criança gosto muito. O deserto de Gobi, no norte da China, e sobretudo a paisagem montanhosa de Khingan, se apresentavam como o cenário perfeito para um western, mas essa não foi a ideia, a violência é universal", declarou.

Cena de 'Terra de Ninguém' - Divulgação

CINEASTA KEN LOACH RECEBE URSO DE OURO HONORÁRIO PELA CARREIRA

Aos 77 anos, o cineasta britânico Ken Loach está finalizando o seu mais recente filme, 'Jimmy's Hall', que pode ser o último da sua longa carreira.

No Festival de Cinema de Berlim, onde recebeu um Urso de Ouro honorário na quinta (13), Loach abordou a questão:
"Vamos ver o que acontece".

Segundo a BBC News, o cineasta explicou que realizar um filme requer uma "resistência física" que começa a faltar "quando nos encaminhamos para a metade má dos setentas".

Porém, Loach admitiu que fazer filmes "é um privilégio difícil de abdicar".

Na 64ª Berlinale, Loach foi homenageado pela sua dedicação ao cinema ao longo de mais de meio século.

O Urso de Ouro honorário foi entregue pelo trabalho do cineasta, em filmes como "Kes" (1969) e "Chuva de Pedras" (1993) - este último exibido em Berlim como parte do tributo ao realizador.

Ao subir ao palco, o veterano realizador, sempre durão, não se conteve ao segurar a estatueta, e desabou em lágrimas - depois, abriu um largo sorriso.

Todas as homenagens são poucas, em se tratando de Ken Loach.

O diretor britânico Ken Loach recebe um Urso de Ouro honorário pelo conjunto de sua carreira, durante a Berlinale - Jens Kalaene/EFE