segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A SEMANA ILUSTRADA!


Pessoal:

Pra quem está chegando no blog agora, A SEMANA ILUSTRADA é uma seleção de fotocharges feitas em cima de fatos da última semana.

Divirta-se!
Mande pros amigos!













domingo, 8 de novembro de 2009

UM BRASILEIRO CHAMADO ANSELMO




Anselmo Duarte é um dos nomes mais importantes na história do cinema nacional.

Em cena de "Sinhá Moça"

Se não bastasse sua carreira como ótimo ator, foi por trás da câmera - como cineasta - o único brasileiro a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1962, por "O Pagador de Promessas",concorrendo com títulos de vários dos principais diretores da época, entre eles Michelangelo Antonioni, Robert Bresson, Luis Buñuel e Sidney Lumet.

No júri,François Truffaut foi um dos principais defensores do prêmio principal para o filme brasileiro.


Anselmo mostra a Palma de Ouro para os repórteres


Leonardo Villar e Glória Menezes em cena de "O Pagador..."

Baseado num texto teatral de Dias Gomes, "O Pagador..." tinha no elenco Leonardo Villar, Glória Menezes e Norma Bengell,e também foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro.


Leonardo Villar em cena de "O Pagador..."

À época com 42 anos, Anselmo vinha de uma carreira de ator que já durava 20. Foi o galã principal da Atlântida e da Vera Cruz, as duas produtoras mais importantes do cinema brasileiro nos anos 1950 - a primeira, carioca famosa pelas chanchadas e a segunda, paulista, pelos melodramas de aparência e inspiração européias. Até então dançarino, conseguiu logo de início um salário equivalente ao triplo do que ganhavam os grandes astros da chanchada,Oscarito e Grande Otelo. Tudo graças à boa aparência e seu 1,88m de altura, que frequentemente despertavam acalorados debates, na comparação com os astros americanos da época.

Cena de "O Pagador..." filmada no pelourinho, em Salvador


E por falar em filme americano,uma curiosidade:seu currículo inclui uma figuração em "É Tudo Verdade",o filme inacabado do gênio Orson Welles, filmado no Brasil.

A volta ao Brasil, de navio, foi um acontecimento inesquecível: Ao desembarcar no porto de Santos-SP, Anselmo e o elenco do filme pararam literalmente a cidade!





Imagens da chegada apoteótica a Santos-SP

Quem entendia realmente da arte de interpretar, como os diretores Watson Macedo, Adolfo Celi e Ziembinski, diziam sempre que podiam que ele era um ator estupendo.

Mas Anselmo nunca deu valor a sua carreira de ator.Perfeccionista ao extremo,achava-se canastrão e implicava com a própria voz. Tinha também restos do sotaque do interior de São Paulo,caçula de sete filhos de uma família pobre e sem pai.

Quando estrelou a chanchada "Carnaval no Fogo", que havia corroteirizado, o diretor Watson Macedo deixou que ele dirigisse duas sequências. Na Vera Cruz, o prestígio em filmes como "Tico-tico no Fubá" fez com que finalmente ele tivesse a chance de dirigir o primeiro longa-metragem, "Absolutamente Certo". Nessa sátira à televisão, um sucesso de crítica e público, Anselmo ainda ficou com o papel principal. Logo deixaria de atuar nos filmes que dirigia.

Com Tonia Carrero, em "Sinhá Moça"


Com Odete Lara, em cena de "Arara Vermelha" - 1957

"O Pagador de Promessas" veio em seguida. Anselmo, agnóstico, tinha um esboço de argumento sobre uma espécie de Cristo contemporâneo quando soube da peça de Dias Gomes sobre um sertanejo que quer pagar uma promessa feita em favor de um burro, carregando uma cruz até uma igreja, e o padre o impede de entrar.


Pré estréia de "O Pagador..." - Cine Ipiranga,SP

Mas Dias Gomes - que depois de consagrar-se como autor de teatro, faria carreira na tv com obras como "O Bem Amado" e "Roque Santeiro" - detestou a adaptação e ameaçou exigir que seu nome fosse tirado dos créditos. Foi a primeira de uma série interminável de rusgas que marcariam a carreira do ator. Depois do prêmio, ele passou a se sentir vítima de inveja e preconceito, tanto dos representantes do Cinema Novo quanto de grande parte da crítica, e sofreu até o final da vida com isso.

