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quarta-feira, 18 de maio de 2011

CANNES 2011: JUDEU LARS VON TRIER POLEMIZA AO SE DECLARAR NAZISTA E ANTI-SEMITA

Confira as manchetes do que foi notícia nesta quarta (18) no Festival de Cannes:

A LENDA BELMONDO RECEBE PALMA POR SUA CARREIRA
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PETER FONDA CHAMA OBAMA DE "TRAIDOR"
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ASCENÇÃO DE SARKOZY AO PODER É O PANO DE FUNDO DE "A CONQUISTA"
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FILME JAPONÊS "NATUREBA" NÃO AGRADOU
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LARS VON TRIER MOSTRA NOVO FILME, PROVOCA CONTRANGIMENTO AO SE DECLARAR NAZISTA, MAS DEPOIS SE DESCULPA
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E agora, confira as matérias, sempre com muita informação, fotos e vídeos:

A LENDA BELMONDO RECEBE PALMA POR SUA CARREIRA

Maior ator francês ainda vivo, a lenda Jean-Paul Belmondo, 78, recebeu a Palma de Ouro nesta terça (17) à noite pelo conjunto de sua obra, em uma emotiva cerimônia no teatro Debussy do Palácio dos Festivais.

"Bébel", como é conhecido, foi aclamado por milhares de pessoas, feito inédito, pois até mesmo os 240 fotógrafos de imprensa credenciados puseram de lado as objetivas para aplaudir a estrela francesa.

"Estou emocionado com esta Palma de Ouro, que me vai direto ao coração. Quero agradecer a todos os que estão aqui, os que conheço e os que não conheço. Um grande obrigado do fundo do meu coração"!

No dia 17 de maio, após a premiére do documentário "Belmondo, The Career", de Vincent Perrot e Jeff Domenech, o ator será recebido em um jantar especial organizado pelo festival.

APA lenda Jean-Paul Belmondo em Cannes, ontem à noite

Belmondo consolidou sua carreira como um dos maiores atores do cinema francês durante os anos 60: começou a carreira trabalhando com diretores como
Jean-Luc Godard - com quem fez "Acossado" (1959),

"Uma Mulher é Uma Mulher" (1961),
"O Demônio das Onze Horas" (1965), Jean-Pierre Melville - com quem filmou

"Léon Morin, prêtre" (1961) e René Clément - em "Paris Está em Chamas?" (1966).

Na segunda metade dos anos 60 fez uma transição para o cinema comercial, atuando em comédias e filmes de ação.

Foi nomeado duas vezes para o Bafta como melhor ator estrangeiro e ganhou um César, o prêmio da indústria francesa, por "Itinéraire d'un enfant gâté" (1989).

"Estamos felizes por ele ter confirmado presença neste evento de gala, como celebração de seu talento e carreira", afirmaram em nota no site oficial do festival os organizadores Thierry Frémaux e Gilles Jacob.
"Seu carisma, inteligência, tranquilidade e sua atuação precisa o transformaram, junto com Jean Gabin e Michel Simon, em um dos maiores atores franceses", completaram os dois.

A lenda merece!


PETER FONDA CHAMA OBAMA DE "TRAIDOR"

O ator Peter Fonda chamou o presidente americano, Barack Obama, de "traidor de merda" nesta quarta (18), durante uma entrevista no tapete vermelho do Festival, pela maneira como ele lidou com as consequências do vazamento de petróleo que afetou o Golfo do México no ano passado.

Fervoroso defensor da causa ambientalista, Fonda co-produziu o documentário
"The Big Fix", de Rebecca e Josh Tickell, que conta a história da explosão da plataforma de extração da BP no Golfo do México, que provocou a maior catástrofe ambiental da história dos Estados Unidos - a produção é a única que compete na seleção oficial de Cannes este ano.

