quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

30 ANOS SEM ELIS REGINA: SHOWS, EXPOSIÇÕES E RELANÇAMENTO DE BIOGRAFIA FAZEM PARTE DAS LEMBRANÇAS


Amanhã (19) faz exatos 30 anos que a Diva Elis Regina, considerada por muitos a maior cantora brasileira de todos os tempos, morreu de forma estúpida, ao errar na dose da cocaína misturada com uísque.

Elis passou como um furacão pela música brasileira.

Chamou atenção nacionalmente cantando "Arrastão" - no 1º Festival de MPB da TV Excelsior, em abril de 1965 - e imediatamente arrebatou público e crítica, com uma voz incomparável e uma presença cênica invejável.

Confira Elis no Festival, interpretando "Arrastão":

Pequenina - tinha 1,5 metro - Elis ocupava todos os espaços do palco, e na televisão, não tinha pra ninguém - as câmeras a amavam com a mesma intensidade que seus fãs - eu incluso.

Na sua carreira, foram incontáveis apresentações, quase três dezenas de álbuns e uma produção intensa e marcante, lembrada e cultuada século 21 adentro.

Folhapress
A cantora Elis Regina
A Diva da voz Elis Regina

Cantou bolero, bossa nova, sertanejo, fez sucesso nos palcos brasileiros com dois espetáculos antológicos - "Falso Brilhante" e "Trem Azul", teve programas de TV campeões de audiência e arrebatou os espectadores do Festival de Jazz de Montreaux, França.

Elis na TV Record, década de 60, canta o sucesso "Upa Neguinho":

Foi amiga extremada dos amigos - Clodovil Hernandes, um de seus maiores amigos, sempre dizia que, depois da morte dela, nunca mais foi o mesmo - viveu grandes amores e odiou pessoas com a mesma intensidade.

Para marcar os 30 anos sem Elis, teremos o lançamento do projeto dos filhos Maria Rita e João Marcelo Bôscoli.

"Viva Elis" é uma exposição multimídia que rodará o Brasil em 2012, além dos shows de Rita em homenagem à mãe.

Elis cantando "Como Nossos Pais", de Belchior - "Fantástico":

O canal Viva apresentantará o programa "Som Brasil: Tributo a Elis Regina", com entrevistas de familiares e um show que reuniu quatro mil pessoas no Rio de Janeiro.

Elis, cantando "Águas de Março" com Tom Jobim - "Fantástico" - 1974:

Finalmente, a caixa "Elis Regina nos Anos 60" apresenta 12 álbuns do início da carreira da cantora.

Posteriormente, outro box com mais doze CD's será lançado com raridades e a segunda parte de sua discografia.

Elis se (nos) emociona, ao interpretar "Atrás da Porta", de Chico Buarque - Especial Globo:

O fotógrafo Paulo Kawall, que por muitos anos foi o retratista exclusivo de Elis, também planeja lançar um livro de imagens da cantora.

Kawall acompanhou Elis desde 1976, e disse que " o melhor ângulo dela é o lateral. Elis tinha um pouco de estrabismo, então era preciso saber o momento exato de clicar a cantora."

No baú que o fotógrafo guarda em sua casa na Vila Madalena, estão guardadas imagens de valor inestimável: nele, há centenas de fotos de Elis, cliques feitos em estúdios ou shows que deverão virar um livro de edição única – 5 mil exemplares, cerca de 100 fotos, com um custo estimado de R$ 1 milhão.
“A fotografia era o nosso elo. Eu, por ser apaixonado por fotografia e ela, por gostar do meu trabalho”.

Elis canta "O Bêbado e o Equilibrista", de João Bosco, em clipe para o "Fantástico":

Lançado originalmente três anos depois de sua morte, a biografia "Furacão Elis" conta a história da Diva gaúcha através de entrevistas e relatos.

O livro-reportagem da jornalista Regina Echeverria teve mais de cem mil cópias vendidas desde o primeiro lançamento e, segundo sua autora,  ganha em 2012 nova edição - pela editora Leya.