"O Pagador de Promessas" era uma parábola populista e politicamente limitada, o que realmente não aproximou o diretor dos jovens cineastas engajados da época.

Para quem não viu, vale MUITO A PENA ver: o filme é um primor de encenação e envelheceu bem, mesmo entre os críticos.

O trabalho seguinte do diretor foi "Vereda da Salvação", novamente baseado numa peça teatral - de Jorge de Andrade, autor das cultnovelas "Os Ossos do Barão" e "O Grito" - e centrado num personagem sertanejo e místico (interpretado por Raul Cortez). Era o filme favorito de Anselmo, mas enfrentou problemas, da filmagem à exibição, e não teve a repercussão esperada.

Só cinco anos depois Anselmo voltou a filmar, com "Quelé do Pageú", drama de cangaço, e "Um Certo Capitão Rodrigo", baseado em Erico Verissimo. Foram filmes de repercussão modesta em comparação com "O Pagador". A carreira do diretor ainda prosseguiria com três episódios de pornochanchadas, um melodrama policial- "O Descarte" - com Glória Menezes e Ronnie Von,filme que marcou profundamente minha adolescência - , uma adaptação de um drama regionalista escrito originalmente para a TV ("O Crime do Zé Bigorna") e um filme estrelado por Pelé ("Os Trombadinhas").

Anselmo nunca deixou de atuar. Ganhou um estupendo papel do policial sádico no clássico "O Caso dos Irmãos Naves", de Luiz Sérgio Person, em 1967, e passou às participações especiais que lhe davam algum prestígio, algum dinheiro e pouca exposição, como ele preferia.

Com quase 90 anos, Anselmo ainda fumava e gostava de beber, mantinha a fama de conquistador irresistível e de um grande contador de histórias. Teve quatro filhos e casou-se algumas vezes, uma delas com a atriz Ilka Soares, uma das mais belas e estonteantes mulheres que esse país já viu..

Em 16 de agosto último, sofreu um infarto do miocárdio que se seguiu a um quadro de anemia aguda. Estava internado no InCor do HC-SP desde 27 de outubro, após um acidente vascular cerebral hemorrágico.

Anselmo Duarte morreu na madrugada deste sábado,aos 89 anos. Foi velado na Assembleia Legislativa de São Paulo,e um curto velório também ocorreu no saguão do Centro de Educação e Cultura - em Salto, interior de São Paulo e sua cidade natal - inaugurado em junho deste ano e que leva o nome do cineasta.

Uma justa homenagem dos seus conterrâneos - ele sempre falava da cidade em suas entrevistas.

Um grande ator. Um ótimo diretor. Um brasileiro chamado Anselmo.



Em setembro de 1958, numa mesa com o cineasta Roberto Rosselini - em primeiro plano -no Festival de Cinema de SP


Em Paris - final dos anos 50



Em outubro de 2003


Em novembro de 1953



No Festival do Cinema Brasileiro - Sala São Paulo - janeiro de 2001


Com o filho Ricardo, que penteia seu cabelo para uma homenagem no Museu da Imagem e do Som - SP - maio de 2005

sábado, 7 de novembro de 2009

MARCHA PRA JESUS...LUZ!



O atual da MADONNA é bem gostosinho, e tem uma carinha de safado...

Pensando nisso - em safadeza - fiz uma seleção de fotos,ao som da música "Celebration", da patroa, brincando com a tal MARCHA PRA JESUS que os larápios, Sônia, Crivella e Estevão promovem todo ano pra roubar mais os coitados sem cérebro de suas igrejas....

Divirtam-se !


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

CLÁUDIO NÓVOA,50 ANOS! - GRETTA, DIVA DA NOITE PAULISTANA, TEM ESTRELA ATÉ NO NOME!


A primeira vez que eu tive o prazer de ver GRETTA STTAR, foi no palco da Nostro Mondo, ainda hoje marcando presença na noite gls de São Paulo como a boate mais antiga das américas no segmento.

Fotos: Fotoblog da Gretta

Em meio a vários números,o dela era feito em cima da música "Le Jazz Hot",do filme "Victor/Victória"(1982) - mais um sucesso de Julie Andrews que havia estreado e estourado meses antes.

A maioria de filmes em dvd que fui pacientemente acumulando ao longo desses meus 50 anos são musicais,e essa comédia romântico-musical dirigida pelo ótimo Blake Edwards havia me marcado bastante. Tanto que,numa época em que nem videocassete existia,lá fui eu incontáveis vezes assistir a "Victor/Victória",até ele sair de cartaz na tela do finado Cine Brigadeiro,esquina com a Paulista, porão do Cartola Club.

Pois foi num sábado,saindo do Cine Brigadeiro e com o filme,diálogos,letras das músicas e coreografia na cabeça,que resolvi ir à Nostro Mondo.

E foi ali que eu tive a honra de ver Gretta, coreografia, figurino e dublagem perfeitas, e com uma presença de palco inacreditável.

Paixão imediata,lógico.

Com o passar do tempo, pude conhece-la melhor: a juventude na baixada santista,o seu apego à família,a estréia na famosa boate santista Pink Panther,o título de Miss Santos Gay - com direito a uma matéria especial no jornal "A Tribuna" -,a coroação como Miss Gay Universo,as viagens pelo mundo,onde esteve se apresentando por quase dois anos em palcos do Japão, Coréia do Sul, China, Inglaterra, Emirados Arábes e França.


Finalmente em São Paulo,formou-se como Tradutora e Intérprete pela Universidade Iberoamericana, trabalha como maquiadora - e também é ótima! - e merecidamente é um dos maiores ícones da noite paulistana.

Nesses anos todos,vi Gretta em outros palcos,ora atuando,ora apresentando - e como apresenta bem! - sempre com carisma e profissionalismo muito acima da média.


Gretta tem um hobby bem legal, que não tem nada a ver com sua trajetória no show bizz: é apaixonada por aviões, consegue reconhecer um só pelo barulho, só de ver a foto,o que a levou a dar entrevista até pro Jô Soares.


Com tudo isso, só podia ser o enorme ser humano que é,generosa para com quem está iniciando nos palcos,ótima amiga com energia e humor inesgotáveis, e um ótimo coração.


É uma Diva, não só pelo que faz nos palcos, mas pelo que faz na vida.

Ontem, ela estreou mais um espetáculo da carreira gloriosa, cheio de glamour e sensualidade, suas marcas maiores.

E continua se apresentando - e atuando como apresentadora - por palcos Brasil afora.

Essa é Gretta. Única. Divina.


Como seu eterno fã, fiz um vídeo em homenagem a ela e aos seus 54 anos completados em setembro - e aos meus 50, lógico! - como agradecimento pelas alegrias e momentos inesquecíveis que ela me proporcionou todos esses anos. Espero que vocês curtam assisti-lo tanto quanto eu ao produzi-lo.




GRETTA, MUITO OBRIGADO!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

BATMAN, A SÉRIE DE 1966: TESTE COM LYLE WAGGONER


Você sabia que a primeira opção dos produtores do seriado para o papel do homem morcego não era
ADAM WEST, e sim LYLE WAGGONER?

Foi só depois de Waggoner ter filmado várias cenas do piloto da série é que eles se decidiram por West.

Waggoner continuou aparecendo em vários seriados, até estourar em 1975, nove anos depois, no papel do Coronel STEVE TREVOR, no seriado da MULHER MARAVILHA!

O teste dele como Batman/Bruce Wayne é o que você verá agora:

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

terça-feira, 3 de novembro de 2009

MARCHA PRA JESUS?

Pessoal:

Será que fui só eu a ficar emputecido ao abrir o jornal hoje de manhã, e ver fotos dos larápios internacionais ESTEVAM E SÔNIA HERNANDES- aqueles que ficaram presos nos Estados Unidos por entrar com grana não declarada dentro da Bíblica - com a companhia do igualmente "homem de fé" SENADOR CRIVELLA, aboletados em um trio elétrico puxando a tal MARCHA PRA JESUS?

É como aquele larápio personificado por Leonardo De Caprio no ótimo filme de Spielberg "PRENDA-ME SE FOR CAPAZ" dizia: "TEM OTÁRIO PRA TUDO HOJE EM DIA".

E o pior: Hoje o YouTube amanheceu lotado de vídeos da tal "Marcha"!

O que pude fazer, é produzir uma versão da MARCHA PRA JESUS 2009 - by Blog de Klau.

E pra quem não conseguiu ler as fotocharges que estão no vídeo: elas estão postadas logo abaixo dele.














segunda-feira, 2 de novembro de 2009

PAÍS PUTEIRO - 26.10 A 02.11


Pessoal:

Por causa da homenagem especial à DONA MARISA PRIMEIRA,A MUDA, temos hoje excepcionalmente
quatro temas, em vez dos costumeiros três:

1. MARISA LETÍCIA, A HUMORISTA DO ANO!

2. CENTRO DE SÃO PAULO: DECADÊNCIA ACELERADA

3. DILMA, A VERDE!

4. LULA: ABOBRINHAS E DESPAUTÉRIOS DE UM PRESIDENTE

Veja:

domingo, 1 de novembro de 2009

50 ANOS DEPOIS: A HONRA RESTAURADA E AGRADECIMENTO SINCERO PELO CARINHO!


Pessoal:

1.
Atos premeditados, frases feitas, telefonemas obrigatórios.

Ligar só por ligar, "porque tenho de ligar", "está aqui na agenda, tenho de ligar" e não ligar porquê "eu gosto de você enquanto pessoa, amigo e ser humano, por isso liguei pra te desejar um dia pra lá de especial".

Se o ser humano é muito complexo, o passar dos anos me deixaram cada vez mais simplificado:
Não vou aos lugares "porquê todo mundo vai", não falo de grifes "porquê todo mundo veste a marca tal", não faço trabalhos que em nada me acrescentarão cultural, ética e profissionalmente só pra ter uns trocados a mais, comprar um telefone de última geração e ficar postando bobagens com 140 caracteres no Twitter pra um bando de gente que é mais iletrado e imaturo que eu.

Meu perfil no Orkut só tem me servido para reencontrar pessoas que eu não via faz tempo, como meu amigo de ginásio JOSÉ FERNANDO LEITE, que reencontrei por causa desse perfil. E quando topo com alguém com mais de 20 "amigos" nesses perfis, tenho certeza de que ele é mais um na legião de solitários da atualidade.

As pessoas nem se dão conta do desperdício de energia que isso traz.

Tenho HORROR A TUDO ISSO. Tenho horror aos cumprimentos obrigatórios, forçados, ainda mais os mascarados de pseudos doçura e atenção.

E é por ter essa certeza de que eu não vou estar nunca mais ao alcance de um cumprimento obrigatório, no meu aniversário, ano novo, o que for. Quem gosta realmente de mim, e de quem eu gosto realmente, saberá me encontrar, e eu saberei encontrá-los. Afinal, a sintonia energética será a mesma.

Mas de onde menos se espera,recebemos sinais de que nem tudo está perdido nessa vida lôka em que estamos mergulhados.

A caixa postal do e-mail do blog amanheceu abarrotada de mensagens de gente que nem conheço, mas que dizem gostar de mim pelo que eu tenho de melhor: minha capacidade de falar e escrever o que penso, o que vivencio. São pessoas que me acompanham sempre, algumas esperam todos os dias uma nova postagem, comentam, expressam suas opiniões, e souberam por uma postagem que eu faço 50 anos hoje.

É pra esses seres pensantes e com conteúdo que eu vivo atualmente. Não importa que eu não os conheça pessoalmente, a troca de energia é intensa e alimenta a minha alma.

Não conseguiria imaginar melhor presente que esse.

A você que me mandou uma das trezentas e tantas mensagens de parabéns hoje, fique tranquilo. responderei todas, uma a uma.

Muito Obrigado.

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2.
Para quem sempre perseguiu incessantemente a honra e a justiça, e que tem horror a julgamentos perpetrados sempre pela minoria hipócrita e moralista - famíliares aí inclusos - não deixa de ser um alento o juramento desse filho ao pai injustamente apontado como "tarado", e isso nos anos 50 em Sampa!

Só posso aplaudir AMAURI QUEIROZ pela perseverança e busca do restauro à honra e memória do pai, 50 anos depois, e ao repórter da Folha de S.Paulo ROGÉRIO PAGNAN pela ótima matéria.

