domingo, 6 de abril de 2014

JOSÉ WILKER: O GRANDE DOS GRANDES


José Wilker, cearense de Juazeiro do Norte, nasceu em 20 de agosto de 1944 e começou sua carreira como locutor de rádio - ele mesmo disse muitas vezes que era essa a profissão que queria seguir.

Mas o rapaz queria abraçar o mundo e depois de morar um tempo com os pais no Recife (PE) aos 19 anos veio para o Rio de Janeiro onde abraçou a profissão que o tornaria conhecido não só no Brasil, mas no mundo todo: a de Ator.

Tempos difíceis, começo da ditadura militar e onde Zé não tinha comida e muito menos lugar para morar: dormiu muito em bancos de praça e na areia da praia.

Talentoso, perseverante, criativo e com inteligência muito acima da média, logo teve a oportunidade de aparecer num de seus primeiros trabalhos: o filme "A Falecida" (1965), protagonizado por Fernanda Montenegro.

Logo foi chamado pela então recente TV Globo, onde estreou em 'Bandeira 2' (1971) de Dias Gomes e a partir daí sua carreira foi crescendo, até ele estrelar, ao lado de Suzana Vieira, uma das novelas mais incríveis da TV Brasileira: 'Anjo Mau' (1976).

Como Rodrigo Medeiros, em 'Anjo Mau' (1976)
A novela das 19 horas, primeira escrita pela lenda Cassiano Gabus Mendes na Globo, ficou no ar entre 2 de fevereiro e 24 de agosto de 1976 e em 175 capítulos transformou Wilker num astro de primeira grandeza.

Foram mais de 30 trabalhos na Globo - entre novelas, séries, minisséries e especiais.

Ele mesmo contou à Marília Gabriela, numa entrevista no GNT, como virou protagonista daquela que é considerada uma das principais novelas da Globo em todos os tempos:

"Era 1985 e sem querer, fui à sala do Daniel Filho, que estava conversando com algumas pessoas da sua equipe e dizia: "O Lima Duarte vai fazer o Sinhozinho Malta, a Regina Duarte vai fazer a Viúva Porcina, mas quem vai fazer o Roque?" Eu entrei na sala, disse: Que Roque? Roque Santeiro? E Daniel: É! Quer fazer"? "

A primeira versão da novela tinha sido censurada dez anos antes, em 1975 - Lima seria Sinhozinho, Beth Faria, Porcina e Roque, Francisco Cuoco.

A emissora então colocou no ar uma reprise da novela 'Selva de Pedra' (1972) de Janete Clair, enquanto a mesma Janete - mulher de Dias Gomes -  escrevia, a toque de caixa, outra novela, aproveitando o elenco já escalado e os cenários de 'Roque' - essa novela foi também um megassucesso, chamado 'Pecado Capital'.

Agora, em 1985, a censura tinha dado uma abrandada e finalmente o texto de Dias Gomes, agora auxiliado por Aguinaldo Silva, pode ir ao ar - e deu no que deu: um sucesso retumbante, com as mulheres usando as bijuterias e os turbantes da Porcina de Regina Duarte e suspirando pelo Roque Santeiro de Wilker e pelo Roberto Mathias de Fábio Junior.

Com Lima Duarte e Regina Duarte, em foto promocional de 'Roque Santeiro' (1985)
Mas o ator de corpo franzino queria se arriscar mais e mais e nos deu duas obras primas no cinema: "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1976), dirigido por Bruno Barreto e "Bye Bye Brasil" (1979), dirigido por Cacá Diegues - o primeiro foi, até o ano passado, a maior bilheteria de um filme brasileiro.

Nu, com Sônia Braga e Mauro Mendonça, na cena final de "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1976)
No cinema, Wilker atuou no total em 49 filmes - entre eles, "Xica da Silva" (1976), 'Os Inconfidentes' (1972) - como Tiradentes; o político Tenório Cavalcanti de 'O Homem da Capa Preta' (1986) e Antônio Conselheiro, de 'Guerra de Canudos' (1997) entre outros.

No ano passado, estrelou e também dirigiu "Giovanni Improtta" (2013), baseado no hilário bicheiro que ele soberbamente interpretou na novela "Senhora do Destino" (2004).

Em cena de "Giovanni Improtta" (2013)
Com essa onde de 'remakes', Wilker participou das duas versões da Globo para o livro de Jorge Amado, 'Gabriela': em 1979, interpretou Mundinho Falcão e na versão de 2012, interpretou o Coronel Jesuíno Mendonça - que ficou marcado pelo bordão "Hoje, eu vou lhe usar", febre nas redes sociais.

Wilker em 'Gabriela': à esquerda, na versão de 1979; à direita, na versão de 2012
Como diretor,além do cinema, comandou o seriado "Sai de Baixo" e dirigiu as novelas "Louco Amor" (1983) e "Transas e Caretas" (1984), assim como a peça de teatro "Rain Man".

Sem nunca ter feito um estudo formal, era considerado um dos homens mais cultos deste país, escreveu vários livros, tinha mais de quatro mil títulos na sua videoteca - filmes eram a sua paixão - e ainda atuou como cronista, comentarista das cerimônias do Oscar e roteirista.

José Wilker morreu ontem de manhã, aos 69 anos, na casa da namorada, a jornalista Claudia Montenegro, no Rio de Janeiro, vítima de um infarto fulminante, enquanto dormia.

Na noite da última sexta, o ator estava aparentemente bem, ensaiando para uma peça que também dirigia e que também tinha no elenco Ary Fontoura.

Wilker deixa as filhas Isabel e Mariana e foi casado três vezes - com as atrizes Renée de Vielmond, Mônica Torres e Guilhermina Guinle - e namorava Claudia Montenegro há três anos.

Uma perda irreparável para a arte da boa interpretação.

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Fotos dessa postagem: 
Gshow.com, revista Contigo,  revista Época, Embrafilme, Globo Filmes,

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