Arquivos do Klau
Elis, em imagem da década de 70

 Echeverria  falou ao UOL sobre a nova edição da biografia e as lembranças e importância de Elis até hoje:

UOL - O que há de novo na edição 2012 de "Furacão Elis"?
Regina Echeverria - O livro saiu originalmente pela editora Círculo do Livro, depois pela Nórdica, aí pela Globo, então pela Ediouro e agora pela Leya, em uma edição nova, com novo projeto gráfico e fotos diferentes. Tentei manter sempre esse livro em catálogo, e isso me deu a chance de mexer nele ao longo desse tempo, colocar entrevistas que eu não tinha colocado, deixá-lo mais completo. Agora acrescentei uma entrevista com o Paulo César Pinheiro. A primeira música que ele fez com o Baden Powell foi "Lapinha" e a Elis ganhou o festival da Bienal do Samba com ela, depois gravou várias outras. Ele também foi casado com a Clara Nunes e me contou sobre a relação das duas --coisa nova para mim, porque eu não sabia. Elas se encontraram muito na casa dele, fizeram coisas juntas, se divertiam juntas. É interessante, porque a Elis era uma pessoa competitiva, quase não tinha amigas cantoras.

A figura de Elis ainda é muito representativa hoje?
Bastante, talvez até mais. Desde que eu lancei esse livro até hoje, todo janeiro sou entrevistada por causa da data da morte. Agora nos 30 anos da morte, claro, tem mais interesse. Por que são três gerações, é um tempo. E ela esta aí, né? Ainda tenho muito retorno de uma geração que aprendeu a ouvir Elis com os pais. Ela morreu nova, com 36 anos, mas deixou uma obra relativamente grande para o tempo dela. Não era uma grande vendedora de discos - fora o álbum "Dois na Bossa" (1965), que foi um dos discos mais vendidos da história - e, no entanto, quando ela morreu houve uma comoção nacional sem precedentes, comparável à dos grandes ídolos, como Orlando Silva e Carmen Miranda.

Até hoje ela é considerada uma das maiores cantoras do Brasil...
Dá para dizer que foi a maior cantora do Brasil, sem medo de errar. Te dou todos os argumentos. Primeiro: uma voz límpida, de registro popular. Segundo: uma dicção perfeita, talvez pelo fato dela ter nascido no Sul. Terceiro: uma sofisticação adquirida na escolha do repertório - digo adquirida porque nos primeiros discos ela foi lançada para ser uma nova Celly Campelo para um público que não seria o dela. Quarto: deu a sorte de nascer numa geração de compositores muito talentosos que usaram a voz dela como um canal de divulgação de seu trabalho. Ela lançou muita gente nova. E continua, para mim, uma mulher do Brasil, uma cantora do Brasil, com uma voz do outro mundo.

Ela parece ter sido uma artista inquieta, sempre em busca de coisas novas...
Olha, para você ver: em uma de nossas últimas conversas sobre assunto de música e tal, quando ela ainda morava lá na Cantareira, ela falou que estava procurando novas maneiras de usar a voz, que queria cantar Arrigo Barnabé --que, na época, era algo muito estranho. Era uma inquieta, à procura. Não tinha medo não de entrar de cabeça nas coisas. Agora, também era uma pimentinha. Muita gente brigou com ela, não aguentava a personalidade dela. Era uma pessoa de temperamento, que não levava desaforo para casa, que respondia, que não tinha medo de fazer declarações, sempre dizia coisas interessantes.

Você gosta da Maria Rita? Acha ela parecida com a mãe?
Gosto da Maria Rita, acho que ela é uma grande cantora. Acho que ela pegou o bastão. Ela tem uma coisa de DNA na voz, de timbre parecido, mas tenho certeza que ela conseguiu fazer a personalidade dela longe da mãe. Deve ser muito difícil para ela, imagina? Essa menina é danada, ela tem personalidade. Deve ser cobrada, e por uma coisa natural, ela é apenas filha (risos). Ela não quis imitar a mãe, fez um caminho dela, tem um jeito dela. Achei legal ela fazer agora um show cantando Elis. Se alguém tem direito, é ela. Estou curiosa para ouvir. Ela é uma excelente cantora, mas... eu sou mais a mãe, né? (risos)

Que gravações você mais recomenda para ouvir Elis?
A minha faixa preferida é "Rebento", do Gil. Acho que essa música é a Elis. A gravação dela de "Aquarela do Brasil" é um achado. "Fascinação", a gente chora. Milhões de coisas que ela gravou. Ah, "Elis e Tom" (1974) é imperdível. Gosto de tantos discos dela: do "Ela" (1971), do "Essa Mulher" (1979), do "Falso Brilhante" (1976), talvez o que eu mais goste. Vi esse show muitas vezes, adorava. Foi quando ela criou um novo estilo de fazer show, usando o corpo, a dança, a música e a voz dela. Era muito bonito esse espetáculo e ficou muito tempo em cartaz.

