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quinta-feira, 12 de abril de 2018

'AOS TEUS OLHOS': DANIEL DE OLIVEIRA SENSACIONAL EM TRAMA QUE NOS FAZ PENSAR MUITO ANTES DE VIRALIZARMOS FAKE NEWS


SINOPSE:

Rubens (Daniel de Oliveira) é um professor de natação carismático e extrovertido, que dá aulas para pré-adolescentes em um clube.

Querido por todos devido ao seu jeito brincalhão e parceiro, ele se vê em apuros quando um de seus alunos, Alex (Luís Felipe Melo), diz à mãe que o professor lhe deu um beijo na boca no vestiário.

Alegando inocência, Rubens é acusado pelos pais da criança e passa a ter que lidar com um verdadeiro linchamento virtual, que tem início através de mensagens de WhatsApp e explode de vez quando chega ao Facebook.

CRÍTICA:

Poucos filmes recentes lidam com tanta urgência com uma questão tão necessária da atualidade: a histeria coletiva gerada por rumores e notícias falsas que se espalham na internet.

'Aos Teus Olhos', novo longa de de Carolina Jabor ('Boa Sorte') e que estreia hoje, parte de uma peça dos espanhol Josep Maria Miró, 'O princípio de Arquimedes', para investigar como a verdade é apenas o resultado da disputa de narrativas – e não necessariamente aquilo que é real e factualmente verdadeiro.

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Daniel de Oliveira é o protagonista Rubens - Fotos dessa Postagem: Divulgação/Conspiração Filmes
O protagonista é Rubens (Daniel de Oliveira, premiado no Festival do Rio por esse trabalho), um professor de natação infantil que se dá bem com seus alunos e pais, até que um dia acaba acusado por um garoto, Alex (Luiz Felipe Mello), de o ter beijado quando estavam no vestiário.

É uma fagulha que, não custa muito, gera repercussões desastrosas e irreparáveis.

O roteiro, assinado por Lucas Paraizo, tem consistente construção narrativa, essencial para criar o clima pretendido para a trama, que se revela aos poucos, jogando com novos fatos, que fazem aparecer as informações que o público recebe.

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Malu Galli é Ana
Nenhum personagem é destituído de nuances – especialmente o professor, cujo comportamento pode ter alguns elementos reprováveis, como flerte com alunas adolescentes.

Porém, a princípio, não parece que ele tenha assediado o garoto.

Os pais, Davi e Marisa, interpretados por Marco Ricca (também premiado no Festival do Rio) e Stella Rabello, têm um comportamento questionável, mas também compreensível, já que fica difícil manter a calma e a razão num momento em que seu filho revela que sofreu abuso.

Mas sofreu mesmo?

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Luisa Arraes é Sofia
A criança, figura-chave na resolução da trama, é sempre, em qualquer obra, um ponto de vista pouco confiável – não que seja por maldade, mas, como diz o escritor Henry James em um de seus romances, "a criança vê mais do que pode compreender".

Carolina Jabor caminha, com seu filme, num terreno pantanoso de verdades incertas e questões delicadas, podendo facilmente cair em clichês, ou redenções.

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Stella Rabello é Marisa
Mas ela e seu roteirista não se entregam a resoluções fáceis e são até ousados – especialmente com a saída honesta que acham para o filme, sem vilanizar, nem martirizar o protagonista.

Bem entrosados, roteirista, diretora e ator buscam a construção humana de Rubens que, como qualquer pessoa, é fadado a contradições, medos e erros - e esse é o principal dos acertos do filme, ao tratar esse personagem sem protegê-lo ou jogá-lo na fogueira acesa pelos pais.

Eles mantêm uma relação um tanto tensa – o pai sempre é nervoso, o que deixa o filho Alex constantemente aflito - e a mãe é a primeira a entrar em desespero quando o garoto conta sua história.

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Marco Ricca é Davi
Apesar de um tanto histérico, seu comportamento não é de todo injustificável; ela quer proteger o menino e age da maneira já clássica da atualidade – conta a história conforme chegou a ela num grupo de whatsapp e em redes sociais.

Assim, o tribunal digital começa a viralizar e a vida de Rubens não é a mesma.

O filme investiga exatamente o que sucede num mundo de certezas líquidas e pontos de vista em disputa.

Quem é o dono da verdade aqui?

Se todos os personagens têm a sua e seus argumentos, o filme não julga, muito menos condena, apenas expõe, com sagacidade, diversos pontos de vista e deixa que seu público tire sua própria conclusão.

Belo, denso e que faz pensar muito, antes de mandar a primeira fake news que nos chega pelas redes sociais pra frente.

TRAILER:


FICHA TÉCNICA:
AOS TEUS OLHOS
Gênero:
Drama
Direção:
Carolina Jabor
Elenco:
Daniel de Oliveira, Malu Galli, Marco Ricca, Stella Rabello, Luiz Felipe Melo, Luisa Arraes, Gustavo Falcão e outros
Roteiro:
Lucas Paraizo
Montador:
Sérgio Mekler
Trilha Sonora:
Sérgio Mekler
Produção:
Conspiração Filmes
Distribuidor:
Pagu Pictures
País:
Brasil
Data de lançamento:
12.4.2018
Duração:
1h30
Classificação Indicativa:
16 anos

COTAÇÃO DO KLAU:

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

'BOA SORTE': ENCANTADORA COMO NUNCA, DEBORAH SECCO TRANSFORMA UMA HISTÓRIA SIMPLES NUM ROMANCE IRRESISTÍVEL


SINOPSE:

Aos 17 anos, o adolescente João (João Pedro Zappa) tem uma série de problemas comportamentais, é ignorado pelos pais e se torna agressivo com os amigos de escola.