AFP


Fonda acusou Washington de tentar manipular a situação e enganar o público.
"Eu mandei um email para o presidente Obama dizendo: 'você é um traidor de merda', usando estas palavras... 'Você é um traidor, você permitiu que botas estrangeiras pisassem em nosso solo e dissessem às nossas forças armadas - no caso, a guarda costeira - o que elas podem ou não podem fazer, e dizendo a nós, cidadãos dos Estados Unidos, o que podemos ou não podemos fazer'", afirmou o ator - Fonda disse ter enviado o email na semana passada.

Familia ativista é assim! E por falar nisso, por onde anda a irmã de Peter, Jane Fonda?


ASCENÇÃO DE SARKOZY AO PODER É O PANO DE FUNDO DE "A CONQUISTA"

Em pleno escândalo pela detenção do socialista francês e diretor do Fundo Monetário Internacional - FMI - Dominique Strauss-Kahn, até então cotadíssimo como futuro candidato à Presidência da França, a ascensão ao poder de seu rival Nicolas Sarkozy, estreou em Cannes nesta quarta (18).

Enquanto "Melancolia" de Lars Von Trier dominou a atenção do mundo hoje em Cannes, os franceses estavam interessados em outra coisa: "A Conquista", do diretor francês Xavier Durringer, que dramatiza o período entre 2002 e 6 de maio de 2007 - exatamente o dia em que Sarkozy conquistou a chefia do Estado em eleições presidenciais que arruinaram sua vida conjugal.

A estreia passa pelo festival fora da competição, mas os organizadores programaram sua exibição sem que ninguém mais que eles, nem mesmo o governo francês, soubesse do que se tratava.

A chefia do Estado, o poder, "nunca viu o roteiro", declarou Durringer, que garantiu que o projeto "foi filmado quase em segredo", precisamente para evitar influências e manipulações como as narradas no filme, onde Sarkozy e seus "sarko-boys" têm às vezes o aspecto de pequenos - ou grandes - mafiosos.

Contudo, Durringer assinalou que se trata de uma reconstrução baseada em fatos reais, que não necessariamente tem correspondência literal com nenhuma ocasião concreta e com pinceladas de romance policial.

O autor do roteiro, Patrick Rotman, acrescentou: "a realidade é muito mais forte que a ficção".

Um ator da prestigiosa Comédie Française, Denis Podalydes - que já teve papéis pequenos em filmes como "O Código Da Vinci" (2006) e "Caché" (2005), se transforma em um Sarkozy ridicularizado pelo presidente Jacques Chirac, que constantemente lhe chama no filme de "petit Nicolas".

Um Nicolas diminuído por sua ambição de poder, ridicularizado pela estatura quando gravava uma pequena mensagem de campanha eleitoral e abandonado por sua esposa, Cécilia, que volta a estar ao seu lado só para dar-lhe o empurrão final à Presidência.

Patéticos: assim estão todos os protagonistas da história, ambiciosos oponentes na cena política francesa, atores de rasteiras, olhares e palavras diretamente insultantes, embora ditas com todo o - falso - refinamento dos franceses.

"Nunca foi feito um filme panfletário", defendeu em entrevista coletiva um dos produtores, Eric Altmayer, que reconheceu que tiveram cuidado para evitar as consequências jurídicas que teriam alusões à intimidade dos personagens.

Neste filme não se cita, por exemplo, a atual primeira-dama, Carla Bruni, ausente assim como o próprio Sarkozy de um Festival que tem os dois em cartaz: ela como ponta de luxo no filme de Woody Allen - "Meia-Noite em Paris" - e ele como tema desse projeto de Durringer.

Surpreendentemente, a entrevista coletiva dos atores, diretor e produtores foi uma das que registraram menos jornalistas credenciados - e terminou com tímidos aplausos.

Confira o trailer de "A Conquista/La Conquête":


"A Conquista" tem o interesse de apreciar um estilo de fazer política supostamente exercido por políticos em serviço e de observar uma rivalidade, que por outra parte não é segredo para ninguém, entre Sarkozy e o ex-primeiro-ministro Dominique de Villepin.

"É um filme em 90% fiel do ponto de vista político", assegurou Durringer, no sentido que se as cenas não são literais, já que a maioria são recriações e muitas nem sequer existiram, dão o "espírito" do discurso de seus protagonistas.