Trinta anos depois, é tabu falar na causa da morte da Elis?
Tabu para quem? Para mim, não. Os fatos como se deram estão descritos no meu livro. Eu considerei um acidente de percurso de uma novata no assunto, que entrou de cabeça e não segurou. Não tem polêmica na morte dela: morreu numa overdose de cocaína, ponto. Mas ela não entrou para história como uma pessoa que era drogada, você não associa a morte dela à droga. Todos os jornais, revistas e televisões tocaram no assunto, mas parece que ficou numa nuvem. As pessoas não acreditam direito, acham que não é bem verdade. Muita gente não quer saber a verdade.

DEPOIMENTO: ELIS NA MINHA VIDA

A morte de Elis - em 19 de janeiro de 1982 - foi um dos momentos mais tristes que eu tive na minha vida.

Espectador assíduo do "TV Mulher" - programa das manhãs da Globo e que tinha, entre outros, Marília Gabriela e Clodovil como apresentadores - fui surpreendido pela notícia da sua morte e pelo choro compulsivo do grande bailarino Lenny Dale, prostrado, de joelhos no seu túmulo.

Brigados na época - o que rendeu incontáveis páginas nas revistas de fofocas - Marília e Clodovil voltaram a se falar nesse dia, ao vivo.

Graças a uma decisão do diretor do programa, Nilton Travesso, um emocionadíssimo Clodovil revelou que, dias antes, Elis, sua grande amiga, tinha lhe pedido que acabasse com aquela picuinha idiota com Marília - Clô falando "viu Marília?' repetidas vezes, e a câmera focalizando a apresentadora de cabeça baixa, é uma cena que não me sai da memória.

Vi diversas vezes os espetáculos "Falso Brilhante" - no Teatro Bandeirantes - e "Trem Azul" - aqui perto de casa, no Canecão Anhembi - onde Elis se entregava tanto a ponto de muitas vezes acabar as récitas quase sem movimento corporal - a energia tinha ido toda pra nós.

Foi-se Elis, mas sua passagem por nós permanece até hoje.

Cada vez que olho para um dos seus três filhos, é inevitável não me lembrar dela, e é muito bom saber que esse ano será o "Ano Elis".

ELIS EM 10 MOMENTOS:

ORIGEM
Elis Regina Carvalho Costa nasceu no dia 17 de março de 1945 e cresceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. 
De família humilde, começou a cantar em rádios com 11 anos.

BOSSA NOVA
Elis começou cantando pop-rock juvenil no sul e só quando chegou no Rio assumiu um repertório moderno - mas no começo detestava bossa-nova, e cantava “pra fora”. 
Só assumiu de vez o estilo ao gravar com Tom Jobim, em 1974.

RONALDO BÔSCOLI
Ronaldo Bôscoli, produtor de espetáculos e agitador cultural, era um dos arquiinimidos públicos de Elis. 
Até o dia em que surpreenderam todos em 1967, se casando: ele com 38 anos e ela com 22. Três anos depois nasceu o filho do casal, João Marcello, e pouco depois veio o fim do casamento.

TROPICÁLIA
Em 1967, Elis chegou a participar de uma sem noção “passeata contra a guitarra”, em ingênuo gesto nacionalista. 
Chegou a gravar canções de Gilberto Gil, mas só aceitou realmente o movimento depois do exílio dos baianos.

FARPAS
“Nara Leão traiu cada movimento de que participava. Será que fez psicanálise ou curso de autopromoção? A verdade é que Nara Leão canta muito mal, mas fala muito bem”.
Elis, sobre Nara Leão à revista Manchete, 1967.

TELEVISÃO
O programa "O Fino da Bossa" entrou no ar na TV Record em 1965 e ficou no ar por anos com Elis como apresentadora.
Foi um dos mais populares programas da época, rivalizando com o "Jovem Guarda", apresentado por Roberto Carlos - também na Record.

CHICO BUARQUE
Apesar de não ter sido de saída uma das principais entusiastas de Chico, Elis  registrou em 1972 uma das mais emblemáticas interpretações do compositor, com sua intensa versão de “Atrás da Porta”.

EDU LOBO
“Zambi”, “Aleluia”,  e “Reza” são faixas do compositor gravadas no primeiro disco “de samba” de Elis, em 1965. 
Pouco depois gravou também “Corrida de Jangada”, todas músicas importantes para sua carreira.

DISCOS
De seus primeiros discos como fenômeno juvenil gaúcho, em 1961, ao último disco lançado em vida, em 1980, foram 27 LPs e incontáveis compactos.

MORTE ESTÚPIDA
Elis Regina morreu aos 36 anos na manhã do dia 19 de janeiro de 1982, sozinha em seu quarto.
A autópsia resultou em  “resultado positivo para cocaína e álcool etílico (...) que em somatória pode responder pelo evento letal”.

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