Outro presentaço que ganhei hoje.

Leiam a matéria, e confiram:

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Folha de S.Paulo, domingo, 01 de novembro de 2009

A honra de Mauro
Guarda-civil acusado de se esfregar numa criança em um ônibus é inocentado pela Justiça 50 anos depois


Arquivo pessoal

O ex-policial Mauro Henrique Queiroz, que morreu em 1998, cuida de jardim, em foto de família

ROGÉRIO PAGNAN
DA REPORTAGEM LOCAL

Meses antes de morrer, vítima de um câncer no intestino, o ex-policial Mauro Henrique Queiroz chorou copiosamente diante do filho. Não pela doença. "Estou lutando contra uma coisa que eu não devo. Me condenaram, mas sou inocente", disse ao filho Amauri, 53.
O ex-policial revelava, ali, um segredo que guardava havia quase 40 anos. Tinha sido condenado, em 10 de julho de 1959, porque, para os juízes, ele passou o pênis no braço de uma menina de 11 anos dentro de um ônibus lotado. Pena: seis meses de detenção, convertidos em liberdade vigiada.
Pela mesma acusação foi expulso da corporação.
Diante do choro do pai, famoso por ser durão, Amauri fez uma promessa. "Pai, enquanto eu viver, vou lutar para limpar seu nome", afirmou.
Ele conseguiu. Depois de 50 anos, a Justiça admitiu a verdade, mas quase 11 anos depois da morte de Mauro, em 1998, aos 69 anos. A família Queiroz cumpriu a promessa.

Ônibus 122
A vida do então policial começou a mudar no dia 22 de janeiro de 1957 quando ele tomou o ônibus 122, linha Vila Galvão, às 10h35, de uma terça-feira. Dirigia-se ao trabalho, no Palácio de Justiça (o mesmo onde seria julgado), na região central de São Paulo.
Mauro era um policial da extinta Guarda Civil, uma espécie de polícia comunitária da época, onde ele trabalhava havia quase nove anos e apresentava uma ficha cheia de elogios. O filho Amauri tinha nove meses, e o casamento completava pouco mais de um ano.
Na época havia, porém, uma outra polícia com funções semelhantes: a Força Pública. A rivalidade entre as duas polícias era tamanha que a capital chegou a ser dividida em duas partes. A Força Pública policiava as zonas leste e norte, e a Guarda Civil ficava responsável pelas sul, oeste e centro. Em 1970, as duas foram unificadas.
Quando entrou no ônibus, Mauro percebeu que pelo menos seis homens da Força Pública já estavam no veículo. Todos estavam fardados.
Minutos depois, um homem sentado ao seu lado, dirigiu-lhe ofensas. "Guarda safado, sem vergonha", teria dito Mário Marcelo, segundo documentos da época. "É você mesmo que está encostando na menina."
Mauro, segundo seu depoimento, disse a Sônia Brasil, com então 11 anos: "Mocinha, encostei na senhorita?"
Com a negativa da menina, o guarda Mauro deu voz de prisão ao homem, mas foram policiais da Força Pública -um deles vizinho de Marcelo- que prenderam o policial.
Irregularmente, Mauro foi levado para o quartel da Força Pública, à base de tapas e socos. Deveria ter ido para uma delegacia. No quartel, a versão oficial mudou: Mauro não tinha apenas encostado na menina, mas tirado o pênis para fora e o esfregado no braço dela.
Só Marcelo, porém, viu crime. O criminoso estava cercado por rivais. Todos eles disseram não ter visto nada. "Faltar com a verdade" é considerado um crime grave nas PMs.