A história de "A Conquista" foi acompanhada da estreia de "Pater", outro filme sobre política francesa atual, protagonizado por Vincent Lindon e dirigido por Alain Cavalier.


FILME JAPONÊS "NATUREBA" NÃO AGRADOU

A japonesa Naomi Kawase apresentou em competição "Hanezu no Tsuki", um ensaio poético sobre uma mulher, o marido e seu amante que vivem na região de Asuka, conhecida como o lugar de nascimento do Japão - a diretora já foi premiada duas vezes no festival, por "Suzaku" (1997) e "A Floresta dos Lamentos" (2007), exibido na Mostra de São Paulo.

No filme, Kawase filma a natureza como nenhum outro diretor contemporâneo.
"A natureza não só o cenário, é o personagem principal do meu filme. Temos que entender que a natureza é parte de nós, e não podemos viver sem ela".

Confira o trailer do filme:


Pena que, segundo a crítica, e apesar da atmosfera poderosa do filme, as propostas de "Hanezu" permanecem indecifráveis para o espectador ocidental.


LARS VON TRIER MOSTRA NOVO FILME, PROVOCA CONTRANGIMENTO AO SE DECLARAR NAZISTA, MAS DEPOIS SE DESCULPA

O dinamarquês Lars Von Trier apresentou nesta quarta (18) em Cannes "Melancolia", uma sátira sobre o fim do mundo, realizado segundo ele para superar uma depressão - o filme está na disputa pela Palma de Ouro,

Antes da polêmica - leia abaixo o diretor falou sobre o filme.
"Não é realmente um filme sobre o fim do mundo, e sim sobre um estado de ânimo. Passei por fases melancólicas, mas acredito que superei. Parei de beber, leio livros, agora me sinto bem. Mas a melancolia na arte, na música, é algo que sempre me agradou, algo que me comove", disse o diretor.

O filme começa no espaço sideral, com imagens do planeta "Melancholia", que segundo estudos de astrônomos se aproxima da Terra e a destruirá - a música do compositor alemão Richard Wagner aumenta a tensão.

Reuters

Depois, von Trier conta o que seriam os últimos dias do mundo através de duas irmãs, Justine e Claire, interpretadas pela americana Kirsten Dunst e pela francesa Charlotte Gainsbourg, vencedora em 2009 do prêmio de melhor atriz em Cannes por "Anticristo", também do dinamarquês.

Justine, publicitária, chega mais de duas horas atrasada ao próprio casamento e isto dá início a uma série de acontecimentos.

As cenas da festa lembram "Festa de Família", de Thomas Vinterberg, compatriota de von Trier e seu companheiro no grupo "Dogma" (1990), que questiona todas as convenções, tanto do cinema como sociais.

A segunda parte do filme trata da iminente aproximação do planeta Melancholia, onde Claire, o marido e o filho observam com crescente angústia o fenômeno em um telescópio.

Divulgação

Justine, nervosa e agitada durante o casamento, agora parece muito calma ante o choque de planetas. Ela proporciona ao pequeno sobrinho a única possibilidade de refúgio diante da catástrofe: "uma cabana mágica".

"Gosto de tudo o que tem relação com a dor, com o sofrimento, mas também tenho um lado de luz", disse o cineasta.

O dinamarquês afirmou que o planeta está destruído, mas disse que isto não é grave porque todos vão morrer, destacando que segue muito interessado em arte.

Confira o trailer de "Melancolia":


Mas na sequência da entrevista, o diretor provocou a maior polêmica de Cannes 2011 até agora, ao afirmar que compreendia e sentia "um pouco" de compaixão por
Adolf Hitler, ao ser indagado sobre suas raízes alemãs.

Ao lado de uma constrangidíssima Kirsten Dunst, Von Trier declarou entender o líder nazista.

Reuters

Mais desconcertada ainda ela ficaria logo depois, quando o diretor, ao falar sobre os papeis femininos do filme, apontou para a atriz e disse: "Bem, e Kirsten sabe o que é ter depressão".
Ao se dar conta de que, talvez, tivesse cometido uma gafe, virou-se para ela e perguntou se podia falar disso - Dunst apenas sorriu, e balançou a cabeça.