Quando é diagnosticado com depressão, seus pais Ana (Gisele Fróes) e Luis (Felipe Camargo) decidem interná-lo em uma clínica psiquiátrica.

Lá, ele conhece Judite (Deborah Secco), uma mulher de 30 anos, HIV positivo e dependente química, em fase terminal.

Apesar do ambiente hostil, os dois se apaixonam e iniciam um romance, mas Judite tem medo que a sua morte abale a saúde de João.

CRÍTICA:

Duas vidas destruídas, que encontram nova força para viver após encontrarem o amor.

Se você se lembrou do recente megassucesso americano 'A Culpa é das Estrelas', sua lembrança não foi em vão, pois 'Boa Sorte', dirigido pela estreante em longas Carolina Jabor e que estreia hoje em 110 salas em todo o Brasil, tem a mesma pegada indie pop, que felizmente passa ao largo das comédias e cinebiografias que pipocam na produção nacional.

A trama, escrita por Jorge Furtado e seu filho Pedro, acompanha João (João Zappa), jovem dependente químico internado pelos pais (Gisele Fróes e Felipe Camargo) em uma clínica de reabilitação, onde o rapaz conhece Judite (Deborah Secco), usuária de drogas, soropositiva e com pouco tempo de vida.

Lá, aos poucos, se tornam próximos e encontram nova força para viver.

Deborah Secco como Judite e João Zappa como João, protagonistas do longa - Fotos dessa Postagem: Divulgação/Imagem Filmes

O longa funciona - como a produção americana citada acima  também funciona - graças à química entre seus personagens.

Fazendo sua estreia em longas-metragens de ficção, a diretora Carolina Jabor entende profundamente os protagonistas e permite ao casal protagonista explorarem nuances inesperadas de cada um.

Para mim, a melhor atriz de sua geração disparado, Deborah Secco mais uma vez se entrega de corpo e alma ao papel: sua Judite é muito magra e pálida - a atriz perdeu 10 quilos para interpreta-la - e surge em cena envolta em tristeza, até conhecer João, quando seu rosto se ilumina e ela volta a se sentir viva, mesmo que por alguns momentos.

O casal em cena

Sua atuação  é tão tocante e arrebatadora que Deborah não só rouba a cena, como leva o filme praticamente nas costas.

João Zappa, ator com mesmo nome de seu personagem, tem participação apenas correta e não causa o mesmo impacto do seu par.

O longa ganha muito também com as participações especialíssimas de duas atrizes de primeiríssima: Fernanda Montenegro - como avó de Judite - e Cássia Kiss Magro - como terapeuta da clínica - reforçam o tom dramático que permeia todo o longa com grandes atuações.

Fernanda Montenegro interpreta Célia, avó de Judite

Fernanda é a justificativa simplória do longa para o triste fim de Judite: a personagem deixa claro que aprontou muito em sua vida e ela sabe o impacto disso sobre a neta.

Cássia, sozinha, representa a humanidade da clínica e mostra a outro lado dessas instalações, sem cair no clichê da dinâmica destrutiva clínica/paciente que normalmente se vê.

Cássia Kiss Magro como Dra. Lorena, em cena do longa

Visualmente, o filme é um achado: diferentemente da textura chapada/televisiva de 99,9% das produções bancadas pela Globo Filmes, aqui se procura reforçar a decadência e solidão dos personagens, com cenários desgastados e fotografia primorosa, marcada pelo contraste de cores, luz e sombra.

Com exceção de alguns momentos de humor forçado, que não bate com o tom da narrativa - a cena de João roubando arquivos do escritório da clínica enquanto outro paciente finge passar mal é um exemplo - o longa vai bem até o final.

Cena do longa

Pena que a diretora perca o controle justamente aí, deixando de terminar a obra quando devia para inserir cenas de flashback.

Enfim, mesmo com esse final que nada acrescenta, o longa tem uma doçura que permeia cada cena e arrebata o espectador, com uma narrativa agradável e que trata de assuntos fortes com delicadeza.

Deborah em cena: sua Judite é a melhor coisa do longa

Deborah, apesar dos problemas de sua personagem, está encantadora como nunca, faz até com que João pareça mais interessante do que realmente é - e ainda consegue transformar uma história simples em um grande romance na telona.

O longa ficou com o Prêmio do Público e Direção de Arte (Claudio Amaral Peixoto) no último Festival de Paulínia.

Irresistível.

TRAILER:


FICHA TÉCNICA:
'BOA SORTE'
Gênero:
Drama
Direção:
Carolina Jabor
Roteiro Adaptado:
Jorge Furtado, Pedro Furtado - adaptando o conto 'Frontal com Fanta', de Jorge Furtado
Duração:
90 min.
Ano:
2013
País:
Brasil
Cor:
Colorido
Estreia no Brasil:
27/11/2014
Distribuidora:
Imagem Filmes
Estúdio:
Conspiração Filmes / Globo Filmes
Classificação:
16 anos

COTAÇÃO DO KLAU: