terça-feira, 28 de setembro de 2010

SUPER-HERÓIS TAMBÉM EXISTEM NA VIDA REAL

À noite, Thanatos, 62, faz ronda nas ruas de Vancouver, Canadá, vestindo sobretudo preto, chapéu e máscara verde cadavérica.

"Procuro mendigos à espera da morte e lhes dou mais um dia de vida", diz por telefone, cheio de mistérios e sem revelar a verdadeira identidade.

Ele escolheu o codinome Thanatos há três anos, inspirado no deus grego da morte.
Assim, entrou para a turma dos super-heróis da vida real, um grupo que se organizou nos EUA há dez anos.

Esses mascarados não têm poderes excepcionais, mas vão às ruas para ajudar quem precisa.

Thanatos, por exemplo, distribui itens como garrafas de água e comida a moradores de rua.
A tarefa dele não envolve lutar com vilões maquiavélicos, o que não quer dizer que seja moleza.
Ou seguro.

"Um traficante colocou uma arma no meu estômago", conta Thanatos.
"Eu estava com colete à prova de balas, então o desarmei."

O nova-iorquino Dark Guardian, 26, passou por situações parecidas.
Professor de artes marciais, ele patrulha a cidade, eventualmente lutando com gangues.
"Sim, pode ficar bem perigoso."

Como todo super-herói que se preze, Dark Guardian tem uma história decorada sobre sua origem.
"Nunca tive modelos positivos, meu pai abusou de mim", conta.
"Quis ser um exemplo para os outros, como os personagens dos quadrinhos."

Fotos: Peter Tangen Os super-heróis da vida real

Vigilantes como Thanatos e Dark Guardian ganharam destaque no ano passado, quando o fotógrafo norte-americano Peter Tangen leu sobre eles em uma revista.

Acostumado a fotografar para pôsteres de filmes como "Homem-Aranha" e "Batman Begins", Peter ficou surpreso ao saber que havia, fora do cinema, quem usasse um uniforme para ajudar os outros.

"A necessidade do mundo por super-heróis motivou tanto os filmes quanto essas pessoas", sugere Peter, que montou o Real Life Super Hero Project - bit.ly/rlshero - , com fotos desses vigilantes.

O nova-iorquino Life, 25, pensa de maneira afim.
"São tempos difíceis, e as pessoas precisam de modelos."

A explicação para a necessidade de fazer isso vestindo máscaras varia de um herói para o outro.
"Se eu não me fantasiasse, não me sentiria tão poderoso", afirma Life.

Nyx, 20, não se vê como uma personagem.
A garota é heroica desde os 16 anos e diz que o uniforme é "uma extensão" de si mesma.

"O super-herói é um empreendedor, um indivíduo. Essa é a história dos EUA, nosso sonho", teoriza Life.

Aqui no Brasil, com exceção do Ciclista Prateado, o movimento não vingou.

A história dele começou assim: um vendedor andando de bike em São José do Rio Preto - a 440 km de São Paulo -, em 1994, e, ao mesmo tempo, uma estrela cadente rasgando o céu.
Nasceu ai o Ciclista Prateado -um herói brasileiro da vida real - encarnado pelo paulista Eduardo Sansin, 45.

O evento não envolveu radiação, adamantium ou outro clichê das HQs, apenas serviu de inspiração para que o vendedor criasse esse personagem, que o acompanha há mais de 15 anos.

Quando está com seu traje prateado e montado em sua bicicleta pirotécnica, Eduardo faz shows e reúne multidões em passeios ciclísticos para arrecadar alimentos para fundos sociais.

Apesar de apontar o episódio da estrela cadente como o de sua origem, Eduardo vê o heroísmo como a consequência de uma vida repleta de tentativas e de erros.
"Não fui criado em um estúdio, com desenhistas debruçados sobre uma prancheta", diz. "Surgi "na raça", foi necessário que muitas coisas acontecessem."

Coisas como ser contaminado com mercúrio aos 20 anos, trabalhando com a purificação de metais preciosos. Ou garimpar ouro no Rio Madeira, em Rondônia, e contrair malária. Ou, ainda, fazer carreira no contrabando entre Paraguai e Brasil -e ser preso duas vezes por isso.
"Eu não era bandido, queria comprar meu leite, mas sei que estava errado."

Já do lado dos mocinhos, Eduardo aplicou boa parte da criatividade na bike AG 47, construída com o dinheiro do alumínio de latinhas recolhidas na praia, e sonha em exportar o super-herói para a Europa e os EUA.

O vilão, nesse caso, é a falta de recursos.
"Estou em busca de patrocínio", conta. "Queria uma roupa de herói mesmo, a minha é muito simplesinha."

Veja vídeo do Ciclista Prateado: folha.com/mm804228

Enquanto os super-heróis da vida real agem como voluntários de boas ações, tudo bem.
Mas combate ao crime ou ao tráfico é complicado.

"Há o risco de que se torne um "vigilantismo", um instrumento de vingança", afirma Renato Lima, secretário-geral do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A segurança pública, aliás, é uma responsabilidade do Estado, alerta Lima.
Assim como o uso da força.

"Quem é que vai definir o que é certo e o que é errado? Os heróis?", pergunta-se.

Segundo Lima, a população pode ajudar de outras maneiras - por exemplo, cobrar seus governantes.

Mas que é bem legal ver que existem pessoas reais, vestindo uniformes legais e ajudando outras pessoas reais, é.

PERFIS:

NYX 20 anos
"Tenho compulsão por moradores de rua. Perdi meus pais quando pequena, então quis melhorar a vida dos outros"

THANATOS
62 anos
"A razão pela qual me fantasio é que o que estou fazendo é mais importante do que quem eu sou na vida real"

KNIGHTVIGIL
26 anos
"A melhor parte de NY é que você pode andar fantasiado na rua e isso não vai ter nada de excepcional"

LIFE
25 anos
"Super-heróis começaram nos quadrinhos, viraram filmes e então videogames. Tornarem-se reais é sua evolução natural"

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Matéria do repórter Diogo Bercito para o caderno "Folhateen" da Folha de S.Paulo, publicada em 27.9.2010
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Redação Final: Cláudio Nóvoa

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