"A gente vê a tristeza no olhar dela", emendou o cineasta, que continuou:
"Eu realmente gostaria de ser judeu, e então descobri que na verdade eu era um nazista. Você sabe, porque minha família era alemã, Hartmann, o que também me dá um certo prazer", declarou, respondendo a uma pergunta sobre a origem alemã de sua família - nota do Klau: Von Trier é considerado um judeu, pois nasceu judeu, cresceu judeu - É judeu.

"Eu compreendo Hitler. Acho que ele fez algumas coisas erradas, sim, com certeza, mas eu consigo vê-lo sentado em seu bunker no final", continuou o cineasta.

Quando Dunst, que também tem origem alemã, arregalou os olhos, claramente desconfortável com os comentários do diretor, e murmurou para Charlotte Gainsbourg um assustado "meu Deus!", Von Trier tentou acalmá-la: "mas eu tenho um argumento no final disto".

"Estou apenas dizendo",
tentou explicar Von Trier, "que acho que entendo este homem. Ele não é o que você poderia chamar de um cara legal, mas sim, eu entendo muito a seu respeito, e sinto por ele um pouco de compaixão, sim. Mas vá lá, eu não sou a favor da Segunda Guerra Mundial. E não sou contra os judeus".

Sob o olhar incrédulo dos repórteres, aparentemente ainda não satisfeito, o cineasta concluiu sua fala com uma crítica a Israel e um elogio a Albert Speer, arquiteto oficial do Terceiro Reich.

"É claro que gosto muito dos judeus - mas nem tanto, porque Israel é um pé no saco. Mesmo assim - como é que eu termino esta frase? - eu apenas gostaria de dizer, sobre a arte, que gosto muito de Speer", indicou, destacando o "talento" do arquiteto nazista, condenado por crimes contra a humanidade.

"O.K., então, sou um nazista", disse o surtado Von Trier, dando de ombros e sorrindo nervosamente.

Em seguida, ele revelou que seu próximo filme poderia ser "A Solução Final", termo usado pelos nazistas para designar o Holocausto.

Segundo o site da revista especializada The Hollywood Reporter, Von Trier virou o
"Mel Gibson de Cannes", em alusão às notórias posições antissemitas e sexistas do ator nos últimos anos.

E a revista continua:
"Von Trier nunca foi muito politicamente correto e estas entrevistas coletivas de Cannes sempre acabam se revelando uma rotina teatral, mas na coletiva de "Melancolia", ele levou a questão para um novo nível, lançando uma granada em qualquer senso de decoro público".
"Se isto fosse a América, e não Cannes, teria sido um suicídio profissional",
sentenciou a The Hollywood Reporter.

Com a repercussão negativa, a organização do Festival resolveu pedir explicações ao diretor, que se retratou em comunicado distribuido à imprensa.

Confira o comunicado da organização do Festival:

O Festival de Cannes ficou preocupado com as declarações de Lars von Trier, na sua entrevista coletiva de imprensa esta manhã em Cannes.
Portanto, o Festival lhe pediu para dar uma explicação para os seus comentários.
O diretor afirma que ele se deixou instigado por uma provocação.
Ele apresenta as suas desculpas.
A direção do Festival reconhece isso e está passando adiante as desculpas de
Lars von Trier.
O Festival está convencido de que ele nunca iria permitir que o evento se torne um fórum para pronunciamentos sobre tais assuntos.

A direção do festival afirmou, ainda, que esse tipo de manifestação não pode acontecer no teatro do Palais.

Em seguida, veio o comunicado distribuído pela assessoria de Von Trier, em que o cineasta pede desculpas:

Se eu ofendi alguém esta manhã com as palavras que disse na coletiva de imprensa, peço desculpas sinceras.
Não sou antissemita ou racista de qualquer maneira, e muito menos nazista.