Condenação
A história era tão absurda e os depoimentos tão contraditórios que o juiz de primeira instância João Estevam de Siqueira Júnior absolveu, no início de 1959, o guarda "sob pena de praticar grave erro judiciário".
A Promotoria recorreu. "Só quem não viu nada nos autos foi o juiz, absolvendo o apelado, esquecendo-se de que temos esposas e filhas", escreveu o promotor José Cândido de Oliveira Costa. A tese do promotor foi aceita em segunda instância. Mauro foi condenado por ato obsceno.
O que mais pesou contra o guarda no segundo julgamento foram os depoimentos de Marcelo e de Sônia, que teria confirmado o assédio.
Já em 2003, temendo não conseguir cumprir a promessa ao pai, Amauri decidiu procurar ajuda. Lembrou que o amigo Álvares Nunes Júnior, um ex-administrador de empresas, hoje com 53 anos, tinha se formado advogado em 1997. Foi atrás dele.
Mesmo sendo especialista na área cível -processos de danos morais e materiais-, Nunes aceitou a empreitada. "A história era tão absurda que eu pensei: será que o homem [Mauro] não fez mesmo?", disse. "Só tinha uma solução: tentar encontrar a vítima. Se ela dissesse que aconteceu mesmo, então, era esquecer, enterrar o assunto", disse o advogado.
O próprio Mauro havia gasto quase todo o dinheiro que juntou durante a vida com advogados. Tentou duas revisões na Justiça, mas não havia um "fato novo" que justificasse reabrir o caso. Também contratou outros defensores que o aconselharam a desistir.
O advogado e o vendedor começaram a investigar nos registros de cemitérios e cartórios de imóveis. Pelo processo antigo, tinham os endereços da época e, por eles, rastrearam parentes distantes da "vítima" Sônia. "Tive que usar de um subterfúgio: dizer que ela [Sônia] tinha, talvez, um dinheiro a receber", disse.
Com o endereço na mão, Amauri chegou na porta da casa de Sônia em fevereiro de 2005. Viu caminhar por um estreito corredor a senhora de 64 anos (hoje), apoiada em uma bengala. O coração disparou. "E se ela dissesse que não iria falar nada? Se chamasse a polícia dizendo que eu estava a ameaçando?", lembrou ele.
Ao contrário de todos os seus temores, Sônia confirmou o que o pai disse. Mauro era inocente. "Minha avó é que fez tudo", disse a aposentada. "Eu vou aonde vocês quiserem para contar o aconteceu. Querem que vá agora?", afirmou.
À Folha, na quinta-feira, dona Sônia confirmou a versão contada pela família e pelo advogado, e lembrou da frase que Amauri disse naquele dia. "Eu prometi para meu pai que iria encontrá-la e encontrei", repetiu a senhora.
Amauri voltou para casa nas nuvens. Estava perto, enfim, a redenção de seu pai.
Além de se comprometer a ir à Justiça contar a verdade, Sônia também pediu o endereço de uma pessoa para ela própria contar o que aconteceu. A casa da viúva Maria Aparecida. "Eu fiquei emocionada [quando escutou sobre a inocência] e comecei a chorar. Nessas coisas aí a gente sempre tem o pé atrás", disse a viúva de Mauro.
Dias depois, Sônia estava na frente do juiz para dizer: "Mauro é inocente de ter feito coisa que não se deve fazer com uma criança dentro do ônibus. [...] Minha avó disse que o ônibus estava cheio e a pessoa abriu a calça dele, mas isso é mentira", diz trecho do depoimento.
Tinha-se o fato novo, e o Tribunal de Justiça anulou o processo. Não por falta de provas, mas por falta de ato criminoso. Mauro voltou ficar com o nome limpo.
Agora, a família tenta recuperar com uma outra ação a farda de Mauro que foi tirada, em cerimônia em frente aos colegas, dois dias depois de pegar o mesmo ônibus que Sônia. "Ele morreu quando tiraram a farda. Antes de acontecer isso, ele tocava gaita, dançava. Depois, perdeu toda a graça. Morreu ali", disse a viúva.

Lembrança
Enquanto ouvia o pai narrar toda sua saga, Amauri viu um filme passar em sua cabeça e começou, enfim, a entender porque aquele núcleo da família Queiroz (Maria Aparecida, Amauri e Silvio) sempre foi preterido pelos outros parentes. "Aí, você começa a lembrar das coisas que não conseguia entender: Por que a gente, quando criança, não era chamado para os aniversários? Por que meus primos, na mesma idade, ganhavam presentes [dos parentes] e nós não? Por que os parentes vinham de Barretos [para São Paulo] e não passavam lá em casa? Sabe por quê? Porque, para eles, éramos os filhos do tarado."