Como relata o jornalista Mateo Sancho Cardiel - da Efe, foi uma pena, já que assim desviou a atenção de "Melancolia" que é o equivalente aos exercícios de desarme de outros cineastas como David Cronenbergh e seu "Senhores do Crime" e David Lynch e sua "História Real", de modo que, longe de perder a assinatura, os deixam desnudos com mais força do que nunca.

Certamente, existe a grandiloquência, existe o coquetel de referências artísticas, tem Wagner - compositor favorito de Hitler - e há um planeta que arrasará a Terra, mas o filme "não é sobre o apocalipse, mas sobre a necessidade de expressar-se", que não é mais o ponto forte dos grandes autores escandinavos de todos os tempos.

É visível seu interesse por personagens desequilibrados e sua aproximação ao eterno dilema entre ciência e intuição.

O filme encontrou, apesar de não uma ovação fechada, cumplicidade de um público muito mais amplo do que costuma acompanhar um diretor que levanta tanto a paixão quanto o ódio.

Kristen Dunst, a noiva que mergulha em uma depressão poucas horas após dizer o
"sim, eu aceito", é a protagonista deste díptico da complexidade feminina - outro cabe a Charlotte Gainsbourg, como sua controladora irmã, apavorada pelo fim dos tempos.

Até a contagem regressiva da espécie humana completa o quadro psicológico familiar Charlotte Rampling, como a impiedosa mãe, e John Hurt - o Lionel Luthor de "Smallville" - como pai desinteressado.

Dunst, que já esteve em Cannes como a protagonista de "Maria Antonieta" - de
Sofia Coppola - deslumbra desta vez por sua capacidade de conduzir na hora de mostrar o leque de fortalezas e fragilidades de sua personagem, Justine, e sua interpretação merece prêmio se ao fim o júri tiver critérios estritamente cinematográficos.

O filme recebeu fortes aplausos no fim da sessão de imprensa - e nenhuma vaia, o que é bastante incomum para Von Trier.

"A depressão no fundo é um processo de abrir-se de igual para igual e fortalecer-se", disse a atriz.

Von Trier também acaba de recuperar-se de uma depressão. E sim, voltou mais forte.

"Melancolia" tem estreia prevista para 5 de agosto nas telonas brasileiras.

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Com Efe, AFP, Getty Images, site do festival, AP e Reuters
Redação Final: Cláudio Nóvoa

sexta-feira, 13 de maio de 2011

CANNES 2011: DIRETORAS DOMINAM COM TEMAS SOMBRIOS, RIO FAZ LOBBY, FRANCÊS, DIANA, E NOVO VAN SANT AGITAM A SEXTA


ABERTURA DO FESTIVAL É DOMINADO POR DIRETORAS E TEMAS SOMBRIOS

As diretoras de cinema, que ficaram de fora da principal competição de filmes em Cannes em 2010, dominaram a abertura do evento deste ano com contos sombrios de assassinato, prostituição, estupro e suicídio.

Três das quatro mulheres que disputam a Palma de Ouro pelo melhor filme em Cannes 2011 apresentaram os seus filmes para a imprensa nos dois primeiros dias do evento, e, ainda que as obras variem muito entre si e tenham tido respostas díspares da crítica, todas mostram uma visão perturbadora do mundo.

AFPA diretora australiana Julia Leigh

A atriz francesa e diretora Maiwenn foi a última mulher na competição deste ano a apresentar o seu filme, "Polisse", nesta sexta (13), um drama forte sobre a unidade de proteção a menores da polícia francesa.

Getty ImagesA atriz e diretora francesa Maiwenn

Ela seguiu a australiana Julia Leigh com o seu filme de estréia "Bela Adormecida" ,sobre uma estudante que passa a praticar uma estranha forma de prostituição, e a escocesa Lynne Ramsay com "Presisamos Falar sobre Kevin", sobre uma problemática relação entre mãe e filho.

Getty ImagesA diretora escocesa Lynne Ramsay

A última do quarteto é a japonesa Naomi Kawase com "Hanezu No Tsuki", o seu terceiro filme na competição.

Getty ImagesA diretora japonesa Naomi Kawase

Especialistas em cinema disseram que não foi coincidência que mais mulheres foram escolhidas para Cannes neste ano emblemático.
"O maior número de diretoras em competição em Cannes mostra uma tendência crescente",
disse Annette Insdorf, professora de cinema da Universidade de Columbia, EUA, que está em Cannes.

E ela ainda completa:
"Eu não acredito que é possível separar a vitória de Kathryn Bigelow no Oscar com 'Guerra ao Terror' ou o sucesso de crítica e público de Lisa Cholodenko com 'Minhas Mães e Meu Pai'".


CIDADE DO RIO DE JANEIRO FAZ CAMPANHA DURANTE O FESTIVAL

Com anúncio pago na revista "Variety" - considerada a "bíblia" do mercado de entretenimento - e um trabalho de comunicação eficaz, a cidade do Rio de Janeiro dá prosseguimento em Cannes à sua campanha para tornar-se parte importante do cenário cinematográfico mundial.

A cidade procura vender, para o mercado mundial, não apenas suas locações "exóticas", mas também vantagens fiscais e uma estrutura de produção.

O desenho animado "Rio", que teve o lançamento mundial na cidade, e o evento do filme "Velozes e Furiosos 5", também rodado em parte na cidade, foram os primeiros grandes acertos da RioFilme, que tem hoje uma subsidiária que só se dedica à prospecção de projetos estrangeiros.

DivulgaçãoA animação "Rio", que teve premiére mundial na cidade maravilhosa

A visibilidade internacional proporcionada pela Copa do Mundo, em 2014, e os Jogos Olímpicos, em 2016, costuma ser citada pelas reportagens das publicações especializadas como mais um fator de "atração".

É a cidade brasileira mais conhecida em todo o mundo finalmente saindo da paralisia que a violência a tinha relegado.


FILME FRANCÊS ABORDA O COMBATE AO CRIME CONTRA CRIANÇAS, E IMPRESSIONA JORNALISTAS E CRÍTICOS

A pedofilia, os maus-tratos às crianças, o abuso de menores; "Polisse", da diretora francesa Maiwenn, que disputa a Palma de Ouro, é um olhar sobre o trabalho cotidiano da Brigada de Proteção de Menores (BPM) da polícia de Paris.

O filme da atriz e cineasta de 35 anos atinge com força o espectador, que se vê no obscuro mundo da BPM e no dia a dia de seus policiais.

O primeiro dos quatro filmes franceses na disputa pela Palma de Ouro, o terceiro da carreira da diretora - Maiween Le Besco, conhecida apenas pelo primeiro nome -, é uma viagem ao lado mais pesado da miséria humana, porque suas vítimas são criaturas indefesas.

Getty ImagesDiretora Maiwenn Le Besco (de azul) é fotografada em Cannes com atores de "Polisse"

Na entrevista coletiva, a cineasta, que lutou por muito tempo para receber a autorização para passar um tempo com a BPM, disse que testemunhou ou ouviu de policiais tudo o que é retratado no filme.

A ideia do filme, que impressionou os jornalistas e críticos, surgiu ao assitir um documentário sobre a brigada na televisão francesa.
"Me encantou a paixão destes policiais pelo trabalho. Compreendi rapidamente que cada um deles tinha boas razões pessoais para estar ali", disse.

Confira o trailer de "Polisse":


Interpretado por atores profissionais - Karine Viard, Joey Starr, Marina Fo¯s, Nicolas Duvauchelle, Sandrine Kiberlaine - com exceção de um menino francês que comoveu a sala com suas lágrimas, o filme tem um ritmo trepidante e a intensidade de um documentário, e também é um reflexo da sociedade contemporânea francesa, mostrando famílias africanas em condições precárias, acampamentos de ciganos e tráfico.

Maiwenn disse ter ficado muito impressionada com a "banalização da sexualidade entre os adolescentes, dispostos a tudo por um telefone celular ou um aparelho de MP3".

Algumas cenas mais impactantes são as de pedófilos que tentam minimizar a importância de seus desvios sexuais, o que provoca a revolta dos policiais.

"Em temas assim é necessário ser preciso, realista e fiel, sobretudo na maneira de mostrar os interrogatórios", declarou a atriz Emmanuelle Bercot, uma das roteiristas do filme.


NÃO QUIS SER SENSACIONALISTA", DIZ DIRETOR SOBRE SEU FILME QUE ABORDA MORTE DE DIANA SOB A ÓTICA DO ATENTADO

O diretor Keith Allen defendeu nesta sexta (13) seu documentário
"Unlawful Killing", sobre a morte da princesa Diana, em meio a acusações de que o documentário seria um ataque unilateral contra o que ele chamou de "establishment" britânico e que teria sido integralmente financiado por Mohamed al-Fayed - empresário cujo filho Dodi, namorado de Diana, também morreu no acidente de carro em Paris (1997).

Fayed sustenta há muito tempo que o casal foi morto por ordem do marido da rainha Elizabeth II, príncipe Philip, por acreditar que a família real britânica não queria que Diana se casasse com um muçulmano.

Os membros da realeza, especialmente Philip de Edimburgo, os juízes e os meios de comunicação estão na mira constante do documentário, que garantiu sua estreia mundial em Cannes - enquanto sua distribuição no Reino Unido ainda não tem previsão -e põe principalmente em cheque a reputação de Philip, que é apontado em fotografias nas quais é visto acompanhado de dirigentes nazistas nos anos 1930.

Em uma coletiva de imprensa em alguns momentos caótica em Cannes - o documentário foi lançado fora do festival oficial de cinema - o diretor descreveu o documentário como "forense" - descrição questionada por alguns dos presentes.

O filme foca em parte sobre o inquérito sobre a morte de Diana realizado em 2007/08 e argumenta que a imprensa britânica não refletiu corretamente as conclusões do inquérito, devido a pressões indiretas da família real.

Getty ImagesDodi al-Fayed e Diana, dias antes de morrerem

"Achei importante que o público pudesse entender de maneira forense o que aconteceu no inquérito",
disse Allen, mais conhecido como ator de televisão britânico, falando a repórteres em Cannes.

"Eu não quis fazer um filme sensacionalista. Não acho que seja um filme sensacionalista. Acho que é uma análise muito forense de um processo legal britânico e acho que revela certas coisas que não 'batem'."

"Acredito que essas coisas devem ser questionadas. Foi por isso que fiz o filme. Espero que ele mostre às pessoas que nada é o que parece ser."

Confira o trailer de "Unlawful Killing":


Allen foi criticado diretamente por um jornalista por não ter deixado claro que o filme foi financiado 100% por Fayed - custou 2,5 milhões de libras (4,1 milhões de dólares), cifra citada em Cannes por um homem que afirmou ser representante de Fayed, que não esteve em Cannes para apresentar o filme.

"Ele deu o dinheiro, porque ninguém mais se dispôs", disse Allen.
"Se eu pudesse ter obtido o dinheiro de outra fonte, eu o teria feito. Mas não consegui. Consegui dele."

Investigações das polícias francesa e britânica concluíram que as mortes de Diana e Dodi foram fruto de um acidente trágico provocado por um motorista que dirigia em alta velocidade, e que depois se descobriu, estava embriagado - ambas as investigações rejeitaram as teorias de Fayed.

Getty ImagesMohamed Al Fayed, milionário egípcio radicado na Inglaterra, na pré-estreia de "Bruno", em Londres (17/06/2009)

Indagado o que há de novo em "Unlawful Killing", Allen disse:
"Acho que não há tanta coisa que seja nova. Existe em nosso país um velho ditado segundo o qual os segredos mais bem guardados estão nas estantes da Biblioteca Britânica. Estão todos lá, basta você ir procurá-los, e meu filme não é um ataque à monarquia. Na realidade, ele questiona o papel do establishment, e, ao fazê-lo, vai deixar claro que existem ligações entre a real Casa de Windsor e o establishment."

O documentário inclui uma foto de Diana agonizando logo após o acidente - elemento que a imprensa britânica focou nos últimos dias, embora Allen tenha minimizado sua importância - e uma imagem do rosto de uma séria Elizabeth II o encerra, relacionando o comportamento de seu marido com o de um psicopata e racista, expressão que Al Fayed utiliza em repetidas ocasiões na entrevista sobre o filme.


COM FILME SOBRE MORTALIDADE, GUS VAN SANT ABRE SEÇÃO "UM CERTO OLHAR"

O cineasta americano Gus Van Sant, acostumado a transitar pelas linhas comercial e independente, volta ao cinema com "Inquietos", um romance que conta a história de um casal de jovens preocupados com a mortalidade.

E foi com essa obra que ele abriu a prestigiosa seção "Um Certo Olhar" de Cannes, na sexta (13).

Após perder o avião e cancelar sua presença prevista para quinta-feira, o diretor compareceu um dia depois, rodeado do elenco juvenil do longa, produzido também pela atriz Bryce Dallas Howard, protagonista de "A Vila" - Van Sant já ganhou a Palma de Ouro e o prêmio de melhor diretor em Cannes, por "Elefante" (2003), e recebeu duas indicações ao Oscar de melhor diretor por "Gênio Indomável" (1997) e "Milk - A Voz da Igualdade" (2009).

Getty ImagesGus Van Sant (centro) com os atores Henry Hopper e Mia Wasikowska, protagonistas de "Inquietos"

"Com a história de Will Hunting 0 "Gênio Indomável" -, foi a primeira vez que atuei em uma atmosfera mais 'mainstream', e descobri que podia olhar algo de um ponto de vista otimista. Suponho que haja uma parte de mim assim", explicou Van Sant.

Porém, essa história de superação não tinha sobre si o peso da morte, como pode ser visto em "Inquietos", filme em que o estreante Henry Hopper - filho do ator Dennis Hopper - e a atriz Mia Wasikowska - a protagonista de "Alice no País das Maravilhas", de Tim Burton - vivem uma história de amor, enquanto a jovem enfrenta o câncer.
"Quando um adolescente está enfrentando uma doença catastrófica, embora não necessariamente terminal, sente a necessidade do sentimento de negação do que realmente é", afirmou Van Sant, que explica que "nestes casos, a família é muito superprotetora".

EFEO casal Protagonista de "Inquietos", Henry Hooper e Mia Wasikowska, em cena do filme

Segundo ele, "a irmã de Annabel não quer brincar, nem falar de ideias existencialistas sobre passagem do tempo" e é por isso que recorre ao personagem de Enoch, "uma pessoa mais próxima, mas não da família, pode se transformar em seu melhor amigo nessas circunstâncias".

O diretor aposta em um ambiente encantador, passado na cidade de Portland, e cria esses pequenos momentos de excentricidade mágica - os jovens se conhecem em um funeral -, ajudando a superar o estorvo de contar uma história mil vezes já vista na telona - principalmente em "Love Story - Uma História de Amor" (1970) e "Doce Novembro" (2001).

Trata-se de uma maneira de atingir a autenticidade da emoção e levar a plateia às lágrimas, ainda mais em um ambiente tão sério como o de Cannes.
"Há no filme, inclusive, uma homenagem ao cinema francês", disse o cineasta, que 'pinta' Wasikowska como Jean Seberg e transforma Henry Hooper em um boêmio atemporal.

Confira o trailer de "Inquietos/Restless":


Jason Lew, autor do roteiro, é filho de um oncologista pediátrico, conviveu com crianças que morreram precocemente e frequentava funerais na infância, como a personagem de Hooper.

Depois de trabalhar com Tim Burton, Mia Wasikowska está feliz de trabalhar com Van Sant.
"A Annabel é uma menina que tem que lidar com uma situação extrema. Ela está morrendo, mas consegue apreciar os momentos simples da vida".

Bryce Dallas, atriz de "A Vila" e "Além da Vida" e filha do diretor Ron Howard, é uma das produtoras do filme.
"Não me planejei para me tornar produtora, mas aconteceu. Trabalho como atriz durante o dia, mas sobra muito tempo livre à noite", brincou.

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Com Reuters, UOL, France Presse e Getty Images